segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte VIII

O outono chegou e, com ele, mais uma sessão de estudos de francês na Universidade de Montreal! E eu continuo me empolgando com esse tipo de coisa, mais um sinal inequívoco da nerdice que habita este que vos escreve.




Ao final da sessão de inverno, fechei doze créditos dos trinta que tenho que cumprir para o certificado. Minha ideia original era pegar duas disciplinas (seis créditos) em cada sessão e terminar tudo em dois anos. Só que duas coisas me fizeram mudar de ideia: primeiro, depois de terminar as duas primeiras sessões, eu me convenci de que o curso é tranquilo o suficiente para eu pegar mais créditos. A maioria das disciplinas tem aulas uma vez por semana apenas (embora sejam três horas a três horas e meia cada) e a quantidade de deveres, trabalhos e provas é totalmente manejável. Segundo, há algumas disciplinas que eu queria pegar que, até o momento, só foram oferecidas no período diurno. Eu estava crente que ia poder dedicar o dia à busca por emprego, mas tendo aulas de dia e de noite, a coisa complica. Então, resolvi pegar o que era possível pra finalizar o certificado, no máximo, na sessão de inverno de 2017.

Daí rolaram alguns probleminhas, sendo o principal deles o choque de horário. Também tentei pegar uma disciplina que me foi recusada. Alegaram que o curso é para quem tem, no máximo, nível 5 (e o meu é 7). Noves fora, acabou que só consegui pegar nove créditos, ou seja, três disciplinas, e isso em dias e turnos diferentes. Sabe o enigma da Esfinge pro Édipo? "O que tem quatro pernas de manhã, duas de tarde e três à noite?" Pois é, a resposta oficial agora é o Doug estudando francês na UdeM. De qualquer maneira, se eu conseguir pegar nove créditos também na sessão de inverno, ainda consigo terminar o certificado em abril. Dedos cruzados!




Os cursos que peguei foram os seguintes:

Língua e culturas: pra falar a verdade, ainda não entendi direito qual é a desse curso. Eu achei que seria uma visão sobre os países e culturas onde se fala francês, mas não sei se vai ser bem isso. Discutimos a francofonia nas duas primeiras aulas, então até aí tudo bem. Mas, segundo o plano de curso, vamos falar sobre a água (!) e sobre a felicidade (!!). A professora é francesa, mas guarda pouco daquele sotaque padrão francês. Acho que o tempo que ela já tem de Quebec deu uma entortadinha no sotaque.

Comunicação em contexto profissional: eu peguei essa disciplina só por desencargo de consciência. Muita gente corre pra esses cursos de ambientação e linguagem profissional, mas eu quase sempre os acho bem inúteis. Em geral, são fórmulas gerais para empregos gerais. Esse aqui não é muito diferente. A professora é vietnamita (!!!) e, apesar de rolar muito aquela história de "vamos simular uma reunião", há coisas interessantes sobre perguntas proibidas em entrevistas e modelos de cartas de apresentação. Nada que você não encontre fazendo uma pesquisa na Internet.

Compreensão escrita por meio de textos literários: nessa aula, me sinto como se já fosse gente grande em francês! Embora esteja longe de ser uma aula de literatura pra valer, ela dá o gostinho: temos textos e livros pra ler, temos de identificar temas, conhecer um pouco do contexto histórico e cultural das obras (embora sejam todas aqui do Quebec mesmo). A professora é quebeca, extremamente apaixonada pelo que ensina e muito motivada, o que, diga-se de passagem, é fundamental para uma aula que começa às 18 e vai até às 21:30.

O bom dessas três aulas é que elas focam bastante na escrita e na oral. Diria até que  mais na oral, pelo menos até agora, e pra mim isso é ótimo. Eu detesto trabalhos em grupo, sejam ele escritos ou orais (há um motivo simples pelo qual o Super-Homem trabalha sozinho), mas é um mal necessário nesses cursos. Já tive que fazer apresentação oral na segunda aula de Comunicação em Contexto Profissional, e foi um alívio ver que, finalmente, meu francês está fluindo mais, embora longe de ser perfeito. Outra coisa boa dessas aulas que peguei é que alguns alunos estão fazendo as mesmas, o que me deu — finalmente! — a possibilidade de pelo menos ter um pouco mais de contato com colegas de sala.

Em suma, a sessão começou bem e eu acho que será boa. Mais trabalhosa que as anteriores, mas totalmente suportável. E agora eu quero mesmo terminar isso pra poder me dedicar 100% ao mercado de trabalho, esteja o francês fluente ou não!

À bientôt!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Ainda sobre a garganta

Passando para atualizar o episódio sobre a consulta médica. Depois de ficar (positivamente) impressionado pelo atendimento na minha primeira consulta médica nas Terras do Norte, tive que tirar alguns pontinhos no quesito "atenção ao paciente", já que não me ligaram de volta no prazo dado.

Tá certo que eu não estava morrendo, como comentei no último post, mas, ainda assim, estava esperando (em teoria; já, já explico o porquê) o diagnóstico para comprar a medicação e tomar.  Haviam me dado prazo de quarenta e oito horas, forçando um pouco depois para setenta e duas. Quarenta e oito horas daria na sexta; setenta e duas horas, no sábado, e a clínica não abre no fim de semana. Então, se a dor tivesse aumentado ou se outros sintomas tivessem surgido, eu ficaria amargando até a semana seguinte. Não ligaram até sexta à tarde, mas achei que ligariam na segunda. Nada. Terça? Também não. Até que, na quarta, eu mesmo peguei o telefone e liguei. Fui transferido para a enfermeira que, sem tocar na questão do prazo, praticamente leu o resultado do exame pra mim.

—Cultura de garganta... tá, tá, tá... material colhido em tá, tá, tá... hmm... ah, aqui! Ah, não, não é... tá, tá, tá... Ok, então é o seguinte: é bactéria mesmo, só que não é a tipo A, que é a mais comum, é a tipo C.

—E é pior? Posso tomar o antibiótico?

Ela fez silêncio por alguns segundos, o tipo da coisa que dá origem àquele pensamento de que você  só tem mais algumas horas de vida, e daí disse:

—Eu não sei dizer se o antibiótico serve para essa bactéria. Façamos assim: vou ligar para a médica agora, o senhor aguarda na linha e eu passo o que ela me falar, certo?

Eu disse que tudo bem, agradeci e esperei, mas não adiantou. Ela voltou pouco depois, dizendo que o telefone da médica estava ocupado e que me ligaria de volta dali a cinco minutos. Passaram-se cinco minutos, dez, quinze, meia hora, uma hora, duas horas, quatro... eu já estava vivendo a vida loca de novo quando, pouco depois das cinco da tarde, a própria médica me ligou. Perguntou como eu estava me sentindo, meu coraçãozinho amargurado quis dizer "estou morrendo, e a culpa é sua, que me deixou uma semana esperando pelo resultado de um exame". Mas falei que estava tudo bem. Ela foi mais específica então e perguntou sobre os sintomas, e eu disse que tudo havia desaparecido, exceto a dor na garganta, embora estivesse bem melhor. Ela então falou que o exame tinha retornado positivo para bactéria e que eu podia tomar o antibiótico, não só por ainda estar sentindo dor, mas também para termos certeza de que a bactéria foi pro saco. Falei então que ia comprar, agradeci e desliguei.

Só que aqui vai uma confissão: eu não esperei esse tempo todo pra comprar o remédio. Não tentem isso em casa sem a supervisão de um adulto, mas eu tinha 99% de certeza de que a minha infecção de garganta era bacteriana, ou, pelo menos, que não era uma infecção viral comum, que eu tinha bastante no Brasil. Então, quando não me ligaram na sexta, eu saí e comprei o antibiótico, porque não estava a fim de ficar sei lá quantos dias com dor de garganta. Comecei a tomar no sábado, seguindo a prescrição direitinho. Quando a médica me ligou, eu já estava no último dia do tratamento. Acho que até por isso só tomei a atitude de pegar o telefone e ligar depois de vários dias. Afinal, já estava medicado, os sintomas estavam sumindo, então não tive pressa. Mas que achei que foi um tanto descaso com a minha bactéria tipo C, isso achei.

Minha primeira vez na farmácia para comprar remédio controlado (antibiótico não é vendido sem receita aqui) foi mais uma pequena mostra da cultura cotidiana por aqui. Fui ao balcão dos remédios, apresentei minha receita e a atendente fez um cadastro usando minha carteira da Assurance Maladie e fazendo algumas perguntas (endereço, alergias a medicamentos, etc). Ela reteve a receita e a carteirinha e falou que eu seria atendido em um outro guichê, do outro lado do balcão, e que havia três pessoas na minha frente. Aguardei até que o farmacêutico me chamasse pelo nome. Ele perguntou rapidamente sobre o resultado do exame (eu disse que tinha dado positivo para infecção bacteriana. Eu estava lendo o futuro. Me processem), ele explicou o funcionamento do medicamento, possíveis efeitos colaterais, repetiu as instruções para o tratamento e perguntou se eu tinha dúvidas. Diante da negativa, passou a peteca para a atendente, que me devolveu minha carteirinha (mas não a receita), me deu o remédio e cobrou o valor. 

Final da história: estou com a garganta novinha em folha, conheci um pouco do atendimento nas clínicas e farmácias daqui, e a experiência foi positiva, no geral. Por mais que eu ache que a clínica devia ter me ligado (afinal, disseram que iam ligar), eu poderia ter ligado lá na sexta ou, no mais tardar, na segunda pra saber se já tinham o resultado. Não acho que eles teriam feito isso se o caso fosse mais sério, mas aí é só achismo meu. De qualquer forma, o bom é que teve final feliz! 

À bientôt!

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Lá vai o imigrante pra clínica sans rendez-vous

Durei bastante sem precisar fazer visita a um médico aqui no Quebec. Mas, como ninguém é de ferro (e fator de cura ainda é coisa de histórias em quadrinhos), chegou o momento. 

Há uns dias, acordei com a garganta e a cabeça doendo, e também com um pouco de febre. Achei que pudesse ser uma gripe ou algo do tipo (eu tinha setecentos e quarenta e nove resfriados por ano no Brasil, além de crises de alergia e sinusite) e tomei a medicação que costumo tomar pra isso. Apesar de uma melhora nos sintomas, a garganta não ficou 100%. Aí abri o bocão na frente do espelho e logo ficou bem evidente que não era algo que ia sumir só com pensamento positivo e Advil.




Apesar de tudo, não estava morrendo, então descartei ir a um hospital. Recomenda-se deixar o hospital só para as urgências, porque o tempo de espera é grande e, se você não está morrendo, todo mundo que estiver mais para o lado de lá do que o de cá vai passando na sua frente. Fiz uma pesquisa na Internet para encontrar clínicas sans rendez-vous, ou seja, aquelas nas quais você vai sem ter marcado consulta. Achei uma que tinha uma avaliação melhorzinha por parte dos usuários e que ficava a uns 15 minutos de casa. De novo, a recomendação é para que se chegue cedo nessas clínicas, porque elas costumam lotar rápido. Embora já estivesse meio "tarde" (eram 9:40 quando saí de casa), resolvi arriscar. Foi bom pra conhecer o percurso e ver que o lance de chegar cedo realmente conta: quando achei a clínica, uma plaquinha na frente já anunciava: "Le sans rendez-vous est complet" (ou, em bom português, "cabô por hoje").

Achei que nem valia a pena sair à caça de outra clínica naquela hora, já que a situação provavelmente seria a mesma. E, de novo, eu não estava morrendo. Resolvi então acordar com as galinhas no dia seguinte (ou com os operários da construção na frente do meu prédio, o que dá praticamente na mesma. O povo madruga) e tentar a sorte de novo. A clínica abre às 7:30, e às 7:29 lá estava eu, o imigrante, em pé, na frente da porta, acompanhado apenas por uma mulher que estava agachada olhando o celular. "Tem gente realmente pior que eu", pensei. Logo apareceram outras pessoas e se formou uma pequena fila na frente da clínica. Às 7:33, a recepcionista abriu as portas. Fui o terceiro a ser atendido (deixei uma senhora, que estava lá antes de mim, mas na frente da porta errada, passar na minha frente). Quando chegou minha vez, ensaiei pra falar inglês, mas foi o francês que saiu. Falei que era minha primeira vez e que gostaria de ver um médico, mas não tinha hora marcada. Ela, sem sorrisos, mas profissional, pegou minha carteirinha da Assurance Maladie, fez um cadastro rápido (telefone e endereço) e me devolveu a carteirinha com  uma etiqueta com o número do meu dossiê. Aí a meia surpresa (porque eu já tinha lido casos assim): embora seja sem consulta marcada, o sans rendez-vous lá funciona com hora marcada. Ela pediu para eu voltar às 15 horas para ser atendido. E lá o imigrante foi cuidar da vida, porque ficar sete horas esperando lá, só se não tivesse mais nada pra fazer, néam?



Voltei à clínica às 14:50. Falei para a recepcionista (que era diferente da pessoa que me atendeu pela manhã) que tinha um horário sans rendez-vous (até agora acho isso meio insólito) às 15. Ela checou no computador e pediu para eu aguardar na sala de espera. Ambas as recepcionistas foram profissionais, mas não exatamente simpáticas. Raramente olharam para a minha cara e tinham aquele jeito de falar e agir de quem já conhece a rotina ali de trás pra frente, então não há muito espaço para sair do roteiro. Fui me sentar e só então prestei atenção de verdade na clínica: gente, juro que eu tinha a impressão de estar na sala de espera de algum dermatologista pra fazer limpeza da cútis. Poltronas, tapetes, quadros informativos, tudo tinindo de limpo e com cara de novo. Eu só havia entrado em uma clínica aqui antes, quando acompanhei o amigo que me hospedou num dia em que ele acordou não se sentindo bem, e já achei o lugar onde ele foi com cara de clínica privada. Essa na qual eu fui (Centre Médical Square Victoria) conseguiu ter aparência ainda melhor. Não faço ideia se todas as clínicas são desse tipo, mas essa me deu uma ótima impressão.

Não deu nem cinco minutos que eu estava sentado, uma enfermeira me chamou e me levou para uma sala de triagem. Pediu para eu sentar e descrever o que estava sentindo. Ela digitava todas as informações em um computador, fazia uma pergunta aqui, outra ali e, ao final, aferiu minha pressão e a minha temperatura. Em seguida, pediu para eu voltar para a sala e aguardar. Dez minutos depois, a médica me chamou. Extremamente cordial, pediu para eu me sentar e já falou: "A garganta está incomodando muito?" — sinal de que o meu prontuário foi eletronicamente da sala de triagem para o computador dela. Relatei novamente os problemas, ela me fez perguntas e me examinou. No fim, disse que estava em dúvida se eu estava com infecção viral ou bacteriana, porque eu tinha sintomas de ambas. Eu aproveitei e disse que eu tinha um histórico de infecções virais e que, por isso mesmo, achava que essa não era. Ela perguntou em quanto tempo eu me curava normalmente das virais e eu falei que os sintomas costumavam desaparecer completamente entre de 3 a 4 dias após a primeira manifestação, e eu tomava apenas medicação para aliviar os sintomas. A médica disse então que era provável que fosse bacteriana, mas que só com uma cultura pra saber. Ela informou que a cultura poderia ser feita ali mesmo, mas, como a clínica não realiza as análises no local, eu teria que pagar uma taxa para o transporte e análise do material. Eu disse que tudo bem.

—E eles mandam o resultado do exame direto pra cá? — perguntei.

—Mandam. Fica pronto em até 48 horas — respondeu a médica.

—E eu tenho que marcar agora pra voltar?

A médica parou, me olhou e franziu as sobrancelhas.

—Voltar?

—É — eu falei, achando que tivesse falado alguma bobagem em francês — Quer dizer, eu vou ter que voltar aqui pra saber o resultado e saber a medicação, né? Então já deixo marcado agora? Ou como funciona?

—Não, o senhor não precisa voltar — ela respondeu, meio incrédula — A não ser, claro, que não apresente melhoras. Eu vou lhe dar uma receita de antibiótico e o senhor vai ficar com ela. Quando o laboratório mandar o resultado da cultura, nós ligamos para o senhor para confirmar o diagnóstico e, se for realmente bactéria, o senhor pode começar a tomar o antibiótico. Não há necessidade de marcar nova consulta.

Acho que fiquei um tempinho com a boca aberta, mas consegui dar aquele sorriso meio sem graça e disse que não sabia, que era a primeira vez que eu estava me consultando com um médico no Quebec. Aí ela riu também, como quem diz "ah, agora eu entendi" e me explicou o funcionamento da clínica em linhas gerais, mas deixou claro que outras clínicas fazem certas coisas de maneira diferente. Achei essa médica bastante atenciosa e cordial. Eu, pra variar, estava com receio de ter dificuldade para entender e me fazer entender, mas foi bem mais tranquilo do que pensei, tanto pela simplicidade do atendimento como pelo nível linguístico necessário para interagir com o pessoal lá. Foi um alívio e tanto!

Agradeci e voltei à recepção, onde a secretária profissional fez a parte burocrática do pedido de cultura (incluindo a cobrança: 35 moedas de ouro canadenses) e me encaminhou para uma moça. Esta, por sua vez, me levou novamente para a sala de triagem, realizou a coleta em 2,47 segundos e me disse novamente que eles me ligariam para informar o resultado. Agradeci mais uma vez e, após aproximadamente 40 minutos de permanência na clínica, fui embora.

Posso dizer que fiquei bastante satisfeito — e surpreso! — com o atendimento geral. Já li tanta história de terror por aí que eu vivia agradecendo aos céus o fato de não ter precisado de atendimento médico de nenhum tipo até então. E agradeço mais ainda por, agora que precisei, ter sido algo simples e ter conseguido um bom atendimento. Vale lembrar que essa foi UMA experiência de UMA pessoa (este que vos escreve) em UMA clínica em UMA cidade do Canadá, para tratar de UM problema simples com UMA médica específica. Ou seja, você aí que está lendo, não tome esse relato como um exemplo da "saúde pública canadense" ou coisa do tipo. Pode ser que a média geral seja assim mesmo, ou pode ser que eu tenha tido sorte. Enfim, ainda assim, se você já está por aqui, pode valer a pena ir a essa clínica se você já não tiver uma de que goste. Ah, e se tiver passado por experiências semelhantes ou diferentes, nessa ou em outras clínicas ou hospitais, fique à vontade para colocar nos comentários. É o tipo de informação que vale a pena repassar :)

À bientôt!

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O imigrante "sabão"

Quem já mora há algum tempo fora sabe: existem vários tipos de imigrantes por aí. Tem o deslumbrado, o reclamão, o chorão, o ensandecido, o mil-sorrisos, o medroso, o amigão, o batalhador... mas hoje vou focar num tipo que é relativamente comum (e irritante): o imigrante "sabão".

(Antes que alguém deduza que o post terá algo a ver com limpeza, explico: "sabão", no caso, é uma singela homenagem a uma história da Turma da Mônica que eu li quando moleque. Nela, o pessoal da Turma chamava de "sabão" alguém que sabia muito. Bem linguagem de criança: o cara sabe muito, então, é um "sabão".)




Quando cheguei aqui, recebi ajuda de várias formas. Teve o meu amigo que me hospedou por um mês e meio até eu encontrar meu apartamento; teve conhecidos que me deram dicas sobre onde ir para encontrar certas coisas de que precisava; e alguns que me contaram coisas que aconteceram com eles para que eu ficasse atento a certas questões aqui. Pra quem está chegando, ajuda é sempre bem-vinda. Aliás, não só pra quem está chegando. Você pode estar vivendo há anos fora; se alguém te fala algo sobre a cidade, um serviço ou produto que você não conhecia, é sempre bom. Melhor ainda quando é num bate-papo descontraído.

O problema é quando uma pessoa acredita ter a chave para o fim de todos os problemas que te afligem. Ou às vezes ela nem tem, mas ela faz questão de contar como ela evitou esses mesmos problemas ou situações pelas quais você está passando por ser mais esperta, mais bem informada, mais popular, ter mais dinheiro, mais amigos ou conhecidos... enfim, ser melhor que você. E não só melhor que você. Melhor que todos os outros imigrantes. O imigrante "sabão" é assim: tudo que ele fez e faz é melhor do que o que todo mundo fez e faz, não importa em que área da vida.

Por exemplo: estava eu num café um tempo atrás com alguns imigrantes. Uma das pessoas do grupo falou sobre a dificuldade que estava tendo para receber uma autorização para trabalhar. O cônjuge dela veio com permissão de estudos e ela deveria ter recebido a autorização para trabalhar, mas, por algum motivo que ela não quis expor para o resto de nós (afinal, somos apenas "conhecidos"), estava demorando a sair e ela estava preocupada. Enfim, era apenas uma pessoa passando por uma situação difícil e buscando apoio e compreensão das pessoas em volta. Mas, dentre essas pessoas, estava um imigrante "sabão". A pobre moça teve que ouvir que ela devia ter lido mais a respeito do visto e se preparado melhor, porque imigração não é brincadeira. Que há vários casos de imigrantes que vem no oba-oba e que acabam se dando muito mal. Que há órgãos que podem ajudar a ver o que está acontecendo, é só procurar no Google.




E, como todo imigrante "sabão", ele não pode simplesmente orientar: ele tem que mostrar que ele sabe e que o que ele fez é o melhor. Depois da "ajuda", ele teve que narrar como, desde antes de sair do país dele, ele contatou várias pessoas aqui em Montreal para saber direitinho de todos os direitos e deveres dele. Não se fiou apenas no que leu nos sites oficiais e nem em blogues, que são cheios de gente mal informada. Ele leu, trocou e-mails, imprimiu manuais, telefonou, fez estudo comparativo de casos, de modo a não poder ser contestado em nenhum momento. Em suma, ele fez tudo e se deu bem; a outra fez pouco e, por isso, estava se dando mal. Azar o dela. Agora aguenta. 

Num outro lugar, uma pessoa perguntou qual o seguro residencial que as pessoas do grupo haviam contratado. Uma imigrante "sabona", em vez de responder a pergunta simplesmente, disse

—Olha, é obrigatório ter seguro. Se você não tiver, você pode ser responsabilizado criminalmente se o fogo começar na sua casa. Se você não tem, tem que correr pra fazer. Acho que pode até ter problemas para que te aceitem se você estiver morando há muito tempo sem seguro, porque aqui eles levam a sério e alguém que não tem seguro levanta suspeitas. Eu, quando cheguei, encontrei uma corretora ma-ra-vi-lho-sa, que me orientou em tudo, me explicou todos os detalhes e, graças aos céus, estou protegida desde o primeiro dia. Agora que tenho uma casa, então, durmo tranquila sabendo que não corro riscos.




Obrigado pelo texto de comercial. Mas responder a pergunta, que é bom, nada. Qual o seguro você contratou? Foi de banco? De seguradora? E a corretora ma-ra-vi-lho-sa, cadê o número, o contato, alguma coisa? E detalhe: nem tudo que ela falou procede.

Mas o imigrante "sabão" é assim. Se você tem conta no banco X, ele tem conta no banco Y e enumera todas as vantagens que ele recebe por ser cliente do banco e que você, como cliente do banco X, não tem. Se você faz transferência usando o método W, ele dá risada porque esse método cobra uma taxa de serviço absurda. O método que ele usa (que ele ou não revela, ou só revela depois do discurso de vitória, e isso se alguém perguntar de novo) faz com que ele economize muito mais que todas as outras pessoas e alienígenas do universo. Se você achou caro o pacote de açúcar que comprou no supermercado da esquina, ele põe na ponta do lápis quão pouco ele gasta com compras do mês — e provavelmente comendo mais e melhor que você. Se você quer fazer um curso de inglês e não sabe bem onde procurar, o imigrante "sabão" já fez vários, de "the book is on the table" até "how to hold your shit together when you are lecturing about quantum mechanics", sempre com excelentes professores e resultados excepcionais. Se você gosta de sorvete de morango, ele já provou o melhor sorvete de morango de Montreal, trazido diretamente de Nárnia, e conhece o dono da fábrica. Às vezes, ele está aqui só há um pouco mais de tempo que você, mas pode confiar: ele já viveu muito mais e já é "da terrinha", enquanto você, pobre mortal, ainda está lutando para decorar o nome da estação de metrô mais próxima da sua casa.

O que nutre esse comportamento, acredito eu, não é só uma simples vontade de aparecer: é a necessidade de competir, de se comparar com os outros e se sair vencedor. Muitos imigrantes veem sua nova vida aqui como uma espécie de tarefa que precisa produzir frutos grandes, brilhantes, lustrosos e abundantes para serem colocados na vitrine. Aliás, é só ver como a maioria dos imigrantes (e dos que sonham em imigrar, mas ainda não conseguiram) veem o retorno de alguém ao seu país de origem como uma derrota. "Ué, voltou? Ih, coitado(a), foi pro Canadá achando que ia virar barão e se deu mal. Agora vai ter que se virar no Brasilzão/Chilezão/Marrocão/Nepalzão". Poucos param pra pensar que, na verdade, desconhecem as razões que levam as pessoas a voltar. Ainda assim, a volta quase sempre é encarada como derrota, independente dos motivos, como se anos passados fora do país de origem fossem desprezíveis só porque a pessoa "não ficou pra sempre". Daí a necessidade (imaginária, mas incorporada por quase todos como ossos do ofício de imigrante) de ter que mostrar que está bem no novo país. Há quase uma obrigação pessoal de relatar constantemente tudo de bom que está ocorrendo, como as coisas são melhores do que se esperava, como você está vivendo o "sonho" (não gosto dessa palavra nesse sentido, mas explico isso outra hora). É uma cobrança, provavelmente muito mais interna do que externa. E essa cobrança leva aos "sabões", que parecem sentir que precisam se comparar o tempo todo com quem está à sua volta, e que se sentem exultantes quando percebem que sua história é "melhor" que a dos outros.

Enfim, os imigrantes "sabões" estão por aí, e é preciso lidar com eles. O melhor, na minha opinião, é só escutar cordialmente e, assim que ele fechar a boca, mudar o rumo da conversa. Eles detestam não estar "instruindo" as pessoas à sua volta, então, quanto menos você ficar impressionado com a narrativa deles, melhor. Só tomem cuidado para não se tornarem um deles.

À bientôt!

sábado, 6 de agosto de 2016

E a minha resposta é...

... que eu não vou encarar a McGill.

Não tomei essa decisão feliz e contente. Durante um bom tempo, eu acalentei a possibilidade de voltar a estudar, fazer um outro bacharelado e, assim, tentar encontrar alguma coisa que me interessasse o suficiente para que eu quisesse correr atrás. Namorei alguns cursos da McGill e de outras universidades ao longo dos últimos anos, e fiquei me imaginando voltando a estudar, obtendo um diploma universitário daqui do Quebec e começando uma nova profissão aqui. Então, apesar de a vida aqui ter me feito pensar menos em fazer faculdade, dá pra imaginar que, além da surpresa de ter sido aceito na McGill, eu fiquei muito animado.

Só que, parando pra pensar depois da euforia, comecei a considerar as coisas. Eu entraria lá sem fazer muita ideia do que estudar e em que me formar. Começar um curso universitário não sabendo o que você quer fazer não me parece lá uma decisão muito acertada, ainda mais levando-se em conta que eu precisaria fazer uma dívida com o governo para poder bancar os estudos, mesmo que parcialmente. Em seguida, tem o fato de que um diploma na área de Humanas não é exatamente, digamos assim, extremamente requisitado no mercado de trabalho. Suponhamos que eu saia com um diploma em História, Literatura Inglesa ou Filosofia. No mercado de hoje, o que se faz com isso? Até mesmo para dar aulas eu precisaria de Mestrado e Doutorado, o que implicaria passar mais uns seis ou sete anos estudando (e lá vai dívida) para desembarcar num mercado acadêmico que está bem saturado, de acordo com tudo que li a respeito.

E, para finalizar, tem a questão da idade. Não, não é que eu ache que 36 anos é uma idade avançada para se aprender coisas novas (=tô véio pra essa bagaça). Eu nem acho que exista idade limite pra se aprender nada, desde que você esteja querendo aprender. Mas a questão é o mercado novamente: ainda que eu saísse da universidade em quatro anos (supondo-se que eu realmente desse conta de fazer tudo no tempo previsto), eu chegaria ao mercado com 40 anos e sem experiência profissional relevante (porque os empregos de verão que eu provavelmente pegaria não são lá um grande divisor de águas pra ninguém) e com um diploma daqui, mas em uma área pffff. Os canadenses podem ser bem mais abertos em relação ao fator idade, mas, como um dos meus amigos quebecos colocou na nossa última conversa, não é porque são mais abertos que vão escolher quem tem mais idade em detrimento de quem tem mais experiência.

No fim das contas, depois de pensar bastante, acho que embarcar nessa seria extremamente gratificante do ponto de vista pessoal (sou nerd, gente, gosto de estudar), mas uma jogada não muito boa do ponto de vista de profissão e carreira. Se eu curtisse muito uma área específica, fosse apaixonado por curso, ainda talvez valesse a pena correr o risco. Mas entrar às cegas na universidade torcendo para que eu encontre alguma coisa que me interesse e que me leve a uma carreira (e ainda criando dívida no processo) talvez seja forçar um pouco a barra.

Então é isso. Apesar de meu raciocínio ser esse, ainda não consegui ir lá no sistema da McGill e clicar em "decline". Tenho só mais dois ou três dias de prazo, mas acho que essa decisão não vai mudar. Em algum lugar, espero que alguém que está na lista de espera da McGill fique feliz :)

À bientôt!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Entrei na McGill! :) (2)

Eu não consigo acreditar até agora, mas parece que é pra valer: entrei na McGill (de novo), e dessa vez a coisa ficou séria!!



Mas eu sei que uma parte eu não contei: ano passado, depois de terminar o curso de inglês da McGill, tive que começar a pensar no que fazer da vida. É um assunto extremamente inquietante pra mim, porque eu tenho essa ideia de que gostaria de ter uma carreira de fato (embora hoje eu saiba muito bem que isso não é necessário), mas, ao mesmo tempo, não tenho muita ideia do que gostaria de fazer. Depois do curso de inglês, eu já havia resolvido que prosseguiria parcialmente nos estudos fazendo o Certificado de Francês da Universidade de Montreal; mas e aí? O que fazer "de verdade", como trabalho? Ou melhor, como profissão, como carreira, a longo prazo (já que empregos sempre existem nos classificados)? Nada de novo no fronte. Uma coisa me interessa aqui, outra chama a minha atenção ali, mas nada que faça os olhos brilharem. E aí?

No meio da indecisão, e como eu nunca gostei de ficar parado esperando o raio divino (embora tenha tentado mais de uma vez), resolvi fazer a inscrição pra fazer um bacharelado na McGill. Bacharelado em quê? Não sabia; e o formulário de inscrição só pedia pra eu escolher uma das Faculties ou Schools, então não precisava resolver ali na hora. Escolhi a Faculdade de Artes e mandei ver.

Isso foi em outubro do ano passado. De lá pra cá, houve momentos em que fiquei extremamente ansioso e momentos em que eu dei risada do que tinha feito. Afinal de contas, já imaginou? Eu, com 36 anos, fazendo bacharelado em (interrogação) na McGill, tida como uma das melhores do Canadá? Tendo que fazer trabalho em grupo com a molecada de 20 anos, estudar pra prova, fazer empréstimo junto ao governo pra bancar os estudos? Me formar perto dos 40 anos, provavelmente em algo que não tem muita perspectiva de emprego, pra só então voltar ao mercado de trabalho (isso se não precisar de um Mestrado ou Doutorado)? Faz-me rir, né? De qualquer forma, nunca pensei que minhas chances fossem muito altas; não fiz inscrição para nenhuma outra universidade, talvez porque, em parte, eu quisesse ouvir um "não"; o "não" da McGill me daria um direcionamento, nem que fosse o de arrumar um emprego pra pagar as contas.

Mas aí, abro o sistema de admissão deles — de forma automática como vinha fazendo desde maio — e, na linha de status, em vez do "Reviewed - Decision Pending" que eu sempre via, tava lá um "Admitted". Juro que o coração parou. Foi um susto ENORME, posso garantir. Rolei a tela pra cima e pra baixo tentando encontrar os dizeres "Pegadinha do Malandro!!!", mas não tinha. O que tinha era o link para a carta formal de aceitação.

E agora, José?

Eu tô num misto de alegria, ansiedade, medo, empolgação, dúvida e angústia. Ao mesmo tempo que penso que já chutei o balde-mor deixando meu emprego e meu país para vir aqui ver "de qualé" e que, por isso mesmo, embarcar nessa experiência não seria pior, penso também que talvez seja tapar o sol com a peneira... que talvez, por não ter exatamente um plano eu devesse simplesmente deixar pra lá isso e tratar de arrumar trabalho antes que meu prazo de validade expire.

O que você faria?

À bientôt!

domingo, 10 de julho de 2016

Renovação da Assurance Maladie

Quando cheguei e fiz a minha inscrição na Régie de l'Assurance Maladie (o sistema de saúde pública do Quebec), notei que a carteirinha que chegou dois meses depois tinha validade de um ano. Com base nisso, achei que todo ano eles me enviariam uma carteirinha nova, mais ou menos como acontecia com meu plano de saúde no Brasil. Mas acontece que é um pouquinho diferente.

Primeiro, uns dois meses antes de a minha carteirinha vencer, eles me mandaram uma carta falando sobre o vencimento próximo e dizendo que eu precisava comprovar a minha permanência no Quebec para poder renovar a carteirinha. Eu já tinha lido (e eles mesmo me falaram quando fui lá pela primeira vez) que eu deveria informar a Régie se eu ficasse fora do Quebec por mais de seis meses num dado ano. Logo, como não fiquei, achei que não fosse precisar fazer nada — mas achismo meu mesmo, porque se você ler a documentação no site, está tudo explicado.



Enfim, junto com a carta, eles enviam um formulário de renovação, que possui um campo para informar mudança de endereço, se for o caso. Eles listam também quais documentos são aceitos para comprovar a permanência do Quebec, e tem pra quase todos os gostos: de recibo de pagamento pelo empregador a fatura do cartão de crédito com evidência de gastos feitos no Quebec, passando por histórico escolar de universidade. Então, apesar da minha surpresa em ter que comprovar, não teve muito problema: juntei a papelada (só cópia simples), coloquei num envelope e mandei. O único pensamento preguiçoso foi o de pensar em ter que fazer isso todos os anos.




Mas aí, a outra surpresa: quando a carteirinha nova chegou, a primeira coisa que vi foi a validade. Dessa vez, 2020! Acho que é só mesmo para tentar, dentre outras coisas, evitar prejuízo do pessoal que chega aqui no Quebec, faz o landing e corre pra outra província no dia seguinte. Ah, e para quem está em vias de renovar a carteirinha, uma dica: façam a renovação assim que a carta da Régie chegar, porque pode levar de um a dois meses pra receber a nova (e você pode ficar descoberto nesse período).

À bientôt!

terça-feira, 21 de junho de 2016

O Curso de Inglês da McGill - Epílogo II

Essa me pegou totalmente desprevenido.

Certo dia, resolvi ir ao supermercado. Calcei o tênis, peguei minha mochila e só quando já estava prontinho para a guerra foi que vi que havia deixado o celular em cima da cama. Bateu a preguiça de tirar parte do traje de combate só para ir pegar o celular, então fui sem mesmo. O supermercado fica quase do lado de casa, então achei que, só dessa vez, ele ia ficar esperando eu voltar.

Fui, voltei e, como Murphy é Murphy, tinha uma ligação perdida. Número desconhecido. "Telemarketing", pensei, "ou então alguém que discou o número errado". Se fosse a segunda opção, logo eu provavelmente receberia uma mensagem de voz com a pessoa se desculpando (pois é, já aconteceu mais de uma vez.)

Comecei a guardar as coisas e o celular deu sinal de vida indicando mensagem de voz. "Ahá", pensei, "taí. Número errado". Coloquei pra ouvir enquanto guardava os limões, mas parei praticamente assim que a mensagem começou:

"Oi, Doug, aqui é a Fulana da McGill. Estou ligando a respeito do seu prêmio. Por favor, entre em contato, pois preciso saber como você vai querer fazer. Estarei até as 5 da tarde aqui; se não puder falar, estarei de volta na terça-feira. Meu número é..."

Prêmio? A primeira coisa que veio à minha cabeça é que era algum golpe (sim, também tem por aqui). Eu ia ligar, eles iam dizer que eu ganhei, sei lá, uma barra de ouro, mas que precisam do número do meu cartão de crédito para confirmar a identidade. Ou qualquer outra bizarrice do gênero. Porém, o fato de a Fulana falar meu nome e falar que era da McGill me atiçou. Ligar de volta era praticamente perda de tempo porque já havia passado das 5, mas tentei. Ninguém atendeu. Daí fiquei pensando que era algum engano, porque eu não estava participando de concurso algum. Não dei meu nome pra concorrer a nada, então, se a ligação tinha vindo de fato da McGill, com certeza era algum engano.

Pois bem, no dia seguinte, fui pegar a correspondência e — tcham, tcham! — tinha uma cartinha da McGill. Abri, li, e quase caí pra trás. Transcrevo:

"Dear Mr. Doug,

Please accept my sincere congratulations on being selected as the recipient of the [nome do prêmio] for the 2015/2016 academic year.

You are now a member of an elite group of learners - those who are prizewinners for the year's most outstanding academic record in their program or course. For most students enrolled in programs and courses offered by the School, pursuing further education must be balanced with many other commitments, making this achievement all the more significant. You should be proud of your achievement as we are proud of you.

The amount of [valor do prêmio] has been deposited in your bank account according to the information we have on file.

Sincerely,"

Fala sério!!!! Eu nem sabia que esse prêmio existia!! Foi uma surpresa sensacional! E — descobri na terça seguinte — foi por isso que a tia da McGill ligou: eu não tinha incluído informações bancárias no meu cadastro e ela queria saber se mandava o cheque pelo correio ou se eu iria lá buscar. Oh, Canada!!

Lembrei que o site da McGill dá a opção da gente conferir o histórico não-oficial para ver as notas e tá bonito, viu? Nota "A" nos dois módulos que fiz, mais "Lista de Honra do Reitor" e, agora, "Ganhador do Prêmio X"! Filma eu, Galvão!



À bientôt!

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Imposto de Renda

Não é tudo que faz com que a gente realmente sinta que está vivendo em outro país. Passear pelas ruas, ir a restaurantes, pegar o carro e fazer viagens de fins de semana são ótimas pedidas, mas qualquer turista pode fazer isso. A verdade é que, pra mim, nada me dá mais a sensação de fazer parte de uma outra sociedade do que... ai, ai (suspiro)... os deveres.

Claro que não é com grande alegria e satisfação que você senta pra fazer algo como, por exemplo, sua declaração de imposto de renda no novo país. Mas é esse tipo de coisa, mais do que tomar café no Tim Horton's, que mostra um elo sério entre você e seu novo pedaço de terra. Tem jeito, não, minha gente: é arregaçar as mangas e mandar ver.




No Canadá, são duas as declarações de imposto de renda que devem ser feitas: a federal (para a Canada Revenue Agency, a Receita Federal daqui) e a provincial (no caso dos residentes do Quebec, para a Revenu Quebec). Como no Brasil, há uma faixa de renda que é isenta da declaração. Se você recebe até esse valor, não precisa declarar. Ainda assim, se você imigrou no ano fiscal anterior, é uma boa ideia apresentar a sua declaração, mesmo sem renda, não só por facilitar a sua vida no futuro como também para ter acesso a benefícios concedidos para o governo (dependendo da sua situação).

Eu queria apresentar a declaração, principalmente porque queria tentar entender como a coisa funciona. A ideia era ir lendo aos poucos sobre como o sistema funcionava para ter uma ideia mais sólida quando chegasse a época de declarar (que, como no Brasil, costuma ser nos meses de março e abril). O problema é que fui adiando, adiando, adiando... e, quando vi, não só março já havia chegado e se instalado como abril já estava acenando pra mim.

Finalmente, tomei vergonha na cara e, entre um trabalho aqui e uma prova ali na Universidade de Montreal, lia um pouco de cada vez. Tem até bastante informação, e o site da Canada Revenue Agency tem até videozinhos temáticos. Mas não demorou para dar aquela desanimada sensacional... ô assuntozinho chato! Eu posso não saber o que fazer da vida, mas realmente contabilidade está totalmente descartada! Juro como tentei: baixei manuais, salvei páginas de referência na internet, li exemplos, procurei fóruns... mas, no fim, acabava retendo pouca coisa porque o troço é muito, muito, muito chato. No Brasil, eu também nunca fui fã do imposto de renda, mas já estava acostumado a fazer na prática tudo que dizia respeito à minha situação, então não era nenhum problema. Porém, imagino que, se fosse tentar entender a legislação e os cálculos, me divertiria tanto quanto vendo a grama do jardim crescer.




Como o plano infalível de tentar entender e fazer os cálculos por conta própria não estava rendendo, fui atrás de outra opção. Aqui, como também em várias cidades do Brasil, você pode buscar a ajuda de voluntários que te ajudam com a declaração se a sua situação fiscal for simples. Há desde mutirões em universidades até órgãos de ajuda a imigrantes que se dispõem a ajudar. Só que cada um tem suas peculiaridades: alguns só atendem com hora marcada, outros só atendem uma determinada faixa etária, outros só atendem mulheres, alguns só atendem em uma língua (inglês ou francês), outros oferecem atendentes em outras línguas, e por aí vai. Então, uma pesquisa antes ajuda, e o site do Canada Revenue Agency possui uma lista pra ajudar. Só que, com base na experiência de alguns conhecidos (que saíram do encontro com os voluntários com mais dúvidas do que quando chegaram), juro que fiquei com preguiça de tentar. Um amigo, inclusive, ficou com tanto receio que acabou pagando para um contador dar uma olhada e ver se estava tudo certo. Vale lembrar que essa é só a amostra do meu mundinho, tá, gente? Com certeza, há pessoas por aí que sempre fizeram com voluntários e nunca tiveram problemas. Não é pra generalizar.

Eu também considerei a hipótese de pagar um contador, até porque, se for alguém bom, sempre pode extrair mais vantagens pra você, desde pagar menos imposto até receber benefícios. Ao mesmo tempo, eu sabia que a minha situação era simples. Não trabalhei, não tive renda, e o único patrimônio que tenho está no Brasil. Assim, voltei com a ideia de fazer sozinho. Mas, em vez de tentar entender o processo todo, resolvi apenas fazer a declaração: comprei um dos programas aprovados pela Canada Revenue Agency (no caso, o TurboTax), sentei e mandei ver. Para quem  não sabe, a agência canadense não possui programa gratuito para preenchimento da declaração como temos no Brasil. Assim, se você quer mandar tudo online, precisa comprar a licença de algum programa de terceiros. Além dessa característica, esses programas costumam ser bem mais intuitivos e didáticos do que os formulários, regulamentos, leis e anexos sobre o assunto. O TurboTax, por exemplo, vai te fazendo perguntas e, com base nas suas respostas, preenche ele mesmo os campos dos formulários. Quando você termina de responder as perguntas, o programa pode enviar os dados para a Canada Revenue Agency (e para a Revenu Québec) ou imprimir a papelada para envio pelo correio. Como era a primeira vez que eu fazia a declaração, o programa me alertou para a necessidade de enviar tudo pelo correio, mas me garantiu que, a partir do ano que vem, poderei enviar tudo online.

Achei uma mão na roda! Pelo menos, para quem tem situação simples, acho que vale muito a pena. Fiz as declarações federal e provincial numa noite e, no dia seguinte, fui colocar tudo no correio. Tentei não ficar angustiado porque, na pior das hipóteses, eu receberia uma cartinha da agência dizendo para eu explicar alguma coisa, enviar algum documento ou aparecer para conversar. Como não menti em nada, só seria tenso, mas eu teria como provar tudo que coloquei lá. Para minha alegria, não rolou nada disso: pouco mais de um mês depois de eu ter enviado a papelada, recebi uma cartinha da Revenu Québec dizendo que estava tudo ok e, umas duas semanas depois, um e-mail da Canada Revenue Agency dizendo a mesma coisa. Ufa! Além dessa boa notícia, usar o programa me deixou um pouco mais familiarizado com o jeito deles aqui de fazer a declaração, principalmente depois de eu ter passado semanas lendo sobre o assunto (mas ainda estou longe de ser especialista — e nem quero ser!).

Se alguém aí tiver uma maneira ainda mais tranquila e barata de fazer a declaração, por favor, não seja tímido(a)! Serei eternamente grato!

À bientôt!

sábado, 11 de junho de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte VII

Três meses de sumiço não é mole, não! Mas vou te contar, viu... que períodozinho lasquei esse desde o meu último post. Não foi só o tempo pra escrever, engolido pelas coisas que tive que fazer ao longo dos últimos meses, que me manteve afastado do bloque. Recebi uma notícia nada agradável do Brasil e tive que tirar um templo pra pensar na vida. Ninguém morreu (ainda bem!), mas, ainda assim, foi um período de luto que foi intensificado por tudo com o que tive que lidar: aulas, provas, imposto de renda, renovação da Assurance Maladie, celular estragado, o Hodor, renovação de passaporte, trabalho voluntário... nesses meses, mesmo as coisas pequenas tinham peso maior. Daí não tinha o que me fizesse realmente pensar em sentar e escrever (embora digam que ajuda).

Mas, cá estou! As coisas, ou melhor, o meu lado emocional está melhor agora. Como já mencionei ali em cima, muita água rolou, mas vamos com nosso querido Jack: por partes.




A Sessão de Inverno na UdeM

Eu já havia dado um apanhado geral do que estava achando das aulas nesse post aqui. Minha opinião não mudou muito de lá pra cá. O curso de Compreensão Oral cumpriu o que prometeu: fomos expostos a sotaques de francófonos de várias partes do mundo, mas com uma atenção especial para o francês falado no Quebec, claro. A professora se esforçava muito para não ser do tipo rígida, ou melhor, para não passar a impressão de ser sisuda, mas pra mim ficou claro que ela estava tentando representar um papel de professora gente boa. Acho que o que ela curte mesmo é pegar pesado com os alunos, mas só em alguns momentos ao logo dos três meses de aula chegamos a ver esse Mr. Hyde fora do Dr. Jekyll.

Essa aula é obrigatória, então ainda que eu não tivesse gostado teria que fazê-la em algum momento. Mas não me arrependo. Obviamente, não tem como o curso ou a professora ativarem uma chave mágica no cérebro dos alunos para que eles comecem a entender francês quebeco do dia pra noite. O que ela fez, além de dar uma lista enooooooooorme de sites e outros recursos onde podemos ouvir o francês daqui, foi chamar a atenção dos nossos ouvidos para certos fenômenos que acontecem no idioma. Foi assim que descobri que "sur + la" frequentemente vira "saaaa" (um "sa" alongado), da mesma forma que "sur + les" vira "sêêêê" (um "sê" alongado). Foi assim também que fui apresentado ao "fón", que é como alguns quebequenses pronunciam a palavra inglesa "fun" ("c'est le fun" vira "cél-fón"). Vimos também a ditongação que é feita em várias palavras ("jaune" é pronunciado "jôun", com "o" e "u" bem marcados) e o uso da partícula "tu" (sim, partícula, não pronome) como indicação de interrogação ("Il va tu au cinéma ce soir?"). 



Apesar de tudo ser muito interessante e de termos chance de ouvir esses fenômenos linguísticos em áudios e vídeos que a professora levava, acho que tinha gente na sala que achava que só saber essas coisas resolvia os problemas. A professora passava áudios e vídeos na sala, fazíamos exercícios (alguns em casa), mas ela falava o tempo todo: tem que escutar fora da sala de aula também. Rádio, TV, podcasts, séries, filmes, o povo no ônibus, na feira. Tem que ler também, porque ver a palavra escrita ajuda a reconhecê-la quando a ouvimos. Enfim, é um trabalho constante e sem fim. Se a pessoa vai pra aula, apura os ouvidos lá, mas volta pra casa ouvindo o idioma nativo, se encontra só com os amigos compatriotas, usa inglês pra fazer as coisas na rua... não tem curso que salve. E foi assim que, pra minha surpresa, vi uma quantidade razoável de pessoas se dar mal. Claro, não sei da vida de ninguém; muita gente estuda, trabalha, cuida dos filhos, do cachorro, e mil outras coisas; no máximo, tiro uma média pelo que me contam. Mas, sinceramente, a aula em si não é difícil se você tem o hábito, pelo menos, de escutar notícias em rádio, podcasts ou TV. A maior parte das avaliações se baseia em noticiários — o que facilita muito, pois os locutores/apresentadores falam de forma mais pausada e clara. Ainda assim, na última prova, vi algumas pessoas suplicando para ouvir o áudio uma última vez com fone de ouvido.

A aula de fonética, por outro lado, foi bem mais puxada. Fiz tanta pergunta e pedi tanto para ser corrigido pela professora e pelo assistente que nós três acabamos indo pra um bar um dia hahahahahaha! A professora é sensacional: bem-humorada, atenta, meticulosa, manja muuuuuuuito do conteúdo e consegue te esculhambar ainda parecendo ser sua melhor amiga. Era comum termos de ler palavras (no início do curso), frases e parágrafos inteiros (mais para o fim) em voz alta durante a aula, e se ela não ficava satisfeita pedia para a pessoa repetir quarenta vezes. Nessa aula eu via muito mais gente interessada do que na de Compreensão Oral — e, por interessada, quero dizer ralando pra fazer certo. Ainda assim, a própria professora comentava, de vez em quando, que ela conseguia distinguir facilmente os alunos que treinavam em casa daqueles que só se preocupavam em tentar fazer os sons certos quando estavam na aula. As avaliações e exercícios valendo nota eram todos gravados e enviados pra ela ou pro assistente, e sempre, sempre recebemos, além da nota, um comentário bastante detalhado sobre o que estava bom e o que estava ruim. E o melhor: tudo isso com litros de diversão durante a aula.

Vou te dizer que fiquei bem preocupado na metade do curso. Não com nota ou coisa do tipo; mas é que, em determinado momento, parecia que eu estava "desaprendendo" o que eu sabia e não estava conseguindo aprender o que não sabia. Lá ia eu falar com a professora ou com o assistente (às vezes, com os dois) e pedir, "me ajuda, me anima, me dá esperança, me exorciza!". 




E eles diziam que eu estava indo bem, que a minha pronúncia era boa, o assistente dizia que eu soava como francófono em vários dos exercícios gravados, e eu dizia, "não, não, não, francófono de onde, da Índia?". E aí eles riam, indicavam uma coisa aqui e ali que eu podia tentar melhorar e ficava por isso mesmo. Até que um dia (o dia do bar), eu chorei as pitangas de novo e a professora me disse o seguinte:

—Doug, vou ser o mais sincera que posso com você. Obviamente, você não soa como um falante nativo do Quebec. Seu sotaque tem um pouco do sotaque brasileiro, mas tem muito do sotaque padrão francês, o que é normal, já que vocês aprendem o francês da França. Porém, o meu ponto é: você não tem problema algum de pronúncia; você não pronuncia "b" em vez de "v" como vários sul-americanos, você não tem dificuldade pra pronunciar e distinguir "ê" de "é", "ô" de "ó"; você pronuncia bem o "u" francês, você faz distinção entre "in", "en", "an", "on" e "un"... em suma, você não tem nada que eu possa chamar de problemas reais de fonética. Outros alunos tem alguns desses, e outros ainda tem todos, o que é de deixar qualquer um sem dormir à noite. O que você tem é uma coisa: medo de falar! Eu vejo a diferença na sua pronúncia quando você grava os exercícios e quando você está aqui, ao vivo, conversando. Em casa, gravando, você está relaxado, sabe que se fizer um erro é só apagar o arquivo, gravar de novo e pronto. Aqui, você sabe que não tem como fazer isso; você fica nervoso e isso faz com que você queira falar rápido, não para parecer fluente, mas para acabar logo porque você não quer errar e não quer ser julgado. Meu conselho continua sendo o mesmo desde o início: você tem que encontrar um modo de relaxar quando estiver falando francês. Tem que deixar de ter medo de ser julgado, de parecer estúpido, de ter que recomeçar uma frase porque não sabe como terminá-la, de trocar uma palavra pela outra. Tudo isso faz parte do processo de aprender idiomas. Eu te garanto, pelo que você já mostrou na aula, que se você conseguisse relaxar mais quando fala francês por aí, nem aqui fazendo o certificado você estaria.

O que que você fala pra uma professora que te diz isso tudo? Paguei uma rodada no bar, né?



É claro que ela tem razão. Pelo menos em relação à parte de eu precisar relaxar, porque, quanto à pronúncia, não acho que seja essa Coca-Cola toda, não. Mas, enfim, de lá pra cá, venho tentando superar a ansiedade também nesse quesito. Não vou dizer que tenha feito grandes progressos, não, pois ainda me cobro muito toda vez que abro a boca. Porém, pelo menos agora eu tento, durante os segundos antes de abrir a boca pra falar francês com alguém, pensar que eu não vou ser morto a tiros se falar alguma besteira ou não souber completar um pensamento. Tem dias que vai mais fácil, tem dia que vai mais difícil. Mas vai.

As aulas de Compreensão Oral e de Fonética acabaram no fim de abril. É sempre uma pena pra mim deixar de ir pra aulas das quais gosto, mas fazer o quê? A recompensa de tudo veio semanas depois: fiquei com A+ em ambas as disciplinas, o que me deixa com um média acumulada muito boa que pode ser útil para um eventual retorno à universidade. Pelo menos, o currículo tá ficando bonito :P

Ah, eu recomendo MUITO a aula de Fonética pra qualquer pessoa que venha pra cá! É sensacional o tanto que se aprende e, se você realmente colocar em prática o que for viso na aula, sua pronúncia com certeza vai melhorar bastante! Dá pra fazer como aluno livre na Universidade de Montreal, ou seja, não precisa se inscrever pro certificado inteiro pra poder cursar. Fica a dica!

À bientôt!

quarta-feira, 16 de março de 2016

Um ano de Canadá!!!!

Eu estou fazendo um milhão e meio de coisas, mas eu tinha que vir aqui pra deixar registrado: estou completando um ano de Canadá!!!




Nem tem como descrever um ano em algumas palavras. Mas posso dizer que estou bem. Estou muito satisfeito com as decisões que tomei e como tenho conduzido as coisas (ou elas têm me conduzido) até aqui. Estou longe de conhecer intimamente a cidade, o país, o modo de vida canadense, mas, aos pouquinhos, vou descobrindo. Uma rua diferente, uma expressão diferente, um rosto diferente, uma bebida diferente. Uma marca de chocolate diferente. Até um jeito diferente de fazer uma compra. Quando a gente muda pra um outro país, tudo é novo, tudo vale a pena ser explorado.

Passei pelas quatro estações! Vi as ruas quase desertas quando cheguei, o pessoal aparecendo timidamente quando a temperatura começou a ficar próxima de 0ºC, a invasão das bicicletas quando o gelo e a neve derreteram, o calor do capeta que faz em julho, o colorido do outono e todo mundo sumindo de novo no inverno. E adorei! Quando dei por mim, já estava falando para as pessoas que cheguei "no fim do inverno" e que estudei inglês "no verão" e, de repente, isso tinha sentido, sim!

Mas, acho que o mais importante, é que não sou o mesmo cidadão assustado que desembarcou no aeroporto de Montreal em 15 de março de 2015. Não que eu tenha deixado de ser o nerd tímido que sempre fui para ser estrela do rock popular. Certas coisas não mudam (ainda bem), mas é aquela típica situação em que posso dizer sem medo de exagerar: se eu soubesse como seria, teria me estressado menos :)

Para esse próximo ano, meu maior desejo (além de continuar cultivando o bem-estar que redescobri aqui) é poder dar um rumo profissional pra minha vida. Se tiver que voltar para a faculdade, vamos lá; se for pra ir pro mercado de trabalho direto, simbora; mas quero poder fazer algo que me deixe em paz comigo mesmo. Quero continuar construindo a vida aqui, em suma, pois acho (ainda só acho) que vim pra ficar.

Feliz um ano de Canadá pra mim!

À bientôt!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Meu primeiro -24ºC (com gostinho de -39ºC!)

Quando o cidadão resolve sair de um país tropical para ir morar em um país em que as temperaturas são baixas (pelo menos, pelos padrões brasileiros) durante a maior parte do ano, das duas uma: ou ele gosta de frio ou está disposto a encará-lo como um problema menor frente às vantagens desse novo país. Eu estou no primeiro grupo, mas a ideia de ter de enfrentar temperaturas beeeeeeeem baixas me deixava um tanto apreensivo. Será que eu iria gostar? Será que eu iria aguentar? Será que, depois de anos detestando o verão perene à la Westeros do Brasil, eu iria choramingar como um menininho em idade pré-escolar e pensar que, no fim, o calorão me fazia falta?

 Segundo os dados e os relatos do pessoal que conheço aqui, os dois últimos invernos foram de lascar. Bem mais frios e longos do que de costume. Eu cheguei na metade de março e encarei alguns dias de sensação térmica por volta dos -10ºC ou -15ºC, mas o povo falou que fez muito mais frio antes. Este inverno aparentemente também está fora da escala, mas do outro lado do medidor: o inverno demorou a começar pra valer, e as temperaturas registradas têm sido, em geral, mais altas que a média. Daí já comecei a pensar que ia ter que esperar no mínimo um ano pra poder conhecer o inverno mais de perto.

Porém, como bem falam por aqui, o inverno tarda, mas não falha, e isso significa que, mais cedo ou mais tarde, você descobre as respostas a essas (e outras) perguntas. Semana passada, finalmente tive a minha primeira grande experiência frigorífica no inverno montrealense! No sábado, tinha que devolver um DVD para a biblioteca. Olhei lá pra fora e tinha neve pra todo lado. Consultei a temperatura externa: -24ºC, com sensação térmica de -39ºC!! Quase caí pra trás! De repente, a curiosidade em experimentar frio pra valer foi substituída pelo receio de desaparecer em meio ao frio e ao gelo e só ser reencontrado em abril, com um aspecto mais ou menos estilo Han Solo na carbonita.



Fiquei naquela: "Vou? Não vou? Vou? Não vou?" e, nesse meio tempo, passaram algumas almas andando calmamente pela rua. "Almas" no sentido poético figurado, porque estavam todas bem vivas e indo cuidar da vida. Isso me renovou o ânimo e me lembrou do fato de que, se o povo fosse parar a vida porque está muito frio lá fora, o Canadá teria que se mudar pelo menos uns três meses por ano. Então, respirei fundo, me empacotei todo e lá fui eu, igual um bonequinho do South Park.




O momento em que você sai para o ar frio lá fora não é o melhor momento para dizer se você acertou ou não no indumentário. Como o corpo está quente por estar no aquecedor, você ainda conserva esse calor durante um bom tempo. Depois de alguns minutos do lado de fora, contudo, o calor excessivo se dispersa e aí você consegue ter uma noção de se o seu passeio pelo guarda-roupa foi eficiente. Eu tenho apenas um casaco feito para frio heavy metal de verdade. Os outros, foram trazidos do Brasil. Fiz uma combinação de roupas que julguei ser suficiente e, para aquele dia, acertei. Quando você não está acostumado com temperaturas abaixo de zero durante dias a fio, (e variando de -24º a -1ºC), não tem muito jeito: tem que experimentar o que funciona pra você e ir aprendendo com os erros. Esse casaco do qual falei me faz passar calor em temperaturas por volta de -5ºC, -10ºC. Então, combino as roupas e casacos que tenho aqui de forma a minimizar o frio e o calor. Sim, porque pode estar frio na rua, mas, quando você vai para o metrô ou entra em algum prédio, está quente, e se você estiver com 72 casacos, ou tira tudo e fica segurando, ou vai suar em bicas até voltar pra rua. Então, às vezes mais vale sentir um pouco mais de frio no trajeto casa-metrô-escola/trabalho do que ficar suando em bicas ou carregando roupas como se estivesse recolhendo donativos.

Enfim, a experiência foi bastante positiva, no fim das contas. Gostar ou não de frio é muito pessoal, mas acho que pouquíssimas pessoas diriam que adoram ficar sentadas no parque quando está fazendo -20ºC. O que o frio faz comigo é que me sinto mais disposto, com mais energia, e meu sono costuma ser bem melhor quando está friozinho do que quando está fazendo calor. E agora que sei que posso sobreviver a sensação térmica de -39ºC, acho que não preciso ter medo de sair de casa.

Quer dizer, ainda não experimentei tempestade de neve... Gê-zuis!

À bientôt!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte VI

Confesso que minha primeira sessão do Certificado de Francês da Universidade de Montreal ficou aquém do que eu imaginava. As aulas de francês oral, embora boas, eram poucas demais para permitir que eu aprimorasse meu discurso em francês (e a turma não ajudava muito, como contei). As aulas de francês escrito... bom, já chorei as pitangas nesse post aqui, então não vou repetir. Fiquei com boas notas no fim do trimestre, mas comecei a me perguntar se o que viria pela frente seria no mesmo nível (e, por tabela, se valeria a pena continuar, nesse caso). Porque ninguém merece ir para um curso sentindo que está indo pra forca.



Mas vamos por partes: quando fui aceito no programa do certificado e tive que passar por uma conselheira acadêmica (isso não é mais obrigatório), ela havia falado pra eu fazer, de início, um curso oral e outro escrito (que foi exatamente o que fiz na primeira sessão) e, na sessão seguinte, fazer um de fonética e um outro de francês escrito. Na palestra de informação sobre o certificado, a diretora do programa já havia enfatizado que muitos alunos não se preocupam com a parte escrita e acabam tendo que correr atrás do prejuízo no fim do programa ou mesmo depois de terminar o curso. Minha conselheira, na época, voltou a bater na mesma tecla. Disse para eu não deixar de lado a escrita porque era uma parte importante do curso e da língua, principalmente no mercado de trabalho.

Só que, depois do meu primeiro curso de francês escrito desanimador e da minha incapacidade de falar francês tranquilamente mesmo em situações simples, eu resolvi jogar as sugestões da dona conselheira no mato. Quer dizer, pelo menos em parte. Ora, eu estou com dificuldades é pra falar, certo? O curso foca nas partes oral e escrita, mas deixa a escolha sobre o que privilegiar por minha conta, certo? Não tive nota ruim no curso de francês escrito e ainda fui elogiado, certo? Tá certo que esse último argumento deve ser aceito com ressalvas por causa da qualidade duvidosa da aula, mas, enfim, o que eu quero dizer é que, por mais que a conselheira esteja lá pra ajudar, ela não conhece tudo a meu respeito (aliás, conhece nada). E, assim, prefiro assumir a responsabilidade do que eu fizer no curso em vez de, no fim, colocar a culpa na pobre senhora.

Com esse discurso de auto-afirmação na cabeça, me inscrevi no curso de fonética e de compreensão oral. No primeiro, porque, afinal, é um curso de prática oral, e eu fiquei com a impressão de que o meu sotaque era, digamos assim, poderoso; e no segundo, porque é um dos cursos obrigatórios, mas que eu fiquei feliz de pegar porque a gente, teoricamente, vai ser exposto a diversos sotaques de francófonos mundo afora.

Ainda assim, depois do trimestre passado, não posso dizer que estava muito IPI-IPI-URRAAA em relação a voltar às aulas. Minha esperança era que os cursos não fossem ruins e que eu conseguisse treinar mais o francês, nem que fosse batendo papo no corredor.



Compreensão Oral

Essa foi a primeira aula da sessão e, rapaz, que diferença! No trimestre passado, eu saí traumatizado da sala de aula; dessa vez, saí aliviado. Não por achar que a aula vai ser fácil, mas porque a professora não só manja dos paranauê como se mostrou totalmente aberta e receptiva. Ela não faz a linha professora amiga e descontraída, mas ela se esforça. É palpável a energia que ela dispende pra tentar deixar todo mundo à vontade. 

A turma também parece um pouco mais homogênea do que a das minhas aulas anteriores. Há pessoas que falam menos que eu, mas a maioria está mais ou menos no meu nível. Os alunos-estrela da sala são dois romenos. Ambos já estão aqui em Montreal há mais de dois anos. Não que o tempo aqui seja necessariamente proporcional à qualidade da desenvoltura em fazer biquinho: uma colombiana que senta do meu lado está aqui há cinco anos, diz que fala francês há três, e ainda tem não só um sotaque bem carregado como comete erros gerais na hora de falar. Mas fala, e se expressa bem. Ah, fora eu, não há brasileiros.

Na aula, basicamente a gente assiste a vídeos ou escuta o áudio de vários tipos de mídia, desde trechos de séries de TV francesas até entrevistas com o Seu Zé da Quitanda, que mora em Rimouski. Eu consigo entender uma boa parte da maioria do que é passado, mas vou te contar que quando são dois quebecos falando descontraidamente num bar com a música rolando e o povo falando em volta, dá vontade de voltar pra casinha, viu? Já teve entrevista com senegalês, pesquisa de opinião com idosos franceses, mas põe dois quebecos adolescentes pra cantar Frère Jacques e parece que você tá ouvindo Klingon.



Tivemos a primeira prova semana passada. Assistimos um vídeo de um programa que tinha dois convidados para falar sobre os prós e contras do inverno. Em seguida, tínhamos que resumir oralmente o que tinha acontecido no vídeo, identificando quem era a favor e quem era contra, com os respectivos argumentos. Parece simples, e até que é, mas os sotaques da apresentadora, dos entrevistados e dos convidados eram totalmente diferentes. Cada um vinha de um canto do mundo. Segundo, o vídeo não tinha nada tão óbvio quanto "então, Seu Jão, me diz aí três argumentos pró-inverno". Não, um começava a falar, outro respondia, um terceiro se metia, a apresentadora cortava pra remeter a um outro assunto ligado e daí voltava todo mundo pro ponto de partida. Não quero passar a impressão de que a prova era impossível; eu não acho que tenha ido lá muito bem, mas isso, basicamente, porque não estou com os ouvidos ainda tão afinados pro francês. Fiz o mesmo tipo de exercício em inglês na McGill, por exemplo, e lá não tive problema algum, simplesmente porque estou mais acostumado com o inglês, mesmo com sotaques diferentes. Então não tem outro remédio: é aumentar a frequência do que eu escuto em francês (atualmente, uma hora de vídeo e outra de áudio por dia) e dar tempo ao tempo.

Fonética

Já digo logo: disparado, a minha aula de francês favorita de todos os tempos! Fui meio sem saber o que esperar, e ficava imaginando diagramas da boca e garganta humanas, com indicações de onde colocar a língua, como fazer as cordas vocais subirem e como torcer as amígdalas até dar cãibra. Felizmente, a aula é muito, mas muito melhor que isso!

De cara, a professora já disse que a gente teria que se divertir na aula, e isso por uma razão muito simples: não tem como você entender de fato o que está falando errado e consertar se você não exagerar os sons. Isso dá origem a todo tipo de caras e bocas que vocês possam imaginar. De início, fiquei um pouco preocupado com essa abordagem Xou da Xuxa na aula, principalmente porque os alunos se sentiram tão à vontade que começaram a conversar e rir mesmo durante as explicações. Mas isso não tardaria a mudar. Mwahahaha!

Depois da primeira aula, que teve mais apresentação que conteúdo, cada aluno teve que fazer uma gravação de áudio lendo um texto que a professora escolheu. Ela avisou que seria bem rígida nessa avaliação, porque era pra dar uma ideia bem real e próxima de como um falante nativo percebe o sotaque e a pronúncia de um não-nativo. Então, ninguém devia se assustar se tirasse C ou D. Daí, com essa pouca pressão, lá foi o Doug fazer a gravação dele. Gravar não foi ruim: o ruim mesmo foi ter que ficar escutando minha própria voz e me dar conta que Carmen Miranda cantando com banana e abacaxi na cabeça soava mais francesa que eu. Enfim, não dava pra ficar lá no laboratório de línguas da universidade a noite toda, então teve uma hora que segurei na mão de Odin e fui. Ou melhor, cliquei em "envoyer". 

A professora tinha avisado que deixaria um comentário geral na página do nosso curso no sistema da universidade, e que entregaria uma cópia do texto com anotações mais detalhadas na aula seguinte. Só fui receber o meu comentário no dia da aula, mas valeu a pena a espera:



Gente, que alívio ler isso!!! Eu juro como estava pensando que ia ter que suar a língua, mas parece que vou conseguir levar a aula um pouco mais tranquilo! :D

Pensei que a professora, na verdade, tivesse feito um terrorzinho pra obrigar todo mundo a se esforçar na leitura, mas que ela fosse distribuir As e Bs no fim das contas. Mas me enganei: não sei a média da turma, mas vi um monte de C- nas folhas das pessoas que estavam mais próximas (daí a razão de todo mundo ter passado a rir menos e conversar menos fora de hora). A professora anunciou que só tinha dado um A. Como ainda não tinha decorado os nomes, ela perguntou quem era. Fiquei quieto de início porque aoooooonde... se eu já travo quando uma pessoa está me olhando, imagina com uma turma inteira olhando pra minha cara. Mas não teve jeito. Num outro momento, a professora me chamou pelo nome e, na frente da turma, falou sorrindo: "Ah, foi você que tirou A! Parabéns! Por que você  não falou nada quando falei que tinha sido o único A da turma?". Fiquei roxo de vergonha, tentei dar uma explicação furada que unia horóscopo com a atual situação política da Turquia, tudo isso em francês desconexo, mas a professora percebeu o meu constrangimento e voltou pra aula.

A aula, em si, consiste em fazer exercícios de conscientização (ou seja, saber, de fato, onde você está colocando a língua na hora de falar e descobrir porque não está saindo esse ou aquele som), tentar corrigir e fazer exercícios de leitura. Parece banal, mas é de uma ajuda inestimável! Estamos fazendo contraste de sons a cada aula: na primeira foi entre os sons /i/ (como em finir), /u/ (como o ou em tout) e /y/ (como o u em plu). Passamos para os diferentes tipos de "o", os diferentes tipos de "e" e por aí vai. Estou adorando e, além de corrigir palavras que eu pronunciava de forma menos distinta, ainda estou aprendendo o alfabeto fonético internacional, que é uma mão na roda na hora de fazer os exercícios (e descobrir como se lê essa ou aquela palavra em dicionários que possuem transcrição fonética).

Bom, é isso. Estou curtindo muito as duas aulas, então esse trimestre tem tudo pra ser mais leve (embora não menos trabalhoso) do que o anterior. Continuo com o objetivo de melhorar o francês, mais do que obter essa ou aquela nota, e se eu chegar ao fim da sessão melhor do que comecei, já terá valido muito a pena!

À bientôt!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

É oficial: eu preciso de álcool

Estou quase terminando o próximo post sobre as minhas aulas na Universidade de Montreal, mas essa eu tinha que vir aqui contar HOJE, no calor do momento: eu, preocupado como sempre em tentar melhorar meu francês, cheguei pra minha professora de fonética no intervalo da aula (um momento sempre mais informal) e disse:

—O que eu posso fazer pra diminuir meu sotaque? Quando escuto os francófonos falando, eu sei que não soo como eles. Mesmo quando termino uma frase sem tropeçar nas palavras, mesmo engolindo as mesmas sílabas e letras que eles engolem, algo não está saindo direito. O que eu devo fazer?

A professora parou um instante, olhou pra mim, franziu a testa e fixou os olhos nos meus. Deu uns três segundos e ela pousou a mão no meu ombro:

—Doug — disse ela por fim — Acho que o que você precisa é começar a beber.

Não sei qual a cara que fiz, mas ela não perdeu tempo:

—Começa com duas caipirinhas que você vai ver.

Gente, tem como não gostar dessa professora? Acho que caso com ela até o meio do ano!

À bientôt!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Vídeos

Volta e meia recebo e-mails com pedidos para eu postar mais vídeos e fotos. O problema é que eu sou um tanto lesado: ao contrário da maioria das pessoas, para quem o ato de sacar o celular e apertar o botãozinho da máquina fotográfica é o caminho mais óbvio e natural após exclamar algo do tipo "nossa, olha que legal aquilo!", eu só vou me dar conta que poderia ter batido uma foto ou feito um vídeo quando já estou em casa, fazendo algo nada a ver, tipo, assistindo Agente Carter.

Mas eis que, semana passada, milagrosamente, num dia em que a temperatura estava por volta do 0ºC — permitindo, portanto, que eu tirasse as luvas sem gritar feito um garoto em idade pré-escolar —, vi a neve em volta de mim e pensei: "opa, por que não fazer um vídeo pra mostrar pro pessoal lá em casa?". Então, fiz três. Curtinhos, e só pra mostrar a neve. Perdão pelo treme-treme constante, mas eu estava andando pra UdeM e ainda tenho muito feijão e arroz pra comer até virar cameraman.


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À bientôt!