quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Ainda sobre a garganta

Passando para atualizar o episódio sobre a consulta médica. Depois de ficar (positivamente) impressionado pelo atendimento na minha primeira consulta médica nas Terras do Norte, tive que tirar alguns pontinhos no quesito "atenção ao paciente", já que não me ligaram de volta no prazo dado.

Tá certo que eu não estava morrendo, como comentei no último post, mas, ainda assim, estava esperando (em teoria; já, já explico o porquê) o diagnóstico para comprar a medicação e tomar.  Haviam me dado prazo de quarenta e oito horas, forçando um pouco depois para setenta e duas. Quarenta e oito horas daria na sexta; setenta e duas horas, no sábado, e a clínica não abre no fim de semana. Então, se a dor tivesse aumentado ou se outros sintomas tivessem surgido, eu ficaria amargando até a semana seguinte. Não ligaram até sexta à tarde, mas achei que ligariam na segunda. Nada. Terça? Também não. Até que, na quarta, eu mesmo peguei o telefone e liguei. Fui transferido para a enfermeira que, sem tocar na questão do prazo, praticamente leu o resultado do exame pra mim.

—Cultura de garganta... tá, tá, tá... material colhido em tá, tá, tá... hmm... ah, aqui! Ah, não, não é... tá, tá, tá... Ok, então é o seguinte: é bactéria mesmo, só que não é a tipo A, que é a mais comum, é a tipo C.

—E é pior? Posso tomar o antibiótico?

Ela fez silêncio por alguns segundos, o tipo da coisa que dá origem àquele pensamento de que você  só tem mais algumas horas de vida, e daí disse:

—Eu não sei dizer se o antibiótico serve para essa bactéria. Façamos assim: vou ligar para a médica agora, o senhor aguarda na linha e eu passo o que ela me falar, certo?

Eu disse que tudo bem, agradeci e esperei, mas não adiantou. Ela voltou pouco depois, dizendo que o telefone da médica estava ocupado e que me ligaria de volta dali a cinco minutos. Passaram-se cinco minutos, dez, quinze, meia hora, uma hora, duas horas, quatro... eu já estava vivendo a vida loca de novo quando, pouco depois das cinco da tarde, a própria médica me ligou. Perguntou como eu estava me sentindo, meu coraçãozinho amargurado quis dizer "estou morrendo, e a culpa é sua, que me deixou uma semana esperando pelo resultado de um exame". Mas falei que estava tudo bem. Ela foi mais específica então e perguntou sobre os sintomas, e eu disse que tudo havia desaparecido, exceto a dor na garganta, embora estivesse bem melhor. Ela então falou que o exame tinha retornado positivo para bactéria e que eu podia tomar o antibiótico, não só por ainda estar sentindo dor, mas também para termos certeza de que a bactéria foi pro saco. Falei então que ia comprar, agradeci e desliguei.

Só que aqui vai uma confissão: eu não esperei esse tempo todo pra comprar o remédio. Não tentem isso em casa sem a supervisão de um adulto, mas eu tinha 99% de certeza de que a minha infecção de garganta era bacteriana, ou, pelo menos, que não era uma infecção viral comum, que eu tinha bastante no Brasil. Então, quando não me ligaram na sexta, eu saí e comprei o antibiótico, porque não estava a fim de ficar sei lá quantos dias com dor de garganta. Comecei a tomar no sábado, seguindo a prescrição direitinho. Quando a médica me ligou, eu já estava no último dia do tratamento. Acho que até por isso só tomei a atitude de pegar o telefone e ligar depois de vários dias. Afinal, já estava medicado, os sintomas estavam sumindo, então não tive pressa. Mas que achei que foi um tanto descaso com a minha bactéria tipo C, isso achei.

Minha primeira vez na farmácia para comprar remédio controlado (antibiótico não é vendido sem receita aqui) foi mais uma pequena mostra da cultura cotidiana por aqui. Fui ao balcão dos remédios, apresentei minha receita e a atendente fez um cadastro usando minha carteira da Assurance Maladie e fazendo algumas perguntas (endereço, alergias a medicamentos, etc). Ela reteve a receita e a carteirinha e falou que eu seria atendido em um outro guichê, do outro lado do balcão, e que havia três pessoas na minha frente. Aguardei até que o farmacêutico me chamasse pelo nome. Ele perguntou rapidamente sobre o resultado do exame (eu disse que tinha dado positivo para infecção bacteriana. Eu estava lendo o futuro. Me processem), ele explicou o funcionamento do medicamento, possíveis efeitos colaterais, repetiu as instruções para o tratamento e perguntou se eu tinha dúvidas. Diante da negativa, passou a peteca para a atendente, que me devolveu minha carteirinha (mas não a receita), me deu o remédio e cobrou o valor. 

Final da história: estou com a garganta novinha em folha, conheci um pouco do atendimento nas clínicas e farmácias daqui, e a experiência foi positiva, no geral. Por mais que eu ache que a clínica devia ter me ligado (afinal, disseram que iam ligar), eu poderia ter ligado lá na sexta ou, no mais tardar, na segunda pra saber se já tinham o resultado. Não acho que eles teriam feito isso se o caso fosse mais sério, mas aí é só achismo meu. De qualquer forma, o bom é que teve final feliz! 

À bientôt!

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Lá vai o imigrante pra clínica sans rendez-vous

Durei bastante sem precisar fazer visita a um médico aqui no Quebec. Mas, como ninguém é de ferro (e fator de cura ainda é coisa de histórias em quadrinhos), chegou o momento. 

Há uns dias, acordei com a garganta e a cabeça doendo, e também com um pouco de febre. Achei que pudesse ser uma gripe ou algo do tipo (eu tinha setecentos e quarenta e nove resfriados por ano no Brasil, além de crises de alergia e sinusite) e tomei a medicação que costumo tomar pra isso. Apesar de uma melhora nos sintomas, a garganta não ficou 100%. Aí abri o bocão na frente do espelho e logo ficou bem evidente que não era algo que ia sumir só com pensamento positivo e Advil.




Apesar de tudo, não estava morrendo, então descartei ir a um hospital. Recomenda-se deixar o hospital só para as urgências, porque o tempo de espera é grande e, se você não está morrendo, todo mundo que estiver mais para o lado de lá do que o de cá vai passando na sua frente. Fiz uma pesquisa na Internet para encontrar clínicas sans rendez-vous, ou seja, aquelas nas quais você vai sem ter marcado consulta. Achei uma que tinha uma avaliação melhorzinha por parte dos usuários e que ficava a uns 15 minutos de casa. De novo, a recomendação é para que se chegue cedo nessas clínicas, porque elas costumam lotar rápido. Embora já estivesse meio "tarde" (eram 9:40 quando saí de casa), resolvi arriscar. Foi bom pra conhecer o percurso e ver que o lance de chegar cedo realmente conta: quando achei a clínica, uma plaquinha na frente já anunciava: "Le sans rendez-vous est complet" (ou, em bom português, "cabô por hoje").

Achei que nem valia a pena sair à caça de outra clínica naquela hora, já que a situação provavelmente seria a mesma. E, de novo, eu não estava morrendo. Resolvi então acordar com as galinhas no dia seguinte (ou com os operários da construção na frente do meu prédio, o que dá praticamente na mesma. O povo madruga) e tentar a sorte de novo. A clínica abre às 7:30, e às 7:29 lá estava eu, o imigrante, em pé, na frente da porta, acompanhado apenas por uma mulher que estava agachada olhando o celular. "Tem gente realmente pior que eu", pensei. Logo apareceram outras pessoas e se formou uma pequena fila na frente da clínica. Às 7:33, a recepcionista abriu as portas. Fui o terceiro a ser atendido (deixei uma senhora, que estava lá antes de mim, mas na frente da porta errada, passar na minha frente). Quando chegou minha vez, ensaiei pra falar inglês, mas foi o francês que saiu. Falei que era minha primeira vez e que gostaria de ver um médico, mas não tinha hora marcada. Ela, sem sorrisos, mas profissional, pegou minha carteirinha da Assurance Maladie, fez um cadastro rápido (telefone e endereço) e me devolveu a carteirinha com  uma etiqueta com o número do meu dossiê. Aí a meia surpresa (porque eu já tinha lido casos assim): embora seja sem consulta marcada, o sans rendez-vous lá funciona com hora marcada. Ela pediu para eu voltar às 15 horas para ser atendido. E lá o imigrante foi cuidar da vida, porque ficar sete horas esperando lá, só se não tivesse mais nada pra fazer, néam?



Voltei à clínica às 14:50. Falei para a recepcionista (que era diferente da pessoa que me atendeu pela manhã) que tinha um horário sans rendez-vous (até agora acho isso meio insólito) às 15. Ela checou no computador e pediu para eu aguardar na sala de espera. Ambas as recepcionistas foram profissionais, mas não exatamente simpáticas. Raramente olharam para a minha cara e tinham aquele jeito de falar e agir de quem já conhece a rotina ali de trás pra frente, então não há muito espaço para sair do roteiro. Fui me sentar e só então prestei atenção de verdade na clínica: gente, juro que eu tinha a impressão de estar na sala de espera de algum dermatologista pra fazer limpeza da cútis. Poltronas, tapetes, quadros informativos, tudo tinindo de limpo e com cara de novo. Eu só havia entrado em uma clínica aqui antes, quando acompanhei o amigo que me hospedou num dia em que ele acordou não se sentindo bem, e já achei o lugar onde ele foi com cara de clínica privada. Essa na qual eu fui (Centre Médical Square Victoria) conseguiu ter aparência ainda melhor. Não faço ideia se todas as clínicas são desse tipo, mas essa me deu uma ótima impressão.

Não deu nem cinco minutos que eu estava sentado, uma enfermeira me chamou e me levou para uma sala de triagem. Pediu para eu sentar e descrever o que estava sentindo. Ela digitava todas as informações em um computador, fazia uma pergunta aqui, outra ali e, ao final, aferiu minha pressão e a minha temperatura. Em seguida, pediu para eu voltar para a sala e aguardar. Dez minutos depois, a médica me chamou. Extremamente cordial, pediu para eu me sentar e já falou: "A garganta está incomodando muito?" — sinal de que o meu prontuário foi eletronicamente da sala de triagem para o computador dela. Relatei novamente os problemas, ela me fez perguntas e me examinou. No fim, disse que estava em dúvida se eu estava com infecção viral ou bacteriana, porque eu tinha sintomas de ambas. Eu aproveitei e disse que eu tinha um histórico de infecções virais e que, por isso mesmo, achava que essa não era. Ela perguntou em quanto tempo eu me curava normalmente das virais e eu falei que os sintomas costumavam desaparecer completamente entre de 3 a 4 dias após a primeira manifestação, e eu tomava apenas medicação para aliviar os sintomas. A médica disse então que era provável que fosse bacteriana, mas que só com uma cultura pra saber. Ela informou que a cultura poderia ser feita ali mesmo, mas, como a clínica não realiza as análises no local, eu teria que pagar uma taxa para o transporte e análise do material. Eu disse que tudo bem.

—E eles mandam o resultado do exame direto pra cá? — perguntei.

—Mandam. Fica pronto em até 48 horas — respondeu a médica.

—E eu tenho que marcar agora pra voltar?

A médica parou, me olhou e franziu as sobrancelhas.

—Voltar?

—É — eu falei, achando que tivesse falado alguma bobagem em francês — Quer dizer, eu vou ter que voltar aqui pra saber o resultado e saber a medicação, né? Então já deixo marcado agora? Ou como funciona?

—Não, o senhor não precisa voltar — ela respondeu, meio incrédula — A não ser, claro, que não apresente melhoras. Eu vou lhe dar uma receita de antibiótico e o senhor vai ficar com ela. Quando o laboratório mandar o resultado da cultura, nós ligamos para o senhor para confirmar o diagnóstico e, se for realmente bactéria, o senhor pode começar a tomar o antibiótico. Não há necessidade de marcar nova consulta.

Acho que fiquei um tempinho com a boca aberta, mas consegui dar aquele sorriso meio sem graça e disse que não sabia, que era a primeira vez que eu estava me consultando com um médico no Quebec. Aí ela riu também, como quem diz "ah, agora eu entendi" e me explicou o funcionamento da clínica em linhas gerais, mas deixou claro que outras clínicas fazem certas coisas de maneira diferente. Achei essa médica bastante atenciosa e cordial. Eu, pra variar, estava com receio de ter dificuldade para entender e me fazer entender, mas foi bem mais tranquilo do que pensei, tanto pela simplicidade do atendimento como pelo nível linguístico necessário para interagir com o pessoal lá. Foi um alívio e tanto!

Agradeci e voltei à recepção, onde a secretária profissional fez a parte burocrática do pedido de cultura (incluindo a cobrança: 35 moedas de ouro canadenses) e me encaminhou para uma moça. Esta, por sua vez, me levou novamente para a sala de triagem, realizou a coleta em 2,47 segundos e me disse novamente que eles me ligariam para informar o resultado. Agradeci mais uma vez e, após aproximadamente 40 minutos de permanência na clínica, fui embora.

Posso dizer que fiquei bastante satisfeito — e surpreso! — com o atendimento geral. Já li tanta história de terror por aí que eu vivia agradecendo aos céus o fato de não ter precisado de atendimento médico de nenhum tipo até então. E agradeço mais ainda por, agora que precisei, ter sido algo simples e ter conseguido um bom atendimento. Vale lembrar que essa foi UMA experiência de UMA pessoa (este que vos escreve) em UMA clínica em UMA cidade do Canadá, para tratar de UM problema simples com UMA médica específica. Ou seja, você aí que está lendo, não tome esse relato como um exemplo da "saúde pública canadense" ou coisa do tipo. Pode ser que a média geral seja assim mesmo, ou pode ser que eu tenha tido sorte. Enfim, ainda assim, se você já está por aqui, pode valer a pena ir a essa clínica se você já não tiver uma de que goste. Ah, e se tiver passado por experiências semelhantes ou diferentes, nessa ou em outras clínicas ou hospitais, fique à vontade para colocar nos comentários. É o tipo de informação que vale a pena repassar :)

À bientôt!

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O imigrante "sabão"

Quem já mora há algum tempo fora sabe: existem vários tipos de imigrantes por aí. Tem o deslumbrado, o reclamão, o chorão, o ensandecido, o mil-sorrisos, o medroso, o amigão, o batalhador... mas hoje vou focar num tipo que é relativamente comum (e irritante): o imigrante "sabão".

(Antes que alguém deduza que o post terá algo a ver com limpeza, explico: "sabão", no caso, é uma singela homenagem a uma história da Turma da Mônica que eu li quando moleque. Nela, o pessoal da Turma chamava de "sabão" alguém que sabia muito. Bem linguagem de criança: o cara sabe muito, então, é um "sabão".)




Quando cheguei aqui, recebi ajuda de várias formas. Teve o meu amigo que me hospedou por um mês e meio até eu encontrar meu apartamento; teve conhecidos que me deram dicas sobre onde ir para encontrar certas coisas de que precisava; e alguns que me contaram coisas que aconteceram com eles para que eu ficasse atento a certas questões aqui. Pra quem está chegando, ajuda é sempre bem-vinda. Aliás, não só pra quem está chegando. Você pode estar vivendo há anos fora; se alguém te fala algo sobre a cidade, um serviço ou produto que você não conhecia, é sempre bom. Melhor ainda quando é num bate-papo descontraído.

O problema é quando uma pessoa acredita ter a chave para o fim de todos os problemas que te afligem. Ou às vezes ela nem tem, mas ela faz questão de contar como ela evitou esses mesmos problemas ou situações pelas quais você está passando por ser mais esperta, mais bem informada, mais popular, ter mais dinheiro, mais amigos ou conhecidos... enfim, ser melhor que você. E não só melhor que você. Melhor que todos os outros imigrantes. O imigrante "sabão" é assim: tudo que ele fez e faz é melhor do que o que todo mundo fez e faz, não importa em que área da vida.

Por exemplo: estava eu num café um tempo atrás com alguns imigrantes. Uma das pessoas do grupo falou sobre a dificuldade que estava tendo para receber uma autorização para trabalhar. O cônjuge dela veio com permissão de estudos e ela deveria ter recebido a autorização para trabalhar, mas, por algum motivo que ela não quis expor para o resto de nós (afinal, somos apenas "conhecidos"), estava demorando a sair e ela estava preocupada. Enfim, era apenas uma pessoa passando por uma situação difícil e buscando apoio e compreensão das pessoas em volta. Mas, dentre essas pessoas, estava um imigrante "sabão". A pobre moça teve que ouvir que ela devia ter lido mais a respeito do visto e se preparado melhor, porque imigração não é brincadeira. Que há vários casos de imigrantes que vem no oba-oba e que acabam se dando muito mal. Que há órgãos que podem ajudar a ver o que está acontecendo, é só procurar no Google.




E, como todo imigrante "sabão", ele não pode simplesmente orientar: ele tem que mostrar que ele sabe e que o que ele fez é o melhor. Depois da "ajuda", ele teve que narrar como, desde antes de sair do país dele, ele contatou várias pessoas aqui em Montreal para saber direitinho de todos os direitos e deveres dele. Não se fiou apenas no que leu nos sites oficiais e nem em blogues, que são cheios de gente mal informada. Ele leu, trocou e-mails, imprimiu manuais, telefonou, fez estudo comparativo de casos, de modo a não poder ser contestado em nenhum momento. Em suma, ele fez tudo e se deu bem; a outra fez pouco e, por isso, estava se dando mal. Azar o dela. Agora aguenta. 

Num outro lugar, uma pessoa perguntou qual o seguro residencial que as pessoas do grupo haviam contratado. Uma imigrante "sabona", em vez de responder a pergunta simplesmente, disse

—Olha, é obrigatório ter seguro. Se você não tiver, você pode ser responsabilizado criminalmente se o fogo começar na sua casa. Se você não tem, tem que correr pra fazer. Acho que pode até ter problemas para que te aceitem se você estiver morando há muito tempo sem seguro, porque aqui eles levam a sério e alguém que não tem seguro levanta suspeitas. Eu, quando cheguei, encontrei uma corretora ma-ra-vi-lho-sa, que me orientou em tudo, me explicou todos os detalhes e, graças aos céus, estou protegida desde o primeiro dia. Agora que tenho uma casa, então, durmo tranquila sabendo que não corro riscos.




Obrigado pelo texto de comercial. Mas responder a pergunta, que é bom, nada. Qual o seguro você contratou? Foi de banco? De seguradora? E a corretora ma-ra-vi-lho-sa, cadê o número, o contato, alguma coisa? E detalhe: nem tudo que ela falou procede.

Mas o imigrante "sabão" é assim. Se você tem conta no banco X, ele tem conta no banco Y e enumera todas as vantagens que ele recebe por ser cliente do banco e que você, como cliente do banco X, não tem. Se você faz transferência usando o método W, ele dá risada porque esse método cobra uma taxa de serviço absurda. O método que ele usa (que ele ou não revela, ou só revela depois do discurso de vitória, e isso se alguém perguntar de novo) faz com que ele economize muito mais que todas as outras pessoas e alienígenas do universo. Se você achou caro o pacote de açúcar que comprou no supermercado da esquina, ele põe na ponta do lápis quão pouco ele gasta com compras do mês — e provavelmente comendo mais e melhor que você. Se você quer fazer um curso de inglês e não sabe bem onde procurar, o imigrante "sabão" já fez vários, de "the book is on the table" até "how to hold your shit together when you are lecturing about quantum mechanics", sempre com excelentes professores e resultados excepcionais. Se você gosta de sorvete de morango, ele já provou o melhor sorvete de morango de Montreal, trazido diretamente de Nárnia, e conhece o dono da fábrica. Às vezes, ele está aqui só há um pouco mais de tempo que você, mas pode confiar: ele já viveu muito mais e já é "da terrinha", enquanto você, pobre mortal, ainda está lutando para decorar o nome da estação de metrô mais próxima da sua casa.

O que nutre esse comportamento, acredito eu, não é só uma simples vontade de aparecer: é a necessidade de competir, de se comparar com os outros e se sair vencedor. Muitos imigrantes veem sua nova vida aqui como uma espécie de tarefa que precisa produzir frutos grandes, brilhantes, lustrosos e abundantes para serem colocados na vitrine. Aliás, é só ver como a maioria dos imigrantes (e dos que sonham em imigrar, mas ainda não conseguiram) veem o retorno de alguém ao seu país de origem como uma derrota. "Ué, voltou? Ih, coitado(a), foi pro Canadá achando que ia virar barão e se deu mal. Agora vai ter que se virar no Brasilzão/Chilezão/Marrocão/Nepalzão". Poucos param pra pensar que, na verdade, desconhecem as razões que levam as pessoas a voltar. Ainda assim, a volta quase sempre é encarada como derrota, independente dos motivos, como se anos passados fora do país de origem fossem desprezíveis só porque a pessoa "não ficou pra sempre". Daí a necessidade (imaginária, mas incorporada por quase todos como ossos do ofício de imigrante) de ter que mostrar que está bem no novo país. Há quase uma obrigação pessoal de relatar constantemente tudo de bom que está ocorrendo, como as coisas são melhores do que se esperava, como você está vivendo o "sonho" (não gosto dessa palavra nesse sentido, mas explico isso outra hora). É uma cobrança, provavelmente muito mais interna do que externa. E essa cobrança leva aos "sabões", que parecem sentir que precisam se comparar o tempo todo com quem está à sua volta, e que se sentem exultantes quando percebem que sua história é "melhor" que a dos outros.

Enfim, os imigrantes "sabões" estão por aí, e é preciso lidar com eles. O melhor, na minha opinião, é só escutar cordialmente e, assim que ele fechar a boca, mudar o rumo da conversa. Eles detestam não estar "instruindo" as pessoas à sua volta, então, quanto menos você ficar impressionado com a narrativa deles, melhor. Só tomem cuidado para não se tornarem um deles.

À bientôt!

sábado, 6 de agosto de 2016

E a minha resposta é...

... que eu não vou encarar a McGill.

Não tomei essa decisão feliz e contente. Durante um bom tempo, eu acalentei a possibilidade de voltar a estudar, fazer um outro bacharelado e, assim, tentar encontrar alguma coisa que me interessasse o suficiente para que eu quisesse correr atrás. Namorei alguns cursos da McGill e de outras universidades ao longo dos últimos anos, e fiquei me imaginando voltando a estudar, obtendo um diploma universitário daqui do Quebec e começando uma nova profissão aqui. Então, apesar de a vida aqui ter me feito pensar menos em fazer faculdade, dá pra imaginar que, além da surpresa de ter sido aceito na McGill, eu fiquei muito animado.

Só que, parando pra pensar depois da euforia, comecei a considerar as coisas. Eu entraria lá sem fazer muita ideia do que estudar e em que me formar. Começar um curso universitário não sabendo o que você quer fazer não me parece lá uma decisão muito acertada, ainda mais levando-se em conta que eu precisaria fazer uma dívida com o governo para poder bancar os estudos, mesmo que parcialmente. Em seguida, tem o fato de que um diploma na área de Humanas não é exatamente, digamos assim, extremamente requisitado no mercado de trabalho. Suponhamos que eu saia com um diploma em História, Literatura Inglesa ou Filosofia. No mercado de hoje, o que se faz com isso? Até mesmo para dar aulas eu precisaria de Mestrado e Doutorado, o que implicaria passar mais uns seis ou sete anos estudando (e lá vai dívida) para desembarcar num mercado acadêmico que está bem saturado, de acordo com tudo que li a respeito.

E, para finalizar, tem a questão da idade. Não, não é que eu ache que 36 anos é uma idade avançada para se aprender coisas novas (=tô véio pra essa bagaça). Eu nem acho que exista idade limite pra se aprender nada, desde que você esteja querendo aprender. Mas a questão é o mercado novamente: ainda que eu saísse da universidade em quatro anos (supondo-se que eu realmente desse conta de fazer tudo no tempo previsto), eu chegaria ao mercado com 40 anos e sem experiência profissional relevante (porque os empregos de verão que eu provavelmente pegaria não são lá um grande divisor de águas pra ninguém) e com um diploma daqui, mas em uma área pffff. Os canadenses podem ser bem mais abertos em relação ao fator idade, mas, como um dos meus amigos quebecos colocou na nossa última conversa, não é porque são mais abertos que vão escolher quem tem mais idade em detrimento de quem tem mais experiência.

No fim das contas, depois de pensar bastante, acho que embarcar nessa seria extremamente gratificante do ponto de vista pessoal (sou nerd, gente, gosto de estudar), mas uma jogada não muito boa do ponto de vista de profissão e carreira. Se eu curtisse muito uma área específica, fosse apaixonado por curso, ainda talvez valesse a pena correr o risco. Mas entrar às cegas na universidade torcendo para que eu encontre alguma coisa que me interesse e que me leve a uma carreira (e ainda criando dívida no processo) talvez seja forçar um pouco a barra.

Então é isso. Apesar de meu raciocínio ser esse, ainda não consegui ir lá no sistema da McGill e clicar em "decline". Tenho só mais dois ou três dias de prazo, mas acho que essa decisão não vai mudar. Em algum lugar, espero que alguém que está na lista de espera da McGill fique feliz :)

À bientôt!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Entrei na McGill! :) (2)

Eu não consigo acreditar até agora, mas parece que é pra valer: entrei na McGill (de novo), e dessa vez a coisa ficou séria!!



Mas eu sei que uma parte eu não contei: ano passado, depois de terminar o curso de inglês da McGill, tive que começar a pensar no que fazer da vida. É um assunto extremamente inquietante pra mim, porque eu tenho essa ideia de que gostaria de ter uma carreira de fato (embora hoje eu saiba muito bem que isso não é necessário), mas, ao mesmo tempo, não tenho muita ideia do que gostaria de fazer. Depois do curso de inglês, eu já havia resolvido que prosseguiria parcialmente nos estudos fazendo o Certificado de Francês da Universidade de Montreal; mas e aí? O que fazer "de verdade", como trabalho? Ou melhor, como profissão, como carreira, a longo prazo (já que empregos sempre existem nos classificados)? Nada de novo no fronte. Uma coisa me interessa aqui, outra chama a minha atenção ali, mas nada que faça os olhos brilharem. E aí?

No meio da indecisão, e como eu nunca gostei de ficar parado esperando o raio divino (embora tenha tentado mais de uma vez), resolvi fazer a inscrição pra fazer um bacharelado na McGill. Bacharelado em quê? Não sabia; e o formulário de inscrição só pedia pra eu escolher uma das Faculties ou Schools, então não precisava resolver ali na hora. Escolhi a Faculdade de Artes e mandei ver.

Isso foi em outubro do ano passado. De lá pra cá, houve momentos em que fiquei extremamente ansioso e momentos em que eu dei risada do que tinha feito. Afinal de contas, já imaginou? Eu, com 36 anos, fazendo bacharelado em (interrogação) na McGill, tida como uma das melhores do Canadá? Tendo que fazer trabalho em grupo com a molecada de 20 anos, estudar pra prova, fazer empréstimo junto ao governo pra bancar os estudos? Me formar perto dos 40 anos, provavelmente em algo que não tem muita perspectiva de emprego, pra só então voltar ao mercado de trabalho (isso se não precisar de um Mestrado ou Doutorado)? Faz-me rir, né? De qualquer forma, nunca pensei que minhas chances fossem muito altas; não fiz inscrição para nenhuma outra universidade, talvez porque, em parte, eu quisesse ouvir um "não"; o "não" da McGill me daria um direcionamento, nem que fosse o de arrumar um emprego pra pagar as contas.

Mas aí, abro o sistema de admissão deles — de forma automática como vinha fazendo desde maio — e, na linha de status, em vez do "Reviewed - Decision Pending" que eu sempre via, tava lá um "Admitted". Juro que o coração parou. Foi um susto ENORME, posso garantir. Rolei a tela pra cima e pra baixo tentando encontrar os dizeres "Pegadinha do Malandro!!!", mas não tinha. O que tinha era o link para a carta formal de aceitação.

E agora, José?

Eu tô num misto de alegria, ansiedade, medo, empolgação, dúvida e angústia. Ao mesmo tempo que penso que já chutei o balde-mor deixando meu emprego e meu país para vir aqui ver "de qualé" e que, por isso mesmo, embarcar nessa experiência não seria pior, penso também que talvez seja tapar o sol com a peneira... que talvez, por não ter exatamente um plano eu devesse simplesmente deixar pra lá isso e tratar de arrumar trabalho antes que meu prazo de validade expire.

O que você faria?

À bientôt!

domingo, 10 de julho de 2016

Renovação da Assurance Maladie

Quando cheguei e fiz a minha inscrição na Régie de l'Assurance Maladie (o sistema de saúde pública do Quebec), notei que a carteirinha que chegou dois meses depois tinha validade de um ano. Com base nisso, achei que todo ano eles me enviariam uma carteirinha nova, mais ou menos como acontecia com meu plano de saúde no Brasil. Mas acontece que é um pouquinho diferente.

Primeiro, uns dois meses antes de a minha carteirinha vencer, eles me mandaram uma carta falando sobre o vencimento próximo e dizendo que eu precisava comprovar a minha permanência no Quebec para poder renovar a carteirinha. Eu já tinha lido (e eles mesmo me falaram quando fui lá pela primeira vez) que eu deveria informar a Régie se eu ficasse fora do Quebec por mais de seis meses num dado ano. Logo, como não fiquei, achei que não fosse precisar fazer nada — mas achismo meu mesmo, porque se você ler a documentação no site, está tudo explicado.



Enfim, junto com a carta, eles enviam um formulário de renovação, que possui um campo para informar mudança de endereço, se for o caso. Eles listam também quais documentos são aceitos para comprovar a permanência do Quebec, e tem pra quase todos os gostos: de recibo de pagamento pelo empregador a fatura do cartão de crédito com evidência de gastos feitos no Quebec, passando por histórico escolar de universidade. Então, apesar da minha surpresa em ter que comprovar, não teve muito problema: juntei a papelada (só cópia simples), coloquei num envelope e mandei. O único pensamento preguiçoso foi o de pensar em ter que fazer isso todos os anos.




Mas aí, a outra surpresa: quando a carteirinha nova chegou, a primeira coisa que vi foi a validade. Dessa vez, 2020! Acho que é só mesmo para tentar, dentre outras coisas, evitar prejuízo do pessoal que chega aqui no Quebec, faz o landing e corre pra outra província no dia seguinte. Ah, e para quem está em vias de renovar a carteirinha, uma dica: façam a renovação assim que a carta da Régie chegar, porque pode levar de um a dois meses pra receber a nova (e você pode ficar descoberto nesse período).

À bientôt!

terça-feira, 21 de junho de 2016

O Curso de Inglês da McGill - Epílogo II

Essa me pegou totalmente desprevenido.

Certo dia, resolvi ir ao supermercado. Calcei o tênis, peguei minha mochila e só quando já estava prontinho para a guerra foi que vi que havia deixado o celular em cima da cama. Bateu a preguiça de tirar parte do traje de combate só para ir pegar o celular, então fui sem mesmo. O supermercado fica quase do lado de casa, então achei que, só dessa vez, ele ia ficar esperando eu voltar.

Fui, voltei e, como Murphy é Murphy, tinha uma ligação perdida. Número desconhecido. "Telemarketing", pensei, "ou então alguém que discou o número errado". Se fosse a segunda opção, logo eu provavelmente receberia uma mensagem de voz com a pessoa se desculpando (pois é, já aconteceu mais de uma vez.)

Comecei a guardar as coisas e o celular deu sinal de vida indicando mensagem de voz. "Ahá", pensei, "taí. Número errado". Coloquei pra ouvir enquanto guardava os limões, mas parei praticamente assim que a mensagem começou:

"Oi, Doug, aqui é a Fulana da McGill. Estou ligando a respeito do seu prêmio. Por favor, entre em contato, pois preciso saber como você vai querer fazer. Estarei até as 5 da tarde aqui; se não puder falar, estarei de volta na terça-feira. Meu número é..."

Prêmio? A primeira coisa que veio à minha cabeça é que era algum golpe (sim, também tem por aqui). Eu ia ligar, eles iam dizer que eu ganhei, sei lá, uma barra de ouro, mas que precisam do número do meu cartão de crédito para confirmar a identidade. Ou qualquer outra bizarrice do gênero. Porém, o fato de a Fulana falar meu nome e falar que era da McGill me atiçou. Ligar de volta era praticamente perda de tempo porque já havia passado das 5, mas tentei. Ninguém atendeu. Daí fiquei pensando que era algum engano, porque eu não estava participando de concurso algum. Não dei meu nome pra concorrer a nada, então, se a ligação tinha vindo de fato da McGill, com certeza era algum engano.

Pois bem, no dia seguinte, fui pegar a correspondência e — tcham, tcham! — tinha uma cartinha da McGill. Abri, li, e quase caí pra trás. Transcrevo:

"Dear Mr. Doug,

Please accept my sincere congratulations on being selected as the recipient of the [nome do prêmio] for the 2015/2016 academic year.

You are now a member of an elite group of learners - those who are prizewinners for the year's most outstanding academic record in their program or course. For most students enrolled in programs and courses offered by the School, pursuing further education must be balanced with many other commitments, making this achievement all the more significant. You should be proud of your achievement as we are proud of you.

The amount of [valor do prêmio] has been deposited in your bank account according to the information we have on file.

Sincerely,"

Fala sério!!!! Eu nem sabia que esse prêmio existia!! Foi uma surpresa sensacional! E — descobri na terça seguinte — foi por isso que a tia da McGill ligou: eu não tinha incluído informações bancárias no meu cadastro e ela queria saber se mandava o cheque pelo correio ou se eu iria lá buscar. Oh, Canada!!

Lembrei que o site da McGill dá a opção da gente conferir o histórico não-oficial para ver as notas e tá bonito, viu? Nota "A" nos dois módulos que fiz, mais "Lista de Honra do Reitor" e, agora, "Ganhador do Prêmio X"! Filma eu, Galvão!



À bientôt!