terça-feira, 16 de agosto de 2016

O imigrante "sabão"

Quem já mora há algum tempo fora sabe: existem vários tipos de imigrantes por aí. Tem o deslumbrado, o reclamão, o chorão, o ensandecido, o mil-sorrisos, o medroso, o amigão, o batalhador... mas hoje vou focar num tipo que é relativamente comum (e irritante): o imigrante "sabão".

(Antes que alguém deduza que o post terá algo a ver com limpeza, explico: "sabão", no caso, é uma singela homenagem a uma história da Turma da Mônica que eu li quando moleque. Nela, o pessoal da Turma chamava de "sabão" alguém que sabia muito. Bem linguagem de criança: o cara sabe muito, então, é um "sabão".)




Quando cheguei aqui, recebi ajuda de várias formas. Teve o meu amigo que me hospedou por um mês e meio até eu encontrar meu apartamento; teve conhecidos que me deram dicas sobre onde ir para encontrar certas coisas de que precisava; e alguns que me contaram coisas que aconteceram com eles para que eu ficasse atento a certas questões aqui. Pra quem está chegando, ajuda é sempre bem-vinda. Aliás, não só pra quem está chegando. Você pode estar vivendo há anos fora; se alguém te fala algo sobre a cidade, um serviço ou produto que você não conhecia, é sempre bom. Melhor ainda quando é num bate-papo descontraído.

O problema é quando uma pessoa acredita ter a chave para o fim de todos os problemas que te afligem. Ou às vezes ela nem tem, mas ela faz questão de contar como ela evitou esses mesmos problemas ou situações pelas quais você está passando por ser mais esperta, mais bem informada, mais popular, ter mais dinheiro, mais amigos ou conhecidos... enfim, ser melhor que você. E não só melhor que você. Melhor que todos os outros imigrantes. O imigrante "sabão" é assim: tudo que ele fez e faz é melhor do que o que todo mundo fez e faz, não importa em que área da vida.

Por exemplo: estava eu num café um tempo atrás com alguns imigrantes. Uma das pessoas do grupo falou sobre a dificuldade que estava tendo para receber uma autorização para trabalhar. O cônjuge dela veio com permissão de estudos e ela deveria ter recebido a autorização para trabalhar, mas, por algum motivo que ela não quis expor para o resto de nós (afinal, somos apenas "conhecidos"), estava demorando a sair e ela estava preocupada. Enfim, era apenas uma pessoa passando por uma situação difícil e buscando apoio e compreensão das pessoas em volta. Mas, dentre essas pessoas, estava um imigrante "sabão". A pobre moça teve que ouvir que ela devia ter lido mais a respeito do visto e se preparado melhor, porque imigração não é brincadeira. Que há vários casos de imigrantes que vem no oba-oba e que acabam se dando muito mal. Que há órgãos que podem ajudar a ver o que está acontecendo, é só procurar no Google.




E, como todo imigrante "sabão", ele não pode simplesmente orientar: ele tem que mostrar que ele sabe e que o que ele fez é o melhor. Depois da "ajuda", ele teve que narrar como, desde antes de sair do país dele, ele contatou várias pessoas aqui em Montreal para saber direitinho de todos os direitos e deveres dele. Não se fiou apenas no que leu nos sites oficiais e nem em blogues, que são cheios de gente mal informada. Ele leu, trocou e-mails, imprimiu manuais, telefonou, fez estudo comparativo de casos, de modo a não poder ser contestado em nenhum momento. Em suma, ele fez tudo e se deu bem; a outra fez pouco e, por isso, estava se dando mal. Azar o dela. Agora aguenta. 

Num outro lugar, uma pessoa perguntou qual o seguro residencial que as pessoas do grupo haviam contratado. Uma imigrante "sabona", em vez de responder a pergunta simplesmente, disse

—Olha, é obrigatório ter seguro. Se você não tiver, você pode ser responsabilizado criminalmente se o fogo começar na sua casa. Se você não tem, tem que correr pra fazer. Acho que pode até ter problemas para que te aceitem se você estiver morando há muito tempo sem seguro, porque aqui eles levam a sério e alguém que não tem seguro levanta suspeitas. Eu, quando cheguei, encontrei uma corretora ma-ra-vi-lho-sa, que me orientou em tudo, me explicou todos os detalhes e, graças aos céus, estou protegida desde o primeiro dia. Agora que tenho uma casa, então, durmo tranquila sabendo que não corro riscos.




Obrigado pelo texto de comercial. Mas responder a pergunta, que é bom, nada. Qual o seguro você contratou? Foi de banco? De seguradora? E a corretora ma-ra-vi-lho-sa, cadê o número, o contato, alguma coisa? E detalhe: nem tudo que ela falou procede.

Mas o imigrante "sabão" é assim. Se você tem conta no banco X, ele tem conta no banco Y e enumera todas as vantagens que ele recebe por ser cliente do banco e que você, como cliente do banco X, não tem. Se você faz transferência usando o método W, ele dá risada porque esse método cobra uma taxa de serviço absurda. O método que ele usa (que ele ou não revela, ou só revela depois do discurso de vitória, e isso se alguém perguntar de novo) faz com que ele economize muito mais que todas as outras pessoas e alienígenas do universo. Se você achou caro o pacote de açúcar que comprou no supermercado da esquina, ele põe na ponta do lápis quão pouco ele gasta com compras do mês — e provavelmente comendo mais e melhor que você. Se você quer fazer um curso de inglês e não sabe bem onde procurar, o imigrante "sabão" já fez vários, de "the book is on the table" até "how to hold your shit together when you are lecturing about quantum mechanics", sempre com excelentes professores e resultados excepcionais. Se você gosta de sorvete de morango, ele já provou o melhor sorvete de morango de Montreal, trazido diretamente de Nárnia, e conhece o dono da fábrica. Às vezes, ele está aqui só há um pouco mais de tempo que você, mas pode confiar: ele já viveu muito mais e já é "da terrinha", enquanto você, pobre mortal, ainda está lutando para decorar o nome da estação de metrô mais próxima da sua casa.

O que nutre esse comportamento, acredito eu, não é só uma simples vontade de aparecer: é a necessidade de competir, de se comparar com os outros e se sair vencedor. Muitos imigrantes veem sua nova vida aqui como uma espécie de tarefa que precisa produzir frutos grandes, brilhantes, lustrosos e abundantes para serem colocados na vitrine. Aliás, é só ver como a maioria dos imigrantes (e dos que sonham em imigrar, mas ainda não conseguiram) veem o retorno de alguém ao seu país de origem como uma derrota. "Ué, voltou? Ih, coitado(a), foi pro Canadá achando que ia virar barão e se deu mal. Agora vai ter que se virar no Brasilzão/Chilezão/Marrocão/Nepalzão". Poucos param pra pensar que, na verdade, desconhecem as razões que levam as pessoas a voltar. Ainda assim, a volta quase sempre é encarada como derrota, independente dos motivos, como se anos passados fora do país de origem fossem desprezíveis só porque a pessoa "não ficou pra sempre". Daí a necessidade (imaginária, mas incorporada por quase todos como ossos do ofício de imigrante) de ter que mostrar que está bem no novo país. Há quase uma obrigação pessoal de relatar constantemente tudo de bom que está ocorrendo, como as coisas são melhores do que se esperava, como você está vivendo o "sonho" (não gosto dessa palavra nesse sentido, mas explico isso outra hora). É uma cobrança, provavelmente muito mais interna do que externa. E essa cobrança leva aos "sabões", que parecem sentir que precisam se comparar o tempo todo com quem está à sua volta, e que se sentem exultantes quando percebem que sua história é "melhor" que a dos outros.

Enfim, os imigrantes "sabões" estão por aí, e é preciso lidar com eles. O melhor, na minha opinião, é só escutar cordialmente e, assim que ele fechar a boca, mudar o rumo da conversa. Eles detestam não estar "instruindo" as pessoas à sua volta, então, quanto menos você ficar impressionado com a narrativa deles, melhor. Só tomem cuidado para não se tornarem um deles.

À bientôt!

sábado, 6 de agosto de 2016

E a minha resposta é...

... que eu não vou encarar a McGill.

Não tomei essa decisão feliz e contente. Durante um bom tempo, eu acalentei a possibilidade de voltar a estudar, fazer um outro bacharelado e, assim, tentar encontrar alguma coisa que me interessasse o suficiente para que eu quisesse correr atrás. Namorei alguns cursos da McGill e de outras universidades ao longo dos últimos anos, e fiquei me imaginando voltando a estudar, obtendo um diploma universitário daqui do Quebec e começando uma nova profissão aqui. Então, apesar de a vida aqui ter me feito pensar menos em fazer faculdade, dá pra imaginar que, além da surpresa de ter sido aceito na McGill, eu fiquei muito animado.

Só que, parando pra pensar depois da euforia, comecei a considerar as coisas. Eu entraria lá sem fazer muita ideia do que estudar e em que me formar. Começar um curso universitário não sabendo o que você quer fazer não me parece lá uma decisão muito acertada, ainda mais levando-se em conta que eu precisaria fazer uma dívida com o governo para poder bancar os estudos, mesmo que parcialmente. Em seguida, tem o fato de que um diploma na área de Humanas não é exatamente, digamos assim, extremamente requisitado no mercado de trabalho. Suponhamos que eu saia com um diploma em História, Literatura Inglesa ou Filosofia. No mercado de hoje, o que se faz com isso? Até mesmo para dar aulas eu precisaria de Mestrado e Doutorado, o que implicaria passar mais uns seis ou sete anos estudando (e lá vai dívida) para desembarcar num mercado acadêmico que está bem saturado, de acordo com tudo que li a respeito.

E, para finalizar, tem a questão da idade. Não, não é que eu ache que 36 anos é uma idade avançada para se aprender coisas novas (=tô véio pra essa bagaça). Eu nem acho que exista idade limite pra se aprender nada, desde que você esteja querendo aprender. Mas a questão é o mercado novamente: ainda que eu saísse da universidade em quatro anos (supondo-se que eu realmente desse conta de fazer tudo no tempo previsto), eu chegaria ao mercado com 40 anos e sem experiência profissional relevante (porque os empregos de verão que eu provavelmente pegaria não são lá um grande divisor de águas pra ninguém) e com um diploma daqui, mas em uma área pffff. Os canadenses podem ser bem mais abertos em relação ao fator idade, mas, como um dos meus amigos quebecos colocou na nossa última conversa, não é porque são mais abertos que vão escolher quem tem mais idade em detrimento de quem tem mais experiência.

No fim das contas, depois de pensar bastante, acho que embarcar nessa seria extremamente gratificante do ponto de vista pessoal (sou nerd, gente, gosto de estudar), mas uma jogada não muito boa do ponto de vista de profissão e carreira. Se eu curtisse muito uma área específica, fosse apaixonado por curso, ainda talvez valesse a pena correr o risco. Mas entrar às cegas na universidade torcendo para que eu encontre alguma coisa que me interesse e que me leve a uma carreira (e ainda criando dívida no processo) talvez seja forçar um pouco a barra.

Então é isso. Apesar de meu raciocínio ser esse, ainda não consegui ir lá no sistema da McGill e clicar em "decline". Tenho só mais dois ou três dias de prazo, mas acho que essa decisão não vai mudar. Em algum lugar, espero que alguém que está na lista de espera da McGill fique feliz :)

À bientôt!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Entrei na McGill! :) (2)

Eu não consigo acreditar até agora, mas parece que é pra valer: entrei na McGill (de novo), e dessa vez a coisa ficou séria!!



Mas eu sei que uma parte eu não contei: ano passado, depois de terminar o curso de inglês da McGill, tive que começar a pensar no que fazer da vida. É um assunto extremamente inquietante pra mim, porque eu tenho essa ideia de que gostaria de ter uma carreira de fato (embora hoje eu saiba muito bem que isso não é necessário), mas, ao mesmo tempo, não tenho muita ideia do que gostaria de fazer. Depois do curso de inglês, eu já havia resolvido que prosseguiria parcialmente nos estudos fazendo o Certificado de Francês da Universidade de Montreal; mas e aí? O que fazer "de verdade", como trabalho? Ou melhor, como profissão, como carreira, a longo prazo (já que empregos sempre existem nos classificados)? Nada de novo no fronte. Uma coisa me interessa aqui, outra chama a minha atenção ali, mas nada que faça os olhos brilharem. E aí?

No meio da indecisão, e como eu nunca gostei de ficar parado esperando o raio divino (embora tenha tentado mais de uma vez), resolvi fazer a inscrição pra fazer um bacharelado na McGill. Bacharelado em quê? Não sabia; e o formulário de inscrição só pedia pra eu escolher uma das Faculties ou Schools, então não precisava resolver ali na hora. Escolhi a Faculdade de Artes e mandei ver.

Isso foi em outubro do ano passado. De lá pra cá, houve momentos em que fiquei extremamente ansioso e momentos em que eu dei risada do que tinha feito. Afinal de contas, já imaginou? Eu, com 36 anos, fazendo bacharelado em (interrogação) na McGill, tida como uma das melhores do Canadá? Tendo que fazer trabalho em grupo com a molecada de 20 anos, estudar pra prova, fazer empréstimo junto ao governo pra bancar os estudos? Me formar perto dos 40 anos, provavelmente em algo que não tem muita perspectiva de emprego, pra só então voltar ao mercado de trabalho (isso se não precisar de um Mestrado ou Doutorado)? Faz-me rir, né? De qualquer forma, nunca pensei que minhas chances fossem muito altas; não fiz inscrição para nenhuma outra universidade, talvez porque, em parte, eu quisesse ouvir um "não"; o "não" da McGill me daria um direcionamento, nem que fosse o de arrumar um emprego pra pagar as contas.

Mas aí, abro o sistema de admissão deles — de forma automática como vinha fazendo desde maio — e, na linha de status, em vez do "Reviewed - Decision Pending" que eu sempre via, tava lá um "Admitted". Juro que o coração parou. Foi um susto ENORME, posso garantir. Rolei a tela pra cima e pra baixo tentando encontrar os dizeres "Pegadinha do Malandro!!!", mas não tinha. O que tinha era o link para a carta formal de aceitação.

E agora, José?

Eu tô num misto de alegria, ansiedade, medo, empolgação, dúvida e angústia. Ao mesmo tempo que penso que já chutei o balde-mor deixando meu emprego e meu país para vir aqui ver "de qualé" e que, por isso mesmo, embarcar nessa experiência não seria pior, penso também que talvez seja tapar o sol com a peneira... que talvez, por não ter exatamente um plano eu devesse simplesmente deixar pra lá isso e tratar de arrumar trabalho antes que meu prazo de validade expire.

O que você faria?

À bientôt!

domingo, 10 de julho de 2016

Renovação da Assurance Maladie

Quando cheguei e fiz a minha inscrição na Régie de l'Assurance Maladie (o sistema de saúde pública do Quebec), notei que a carteirinha que chegou dois meses depois tinha validade de um ano. Com base nisso, achei que todo ano eles me enviariam uma carteirinha nova, mais ou menos como acontecia com meu plano de saúde no Brasil. Mas acontece que é um pouquinho diferente.

Primeiro, uns dois meses antes de a minha carteirinha vencer, eles me mandaram uma carta falando sobre o vencimento próximo e dizendo que eu precisava comprovar a minha permanência no Quebec para poder renovar a carteirinha. Eu já tinha lido (e eles mesmo me falaram quando fui lá pela primeira vez) que eu deveria informar a Régie se eu ficasse fora do Quebec por mais de seis meses num dado ano. Logo, como não fiquei, achei que não fosse precisar fazer nada — mas achismo meu mesmo, porque se você ler a documentação no site, está tudo explicado.



Enfim, junto com a carta, eles enviam um formulário de renovação, que possui um campo para informar mudança de endereço, se for o caso. Eles listam também quais documentos são aceitos para comprovar a permanência do Quebec, e tem pra quase todos os gostos: de recibo de pagamento pelo empregador a fatura do cartão de crédito com evidência de gastos feitos no Quebec, passando por histórico escolar de universidade. Então, apesar da minha surpresa em ter que comprovar, não teve muito problema: juntei a papelada (só cópia simples), coloquei num envelope e mandei. O único pensamento preguiçoso foi o de pensar em ter que fazer isso todos os anos.




Mas aí, a outra surpresa: quando a carteirinha nova chegou, a primeira coisa que vi foi a validade. Dessa vez, 2020! Acho que é só mesmo para tentar, dentre outras coisas, evitar prejuízo do pessoal que chega aqui no Quebec, faz o landing e corre pra outra província no dia seguinte. Ah, e para quem está em vias de renovar a carteirinha, uma dica: façam a renovação assim que a carta da Régie chegar, porque pode levar de um a dois meses pra receber a nova (e você pode ficar descoberto nesse período).

À bientôt!

terça-feira, 21 de junho de 2016

O Curso de Inglês da McGill - Epílogo II

Essa me pegou totalmente desprevenido.

Certo dia, resolvi ir ao supermercado. Calcei o tênis, peguei minha mochila e só quando já estava prontinho para a guerra foi que vi que havia deixado o celular em cima da cama. Bateu a preguiça de tirar parte do traje de combate só para ir pegar o celular, então fui sem mesmo. O supermercado fica quase do lado de casa, então achei que, só dessa vez, ele ia ficar esperando eu voltar.

Fui, voltei e, como Murphy é Murphy, tinha uma ligação perdida. Número desconhecido. "Telemarketing", pensei, "ou então alguém que discou o número errado". Se fosse a segunda opção, logo eu provavelmente receberia uma mensagem de voz com a pessoa se desculpando (pois é, já aconteceu mais de uma vez.)

Comecei a guardar as coisas e o celular deu sinal de vida indicando mensagem de voz. "Ahá", pensei, "taí. Número errado". Coloquei pra ouvir enquanto guardava os limões, mas parei praticamente assim que a mensagem começou:

"Oi, Doug, aqui é a Fulana da McGill. Estou ligando a respeito do seu prêmio. Por favor, entre em contato, pois preciso saber como você vai querer fazer. Estarei até as 5 da tarde aqui; se não puder falar, estarei de volta na terça-feira. Meu número é..."

Prêmio? A primeira coisa que veio à minha cabeça é que era algum golpe (sim, também tem por aqui). Eu ia ligar, eles iam dizer que eu ganhei, sei lá, uma barra de ouro, mas que precisam do número do meu cartão de crédito para confirmar a identidade. Ou qualquer outra bizarrice do gênero. Porém, o fato de a Fulana falar meu nome e falar que era da McGill me atiçou. Ligar de volta era praticamente perda de tempo porque já havia passado das 5, mas tentei. Ninguém atendeu. Daí fiquei pensando que era algum engano, porque eu não estava participando de concurso algum. Não dei meu nome pra concorrer a nada, então, se a ligação tinha vindo de fato da McGill, com certeza era algum engano.

Pois bem, no dia seguinte, fui pegar a correspondência e — tcham, tcham! — tinha uma cartinha da McGill. Abri, li, e quase caí pra trás. Transcrevo:

"Dear Mr. Doug,

Please accept my sincere congratulations on being selected as the recipient of the [nome do prêmio] for the 2015/2016 academic year.

You are now a member of an elite group of learners - those who are prizewinners for the year's most outstanding academic record in their program or course. For most students enrolled in programs and courses offered by the School, pursuing further education must be balanced with many other commitments, making this achievement all the more significant. You should be proud of your achievement as we are proud of you.

The amount of [valor do prêmio] has been deposited in your bank account according to the information we have on file.

Sincerely,"

Fala sério!!!! Eu nem sabia que esse prêmio existia!! Foi uma surpresa sensacional! E — descobri na terça seguinte — foi por isso que a tia da McGill ligou: eu não tinha incluído informações bancárias no meu cadastro e ela queria saber se mandava o cheque pelo correio ou se eu iria lá buscar. Oh, Canada!!

Lembrei que o site da McGill dá a opção da gente conferir o histórico não-oficial para ver as notas e tá bonito, viu? Nota "A" nos dois módulos que fiz, mais "Lista de Honra do Reitor" e, agora, "Ganhador do Prêmio X"! Filma eu, Galvão!



À bientôt!

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Imposto de Renda

Não é tudo que faz com que a gente realmente sinta que está vivendo em outro país. Passear pelas ruas, ir a restaurantes, pegar o carro e fazer viagens de fins de semana são ótimas pedidas, mas qualquer turista pode fazer isso. A verdade é que, pra mim, nada me dá mais a sensação de fazer parte de uma outra sociedade do que... ai, ai (suspiro)... os deveres.

Claro que não é com grande alegria e satisfação que você senta pra fazer algo como, por exemplo, sua declaração de imposto de renda no novo país. Mas é esse tipo de coisa, mais do que tomar café no Tim Horton's, que mostra um elo sério entre você e seu novo pedaço de terra. Tem jeito, não, minha gente: é arregaçar as mangas e mandar ver.




No Canadá, são duas as declarações de imposto de renda que devem ser feitas: a federal (para a Canada Revenue Agency, a Receita Federal daqui) e a provincial (no caso dos residentes do Quebec, para a Revenu Quebec). Como no Brasil, há uma faixa de renda que é isenta da declaração. Se você recebe até esse valor, não precisa declarar. Ainda assim, se você imigrou no ano fiscal anterior, é uma boa ideia apresentar a sua declaração, mesmo sem renda, não só por facilitar a sua vida no futuro como também para ter acesso a benefícios concedidos para o governo (dependendo da sua situação).

Eu queria apresentar a declaração, principalmente porque queria tentar entender como a coisa funciona. A ideia era ir lendo aos poucos sobre como o sistema funcionava para ter uma ideia mais sólida quando chegasse a época de declarar (que, como no Brasil, costuma ser nos meses de março e abril). O problema é que fui adiando, adiando, adiando... e, quando vi, não só março já havia chegado e se instalado como abril já estava acenando pra mim.

Finalmente, tomei vergonha na cara e, entre um trabalho aqui e uma prova ali na Universidade de Montreal, lia um pouco de cada vez. Tem até bastante informação, e o site da Canada Revenue Agency tem até videozinhos temáticos. Mas não demorou para dar aquela desanimada sensacional... ô assuntozinho chato! Eu posso não saber o que fazer da vida, mas realmente contabilidade está totalmente descartada! Juro como tentei: baixei manuais, salvei páginas de referência na internet, li exemplos, procurei fóruns... mas, no fim, acabava retendo pouca coisa porque o troço é muito, muito, muito chato. No Brasil, eu também nunca fui fã do imposto de renda, mas já estava acostumado a fazer na prática tudo que dizia respeito à minha situação, então não era nenhum problema. Porém, imagino que, se fosse tentar entender a legislação e os cálculos, me divertiria tanto quanto vendo a grama do jardim crescer.




Como o plano infalível de tentar entender e fazer os cálculos por conta própria não estava rendendo, fui atrás de outra opção. Aqui, como também em várias cidades do Brasil, você pode buscar a ajuda de voluntários que te ajudam com a declaração se a sua situação fiscal for simples. Há desde mutirões em universidades até órgãos de ajuda a imigrantes que se dispõem a ajudar. Só que cada um tem suas peculiaridades: alguns só atendem com hora marcada, outros só atendem uma determinada faixa etária, outros só atendem mulheres, alguns só atendem em uma língua (inglês ou francês), outros oferecem atendentes em outras línguas, e por aí vai. Então, uma pesquisa antes ajuda, e o site do Canada Revenue Agency possui uma lista pra ajudar. Só que, com base na experiência de alguns conhecidos (que saíram do encontro com os voluntários com mais dúvidas do que quando chegaram), juro que fiquei com preguiça de tentar. Um amigo, inclusive, ficou com tanto receio que acabou pagando para um contador dar uma olhada e ver se estava tudo certo. Vale lembrar que essa é só a amostra do meu mundinho, tá, gente? Com certeza, há pessoas por aí que sempre fizeram com voluntários e nunca tiveram problemas. Não é pra generalizar.

Eu também considerei a hipótese de pagar um contador, até porque, se for alguém bom, sempre pode extrair mais vantagens pra você, desde pagar menos imposto até receber benefícios. Ao mesmo tempo, eu sabia que a minha situação era simples. Não trabalhei, não tive renda, e o único patrimônio que tenho está no Brasil. Assim, voltei com a ideia de fazer sozinho. Mas, em vez de tentar entender o processo todo, resolvi apenas fazer a declaração: comprei um dos programas aprovados pela Canada Revenue Agency (no caso, o TurboTax), sentei e mandei ver. Para quem  não sabe, a agência canadense não possui programa gratuito para preenchimento da declaração como temos no Brasil. Assim, se você quer mandar tudo online, precisa comprar a licença de algum programa de terceiros. Além dessa característica, esses programas costumam ser bem mais intuitivos e didáticos do que os formulários, regulamentos, leis e anexos sobre o assunto. O TurboTax, por exemplo, vai te fazendo perguntas e, com base nas suas respostas, preenche ele mesmo os campos dos formulários. Quando você termina de responder as perguntas, o programa pode enviar os dados para a Canada Revenue Agency (e para a Revenu Québec) ou imprimir a papelada para envio pelo correio. Como era a primeira vez que eu fazia a declaração, o programa me alertou para a necessidade de enviar tudo pelo correio, mas me garantiu que, a partir do ano que vem, poderei enviar tudo online.

Achei uma mão na roda! Pelo menos, para quem tem situação simples, acho que vale muito a pena. Fiz as declarações federal e provincial numa noite e, no dia seguinte, fui colocar tudo no correio. Tentei não ficar angustiado porque, na pior das hipóteses, eu receberia uma cartinha da agência dizendo para eu explicar alguma coisa, enviar algum documento ou aparecer para conversar. Como não menti em nada, só seria tenso, mas eu teria como provar tudo que coloquei lá. Para minha alegria, não rolou nada disso: pouco mais de um mês depois de eu ter enviado a papelada, recebi uma cartinha da Revenu Québec dizendo que estava tudo ok e, umas duas semanas depois, um e-mail da Canada Revenue Agency dizendo a mesma coisa. Ufa! Além dessa boa notícia, usar o programa me deixou um pouco mais familiarizado com o jeito deles aqui de fazer a declaração, principalmente depois de eu ter passado semanas lendo sobre o assunto (mas ainda estou longe de ser especialista — e nem quero ser!).

Se alguém aí tiver uma maneira ainda mais tranquila e barata de fazer a declaração, por favor, não seja tímido(a)! Serei eternamente grato!

À bientôt!

sábado, 11 de junho de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte VII

Três meses de sumiço não é mole, não! Mas vou te contar, viu... que períodozinho lasquei esse desde o meu último post. Não foi só o tempo pra escrever, engolido pelas coisas que tive que fazer ao longo dos últimos meses, que me manteve afastado do bloque. Recebi uma notícia nada agradável do Brasil e tive que tirar um templo pra pensar na vida. Ninguém morreu (ainda bem!), mas, ainda assim, foi um período de luto que foi intensificado por tudo com o que tive que lidar: aulas, provas, imposto de renda, renovação da Assurance Maladie, celular estragado, o Hodor, renovação de passaporte, trabalho voluntário... nesses meses, mesmo as coisas pequenas tinham peso maior. Daí não tinha o que me fizesse realmente pensar em sentar e escrever (embora digam que ajuda).

Mas, cá estou! As coisas, ou melhor, o meu lado emocional está melhor agora. Como já mencionei ali em cima, muita água rolou, mas vamos com nosso querido Jack: por partes.




A Sessão de Inverno na UdeM

Eu já havia dado um apanhado geral do que estava achando das aulas nesse post aqui. Minha opinião não mudou muito de lá pra cá. O curso de Compreensão Oral cumpriu o que prometeu: fomos expostos a sotaques de francófonos de várias partes do mundo, mas com uma atenção especial para o francês falado no Quebec, claro. A professora se esforçava muito para não ser do tipo rígida, ou melhor, para não passar a impressão de ser sisuda, mas pra mim ficou claro que ela estava tentando representar um papel de professora gente boa. Acho que o que ela curte mesmo é pegar pesado com os alunos, mas só em alguns momentos ao logo dos três meses de aula chegamos a ver esse Mr. Hyde fora do Dr. Jekyll.

Essa aula é obrigatória, então ainda que eu não tivesse gostado teria que fazê-la em algum momento. Mas não me arrependo. Obviamente, não tem como o curso ou a professora ativarem uma chave mágica no cérebro dos alunos para que eles comecem a entender francês quebeco do dia pra noite. O que ela fez, além de dar uma lista enooooooooorme de sites e outros recursos onde podemos ouvir o francês daqui, foi chamar a atenção dos nossos ouvidos para certos fenômenos que acontecem no idioma. Foi assim que descobri que "sur + la" frequentemente vira "saaaa" (um "sa" alongado), da mesma forma que "sur + les" vira "sêêêê" (um "sê" alongado). Foi assim também que fui apresentado ao "fón", que é como alguns quebequenses pronunciam a palavra inglesa "fun" ("c'est le fun" vira "cél-fón"). Vimos também a ditongação que é feita em várias palavras ("jaune" é pronunciado "jôun", com "o" e "u" bem marcados) e o uso da partícula "tu" (sim, partícula, não pronome) como indicação de interrogação ("Il va tu au cinéma ce soir?"). 



Apesar de tudo ser muito interessante e de termos chance de ouvir esses fenômenos linguísticos em áudios e vídeos que a professora levava, acho que tinha gente na sala que achava que só saber essas coisas resolvia os problemas. A professora passava áudios e vídeos na sala, fazíamos exercícios (alguns em casa), mas ela falava o tempo todo: tem que escutar fora da sala de aula também. Rádio, TV, podcasts, séries, filmes, o povo no ônibus, na feira. Tem que ler também, porque ver a palavra escrita ajuda a reconhecê-la quando a ouvimos. Enfim, é um trabalho constante e sem fim. Se a pessoa vai pra aula, apura os ouvidos lá, mas volta pra casa ouvindo o idioma nativo, se encontra só com os amigos compatriotas, usa inglês pra fazer as coisas na rua... não tem curso que salve. E foi assim que, pra minha surpresa, vi uma quantidade razoável de pessoas se dar mal. Claro, não sei da vida de ninguém; muita gente estuda, trabalha, cuida dos filhos, do cachorro, e mil outras coisas; no máximo, tiro uma média pelo que me contam. Mas, sinceramente, a aula em si não é difícil se você tem o hábito, pelo menos, de escutar notícias em rádio, podcasts ou TV. A maior parte das avaliações se baseia em noticiários — o que facilita muito, pois os locutores/apresentadores falam de forma mais pausada e clara. Ainda assim, na última prova, vi algumas pessoas suplicando para ouvir o áudio uma última vez com fone de ouvido.

A aula de fonética, por outro lado, foi bem mais puxada. Fiz tanta pergunta e pedi tanto para ser corrigido pela professora e pelo assistente que nós três acabamos indo pra um bar um dia hahahahahaha! A professora é sensacional: bem-humorada, atenta, meticulosa, manja muuuuuuuito do conteúdo e consegue te esculhambar ainda parecendo ser sua melhor amiga. Era comum termos de ler palavras (no início do curso), frases e parágrafos inteiros (mais para o fim) em voz alta durante a aula, e se ela não ficava satisfeita pedia para a pessoa repetir quarenta vezes. Nessa aula eu via muito mais gente interessada do que na de Compreensão Oral — e, por interessada, quero dizer ralando pra fazer certo. Ainda assim, a própria professora comentava, de vez em quando, que ela conseguia distinguir facilmente os alunos que treinavam em casa daqueles que só se preocupavam em tentar fazer os sons certos quando estavam na aula. As avaliações e exercícios valendo nota eram todos gravados e enviados pra ela ou pro assistente, e sempre, sempre recebemos, além da nota, um comentário bastante detalhado sobre o que estava bom e o que estava ruim. E o melhor: tudo isso com litros de diversão durante a aula.

Vou te dizer que fiquei bem preocupado na metade do curso. Não com nota ou coisa do tipo; mas é que, em determinado momento, parecia que eu estava "desaprendendo" o que eu sabia e não estava conseguindo aprender o que não sabia. Lá ia eu falar com a professora ou com o assistente (às vezes, com os dois) e pedir, "me ajuda, me anima, me dá esperança, me exorciza!". 




E eles diziam que eu estava indo bem, que a minha pronúncia era boa, o assistente dizia que eu soava como francófono em vários dos exercícios gravados, e eu dizia, "não, não, não, francófono de onde, da Índia?". E aí eles riam, indicavam uma coisa aqui e ali que eu podia tentar melhorar e ficava por isso mesmo. Até que um dia (o dia do bar), eu chorei as pitangas de novo e a professora me disse o seguinte:

—Doug, vou ser o mais sincera que posso com você. Obviamente, você não soa como um falante nativo do Quebec. Seu sotaque tem um pouco do sotaque brasileiro, mas tem muito do sotaque padrão francês, o que é normal, já que vocês aprendem o francês da França. Porém, o meu ponto é: você não tem problema algum de pronúncia; você não pronuncia "b" em vez de "v" como vários sul-americanos, você não tem dificuldade pra pronunciar e distinguir "ê" de "é", "ô" de "ó"; você pronuncia bem o "u" francês, você faz distinção entre "in", "en", "an", "on" e "un"... em suma, você não tem nada que eu possa chamar de problemas reais de fonética. Outros alunos tem alguns desses, e outros ainda tem todos, o que é de deixar qualquer um sem dormir à noite. O que você tem é uma coisa: medo de falar! Eu vejo a diferença na sua pronúncia quando você grava os exercícios e quando você está aqui, ao vivo, conversando. Em casa, gravando, você está relaxado, sabe que se fizer um erro é só apagar o arquivo, gravar de novo e pronto. Aqui, você sabe que não tem como fazer isso; você fica nervoso e isso faz com que você queira falar rápido, não para parecer fluente, mas para acabar logo porque você não quer errar e não quer ser julgado. Meu conselho continua sendo o mesmo desde o início: você tem que encontrar um modo de relaxar quando estiver falando francês. Tem que deixar de ter medo de ser julgado, de parecer estúpido, de ter que recomeçar uma frase porque não sabe como terminá-la, de trocar uma palavra pela outra. Tudo isso faz parte do processo de aprender idiomas. Eu te garanto, pelo que você já mostrou na aula, que se você conseguisse relaxar mais quando fala francês por aí, nem aqui fazendo o certificado você estaria.

O que que você fala pra uma professora que te diz isso tudo? Paguei uma rodada no bar, né?



É claro que ela tem razão. Pelo menos em relação à parte de eu precisar relaxar, porque, quanto à pronúncia, não acho que seja essa Coca-Cola toda, não. Mas, enfim, de lá pra cá, venho tentando superar a ansiedade também nesse quesito. Não vou dizer que tenha feito grandes progressos, não, pois ainda me cobro muito toda vez que abro a boca. Porém, pelo menos agora eu tento, durante os segundos antes de abrir a boca pra falar francês com alguém, pensar que eu não vou ser morto a tiros se falar alguma besteira ou não souber completar um pensamento. Tem dias que vai mais fácil, tem dia que vai mais difícil. Mas vai.

As aulas de Compreensão Oral e de Fonética acabaram no fim de abril. É sempre uma pena pra mim deixar de ir pra aulas das quais gosto, mas fazer o quê? A recompensa de tudo veio semanas depois: fiquei com A+ em ambas as disciplinas, o que me deixa com um média acumulada muito boa que pode ser útil para um eventual retorno à universidade. Pelo menos, o currículo tá ficando bonito :P

Ah, eu recomendo MUITO a aula de Fonética pra qualquer pessoa que venha pra cá! É sensacional o tanto que se aprende e, se você realmente colocar em prática o que for viso na aula, sua pronúncia com certeza vai melhorar bastante! Dá pra fazer como aluno livre na Universidade de Montreal, ou seja, não precisa se inscrever pro certificado inteiro pra poder cursar. Fica a dica!

À bientôt!