sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

É oficial: eu preciso de álcool

Estou quase terminando o próximo post sobre as minhas aulas na Universidade de Montreal, mas essa eu tinha que vir aqui contar HOJE, no calor do momento: eu, preocupado como sempre em tentar melhorar meu francês, cheguei pra minha professora de fonética no intervalo da aula (um momento sempre mais informal) e disse:

—O que eu posso fazer pra diminuir meu sotaque? Quando escuto os francófonos falando, eu sei que não soo como eles. Mesmo quando termino uma frase sem tropeçar nas palavras, mesmo engolindo as mesmas sílabas e letras que eles engolem, algo não está saindo direito. O que eu devo fazer?

A professora parou um instante, olhou pra mim, franziu a testa e fixou os olhos nos meus. Deu uns três segundos e ela pousou a mão no meu ombro:

—Doug — disse ela por fim — Acho que o que você precisa é começar a beber.

Não sei qual a cara que fiz, mas ela não perdeu tempo:

—Começa com duas caipirinhas que você vai ver.

Gente, tem como não gostar dessa professora? Acho que caso com ela até o meio do ano!

À bientôt!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Vídeos

Volta e meia recebo e-mails com pedidos para eu postar mais vídeos e fotos. O problema é que eu sou um tanto lesado: ao contrário da maioria das pessoas, para quem o ato de sacar o celular e apertar o botãozinho da máquina fotográfica é o caminho mais óbvio e natural após exclamar algo do tipo "nossa, olha que legal aquilo!", eu só vou me dar conta que poderia ter batido uma foto ou feito um vídeo quando já estou em casa, fazendo algo nada a ver, tipo, assistindo Agente Carter.

Mas eis que, semana passada, milagrosamente, num dia em que a temperatura estava por volta do 0ºC — permitindo, portanto, que eu tirasse as luvas sem gritar feito um garoto em idade pré-escolar —, vi a neve em volta de mim e pensei: "opa, por que não fazer um vídeo pra mostrar pro pessoal lá em casa?". Então, fiz três. Curtinhos, e só pra mostrar a neve. Perdão pelo treme-treme constante, mas eu estava andando pra UdeM e ainda tenho muito feijão e arroz pra comer até virar cameraman.







À bientôt!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte V (Problemas no Paraíso (2))

Bom, 2016 já chegou, se instalou, mas no meu relato das aulas da Universidade de Montreal, ainda estou em 2015! Então vamos lá contar o resto e dizer qual foi o resultado final.

No último post sobre o assunto, falei da aula de francês oral, que foi proveitosa, apesar de não ser algo que vá ficar na minha memória para sempre. Aproveitei a oportunidade para falar, conversar, explorar o conteúdo que a professora passava, mas não houve momento algum em que eu me sentisse à vontade pra valer na aula. Uma grande parte disso é culpa da minha ansiedade, então há que se relevar. Pois bem, se a de francês oral foi assim, a de francês escrito corre o risco de ficar guardada na memória por ter sido a primeira aula verdadeiramente ruim que tive em terras canadenses.




Eu havia contado em post anterior que, já na primeira aula, a professora passou textos de Voltaire e La Fontaine pra gente analisar. Ali, pego de surpresa sem nem ter tido chance de assentar o derrière na cadeira direito, eu achei que o problema era eu: eu é que estava chegando com o bonde andando (o rapaz vai parar no nível 6 e quer moleza?), eu é que tinha inadvertidamente feito magia negra e ido muito melhor no teste de nivelamento do que meu domínio do idioma, de fato, me permitiria, eu é que iria ter que correr atrás do prejuízo. Pensei seriamente, durante duas semanas, em desistir da aula, trancar e esperar eu evoluir um pouco mais no francês oral, porque me dava cólicas pensar em ser chamado, na frente de todo mundo, para analisar textos numa língua estrangeira. Mas resolvi encarar porque já estava molhado e a chuva não tinha cara de que ia parar.

Pois bem. Ainda bem que fui adiante, porque as aulas foram meio que uma piada. Eu até agora não entendi a razão de a professora brincar de análise de texto com a gente na primeira aula, porque não usamos aquilo praticamente pra mais nada. Há uma vaga ligação entre o que ela mostrou sobre a análise e o que vimos nas outras aulas (que tiveram mais a ver com textos persuasivos e resenhas), mas tenho a ligeira impressão que as duas ou três primeiras aulas foram especialmente elaboradas pra assustar os alunos mesmo. Aliás, lembro direitinho de ela dizer, ao final do primeiro dia, que quem quisesse abandonar a aula tinha até o dia tal, então, ainda estava em tempo. Convenhamos: isso, no mínimo, não é encorajador, certo?

O método de aula dela se resumia a passar algumas orientações de livros e sites, copiando palavra por palavra no quadro, e, às vezes, atacar pontos gramaticais usando exatamente os mesmos exemplos da gramática que ela levava para a sala de aula. Ela repetia, de forma incansável, que precisávamos aprender a ler para aprender a escrever, mas havia pouquíssimos conselhos práticos sobre como fazer isso. E não é que a professora não soubesse o conteúdo: ela, claramente, já estava bastante habituada com os assuntos que levava (e talvez esse tenha sido um dos problemas: ela já estava no piloto automático) e tinha postura de quem entende do assunto. Ainda assim, raramente passava qualquer coisa para fazermos em casa (ou mesmo na sala) o que mostra muito sobre quão proveitoso foi o curso: uma aula de francês escrito no qual você praticamente não escreve? De repente, me lembrei de várias histórias de francisation que me contaram e pensei que, pelo menos, quando as aulas na francisation são ruins, estão te pagando pra você não aprender ou aprender mais ou menos. No caso da Universidade de Montreal, a gente está pagando, né?




Enfim, eu nunca recebi um dos (raros) deveres de casa de volta. Não sei se ela deu pro cachorro comer, se usou pra desenhar coraçõezinhos enquanto falava ao telefone, se usou como porta-copos ou o que for. O fato é que eu nunca vi os erros ou acertos que cometi nessas atividades. Quanto às provas, fizemos três. Fui receber a nota da primeira só um mês e meio depois de tê-la feito, depois, inclusive, de já ter feito a segunda prova. Ou seja, eu não sabia como estava indo no curso até depois da metade dele. Se eu estivesse dependendo de boas notas no histórico por algum motivo (para bolsa ou para ser aceito num curso de pós-graduação, por exemplo), eu teria ficado sem saber como estava me saindo até depois do prazo dado para abandono. E aí seria adeus bolsa ou carreira acadêmica.

Fora isso, boa parte do que ela falava era expressado de forma incrivelmente confusa. De novo, de início, achei que era eu. O burrinho aqui ainda não entende francês bem o suficiente, precisa treinar, blá, blá, blá. Mas aí eu me dei conta de duas coisas: primeiro, eu entendia, sim, praticamente todas as palavras que ela falava. O problema é que elas não faziam lá muito sentido e, não raras vezes, entravam em contradição com outras palavras que a própria professora tinha dito em aulas anteriores. Segundo, não era incomum que os outros alunos pedissem para ela repetir alguma coisa várias vezes, principalmente quando se tratavam de instruções para os deveres e provas. Aliás, nunca vou esquecer o dia em que chegamos para uma das provas, ela disse que teríamos que fazer uma synthèse e um aluno levantou a mão e perguntou o que era uma synthèse. Uma hora o texto que tínhamos de escrever deveria ter 500 palavras, na aula seguinte, deveria ter 800. Questionada, a professora falava que o mínimo era 500, mas que ela não aceitaria mais de 600. E o texto tinha que ter introdução, dois parágrafos de desenvolvimento e conclusão, e o terceiro parágrafo de desenvolvimento tinha que apresentar um contra-argumento e refutá-lo. Mas, senhor! Não eram só dois parágrafos no desenvolvimento? Não, tem que ter três. Mas tudo tem que ter só 600 palavras no máximo? O máximo é de 600 palavras, mas ela iria corrigir textos que tivessem até 700 palavras. Tudo que estivesse além disso seria descartado e afetaria a nota.



Diante desse quadro de Salvador Dali no País das Maravilhas de Mordor, resolvi que não valia a pena discutir. E nem me estressar. Quando a louca pular e começar a dançar, pula e dança junto até a música acabar e você poder sair sem que ela note. Então fiz os (poucos) deveres e todas as provas, e só falei em sala de aula quando expressamente requisitado. A prova final foi, na verdade, um trabalho para o qual tivemos que fazer uma pesquisa sobre um tema, reunir artigos que girassem em torno desse tema e produzir um texto que demonstrasse um ponto de vista específico. Ah, não, espera! Os artigos tinham que mostrar visões diferentes e o seu texto deveria mostrar as diferentes opiniões sobre o tema. Sabe quando você senta para escrever algo e não sai nada? Pois é, nunca tive esse problema, mas eu nunca demorei tanto pra escrever algo pra alguém como na aula dessa mulher, simplesmente porque eu me perguntava, a cada instante, se o que eu estava fazendo seguia remotamente alguma das instruções contraditórias que ela havia passado.

No fim, eu não sei o que funcionou ou não. Terminei a aula com nota A-, o que é muito mais do que eu estava esperando. Eu entregava cada prova e trabalho pensando: "não faço ideia do que essa professora vai pensar disso", e estava sempre preparado para tomar na cara. Então, foi surpreendente receber essa nota e ainda mais surpreendente ouvir dela que eu era, com certeza, o melhor aluno da classe. Se fosse outra professora, talvez eu tivesse ficado feliz e me sentido realizado. Mas, com essa, eu só agradeci e pensei: "será que posso acreditar que você leu de fato algum dos textos que escrevi?".

Enfim, fico feliz de ter ido adiante e deixado essa disciplina (e, principalmente, essa professora) para trás. São 3 créditos a menos para eu obter o certificado, e é só isso que eu posso salvar da aula. A nota é ótima para o meu currículo acadêmico e, aliada à nota da aula de francês oral (que foi um A), me deixa numa boa situação já no primeiro trimestre do programa. Vamos ver como será o resto. Só tenho certeza de uma coisa: se eu me inscrever para uma disciplina e essa professora estiver escalada, eu tranco antes da primeira aula.

À bientôt!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Férias!

Quase dois meses sem postar nada no blogue, estava na hora de tirar a poeira, néam?

Mas há um motivo bem simples para o sumiço: férias! Sim, depois de encerrar o trimestre na Universidade de Montreal, apareceu uma oportunidade para fazer uma visita ao pessoal no Brasil. E eu não podia deixar de aproveitar, óbvio. Não que eu estivesse com saudade do calor, do Aedes aegypti ou das novas velhas notícias do Brasilzão; mas meu bem mais precioso, minha família, continua por lá. E, sem saber que rumo a vida tomará neste novo ano, melhor aproveitar enquanto dá. E, falando nisso, feliz 2016 a todos!



Fui para ficar três semanas, mas uma mudança em um dos voos me obrigou a ficar mais uma. Não reclamei nem um pouco, apesar de isso me fazer perder a primeira aula da sessão de inverno na Universidade de Montreal. Foi um mês extremamente prazeroso pra mim. Mimado pelos pais, podendo dar e receber carinho e apoio deles e da minha irmã, dar risada daquelas piadas internas que toda família tem, ajudar um pouco na rotina doméstica, fazer companhia, receber companhia, filosofar, passar tempo, relembrar. Fiz um pouco de tudo isso, além de saborear a inigualável comidinha da mamãe e rever outras pessoas que não estão unidas pelo sangue, mas fazem parte da minha família do mesmo jeito.

É claro que um mês no bem-bom assim só poderia ter um efeito extremamente positivo, né? Fui pro Brasil com a ideia arraigada que eu não pensaria em nada relacionado à minha vida aqui no Canadá: nem francês, nem inglês, nem faculdade, nem alta do dólar, nem que rumo dar pra vida, nada. Claro que não consegui 100%, mas digamos que uns 90% do tempo foi gasto apenas vivendo o presente, aquele presente de estar ali com os meus. O resultado foi que, quando subi no avião de volta, estava incrivelmente relaxado. Claro que não deu pra evitar lágrimas e aquela saudade antecipada de quando a gente sabe que precisa ir, embora ainda faltem um ou dois dias, ou mesmo algumas horas. Mas foi tão diferente de quando vim pra cá em março do ano passado que eu nem me reconheci. Sim, claro que, desta vez, eu já sabia para onde estava indo de verdade: já sabia qual ônibus pegar, já tinha endereço certo pra ir, já não tinha uma penca de coisas para resolver. Ainda assim, acho que passar esse mês sem me preocupar com o futuro contribuiu bastante para essa sensação de calma.

O primeiro efeito foi que não tive nenhuma crise de ansiedade durante toda a viagem de volta. Consegui falar com todo mundo no caminho sem problemas (quem tem transtorno de ansiedade sabe quão desmoralizante e humilhante pode ser não conseguir articular um som na hora em que você tem que falar—tipo, por exemplo, no guichê de imigração, sabe?). Isso já me fez sorrir de orelha a orelha até em casa. Segundo, de repente, me dei conta que estava falando francês. Sabe quando você abre a boca pra falar, seu cérebro sabe que não é a sua língua materna que tem que entrar em ação e ele manda o inglês no lugar, porque é o idioma que está mais fácil e seguro à disposição? Pois é, não foi o que aconteceu. Mais de uma vez, de repente, eu estava falando francês nos aeroportos e com passageiros. Foi um misto de alegria, supresa e "tô possuído", mas foi muito, muito bom!



Ah, cabe ressaltar uma coisa do meu retorno: foi a primeira vez que fui pra fora do Canadá como residente permanente. Então, como bom garoto que sou, levei minha carteirinha de residente permanente e fiquei curioso para saber como seria meu reingresso no país. Foi assim: fui direcionado para a fila dos cidadãos e residentes...




...,que estava longa, e terminei em um totem de auto-atendimento. Na telinha, escolhi o idioma, respondi uma ou duas questões, a máquina escaneou minha carteirinha (demorei aqui porque tem que segurar a dita cuja lá dentro, e eu só passava pelo leitor. Fiz duzentas vezes até me dar conta) e, em seguida, pediu para inserir o formulário da alfândega. Aqui, perdi mais tempo porque eu inseria o formulário e a máquina cuspia de volta, dizendo que eu não havia inserido o formulário do jeito certo. Fui atrás de uma funcionária, que fugiu de mim como se eu fosse um Dementador, e tive que ser resgatado por outra, que me explicou que as pontinhas de papel que haviam sobrado depois de eu destacar o formulário faziam a máquina rejeitá-lo. E não é que a prestativa senhora estava certa? Tirei as pontinhas e o formulário foi engolido suavemente pelo totem. Mais alguns apertos de tecla e a máquina emitiu uma cópia do formulário, que entreguei na saída da área de imigração. Pronto, estava eu lá, residente permanente, de volta ao lar.

E a diferença óbvia depois de um mês fora estava lá: neve pra todo lado. Todo mundo empacotado, e eu achando o máximo! Continuam dizendo que vai chegar o dia em que eu vou ficar de saco cheio do frio, e eu continuo esperando (sem pressa alguma).

Agora é retomar as atividades. Que esse ano seja tão bom pra mim quanto o que passou. E que para vocês aí do outro lado da tela seja melhor ainda!

À bientôt!


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Mundo Lingo

Desde que terminei o curso de inglês na McGill, tive que adicionar um item à lista de "coisas nas quais ficar de olho": dar um jeito de treinar o idioma para não enferrujar e não voltar a ficar inseguro. De início, não me empenhei muito, já que continuava usando inglês quando falavam comigo em inglês e não tinha problemas. Mas, depois de começar o curso de francês, notei que as palavras em inglês estavam começando a demorar um pouco mais que o normal pra vir à mente e — pior! — algumas não vinham ou vinham com versões afrancesadas. Longe de ficar totalmente feliz por ver o francês se tornando mais presente no meu dia a dia, comecei a ficar com medo de perder o nível que consegui no inglês.

Obviamente, em termos de leitura e compreensão oral não há grandes problemas pra se encontrar maneiras de praticar. O mundo inteiro é praticamente todo em inglês. É facílimo encontrar material de leitura na Internet, e as séries de televisão e os filmes mais assistidos do mundo são em inglês. Há podcasts de notícias, sobre economia, cinema, quadrinhos, filosofia, história; vídeos de diversos canais de televisão anglófonos mundo afora; e aqui no Canadá, com as bibliotecas, tudo isso é ainda mais acessível. O problema mesmo é para falar. Não sei quanto a vocês, mas eu não tenho o hábito de parar estranhos na rua pra puxar papo e treinar idiomas.




Sendo assim, comecei a procurar outras opções. Uma delas, que já uso há algum tempo, é se cadastrar em sites para conhecer pessoas de outros países, à distância mesmo. A maioria é mais focada em chats ou trocas de e-mails, mas já é uma maneira de treinar a escrita. Se você e a outra pessoa animarem, podem partir pro Skype, o que permite treinar a fala. Só que, na minha experiência, isso é muito incerto. A maioria das pessoas está nesses sites sem muito propósito ou apenas com uma vaga intenção de praticar idiomas. Nem sempre é fácil encontrar quem queira sentar sistematicamente uma ou duas vezes por semana para falar inglês durante uma hora, por exemplo. Boa parte aparece na primeira ou na segunda semana e depois some.

Então resolvi reexaminar uma ideia que me foi passada logo que cheguei aqui e que eu nunca tinha experimentado: o Mundo Lingo. 




O Mundo Lingo é um grupo de pessoas que se reúne semanalmente em locais e horas determinados e que tem por objetivo promover o encontro de nativos e de estrangeiros. É uma forma de facilitar a adaptação de estrangeiros a um país novo (ou mesmo de pessoas que mudam de cidade dentro de um mesmo país) e também de treinar idiomas diversos. Até o momento, eles realizam encontros em 13 países. Aqui em Montreal, são três dias por semana, em três locais diferentes. Se quiser conferir a agenda, clique aqui.

O esquema é bem simples: você vai ao local do encontro dentro do horário estabelecido, encontra a mesa de recepção do Mundo Lingo e fala qual o seu país de origem e quais as línguas você quer praticar. Eles te dão, então, bandeirinhas adesivas representando o seu país e aqueles cujo idioma você quer treinar. Aqui costumam dar a bandeira canadense e a do Quebec quando você diz que quer praticar inglês e francês, respectivamente (mas peguei a da França uma vez porque a do Quebec tinha acabado). Você cola as bandeirinhas na camisa em ordem de fluência e, depois disso, é só perambular pelo local ou encontrar uma mesa em que o pessoal também tenha bandeirinhas.



Há várias vantagens nesse tipo de encontro, na minha opinião. Primeiro, obviamente, você tem a possibilidade de encontrar nativos e de efetivamente conversar com eles (e não apenas aquelas "conversas" de loja ou supermercado, em que você dá bom dia, a pessoa te fala o preço, você paga e diz "até logo"). É muito legal poder falar com pessoas que nasceram e cresceram aqui, ouvir as opiniões deles sobre a cidade e sobre o país, sem falar no próprio uso local dos idiomas. Segundo, há gente de todos os cantos do mundo, o que significa que você também é exposto a sotaques diferentes, o que ajuda muito a treinar o ouvido. Terceiro, não há obrigação alguma em relação a com quem falar, em qual grupo ficar ou coisa do tipo. Não gostou de um grupo, vai pra outro! Aliás, mudar de parceiros de conversação é algo que é encorajado, mas nada te impede também de ficar com um só grupo se você está gostando da conversa. Quarto, é um ótimo jeito de fazer novos amigos, locais e internacionais, embora (de novo) ninguém seja obrigado a trocar telefones, contato de Facebook ou coisas do tipo. Na maioria dos casos que presenciei, as pessoas chegam, batem papo a noite toda, agradecem, se despedem e é isso. Quinto, ninguém está lá pra julgar sua habilidade. Não sou ingênuo de achar que ninguém tem sua opinião sobre quão bem ou mal o outro está falando, mas é um ambiente para que pessoas de todos os níveis pratiquem. Então, todos que vão sabem que encontrarão de nativos a gente uga-buga. Faz parte do pacote.

Ah, por último e muito importante: exceto pela sua consumação no local do encontro, é tudo grátis ;)

Eu fui três vezes até agora, e só não fui mais porque sou muito bicho-do-mato antissocial. Nas duas primeiras vezes, fui com um dos meus colegas quebecos. Daí tivemos problemas de horário nas semanas seguintes e eu, com receio de ir sozinho, deixei quieto. Chamei outras pessoas, mas elas tinham compromisso ou estavam com preguiça. Aí, finalmente resolvi ir sozinho e, pra minha surpresa, meu colega espanhol da aula de francês me mandou uma mensagem perguntando se eu não queria ir com ele. Topei, claro, mas ainda assim passei uma boa parte do tempo "sozinho" porque ele levou uma hora e meia pra aparecer. E "sozinho" está entre aspas porque não fiquei sozinho em momento algum. Primeiro foi um japonês, aí chegaram um português e um brasileiro, daí chegaram uma libanesa, uma sueca e uma egípcia, mais tarde chegou um canadense anglófono, tudo isso só na mesa em que eu estava. Ainda tive a chance de falar com um peruano e um britânico, além dos vários quebecos que sempre estão por lá.

Enfim, quem diria que eu, antissocial como sou, estaria recomendando encontros grupais entre desconhecidos, mas voilà. É claro que o que é feito no Mundo Lingo não é exatamente excepcional. Muita gente vai pra bares e pubs e simplesmente começa a bater papo com quem estiver por perto. A diferença,  pra mim, é que os eventos do Mundo Lingo (como os Meetups) têm o objetivo bem claro, e todo mundo que se dispõe a ir vai sabendo que todos estarão abertos. Se você também procura um jeito mais espontâneo e focado de praticar, fica a dica!

À bientôt!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Encomenda na porta e um gostinho de inverno

Uma coisa que sempre me chama a atenção por aqui é como algumas entregas são feitas. Pelo que deu pra perceber, quando as encomendas são pequenas e o dono do apartamento não está em casa, a encomenda é deixada no chão, na frente da porta do apartamento, desse jeito aí, ó:




Tirei essa foto numa segunda-feira e o pacote continuou na frente da porta por mais três dias (acho que o morador estava viajando). É algo impensável em boa parte do Brasil, como expliquei pra um dos meus colegas quebecos no último fim de semana. Não é que a maioria das pessoas no Brasil fosse roubar a encomenda; eu acredito que a maior parte da população deixaria o pacote lá quieto, e talvez alguns até o pegassem para depois ir bater na porta do dono e entregar em mãos, com o intuito de evitar que fosse roubado. Mas os brasileiros sabem que a probabilidade de que alguém acabe, digamos, dando um fim pra um pacote da Amazon dando sopa assim é maior do que a gente gostaria de admitir. Infelizmente, no Brasil, teria gente que pegaria o pacote só pelo fato de poder pegar, mesmo sem ter ideia do que encontraria na hora em que abrisse.

Ainda acho estranhíssimo esse tipo de coisa. Eu ainda não entrei totalmente no clima "estou seguro aqui" por dois motivos. Primeiro, tem todas as décadas vividas no Brasil e as minhas experiências de violência urbana (que são bem mais leves do que as histórias que muita gente vivenciou por aí, mas, ainda assim, violência urbana é violência urbana, e só quem é submetido a ela sabe o quanto é ruim). Segundo, por mais que o Canadá seja infinitamente mais seguro que o Brasil, ele não é Avalon. Há mais ou menos um mês, circulou pelos grupos de Facebook e listas de discussão o caso de uma brasileira que teve o condo invadido quando ela estava fora. Fizeram uma limpa levando, entre outras coisas, o laptop dela. Há algum tempo, li também sobre um casal brasileiro que surpreendeu o zelador do prédio fazendo as "compras" do mês na geladeira deles. Aqui, os zeladores sempre têm uma chave extra do apartamento, que eles usam, teoricamente, apenas quando algo precisa ser verificado na unidade e o morador não está. Mas, obviamente, vai da índole do zelador agir dentro dessa regra ou não. E aí, com a vivência brasileira na veia, como é que o cidadão se acostuma do dia pra noite com essa história de deixar seus bens "desprotegidos"? No Brasil, trancando tudo a gente ainda fica com receio de voltar pra casa e descobrir que alguém fez uma visita inesperada durante a nossa ausência, imagina então você sabendo que, em algum momento, vão mesmo entrar no seu apartamento (no meu, sei que o zelador veio pelo menos duas vezes quando eu estava fora).

Mudando radicalmente de assunto, há umas duas semanas veio o primeiro indício de que o inverno está mesmo chegando. Taí a prova:




De lá pra cá, nevou em alguns dias, mas não o suficiente pra cobrir o chão, pelo menos não nas regiões da cidade pelas quais perambulo. Mas, como já disseram inúmeras vezes, que ninguém se engane: a neve tarda, mas não falha.

À bientôt!

sábado, 5 de dezembro de 2015

E há um ano...

...eu pedia exoneração do serviço público brasileiro.



Como o meu pedido de licença seria negado ou pela minha chefia imediata, ou pela chefona máxima do órgão em que eu trabalhava, decidi não fazer pedido nenhum e simplesmente assinar a minha exoneração. Parte de mim ficou apreensiva por estar abrindo mão do salário & estabilidade que tantos tentam desesperadamente conseguir todos os anos; mas a outra parte sabia que ainda que as coisas não dessem certo no Canadá e eu resolvesse voltar pro Brasil, retomar um cargo no serviço público seria a minha verdadeira derrota.

Mas, passado um ano, ainda penso assim? Numa palavra, se você não quiser ler o resto do post: sim.

O medo causado pela instabilidade e desemprego logo deu lugar à ansiedade pela descoberta. O novo rapidamente ganhou espaço frente ao temor em relação ao que poderia dar errado. O primeiro benefício da minha exoneração se fez sentir na minha saúde: eu fiquei praticamente um ano sem pegar nem um resfriado. Pode parecer uma banalidade, mas pra quem tinha um resfriado por mês (às vezes dois) fazendo um trabalho que não gostava numa cidade da qual eu não gostava (São Paulo já havia perdido qualquer tipo de encanto pra mim há um bom tempo), ficar um ano sem precisar tomar um nada pra melhorar foi uma verdadeira conquista! No fim, só sucumbi mesmo frente ao outono aqui em Montreal, com todo mundo espirrando e fungando ao mesmo tempo. Ainda assim, foi um resfriadinho tão fraco comparado aos que eu tinha em São Paulo que eu dava até risada a cada espirro.

Outro benefício é aquele que vem do "e agora, José?". Saber que não tenho mais o porto seguro do serviço público para onde correr em caso de tempestade me obriga a encarar o meu maior dilema existencial desde que eu tive que escolher entre a Marvel e a DC: o que eu quero da vida? Essa pergunta azucrina a minha mente há mais de uma década. Muitos já têm essa resposta, outros nem fazem a pergunta, mas eu estou no grupo daqueles que tentam, se esforçam, arriscam e, mesmo assim, continuam sem saber para onde ir. Minha vinda para o Canadá, ao contrário do que talvez possa parecer, não foi motivada apenas pela situação político-econômica brasileira, pela minha incompatibilidade com a maior parte da cultura que divido com os meus compatriotas ou com a insegurança causada pela violência desmedida (que acabamos aceitando como natural). Isso tudo foi um tempero, mas a razão principal da minha imigração é algo que remonta a um desejo do início da minha adolescência: viver, de verdade, num outro país. Era uma vontade quase tão velha quanto eu mesmo. E, dentro dessa vontade, está também de saber para onde eu quero levar a vida. Ainda não tenho resposta pra isso, mas a sensação de liberdade que sinto por não estar mais atrelado a algo de que eu não gostava e que eu via como empecilho a todo o resto me faz sentir que agora eu tenho como descobrir.




Basicamente, tudo que escrevi no meu post de despedida do trabalho se confirmou. O contato que tenho com os antigos colegas de labuta se resume a curtidas no Facebook ou no Instagram. Escrevi para eles um tempo depois da minha chegada aqui para ver se eu estava enganado em relação a como eu percebia o pessoal, mas não estava: poucos me responderam e, mesmo eu continuando a escrever, todos pararam, no fim. Não é nada de mais, tendo em vista que eram só colegas de trabalho mesmo e que nossa relação lá nunca foi além do prédio do órgão. Continuo sendo grato pelo ambiente que proporcionaram pra mim durante todos os meus anos lá, e torço pra que eu não tenha sido uma pedra no sapato de ninguém (mesmo eu não escondendo que acho a maior parte do serviço público completamente inútil). De resto, cada um segue sua vida.

No fim deste primeiro ano sem serviço público, posso dizer que, ainda que desempregado e ainda que não saiba ao certo pra onde ir, me sinto bem melhor do que me sentia até o dia 5 de dezembro de 2014. Agradeço a chance de aprender a lidar um pouco mais com as pessoas, desenvolver um certo olho clínico para as relações de trabalho, entender como certas coisas funcionam e, sobretudo, de poder economizar uma grana que está me permitindo ir atrás de responder aquela pergunta lá: "E agora, José?".

Pra finalizar, um vídeo que resume bem uma grande parte da minha vida de servidor e o que eu acabei fazendo. As pastas, as conversas sobre aposentadoria e até o cafezinho, tá tudo nessa cena. Comme lui, je choisis un avenir sans débouchés. Et comme lui, je suis un vrai bordel ;)



À bientôt!