sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Férias!

Quase dois meses sem postar nada no blogue, estava na hora de tirar a poeira, néam?

Mas há um motivo bem simples para o sumiço: férias! Sim, depois de encerrar o trimestre na Universidade de Montreal, apareceu uma oportunidade para fazer uma visita ao pessoal no Brasil. E eu não podia deixar de aproveitar, óbvio. Não que eu estivesse com saudade do calor, do Aedes aegypti ou das novas velhas notícias do Brasilzão; mas meu bem mais precioso, minha família, continua por lá. E, sem saber que rumo a vida tomará neste novo ano, melhor aproveitar enquanto dá. E, falando nisso, feliz 2016 a todos!



Fui para ficar três semanas, mas uma mudança em um dos voos me obrigou a ficar mais uma. Não reclamei nem um pouco, apesar de isso me fazer perder a primeira aula da sessão de inverno na Universidade de Montreal. Foi um mês extremamente prazeroso pra mim. Mimado pelos pais, podendo dar e receber carinho e apoio deles e da minha irmã, dar risada daquelas piadas internas que toda família tem, ajudar um pouco na rotina doméstica, fazer companhia, receber companhia, filosofar, passar tempo, relembrar. Fiz um pouco de tudo isso, além de saborear a inigualável comidinha da mamãe e rever outras pessoas que não estão unidas pelo sangue, mas fazem parte da minha família do mesmo jeito.

É claro que um mês no bem-bom assim só poderia ter um efeito extremamente positivo, né? Fui pro Brasil com a ideia arraigada que eu não pensaria em nada relacionado à minha vida aqui no Canadá: nem francês, nem inglês, nem faculdade, nem alta do dólar, nem que rumo dar pra vida, nada. Claro que não consegui 100%, mas digamos que uns 90% do tempo foi gasto apenas vivendo o presente, aquele presente de estar ali com os meus. O resultado foi que, quando subi no avião de volta, estava incrivelmente relaxado. Claro que não deu pra evitar lágrimas e aquela saudade antecipada de quando a gente sabe que precisa ir, embora ainda faltem um ou dois dias, ou mesmo algumas horas. Mas foi tão diferente de quando vim pra cá em março do ano passado que eu nem me reconheci. Sim, claro que, desta vez, eu já sabia para onde estava indo de verdade: já sabia qual ônibus pegar, já tinha endereço certo pra ir, já não tinha uma penca de coisas para resolver. Ainda assim, acho que passar esse mês sem me preocupar com o futuro contribuiu bastante para essa sensação de calma.

O primeiro efeito foi que não tive nenhuma crise de ansiedade durante toda a viagem de volta. Consegui falar com todo mundo no caminho sem problemas (quem tem transtorno de ansiedade sabe quão desmoralizante e humilhante pode ser não conseguir articular um som na hora em que você tem que falar—tipo, por exemplo, no guichê de imigração, sabe?). Isso já me fez sorrir de orelha a orelha até em casa. Segundo, de repente, me dei conta que estava falando francês. Sabe quando você abre a boca pra falar, seu cérebro sabe que não é a sua língua materna que tem que entrar em ação e ele manda o inglês no lugar, porque é o idioma que está mais fácil e seguro à disposição? Pois é, não foi o que aconteceu. Mais de uma vez, de repente, eu estava falando francês nos aeroportos e com passageiros. Foi um misto de alegria, supresa e "tô possuído", mas foi muito, muito bom!



Ah, cabe ressaltar uma coisa do meu retorno: foi a primeira vez que fui pra fora do Canadá como residente permanente. Então, como bom garoto que sou, levei minha carteirinha de residente permanente e fiquei curioso para saber como seria meu reingresso no país. Foi assim: fui direcionado para a fila dos cidadãos e residentes...




...,que estava longa, e terminei em um totem de auto-atendimento. Na telinha, escolhi o idioma, respondi uma ou duas questões, a máquina escaneou minha carteirinha (demorei aqui porque tem que segurar a dita cuja lá dentro, e eu só passava pelo leitor. Fiz duzentas vezes até me dar conta) e, em seguida, pediu para inserir o formulário da alfândega. Aqui, perdi mais tempo porque eu inseria o formulário e a máquina cuspia de volta, dizendo que eu não havia inserido o formulário do jeito certo. Fui atrás de uma funcionária, que fugiu de mim como se eu fosse um Dementador, e tive que ser resgatado por outra, que me explicou que as pontinhas de papel que haviam sobrado depois de eu destacar o formulário faziam a máquina rejeitá-lo. E não é que a prestativa senhora estava certa? Tirei as pontinhas e o formulário foi engolido suavemente pelo totem. Mais alguns apertos de tecla e a máquina emitiu uma cópia do formulário, que entreguei na saída da área de imigração. Pronto, estava eu lá, residente permanente, de volta ao lar.

E a diferença óbvia depois de um mês fora estava lá: neve pra todo lado. Todo mundo empacotado, e eu achando o máximo! Continuam dizendo que vai chegar o dia em que eu vou ficar de saco cheio do frio, e eu continuo esperando (sem pressa alguma).

Agora é retomar as atividades. Que esse ano seja tão bom pra mim quanto o que passou. E que para vocês aí do outro lado da tela seja melhor ainda!

À bientôt!


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Mundo Lingo

Desde que terminei o curso de inglês na McGill, tive que adicionar um item à lista de "coisas nas quais ficar de olho": dar um jeito de treinar o idioma para não enferrujar e não voltar a ficar inseguro. De início, não me empenhei muito, já que continuava usando inglês quando falavam comigo em inglês e não tinha problemas. Mas, depois de começar o curso de francês, notei que as palavras em inglês estavam começando a demorar um pouco mais que o normal pra vir à mente e — pior! — algumas não vinham ou vinham com versões afrancesadas. Longe de ficar totalmente feliz por ver o francês se tornando mais presente no meu dia a dia, comecei a ficar com medo de perder o nível que consegui no inglês.

Obviamente, em termos de leitura e compreensão oral não há grandes problemas pra se encontrar maneiras de praticar. O mundo inteiro é praticamente todo em inglês. É facílimo encontrar material de leitura na Internet, e as séries de televisão e os filmes mais assistidos do mundo são em inglês. Há podcasts de notícias, sobre economia, cinema, quadrinhos, filosofia, história; vídeos de diversos canais de televisão anglófonos mundo afora; e aqui no Canadá, com as bibliotecas, tudo isso é ainda mais acessível. O problema mesmo é para falar. Não sei quanto a vocês, mas eu não tenho o hábito de parar estranhos na rua pra puxar papo e treinar idiomas.




Sendo assim, comecei a procurar outras opções. Uma delas, que já uso há algum tempo, é se cadastrar em sites para conhecer pessoas de outros países, à distância mesmo. A maioria é mais focada em chats ou trocas de e-mails, mas já é uma maneira de treinar a escrita. Se você e a outra pessoa animarem, podem partir pro Skype, o que permite treinar a fala. Só que, na minha experiência, isso é muito incerto. A maioria das pessoas está nesses sites sem muito propósito ou apenas com uma vaga intenção de praticar idiomas. Nem sempre é fácil encontrar quem queira sentar sistematicamente uma ou duas vezes por semana para falar inglês durante uma hora, por exemplo. Boa parte aparece na primeira ou na segunda semana e depois some.

Então resolvi reexaminar uma ideia que me foi passada logo que cheguei aqui e que eu nunca tinha experimentado: o Mundo Lingo




O Mundo Lingo é um grupo de pessoas que se reúne semanalmente em locais e horas determinados e que tem por objetivo promover o encontro de nativos e de estrangeiros. É uma forma de facilitar a adaptação de estrangeiros a um país novo (ou mesmo de pessoas que mudam de cidade dentro de um mesmo país) e também de treinar idiomas diversos. Até o momento, eles realizam encontros em 13 países. Aqui em Montreal, são três dias por semana, em três locais diferentes. Se quiser conferir a agenda, clique aqui.

O esquema é bem simples: você vai ao local do encontro dentro do horário estabelecido, encontra a mesa de recepção do Mundo Lingo e fala qual o seu país de origem e quais as línguas você quer praticar. Eles te dão, então, bandeirinhas adesivas representando o seu país e aqueles cujo idioma você quer treinar. Aqui costumam dar a bandeira canadense e a do Quebec quando você diz que quer praticar inglês e francês, respectivamente (mas peguei a da França uma vez porque a do Quebec tinha acabado). Você cola as bandeirinhas na camisa em ordem de fluência e, depois disso, é só perambular pelo local ou encontrar uma mesa em que o pessoal também tenha bandeirinhas.



Há várias vantagens nesse tipo de encontro, na minha opinião. Primeiro, obviamente, você tem a possibilidade de encontrar nativos e de efetivamente conversar com eles (e não apenas aquelas "conversas" de loja ou supermercado, em que você dá bom dia, a pessoa te fala o preço, você paga e diz "até logo"). É muito legal poder falar com pessoas que nasceram e cresceram aqui, ouvir as opiniões deles sobre a cidade e sobre o país, sem falar no próprio uso local dos idiomas. Segundo, há gente de todos os cantos do mundo, o que significa que você também é exposto a sotaques diferentes, o que ajuda muito a treinar o ouvido. Terceiro, não há obrigação alguma em relação a com quem falar, em qual grupo ficar ou coisa do tipo. Não gostou de um grupo, vai pra outro! Aliás, mudar de parceiros de conversação é algo que é encorajado, mas nada te impede também de ficar com um só grupo se você está gostando da conversa. Quarto, é um ótimo jeito de fazer novos amigos, locais e internacionais, embora (de novo) ninguém seja obrigado a trocar telefones, contato de Facebook ou coisas do tipo. Na maioria dos casos que presenciei, as pessoas chegam, batem papo a noite toda, agradecem, se despedem e é isso. Quinto, ninguém está lá pra julgar sua habilidade. Não sou ingênuo de achar que ninguém tem sua opinião sobre quão bem ou mal o outro está falando, mas é um ambiente para que pessoas de todos os níveis pratiquem. Então, todos que vão sabem que encontrarão de nativos a gente uga-buga. Faz parte do pacote.

Ah, por último e muito importante: exceto pela sua consumação no local do encontro, é tudo grátis ;)

Eu fui três vezes até agora, e só não fui mais porque sou muito bicho-do-mato antissocial. Nas duas primeiras vezes, fui com um dos meus colegas quebecos. Daí tivemos problemas de horário nas semanas seguintes e eu, com receio de ir sozinho, deixei quieto. Chamei outras pessoas, mas elas tinham compromisso ou estavam com preguiça. Aí, finalmente resolvi ir sozinho e, pra minha surpresa, meu colega espanhol da aula de francês me mandou uma mensagem perguntando se eu não queria ir com ele. Topei, claro, mas ainda assim passei uma boa parte do tempo "sozinho" porque ele levou uma hora e meia pra aparecer. E "sozinho" está entre aspas porque não fiquei sozinho em momento algum. Primeiro foi um japonês, aí chegaram um português e um brasileiro, daí chegaram uma libanesa, uma sueca e uma egípcia, mais tarde chegou um canadense anglófono, tudo isso só na mesa em que eu estava. Ainda tive a chance de falar com um peruano e um britânico, além dos vários quebecos que sempre estão por lá.

Enfim, quem diria que eu, antissocial como sou, estaria recomendando encontros grupais entre desconhecidos, mas voilà. É claro que o que é feito no Mundo Lingo não é exatamente excepcional. Muita gente vai pra bares e pubs e simplesmente começa a bater papo com quem estiver por perto. A diferença,  pra mim, é que os eventos do Mundo Lingo (como os Meetups) têm o objetivo bem claro, e todo mundo que se dispõe a ir vai sabendo que todos estarão abertos. Se você também procura um jeito mais espontâneo e focado de praticar, fica a dica!

À bientôt!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Encomenda na porta e um gostinho de inverno

Uma coisa que sempre me chama a atenção por aqui é como algumas entregas são feitas. Pelo que deu pra perceber, quando as encomendas são pequenas e o dono do apartamento não está em casa, a encomenda é deixada no chão, na frente da porta do apartamento, desse jeito aí, ó:




Tirei essa foto numa segunda-feira e o pacote continuou na frente da porta por mais três dias (acho que o morador estava viajando). É algo impensável em boa parte do Brasil, como expliquei pra um dos meus colegas quebecos no último fim de semana. Não é que a maioria das pessoas no Brasil fosse roubar a encomenda; eu acredito que a maior parte da população deixaria o pacote lá quieto, e talvez alguns até o pegassem para depois ir bater na porta do dono e entregar em mãos, com o intuito de evitar que fosse roubado. Mas os brasileiros sabem que a probabilidade de que alguém acabe, digamos, dando um fim pra um pacote da Amazon dando sopa assim é maior do que a gente gostaria de admitir. Infelizmente, no Brasil, teria gente que pegaria o pacote só pelo fato de poder pegar, mesmo sem ter ideia do que encontraria na hora em que abrisse.

Ainda acho estranhíssimo esse tipo de coisa. Eu ainda não entrei totalmente no clima "estou seguro aqui" por dois motivos. Primeiro, tem todas as décadas vividas no Brasil e as minhas experiências de violência urbana (que são bem mais leves do que as histórias que muita gente vivenciou por aí, mas, ainda assim, violência urbana é violência urbana, e só quem é submetido a ela sabe o quanto é ruim). Segundo, por mais que o Canadá seja infinitamente mais seguro que o Brasil, ele não é Avalon. Há mais ou menos um mês, circulou pelos grupos de Facebook e listas de discussão o caso de uma brasileira que teve o condo invadido quando ela estava fora. Fizeram uma limpa levando, entre outras coisas, o laptop dela. Há algum tempo, li também sobre um casal brasileiro que surpreendeu o zelador do prédio fazendo as "compras" do mês na geladeira deles. Aqui, os zeladores sempre têm uma chave extra do apartamento, que eles usam, teoricamente, apenas quando algo precisa ser verificado na unidade e o morador não está. Mas, obviamente, vai da índole do zelador agir dentro dessa regra ou não. E aí, com a vivência brasileira na veia, como é que o cidadão se acostuma do dia pra noite com essa história de deixar seus bens "desprotegidos"? No Brasil, trancando tudo a gente ainda fica com receio de voltar pra casa e descobrir que alguém fez uma visita inesperada durante a nossa ausência, imagina então você sabendo que, em algum momento, vão mesmo entrar no seu apartamento (no meu, sei que o zelador veio pelo menos duas vezes quando eu estava fora).

Mudando radicalmente de assunto, há umas duas semanas veio o primeiro indício de que o inverno está mesmo chegando. Taí a prova:




De lá pra cá, nevou em alguns dias, mas não o suficiente pra cobrir o chão, pelo menos não nas regiões da cidade pelas quais perambulo. Mas, como já disseram inúmeras vezes, que ninguém se engane: a neve tarda, mas não falha.

À bientôt!

sábado, 5 de dezembro de 2015

E há um ano...

...eu pedia exoneração do serviço público brasileiro.



Como o meu pedido de licença seria negado ou pela minha chefia imediata, ou pela chefona máxima do órgão em que eu trabalhava, decidi não fazer pedido nenhum e simplesmente assinar a minha exoneração. Parte de mim ficou apreensiva por estar abrindo mão do salário & estabilidade que tantos tentam desesperadamente conseguir todos os anos; mas a outra parte sabia que ainda que as coisas não dessem certo no Canadá e eu resolvesse voltar pro Brasil, retomar um cargo no serviço público seria a minha verdadeira derrota.

Mas, passado um ano, ainda penso assim? Numa palavra, se você não quiser ler o resto do post: sim.

O medo causado pela instabilidade e desemprego logo deu lugar à ansiedade pela descoberta. O novo rapidamente ganhou espaço frente ao temor em relação ao que poderia dar errado. O primeiro benefício da minha exoneração se fez sentir na minha saúde: eu fiquei praticamente um ano sem pegar nem um resfriado. Pode parecer uma banalidade, mas pra quem tinha um resfriado por mês (às vezes dois) fazendo um trabalho que não gostava numa cidade da qual eu não gostava (São Paulo já havia perdido qualquer tipo de encanto pra mim há um bom tempo), ficar um ano sem precisar tomar um nada pra melhorar foi uma verdadeira conquista! No fim, só sucumbi mesmo frente ao outono aqui em Montreal, com todo mundo espirrando e fungando ao mesmo tempo. Ainda assim, foi um resfriadinho tão fraco comparado aos que eu tinha em São Paulo que eu dava até risada a cada espirro.

Outro benefício é aquele que vem do "e agora, José?". Saber que não tenho mais o porto seguro do serviço público para onde correr em caso de tempestade me obriga a encarar o meu maior dilema existencial desde que eu tive que escolher entre a Marvel e a DC: o que eu quero da vida? Essa pergunta azucrina a minha mente há mais de uma década. Muitos já têm essa resposta, outros nem fazem a pergunta, mas eu estou no grupo daqueles que tentam, se esforçam, arriscam e, mesmo assim, continuam sem saber para onde ir. Minha vinda para o Canadá, ao contrário do que talvez possa parecer, não foi motivada apenas pela situação político-econômica brasileira, pela minha incompatibilidade com a maior parte da cultura que divido com os meus compatriotas ou com a insegurança causada pela violência desmedida (que acabamos aceitando como natural). Isso tudo foi um tempero, mas a razão principal da minha imigração é algo que remonta a um desejo do início da minha adolescência: viver, de verdade, num outro país. Era uma vontade quase tão velha quanto eu mesmo. E, dentro dessa vontade, está também de saber para onde eu quero levar a vida. Ainda não tenho resposta pra isso, mas a sensação de liberdade que sinto por não estar mais atrelado a algo de que eu não gostava e que eu via como empecilho a todo o resto me faz sentir que agora eu tenho como descobrir.




Basicamente, tudo que escrevi no meu post de despedida do trabalho se confirmou. O contato que tenho com os antigos colegas de labuta se resume a curtidas no Facebook ou no Instagram. Escrevi para eles um tempo depois da minha chegada aqui para ver se eu estava enganado em relação a como eu percebia o pessoal, mas não estava: poucos me responderam e, mesmo eu continuando a escrever, todos pararam, no fim. Não é nada de mais, tendo em vista que eram só colegas de trabalho mesmo e que nossa relação lá nunca foi além do prédio do órgão. Continuo sendo grato pelo ambiente que proporcionaram pra mim durante todos os meus anos lá, e torço pra que eu não tenha sido uma pedra no sapato de ninguém (mesmo eu não escondendo que acho a maior parte do serviço público completamente inútil). De resto, cada um segue sua vida.

No fim deste primeiro ano sem serviço público, posso dizer que, ainda que desempregado e ainda que não saiba ao certo pra onde ir, me sinto bem melhor do que me sentia até o dia 5 de dezembro de 2014. Agradeço a chance de aprender a lidar um pouco mais com as pessoas, desenvolver um certo olho clínico para as relações de trabalho, entender como certas coisas funcionam e, sobretudo, de poder economizar uma grana que está me permitindo ir atrás de responder aquela pergunta lá: "E agora, José?".

Pra finalizar, um vídeo que resume bem uma grande parte da minha vida de servidor e o que eu acabei fazendo. As pastas, as conversas sobre aposentadoria e até o cafezinho, tá tudo nessa cena. Comme lui, je choisis un avenir sans débouchés. Et comme lui, je suis un vrai bordel ;)



À bientôt!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte IV

E eis que meu primeiro trimestre cursando o Certificado de Francês da Universidade de Montreal vai chegando ao fim... e que longo trimestre curto foi! Ao mesmo tempo que as aulas se sucederam com uma rapidez assustadora pra mim, tinha horas que parecia que não ia acabar nunca, principalmente no que diz respeito à aula de francês escrito, tudo isso patrocinado pela minha ansiedade, claro. Afff!


Mas vamos por partes: a minha aula de francês oral já acabou. Há uma semana, para ser preciso. Como ela tem uma carga horária semanal maior, começou um pouco depois e terminou um tanto antes da de francês escrito, que só acaba daqui a três semanas. Posso dizer que fiquei bem satisfeito com a aula: como a professora deixou claro lá no início, o objetivo era falar. E isso nós fizemos! Todas as segundas-feiras, tínhamos que ler um artigo tirado da imprensa e apresentá-lo para um grupinho de alunos da turma. Além disso, a professora sempre trazia pontos gramaticais que costumam criar problemas para quem está aprendendo francês (passado do subjuntivo, condicional, etc) e dava exercícios (orais e escritos) pra gente. O uso dos pronomes (le, la, y, en...) teve um lugar cativo no coração de todos (só que não), já que a maioria tenta evitar usá-los. Também tivemos a oportunidade de assistir alguns curtas e animações em francês do Quebec, com direito a lista de expressões, diferenças entre palavras do francês daqui e de la France, entre várias outras atividades.

A turma não era exatamente empolgante. Diferentemente do que aconteceu na McGill, não houve em nenhum momento uma sensação de união, por assim dizer. Por um lado, talvez essa união esteja mais em como eu percebia as pessoas e me relacionava com elas lá na McGill do que na turma em si. De qualquer forma, eu chegava na turma da McGill e me sentia em casa; na turma da UdeM, isso não acontecia. Primeiro, porque tínhamos aulas só duas vezes por semana. Ver as pessoas todos os dias ajuda a criar intimidade ou companheirismo mais rápido, na minha opinião; então, a gente já saiu perdendo nesse quesito. Segundo, a União Europeia da sala (mais especificamente, as alemãs, a finlandesa e a austríaca) formaram um núcleo um tanto antipático. Se isolaram num lado da sala e tratavam os outros alunos com uma cordialidade fria que fez com que todo o restante da turma entendesse que elas estavam muito bem sem nós, obrigado. As únicas interações delas com o resto dos mortais era quando éramos separados em grupo para as atividades. Além disso, elas tinham o hábito extremamente desagradável de rir abertamente cada vez que alguém cometia um erro. O alvo preferido delas era um iraniano que realmente tinha imensa dificuldade pra se expressar. Bullying dos grandes, mas ele só olhava pra elas com desprezo e voltava a tentar acertar a frase. Triste da parte delas, que têm um nível alto de habilidade com o idioma. Se eu fosse religioso, faria uma prece por elas; como só o sou às terças e quintas à noite, espero que um cachorro faça xixi nos pés delas.



Outro aspecto que dificultou o entrosamento da turma (e talvez tenha se originado desse primeiro ponto aí em cima) é que os outros alunos meio que se retraíram e estabeleceram uma parceria/cumplicidade com quem estava imediatamente próximo — e só. Ninguém pareceu muito à vontade para ir sentar perto de outras pessoas que não aquelas que estavam na sua vizinhança, e nem na hora do intervalo era comum ver as pessoas interagindo. Cada um ficava com seu celular e pronto. Curiosamente, fora as alemãs e a austríaca, ninguém ficou amiguinho de alunos que tinham o mesmo idioma nativo. Talvez, de forma consciente ou não, todos tenham achado melhor evitar a possibilidade de deixar de falar francês pra falar o idioma da terra natal. O outro brasileiro da turma fugiu de mim logo na terceira aula. Nem precisava, porque eu não teria problema algum em falar só francês com ele. Mas ouvi ele dizendo pra uma aluna certo dia que ele preferia não falar com outros brasileiros porque ele achava esquisito falar outra língua que não o português com um conterrâneo. Então tá. Aparentemente, ele não foi o único a pensar assim: os iranianos só se cumprimentavam, as sul-americanas nem isso.




Acabou que fiz amizade (ou "coleguismo de sala de aula") com um espanhol, que até tentou entrar no grupinho da União Europeia (geograficamente, ele teria direito), mas não conseguiu. Talvez porque seria o único homem no grupo, talvez porque o francês dele ainda não estivesse no nível exigido para se tornar membro, ou talvez ainda porque a Espanha é economicamente mais fraca que a Alemanha, a Áustria e a Finlândia. Vai saber. O fato é que não deram muita bola pra ele (mas evitavam rir abertamente dos erros dele. Solidariedade seletiva), e ele achou que talvez tivesse mais sorte comigo. Acho que foi bom para nós dois, no fim. Como tínhamos um nível semelhante, nos sentíamos perfeitamente à vontade um com o outro para conversar e fazer as atividades durante a aula. E, como fazíamos metade do trajeto de metrô juntos, tínhamos mais oportunidade para praticar. No fim, mesmo que não tenhamos forjado nenhuma amizade verdadeira pra atravessar gerações, foi bom poder contar com alguém durante as aulas e ter um parceiro para os trabalhos e provas (além de poder dar umas risadas juntos de bobagens aleatórias) foi legal.

Ah, as provas! O que faríamos sem elas? Bom, muita coisa, eu poderia fazer uma lista, mas não importa: elas existem e a gente tem que se submeter, no fim das contas. Tivemos três travaux pratiques (que eles chamam de TP), um intra (uma prova de meio do trimestre) e o examen final. Apesar da diferença nos nomes e também no peso das notas, foram todos bastante similares: tivemos que discutir o assunto de um artigo ou vídeo que tínhamos assistido (em alguns casos, de livre escolha; em outros, indicados pela professora) antes da aula ou no próprio momento da prova, às vezes gravando a conversa em gravadores digitais, às vezes na frente da professora. Minha ansiedade não ajudava em nada quando tinha que apresentar para ou conversar diretamente com a professora, basicamente porque fico sempre constrangido na hora de falar com nativos; em compensação, ficava bem mais tranquilo quando eu só tinha que conversar com o meu colega espanhol.

As notas me surpreenderam bastante! Nivelando pela fluência que a União Europeia da turma demonstrava, eu claramente estava abaixo e, por isso mesmo, não esperava muita coisa. Não estava esperando notas baixíssimas, mas achava que ficaria na média. Quando a professora entregava as notas, porém, eu sempre me assustava, porque eram notas altas. Acabou que, embora eu ainda não tenha o resultado final, é bem possível que eu fique com A ou A- (com uma possibilidade de cair pra B+, se o meu desempenho na última prova tiver sido desastroso). Agora, uma coisa é a nota, e outra é como eu me sinto em relação à minha habilidade com o idioma. Eu acho que houve progresso, sim, embora a minha ansiedade dificulte fazer uma avaliação mais precisa. Mas eu continuo não achando que sou avançado coisa nenhuma. Eu consigo me expressar em boa parte das situações, a professora falou que meu sotaque não é um problema, mas eu sinto que me falta vocabulário, eu ainda erro tempos verbais (na hora de fazer o discurso indireto então...), e quase nunca tenho certeza de qual preposição usar com esse ou aquele verbo. Então, por mais que, para fins de histórico escolar seja ótimo ficar com um A ou A-, eu com certeza me daria uma nota mais baixa. Pra mim, aluno avançado é aquele que já domina as estruturas do idioma e está polindo o discurso, ou seja, incorporando vocabulário mais específico e/ou de linguagem mais culta. Mas deve ser por isso que não tenho escola de idiomas (e por isso que tanta gente por aí tem "avançado" no currículo).

No fim, embora as aulas de francês oral tenham sido proveitosas, vou sentir mais falta da oportunidade de praticar francês duas vezes por semana do que da turma ou das atividades em si. Mas não me arrependo de forma alguma, e fiquei contente por ter tido a chance de fazê-la. Agora é esperar o trimestre de inverno e torcer para que a fluência um dia chegue!

À bentôt!

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Portes Ouvertes (UdeM)

Como mencionei no post passado, além do evento da McGill eu fui também ao da Université de Montréal. Ele aconteceu no dia 8 de novembro, também das 10 hs às 16 hs, e a maior parte das "atrações" ficou concentrada justamente no prédio da Faculté de l'Éducation Permanente em que tenho minhas aulas de francês, então não tive como me perder.




Mas essa segurança fez com que eu me atrasasse na hora de sair de casa e perdesse a primeira palestra, que era sobre o processo de admissão da universidade. Nada totalmente trágico,  já que a palestra seria repetida mais tarde, mas eu queria estar de posse das informações mais básicas para depois poder fazer perguntas específicas nos lugares adequados. Tudo bem,  né, fazer o quê?

A UdeM usou três andares do prédio para o evento. Além das palestras, havia diversos quiosques (ou banquinhas) de diversos cursos e serviços da universidade. O térreo ficou mais com quiosques de informações sobre serviços (tipos de admissão, bolsa, benefícios de ser aluno da UdeM, etc), enquanto os andares superiores ficaram com os cursos de graduação, alguns de pós-graduação e alguns de serviços mais específicos. Reservaram uma sala do último andar para que os candidatos expusessem suas dúvidas a um funcionário do serviço de admissão e recebessem reposta imediata. Se o caso fosse muito complexo, o candidato ainda poderia ser encaminhado para um encontro de 10 a 15 minutos com um conselheiro de admissão, que analisaria o caso e indicaria o melhor caminho. Tudo bem organizado e bem distribuído, apesar de que, em alguns momentos certos lugares ficaram bem muvucados e parecia mais pré-ensaio da Unidos do Cotovelo.

A primeira palestra da qual participei foi sobre financiamento de estudos. Há bolsas de tudo quanto é tipo, parciais e integrais, dadas pela universidade ou pelo governo, baseadas em renda ou em mérito, blábláblá. É bastante coisa e eu mesmo só conhecia algumas opções. Aliás, continuo só conhecendo algumas porque a palestra, obviamente, deu apenas uma visão geral sobre as bolsas e nos passou os sites e links para ler mais a respeito (coisa que ainda não parei pra fazer). Mas de cara, é bem legal essa possibilidade de poder contar com tanto incentivo pra estudar.

Em seguida, assisti a palestra sobre a admissão. Como no caso da McGill, as informações eram destinadas mais aos candidatos quebequenses recém-saídos dos CÉGEPs da vida e aos alunos estrangeiros, então não apresentou grandes novidades em relação ao que eu já sabia. Aliás, a Universidade de Montreal tem um site em português com informações sobre admissão, caso você aí que está lendo essas linhas tenha interesse. É só clicar aqui.



A terceira e última palestra do dia foi sobre o que fazer após um bacharelado em ciências sociais. Eu resolvi assistir porque pensei que seria uma espécie de palestra de auto-ajuda pra quem não é chegado em engenharia, TI, química, enfermagem e outros cursos que têm emprego quase certo. Ou seja, pensei que seria uma palestra tipo "olha, não pense que você vai morrer de fome se estudar Ciência Política, veja o que dá pra fazer!", mas não foi bem isso. Falaram sobre mestrado e sobre como um bacharelado na área pode ser um passo inicial até para uma mudança de área. Assim, o objetivo deles não era o que eu imaginava, claro, mas ainda assim não desceu muito bem a ideia de fazer um bacharelado em ciências sociais "só" para fazer um mestrado e/ou mudar de área depois.

Entre uma palestra e outra, fiz o que eu queria mesmo fazer: passeei pelos vários estandes de cursos da universidade. Foi algo de que senti falta na McGill e acho que eles fariam muito bem em incorporar usando o modelo da UdeM. Cada quiosque tinha professores e alunos dispostos a responder suas dúvidas e explicar o funcionamento do curso, além de material impresso todo pensado pra te convencer. Passei nos estandes de História, de Línguas Modernas, de Literatura, Ciência Política, Estudos Orientais, Estudos Alemães e o do curso que mais me chamou atenção, o de Estudos Internacionais. Eu queria ter batido mais papo com os alunos, mas imagina se eu fico com vergonha de falar francês no meio dos nativos, né? Ainda mais que era bem comum eu chegar pra pedir informações e chegarem mais dois ou três candidatos pra ficar escutando. Então, só bati um papo mais longo e mais interessante mesmo com um aluno de História e outro que estava promovendo o novíssimo bacharelado de Línguas Modernas.




Depois de tudo isso, ainda fui tirar minhas dúvidas na salinha de admissão que mencionei antes. Era um tanto mais fast-food do que tinha parecido a princípio: você entrava numa fila e, ao final dela, haviam improvisado guichês de atendimento. Então foi quase como ir ao banco ou pedir um lanche no McDonald's. A menina que me atendeu respondeu todas as minhas dúvidas, mas ela tinha uma certa pressa em me cortar antes que eu concluísse a pergunta, o que fez com que eu tivesse que repetir porque nem sempre ela acertava o que eu queria saber de fato. Enfim, primeiro eu quis saber se poderia ser admitido mesmo já estando fazendo o certificado de francês e ela disse que sim, mas que eu talvez tivesse que priorizar um em detrimento do outro caso fosse aceito. Perguntei também se algo no regulamento da universidade me obrigaria a fazer menos de 90 créditos para me formar (e expliquei a história do que acontece na McGill para quem quer fazer um segundo bacharelado) e ela informou que não, que terei que cumprir o total de créditos exigidos pelo curso e para a obtenção de um bacharelado. Também quis saber se eles olhariam o meu histórico do ensino médio e o da minha primeira faculdade ou se seria só a da faculdade, e ela disse que só a da faculdade (com cálculo de GPA), a não ser que alguma situação especial faça com que um exame das notas do ensino médio seja necessário. Por fim, perguntei sobre o teste de francês e quando eu poderia começar a esperar uma decisão e ela disse que é difícil apontar uma data, mas que antes de março era pouco provável. Quanto ao teste, ela pediu pra eu ir falar com um cara num outro estande, e ele me informou que eu teria até julho do ano que vem pra apresentar o resultado do teste.

Saí de lá bem satisfeito (e com dor de cabeça) com o evento. De forma geral, eles realmente te dão toda a informação de base e, nos casos mais específicos, indicam onde você pode conseguir mais detalhes. Eu, agora, me encontro naquele estágio em que preciso analisar várias coisas, como por exemplo: 1) volto mesmo pros bancos da universidade e postergo o início da vida profissional aqui (caso seja aceito, claro)?; 2) fazer uma dívida com o governo em se tratando de cursos que eu não sei onde vão dar é uma boa?; 3) faço o pedido de admissão pra mais de uma universidade, pra cursos diferentes (=atirando pra todo lado) e aceito o que vier ou será que dá pra tentar não só restringir os cursos, mas também as universidades?; 4) Faço o teste de francês só depois de receber a resposta das universidades (caso seja aceito em alguma francófono, claro)?

E uma última que não tem como deixar de existir: tenho as caras de fazer uma nova faculdade en français, se tiver que fazer?

À bientôt!

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Open House (McGill)

Voltar ou não para a universidade é uma questão para a qual ainda não tenho resposta. Às vezes, acho que é meio sem noção querer fazer outra faculdade sem ter muita ideia do que quero realmente pra vida; outras vezes, penso que sem noção é ficar achando que serei atingido por um raio divino que vai me indicar o caminho "certo" e que, portanto, é melhor tentar do que ficar parado ou trabalhar com qualquer coisa. Essas duas maneiras de ver a questão se alternam quase o tempo todo, e elas se revezam no pódio de campeão do dia da minha mente dependendo de coisas tão banais quanto meu humor no dia ou um vídeo que alguém me envia.

Mas, enfim, ainda sou da opinião de que, se você não precisa tomar uma decisão às pressas, é bom se informar. E foi com essa intenção que participei, nas últimas semanas, de dois eventos em duas universidades aqui de Montreal cuja intenção é convencer os futuros alunos a escolher a universidade e mesmo o curso para seguir com os estudos. Esses eventos são bem comuns por aqui. Vi vários anúncios de universidades, colleges, CÉGEPs e outras escolas anunciando o seu próprio evento de "portas abertas", um dia em que você pode conhecer as instalações, assistir palestras, falar com alunos e professores, e tirar dúvidas sobre que tenha sobre admissão.

Nota: a ideia era falar sobre os dois eventos num post só, mas, pra variar, escrevi mais que a Wikipédia. Então, vou falar sobre o evento da McGill aqui e deixo para falar sobre o da Universidade de Montreal no próximo.

Open House - McGill University

O primeiro evento ao qual fui foi o da McGill. Ele aconteceu no dia 25 de outubro, das 10 às 16. Cheguei um pouquinho depois das 10, me identifiquei na área de recepção e ganhei sacolinha, mapa do campus, lista das palestras e outras indicações.

De lá, fui logo assistir a primeira palestra que me interessava. Era sobre admissão, mas acabou não me sendo de grande valia. Como era de se esperar, toda a informação foi voltada para estudantes vindos do sistema de educação canadense e dos Estados Unidos, com um pouco para alunos internacionais. Na verdade, havia uma palestra toda dedicada aos alunos internacionais, mas eu sou residente permanente, já tenho faculdade, então... fico meio no limbo nessa hora. E, se ainda não deu pra notar pelas postagens, eu sou tímido, então imagina se eu ia levantar a mão no fim pra fazer perguntas tipo: "Oi, sou um tanto velho, não sei exatamente qual curso fazer e nem quais partes do processo de admissão se encaixam pra mim, então será que você poderia me ajudar?". Preferi deixar pra encurralar alguém depois.

Campus da McGill


De lá, fui a um painel bem legal que era uma espécie de mesa redonda. Havia um estudante de pós-graduação (que fez a graduação também na McGill), dois estudantes atualmente na graduação, uma que já é formada pela McGill e está atuando no mercado de trabalho, e uma mãe de aluno. O painel começou com a mediadora fazendo perguntas do tipo "o que mais você gosta/gostou na McGill?", "qual foi a maior dificuldade durante os estudos?" e por aí vai, e era interessante ver as diferentes histórias (mas claro, sempre com o lado positivo da vida na McGill). Em seguida, as pessoas no auditório puderam fazer perguntas, e uma em especial foi interessante: uma mãe de candidato, americana, perguntou sobre a questão de consumo de álcool na universidade. Como nos EUA a idade mínima legal para beber é 21 anos, ela tinha receio do impacto que o álcool mais cedo (no Quebec, é liberado a partir dos 18 anos) poderia ter na vida pessoal e acadêmica do filho. Quem respondeu foi uma das alunas da graduação, que é americana, e ela disse acredita que o consumo de álcool aqui seja bem menos badalada que nos EUA. Lá, como a idade legal é 21, todo adolescente fica louco de vontade de "infringir a lei", beber escondido pra se sentir "livre" e "desafiando o sistema". Aqui, como a cultura é diferente, e como a idade legal é mais baixa, beber acaba não sendo um grande tcham na maioria dos casos. Enquanto nos EUA os universitários se acham o máximo tomando porres com 20 anos, consumir álcool aqui perde o glamour (se é que tem) mais cedo. Obviamente, o uso ou abuso vai de cada um, e todo mundo sabe que os adolescentes começam a beber bem antes da idade legal nos dois países.

Em seguida, participei de uma palestra de admissão da faculdade de Direito. Em um passado distante, eu pensei seriamente em estudar Direito. Até cheguei a fazer vestibular pra UPFR no Brasil. Mas foi uma coisa de momento que passou logo. Ainda assim, já tinha ouvido falar que o curso de Direito da McGill é puxado, e que aqui você precisa ter graduação pra ir estudar Direito. Enfim, fui lá pra descobrir como era a coisa. A palestrante, embora toda vestida de advogada bem-sucedida, aparentemente não tem muito o hábito de falar em público ou, no mínimo, não conhecia exatamente o processo de admissão. Foi uma palestra um tanto confusa, e ficou ainda pior porque ela falava ora em francês, ora em inglês. Enfim, o que tirei de lá é que (1) sim, precisa-se realmente ter uma graduação para só então ir estudar Direito; (2) a McGill é uma das poucas universidades (se não a única pras bandas de cá) que ensina o Direito Civil (utilizado no Quebec) e a Common Law (usada no restante do Canadá); (3) por isso mesmo, conhecimento das duas línguas é essencial, mesmo que o candidato não seja totalmente fluente, já que há disciplinas em inglês e disciplinas em francês; (4) o GPA (espécie de média das notas da faculdade) mínimo para ser considerado pelo comitê de admissão é 3.8. De uma escala de 4.0!!! Gente, isso significa que você precisa ter uma graduação praticamente impecável pra ser CONSIDERADO!!! Além disso, você ainda vai ser comparado a todos os outros crânios que tem GPA de 3.8 ou mais (acredite, eles existem!) e pode perder o lugar porque alguém fez um trabalho voluntário em algo relacionado a Direitos Humanos, por exemplo. Deve ser osso!! Eu já tinha ouvido dizer que se você tem GPA abaixo de 3.5 é difícil entrar em qualquer curso da McGill, mas essa do Direito me deu toda uma nova dimensão da coisa.


Campus da McGill


A última palestra pra mim foi da Faculdade de Artes e Ciências. Estava bem animado porque eu (in)felizmente eu me interesso por cursos que têm uma grande chance de me levar a uma vida de pobreza: História, Literatura, Cultura e Civilização e por aí vai. Então sentei mais próximo ao palco e fui até criando coragem para fazer perguntas. Mas tomei um balde de água fria: a palestra durou 15 minutos, e a dona que nos agraciou com sua voz usou esse tempo para, basicamente, repetir informações do site. Ok, tá bom, eu entendo que muita coisa pode ser encontrada no site, mas se você vai dar uma palestra pra apresentar a sua faculdade, custa fazer um trabalhinho mais elaborado? As outras palestras duraram entre 40 e 60 minutos, mais o tempo pra perguntas. Por que a da Faculdade de Artes, que tem um zilhão de cursos, tinha que durar 15? Todo mundo ficou surpreso quando a palestrante perguntou se alguém tinha dúvidas e, diante do silêncio, encerrou a sessão. Só que, óbvio, TODO MUNDO tinha dúvidas, então formaram uma fila pra ir perguntar sobre tudo que ela não havia dito.

Campus da McGill


Saí frustrado, mas ainda tinha uma missão: encurralar alguém pra bombardear com as minhas questões. E achei! Simpática, a mocinha ouviu toda a minha história e, em resumo, me disse o seguinte:

1) O processo de admissão é o mesmo que todo estudante canadense/quebequense segue. No meu caso, vão me avaliar pelo meu GPA da UnB em vez do segundo grau, mas, fora isso, o trâmite é o mesmo;

2) Como já tenho um bacharelado, se eu for admitido eles vão me considerar como Second Degree, ou seja, alguém que vai fazer um segundo bacharelado. Nesse caso, eu estarei limitado a 60 créditos (contra os 90-120 que um estudante que vai fazer o primeiro bacharelado tem que fazer). Isso é bom por um lado, pois significa que eu poderia ter um novo diploma universitário em dois anos. Porém, o lado ruim é que limita bastante o que eu poderia explorar na faculdade (sei que isso soa bem nerd, mas, se você acompanha o blogue há algum tempo, já deve ter se acostumado);


3) Não terei necessariamente que ficar só com as vagas que sobrarem. Como expliquei à moça simpática, a parte sobre Second Degree no site da McGill está junto com a parte de Transfer Students, o que faz parecer que ambos seguem as mesmas regras, e lá diz que estudantes pedindo transferência de uma outra faculdade só são aceitos se sobrarem vagas. Mas, segundo a moça simpática me explicou, se eu tiver um GPA competitivo, posso receber uma oferta de admissão logo no início da temporada, que começa em dezembro. Ainda assim, ela lembrou que o processo é bastante competitivo, e que eu não deveria esperar uma resposta antes de março ou abril do ano que vem.

Ela não soube me confirmar sobre a história do GPA mínimo de 3.5 pra ser considerado. Só disse que isso varia de um ano para outro e repetiu que o processo de admissão da McGill é bem competitivo. Senti que eu precisaria ser um Cavaleiro Jedi pra conseguir entrar, mesmo tendo GPA maior que o suposto mínimo. Mas, enfim, por enquanto, é só uma ideia, não é mesmo? 

*Suspira*

À bientôt!