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terça-feira, 16 de agosto de 2016

O imigrante "sabão"

Quem já mora há algum tempo fora sabe: existem vários tipos de imigrantes por aí. Tem o deslumbrado, o reclamão, o chorão, o ensandecido, o mil-sorrisos, o medroso, o amigão, o batalhador... mas hoje vou focar num tipo que é relativamente comum (e irritante): o imigrante "sabão".

(Antes que alguém deduza que o post terá algo a ver com limpeza, explico: "sabão", no caso, é uma singela homenagem a uma história da Turma da Mônica que eu li quando moleque. Nela, o pessoal da Turma chamava de "sabão" alguém que sabia muito. Bem linguagem de criança: o cara sabe muito, então, é um "sabão".)




Quando cheguei aqui, recebi ajuda de várias formas. Teve o meu amigo que me hospedou por um mês e meio até eu encontrar meu apartamento; teve conhecidos que me deram dicas sobre onde ir para encontrar certas coisas de que precisava; e alguns que me contaram coisas que aconteceram com eles para que eu ficasse atento a certas questões aqui. Pra quem está chegando, ajuda é sempre bem-vinda. Aliás, não só pra quem está chegando. Você pode estar vivendo há anos fora; se alguém te fala algo sobre a cidade, um serviço ou produto que você não conhecia, é sempre bom. Melhor ainda quando é num bate-papo descontraído.

O problema é quando uma pessoa acredita ter a chave para o fim de todos os problemas que te afligem. Ou às vezes ela nem tem, mas ela faz questão de contar como ela evitou esses mesmos problemas ou situações pelas quais você está passando por ser mais esperta, mais bem informada, mais popular, ter mais dinheiro, mais amigos ou conhecidos... enfim, ser melhor que você. E não só melhor que você. Melhor que todos os outros imigrantes. O imigrante "sabão" é assim: tudo que ele fez e faz é melhor do que o que todo mundo fez e faz, não importa em que área da vida.

Por exemplo: estava eu num café um tempo atrás com alguns imigrantes. Uma das pessoas do grupo falou sobre a dificuldade que estava tendo para receber uma autorização para trabalhar. O cônjuge dela veio com permissão de estudos e ela deveria ter recebido a autorização para trabalhar, mas, por algum motivo que ela não quis expor para o resto de nós (afinal, somos apenas "conhecidos"), estava demorando a sair e ela estava preocupada. Enfim, era apenas uma pessoa passando por uma situação difícil e buscando apoio e compreensão das pessoas em volta. Mas, dentre essas pessoas, estava um imigrante "sabão". A pobre moça teve que ouvir que ela devia ter lido mais a respeito do visto e se preparado melhor, porque imigração não é brincadeira. Que há vários casos de imigrantes que vem no oba-oba e que acabam se dando muito mal. Que há órgãos que podem ajudar a ver o que está acontecendo, é só procurar no Google.




E, como todo imigrante "sabão", ele não pode simplesmente orientar: ele tem que mostrar que ele sabe e que o que ele fez é o melhor. Depois da "ajuda", ele teve que narrar como, desde antes de sair do país dele, ele contatou várias pessoas aqui em Montreal para saber direitinho de todos os direitos e deveres dele. Não se fiou apenas no que leu nos sites oficiais e nem em blogues, que são cheios de gente mal informada. Ele leu, trocou e-mails, imprimiu manuais, telefonou, fez estudo comparativo de casos, de modo a não poder ser contestado em nenhum momento. Em suma, ele fez tudo e se deu bem; a outra fez pouco e, por isso, estava se dando mal. Azar o dela. Agora aguenta. 

Num outro lugar, uma pessoa perguntou qual o seguro residencial que as pessoas do grupo haviam contratado. Uma imigrante "sabona", em vez de responder a pergunta simplesmente, disse

—Olha, é obrigatório ter seguro. Se você não tiver, você pode ser responsabilizado criminalmente se o fogo começar na sua casa. Se você não tem, tem que correr pra fazer. Acho que pode até ter problemas para que te aceitem se você estiver morando há muito tempo sem seguro, porque aqui eles levam a sério e alguém que não tem seguro levanta suspeitas. Eu, quando cheguei, encontrei uma corretora ma-ra-vi-lho-sa, que me orientou em tudo, me explicou todos os detalhes e, graças aos céus, estou protegida desde o primeiro dia. Agora que tenho uma casa, então, durmo tranquila sabendo que não corro riscos.




Obrigado pelo texto de comercial. Mas responder a pergunta, que é bom, nada. Qual o seguro você contratou? Foi de banco? De seguradora? E a corretora ma-ra-vi-lho-sa, cadê o número, o contato, alguma coisa? E detalhe: nem tudo que ela falou procede.

Mas o imigrante "sabão" é assim. Se você tem conta no banco X, ele tem conta no banco Y e enumera todas as vantagens que ele recebe por ser cliente do banco e que você, como cliente do banco X, não tem. Se você faz transferência usando o método W, ele dá risada porque esse método cobra uma taxa de serviço absurda. O método que ele usa (que ele ou não revela, ou só revela depois do discurso de vitória, e isso se alguém perguntar de novo) faz com que ele economize muito mais que todas as outras pessoas e alienígenas do universo. Se você achou caro o pacote de açúcar que comprou no supermercado da esquina, ele põe na ponta do lápis quão pouco ele gasta com compras do mês — e provavelmente comendo mais e melhor que você. Se você quer fazer um curso de inglês e não sabe bem onde procurar, o imigrante "sabão" já fez vários, de "the book is on the table" até "how to hold your shit together when you are lecturing about quantum mechanics", sempre com excelentes professores e resultados excepcionais. Se você gosta de sorvete de morango, ele já provou o melhor sorvete de morango de Montreal, trazido diretamente de Nárnia, e conhece o dono da fábrica. Às vezes, ele está aqui só há um pouco mais de tempo que você, mas pode confiar: ele já viveu muito mais e já é "da terrinha", enquanto você, pobre mortal, ainda está lutando para decorar o nome da estação de metrô mais próxima da sua casa.

O que nutre esse comportamento, acredito eu, não é só uma simples vontade de aparecer: é a necessidade de competir, de se comparar com os outros e se sair vencedor. Muitos imigrantes veem sua nova vida aqui como uma espécie de tarefa que precisa produzir frutos grandes, brilhantes, lustrosos e abundantes para serem colocados na vitrine. Aliás, é só ver como a maioria dos imigrantes (e dos que sonham em imigrar, mas ainda não conseguiram) veem o retorno de alguém ao seu país de origem como uma derrota. "Ué, voltou? Ih, coitado(a), foi pro Canadá achando que ia virar barão e se deu mal. Agora vai ter que se virar no Brasilzão/Chilezão/Marrocão/Nepalzão". Poucos param pra pensar que, na verdade, desconhecem as razões que levam as pessoas a voltar. Ainda assim, a volta quase sempre é encarada como derrota, independente dos motivos, como se anos passados fora do país de origem fossem desprezíveis só porque a pessoa "não ficou pra sempre". Daí a necessidade (imaginária, mas incorporada por quase todos como ossos do ofício de imigrante) de ter que mostrar que está bem no novo país. Há quase uma obrigação pessoal de relatar constantemente tudo de bom que está ocorrendo, como as coisas são melhores do que se esperava, como você está vivendo o "sonho" (não gosto dessa palavra nesse sentido, mas explico isso outra hora). É uma cobrança, provavelmente muito mais interna do que externa. E essa cobrança leva aos "sabões", que parecem sentir que precisam se comparar o tempo todo com quem está à sua volta, e que se sentem exultantes quando percebem que sua história é "melhor" que a dos outros.

Enfim, os imigrantes "sabões" estão por aí, e é preciso lidar com eles. O melhor, na minha opinião, é só escutar cordialmente e, assim que ele fechar a boca, mudar o rumo da conversa. Eles detestam não estar "instruindo" as pessoas à sua volta, então, quanto menos você ficar impressionado com a narrativa deles, melhor. Só tomem cuidado para não se tornarem um deles.

À bientôt!

sábado, 6 de agosto de 2016

E a minha resposta é...

... que eu não vou encarar a McGill.

Não tomei essa decisão feliz e contente. Durante um bom tempo, eu acalentei a possibilidade de voltar a estudar, fazer um outro bacharelado e, assim, tentar encontrar alguma coisa que me interessasse o suficiente para que eu quisesse correr atrás. Namorei alguns cursos da McGill e de outras universidades ao longo dos últimos anos, e fiquei me imaginando voltando a estudar, obtendo um diploma universitário daqui do Quebec e começando uma nova profissão aqui. Então, apesar de a vida aqui ter me feito pensar menos em fazer faculdade, dá pra imaginar que, além da surpresa de ter sido aceito na McGill, eu fiquei muito animado.

Só que, parando pra pensar depois da euforia, comecei a considerar as coisas. Eu entraria lá sem fazer muita ideia do que estudar e em que me formar. Começar um curso universitário não sabendo o que você quer fazer não me parece lá uma decisão muito acertada, ainda mais levando-se em conta que eu precisaria fazer uma dívida com o governo para poder bancar os estudos, mesmo que parcialmente. Em seguida, tem o fato de que um diploma na área de Humanas não é exatamente, digamos assim, extremamente requisitado no mercado de trabalho. Suponhamos que eu saia com um diploma em História, Literatura Inglesa ou Filosofia. No mercado de hoje, o que se faz com isso? Até mesmo para dar aulas eu precisaria de Mestrado e Doutorado, o que implicaria passar mais uns seis ou sete anos estudando (e lá vai dívida) para desembarcar num mercado acadêmico que está bem saturado, de acordo com tudo que li a respeito.

E, para finalizar, tem a questão da idade. Não, não é que eu ache que 36 anos é uma idade avançada para se aprender coisas novas (=tô véio pra essa bagaça). Eu nem acho que exista idade limite pra se aprender nada, desde que você esteja querendo aprender. Mas a questão é o mercado novamente: ainda que eu saísse da universidade em quatro anos (supondo-se que eu realmente desse conta de fazer tudo no tempo previsto), eu chegaria ao mercado com 40 anos e sem experiência profissional relevante (porque os empregos de verão que eu provavelmente pegaria não são lá um grande divisor de águas pra ninguém) e com um diploma daqui, mas em uma área pffff. Os canadenses podem ser bem mais abertos em relação ao fator idade, mas, como um dos meus amigos quebecos colocou na nossa última conversa, não é porque são mais abertos que vão escolher quem tem mais idade em detrimento de quem tem mais experiência.

No fim das contas, depois de pensar bastante, acho que embarcar nessa seria extremamente gratificante do ponto de vista pessoal (sou nerd, gente, gosto de estudar), mas uma jogada não muito boa do ponto de vista de profissão e carreira. Se eu curtisse muito uma área específica, fosse apaixonado por curso, ainda talvez valesse a pena correr o risco. Mas entrar às cegas na universidade torcendo para que eu encontre alguma coisa que me interesse e que me leve a uma carreira (e ainda criando dívida no processo) talvez seja forçar um pouco a barra.

Então é isso. Apesar de meu raciocínio ser esse, ainda não consegui ir lá no sistema da McGill e clicar em "decline". Tenho só mais dois ou três dias de prazo, mas acho que essa decisão não vai mudar. Em algum lugar, espero que alguém que está na lista de espera da McGill fique feliz :)

À bientôt!

quarta-feira, 16 de março de 2016

Um ano de Canadá!!!!

Eu estou fazendo um milhão e meio de coisas, mas eu tinha que vir aqui pra deixar registrado: estou completando um ano de Canadá!!!




Nem tem como descrever um ano em algumas palavras. Mas posso dizer que estou bem. Estou muito satisfeito com as decisões que tomei e como tenho conduzido as coisas (ou elas têm me conduzido) até aqui. Estou longe de conhecer intimamente a cidade, o país, o modo de vida canadense, mas, aos pouquinhos, vou descobrindo. Uma rua diferente, uma expressão diferente, um rosto diferente, uma bebida diferente. Uma marca de chocolate diferente. Até um jeito diferente de fazer uma compra. Quando a gente muda pra um outro país, tudo é novo, tudo vale a pena ser explorado.

Passei pelas quatro estações! Vi as ruas quase desertas quando cheguei, o pessoal aparecendo timidamente quando a temperatura começou a ficar próxima de 0ºC, a invasão das bicicletas quando o gelo e a neve derreteram, o calor do capeta que faz em julho, o colorido do outono e todo mundo sumindo de novo no inverno. E adorei! Quando dei por mim, já estava falando para as pessoas que cheguei "no fim do inverno" e que estudei inglês "no verão" e, de repente, isso tinha sentido, sim!

Mas, acho que o mais importante, é que não sou o mesmo cidadão assustado que desembarcou no aeroporto de Montreal em 15 de março de 2015. Não que eu tenha deixado de ser o nerd tímido que sempre fui para ser estrela do rock popular. Certas coisas não mudam (ainda bem), mas é aquela típica situação em que posso dizer sem medo de exagerar: se eu soubesse como seria, teria me estressado menos :)

Para esse próximo ano, meu maior desejo (além de continuar cultivando o bem-estar que redescobri aqui) é poder dar um rumo profissional pra minha vida. Se tiver que voltar para a faculdade, vamos lá; se for pra ir pro mercado de trabalho direto, simbora; mas quero poder fazer algo que me deixe em paz comigo mesmo. Quero continuar construindo a vida aqui, em suma, pois acho (ainda só acho) que vim pra ficar.

Feliz um ano de Canadá pra mim!

À bientôt!

sábado, 5 de dezembro de 2015

E há um ano...

...eu pedia exoneração do serviço público brasileiro.



Como o meu pedido de licença seria negado ou pela minha chefia imediata, ou pela chefona máxima do órgão em que eu trabalhava, decidi não fazer pedido nenhum e simplesmente assinar a minha exoneração. Parte de mim ficou apreensiva por estar abrindo mão do salário & estabilidade que tantos tentam desesperadamente conseguir todos os anos; mas a outra parte sabia que ainda que as coisas não dessem certo no Canadá e eu resolvesse voltar pro Brasil, retomar um cargo no serviço público seria a minha verdadeira derrota.

Mas, passado um ano, ainda penso assim? Numa palavra, se você não quiser ler o resto do post: sim.

O medo causado pela instabilidade e desemprego logo deu lugar à ansiedade pela descoberta. O novo rapidamente ganhou espaço frente ao temor em relação ao que poderia dar errado. O primeiro benefício da minha exoneração se fez sentir na minha saúde: eu fiquei praticamente um ano sem pegar nem um resfriado. Pode parecer uma banalidade, mas pra quem tinha um resfriado por mês (às vezes dois) fazendo um trabalho que não gostava numa cidade da qual eu não gostava (São Paulo já havia perdido qualquer tipo de encanto pra mim há um bom tempo), ficar um ano sem precisar tomar um nada pra melhorar foi uma verdadeira conquista! No fim, só sucumbi mesmo frente ao outono aqui em Montreal, com todo mundo espirrando e fungando ao mesmo tempo. Ainda assim, foi um resfriadinho tão fraco comparado aos que eu tinha em São Paulo que eu dava até risada a cada espirro.

Outro benefício é aquele que vem do "e agora, José?". Saber que não tenho mais o porto seguro do serviço público para onde correr em caso de tempestade me obriga a encarar o meu maior dilema existencial desde que eu tive que escolher entre a Marvel e a DC: o que eu quero da vida? Essa pergunta azucrina a minha mente há mais de uma década. Muitos já têm essa resposta, outros nem fazem a pergunta, mas eu estou no grupo daqueles que tentam, se esforçam, arriscam e, mesmo assim, continuam sem saber para onde ir. Minha vinda para o Canadá, ao contrário do que talvez possa parecer, não foi motivada apenas pela situação político-econômica brasileira, pela minha incompatibilidade com a maior parte da cultura que divido com os meus compatriotas ou com a insegurança causada pela violência desmedida (que acabamos aceitando como natural). Isso tudo foi um tempero, mas a razão principal da minha imigração é algo que remonta a um desejo do início da minha adolescência: viver, de verdade, num outro país. Era uma vontade quase tão velha quanto eu mesmo. E, dentro dessa vontade, está também de saber para onde eu quero levar a vida. Ainda não tenho resposta pra isso, mas a sensação de liberdade que sinto por não estar mais atrelado a algo de que eu não gostava e que eu via como empecilho a todo o resto me faz sentir que agora eu tenho como descobrir.




Basicamente, tudo que escrevi no meu post de despedida do trabalho se confirmou. O contato que tenho com os antigos colegas de labuta se resume a curtidas no Facebook ou no Instagram. Escrevi para eles um tempo depois da minha chegada aqui para ver se eu estava enganado em relação a como eu percebia o pessoal, mas não estava: poucos me responderam e, mesmo eu continuando a escrever, todos pararam, no fim. Não é nada de mais, tendo em vista que eram só colegas de trabalho mesmo e que nossa relação lá nunca foi além do prédio do órgão. Continuo sendo grato pelo ambiente que proporcionaram pra mim durante todos os meus anos lá, e torço pra que eu não tenha sido uma pedra no sapato de ninguém (mesmo eu não escondendo que acho a maior parte do serviço público completamente inútil). De resto, cada um segue sua vida.

No fim deste primeiro ano sem serviço público, posso dizer que, ainda que desempregado e ainda que não saiba ao certo pra onde ir, me sinto bem melhor do que me sentia até o dia 5 de dezembro de 2014. Agradeço a chance de aprender a lidar um pouco mais com as pessoas, desenvolver um certo olho clínico para as relações de trabalho, entender como certas coisas funcionam e, sobretudo, de poder economizar uma grana que está me permitindo ir atrás de responder aquela pergunta lá: "E agora, José?".

Pra finalizar, um vídeo que resume bem uma grande parte da minha vida de servidor e o que eu acabei fazendo. As pastas, as conversas sobre aposentadoria e até o cafezinho, tá tudo nessa cena. Comme lui, je choisis un avenir sans débouchés. Et comme lui, je suis un vrai bordel ;)



À bientôt!

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Seis meses de Canadá!




Quando acordei no dia 14 de março deste ano, não consegui de forma alguma me sentir bem. Não bastasse a saborosa apreensão natural de uma situação tão "banal" como mudar de país, ainda tinha a deliciosa cobertura extra de apreensão e angústia que eu sempre coloco em qualquer coisa que faço, mais a tristeza da separação da família, tudo por apenas um Real a mais. Era o dia da mudança, o dia da virada na vida, o dia que marcava o recomeço, mas eu não conseguiria sentir nada disso naquele 14 de março. Meu pensamento se dividia entre a tristeza por deixar minha família (de novo), um pouco de culpa por deixá-los tristes com uma nova partida minha, e as variantes para perguntas como "será que estou MESMO com todos os documentos de que vou precisar?".

O 15 de março chegou um pouco mais leve. Apesar de todo o perrengue de chega-numa-cidade-muda-de-avião-vai-pra-outra até aportar de vez em Montreal, o luto do dia anterior já se fazia mais discreto. Depois de encontrar meu amigo no aeroporto da cidade e ir pra casa dele (e, principalmente, depois de tomar um banho, comer e bater papo), comecei a olhar pra frente com mais otimismo e curiosidade.

Roda a fita pra seis meses depois, 15 de setembro de 2015. Seis meses de Canadá! Seis meses de Quebec! Seis meses de Montreal! Quanta coisa já mudou, quanta coisa continua a mesma, quanta coisa ainda acontecendo e por acontecer! Mudei de endereço (da casa do meu amigo para a "minha" quitinete alugada), de marca de computador (entrei pra ver qualé a dessa coisa de AiMéqui), de forma (um tanto esférica, quando cheguei, para algo mais retangular, depois que comecei a correr), de universidade (da McGill para a Universidade de Montreal, agora) e de idiomas (o tempo todo). A saudade da família continua, firme e forte, presente todos os dias, assim como continuam várias inseguranças e ignorâncias a respeito da nova cidade, da província escolhida, do país que parece ser dois. Aconteceu que descobri que sou fascinado por corvos, que meu inglês não é tão capenga quanto eu imaginava, que meu francês ainda vai chegar lá, que também tem stalker no Canadá; aconteceu também que fiz amizades com professores que se ofereceram até pra me dar carta de recomendação, com quebecos da gema que eu achava que só conheceria daqui a um booooooom tempo; está acontecendo de eu frequentar uma biblioteca de verdade pela primeira vez na vida, de morrer de vergonha toda vez que alguém me pergunta alguma coisa em francês na rua, de descobrir um lugar novo toda vez que saio de casa, de não cansar de ver os esquilos em duelos de fúria peluda nas árvores, de confirmar que eu e o Sol/calor/verão temos diferenças irreconciliáveis. Ainda está por acontecer o primeiro emprego, a fluência no francês, a decisão sobre os estudos, e toda uma lista de coisas que só aumenta a cada novo passo dado.

Com seis meses apenas, dá pra eu fazer um apanhado geral ou dar conselhos? Acho que ainda é cedo. Muito cedo. Por mais que eu já tenha tido o meu quinhão de experiências aqui, ainda me sinto muito cru para tirar conclusões ou traçar paralelos em demasia. Se tô gostando? Sim, e muito! Se acho que fiz a coisa certa? Quando penso no que eu estaria fazendo no Brasil, sem dúvida que me parece a coisa mais certa do mundo! Se dá vontade de voltar? Posso dizer que dá vontade — e muita! — de trazer os meus pra cá, ainda mais com as dificuldades que o Brasilzão velho de guerra está enfrentando agora. Se tenho receios? Sim, e muitos! Não estou bebendo champanhe e arrotando poutine só porque estou no Canadá. Dar um rumo pra vida é preciso, e isso dá origem a vários receios. Ao mesmo tempo, a oportunidade de poder começar de novo é muito, muito, muito estimulante!

Ah, um conselho eu acho que posso dar para quem ainda vai vir: trace seus planos, estude os idiomas, se prepare; mas, sobretudo, não se engane. A preparação não vai ser suficiente, não importa o quanto você se esforce, calcule ou imagine. Tem coisas que a gente só descobre e entende mesmo quando as vive. Então, não esqueça de tirar um tempo para relaxar e curtir o seu tempo aí no Brasil, com os seus.

À bientôt!

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Três meses de Canadá!

Segunda-feira passada, completei três meses de Canadá! Agora posso dar  meu testemunho de fé: realmente, passa muito rápido!





Olhando pra trás, o primeiro mês foi o mais lento. Mesmo com todas as pendengas pra resolver (tirar documentos, comprar número de celular, procurar apartamento, etc), lembro que parecia que estava levando uma eternidade para cada semana passar. E eu achando ótimo, porque o que mais queria (e ainda quero) é ter tempo para absorver as novidades. O segundo mês foi gasto com menos obrigações e mais passeios. Foi também o mês da mudança pro apê que aluguei e do início das aulas na McGill. E o terceiro mês foi gasto única e exclusivamente com essas aulas, e acho que o tempo que elas me tomaram foi o grande responsável pela sensação de vídeo acelerado.

Então, depois de três meses, estou adaptado? Acho que seria presunçoso responder "sim", mas também não posso dizer "não". Algumas coisas que eram um bicho de sete cabeças no início e faziam com que eu me sentisse o Chico Bento (como usar totens de auto-atendimento no supermercado ou não fazer ideia de pra onde a linha verde do metrô vai) já não despertam tanto receio ou estranheza. Outras, como pensar o tempo todo que meu francês precisa melhorar pra anteontem, me lembram que ainda tem muito chão pela frente.

Ainda que não esteja me sentindo totalmente "em casa", muita coisa já mudou pra melhor nesses três meses. Continuo com as minhas corridinhas três ou quatro vezes por semana; estou mais próximo de pessoas aqui do que jamais estive em sete anos de São Paulo; posso andar com geringonças tecnológicas na rua sem medo de que algum trombadinha passe correndo e leve ou que algum infeliz resolva brincar de sequestro-relâmpago comigo; também posso percorrer o mesmo caminho que uma mulher, ficando coincidentemente atrás dela o tempo todo, sem que ela ache que eu vou assaltá-la ou estuprá-la (em São Paulo, e provavelmente no resto do Brasil, bastavam 30 segundos de trajeto em comum para qualquer mulher começar a espiar por cima do ombro a cada 5 passos e ver se eu ainda estava atrás dela); tenho REALMENTE vontade de ir pra fora de casa e aproveitar meu tempo livre a céu aberto; e destravei completamente no inglês (a ponto de me assustar quando alguém me fala "bonjour" na rua).

Falando no inglês, terminei o módulo que estava cursando na McGill na sexta-feira passada. Sem dúvidas, me ajudou muuuuito!! Por mais que meu bloqueio fosse mais psicológico que linguístico, estar num ambiente de sala de aula foi de grande valia. E, de quebra, a gente sempre aprende algo novo, né? Tem sempre uma palavra nova, um phrasal verb do inferno, e até gramática que você não sabia que não dominava. Eu, por exemplo, me dei conta que nunca tinha estudado pontuação em inglês formalmente. Pontuava misturando regras do português com o que eu via em textos por aí (e até que dava certo). Mas foi bom sentar e ver como se faz o negócio direito. Além disso, conheci pessoas de vários cantos do mundo. E o mais legal desse processo é você perceber que os rótulos que você mesmo põe no início ("o cara do Irã", "a menina do Congo") vão sendo substituídos à medida que você passa a enxergar esse pessoal como gente de carne e osso como você. Então, eles passam a ser "meu colega Asghar" ou "aquela fofa da Martina". Caem as fronteiras, erguem-se as amizades, mesmo que sejam de sala de aula.

E foi tão legal esse período de aulas que realmente fiquei nostálgico no último dia. Tivemos festa de confraternização em que cada um levou um prato ou bebida típicos de seu país. Eu não cozinho (ainda), então saí na chuva e paguei caro num Guaraná Antártica, tudo pra ouvir o comentário "é bem doce" - mas faz parte, né? No fim, passei no módulo com A+, ganhei elogios mil dos professores (minha professora da tarde repetiu a frase "ainda não sei o que você está fazendo aqui" várias vezes ao longo das últimas semanas), e, contrariamente ao que todo mundo esperava, resolvi seguir adiante e fazer o último módulo. Só falta mais um mesmo, né? Ter um certificado a mais no currículo não machuca. E não é como se eu tivesse abarrotado de coisas para fazer. Embora exista a pressão interna pra dar um rumo pra vida, ainda estou tentando me manter fiel à ideia de dedicar o primeiro ano aos idiomas. Vamos ver se aguento!

E que venham os próximos meses!

À bientôt!

terça-feira, 14 de abril de 2015

Um mês nas Terras do Norte!

Nem acredito, mas hoje estou completando um mês de Canadá!





Não acredito por dois motivos: primeiro, durante tanto tempo eu pensei e "dispensei" em morar fora do Brasil (desde a adolescência, na verdade) que é difícil agora entender que estou fazendo isso agora. Segundo, porque esse primeiro mês passou tão rápido que eu praticamente nem vi!

Quando paro pra pensar, contudo, vejo que fiz bastante coisa: tirei o NAS, abri conta em banco, dei entrada na Assurance Maladie, comprei um número de celular, conheci pessoas novas, comecei a m orientar na cidade, fiz inscrição no curso de inglês da McGill, tive experiências cotidianas bem legais (como o caso do restaurante chinês que contei) e outras nem tão boas (como ficar travado na hora de falar alguma coisa em inglês/francês), assisti palestras de integração para recém-chegados, procurei apartamento (e achei! Peguei o contrato justamente hoje, e vou escrever um post sobre isso depois), vi neve de verdade caindo, encarei sensação térmica de -15 ºC, dei informação na rua (!), me assustei com preços no supermercado... enfim, tudo isso junto, muito mais e misturado!

Não posso responder à pergunta "valeu a pena?" ou mesmo a "está valendo a pena?" simplesmente porque é muito cedo pra isso. "Valer a pena", pra mim, tem a ver com recomeçar a vida e fazê-la seguir numa direção mais próxima do que eu considero legal pra mim. E isso inevitavelmente levará tempo. Algumas decisões que tomo agora só poderão ser encaradas como boas ou ruins daqui a algum tempo. Mas as primeiras impressões são positivas, e eu vou falar sobre elas num post (ou talvez um vídeozinho) que estou preparando em reposta a algumas perguntas que chegaram pra mim por e-mail. Aguardem! :)

À bientôt!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Entrando na reta final

Estou a pouco mais de uma semana de terminar de chutar o balde aqui no Brasil começar a jornada mais louca da minha vida e, por Odin.... essa ficha não cai!!!!

A bem da verdade, não dá pra dizer que estou do mesmo jeito que há um mês. Em fevereiro, pesquisei e fiz muitas coisas relacionadas à mudança, mas ainda era uma coisa láááááááá pro distante mês de março. Só que, agora, março chegou, já se instalou e está aqui, batendo o pezinho no chão e o dedo no relógio, dizendo: "VAMO, MEU FILHO!!" Então começam aqueles vários episódios de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC, para os íntimos), nos quais você checa os documentos 3 x (4N/X*15²) + 700, repassa a lista de medicamentos o mesmo tanto, corre para blogues de quem já fez o landing para ver se está esquecendo algo e, inevitavelmente, começa a se perguntar:



Eu sou a contradição em pessoa: tinha uma vidinha estável, salário na conta todo mês, meus maiores aborrecimentos estavam relacionados a como o serviço público está repleto de gente estúpida e só. Ao mesmo tempo, foi tudo isso aí (aliado a outras coisas) que serviu de trampolim para que eu iniciasse o processo de imigração. Ou seja, tenho várias características de pessoas que não gostam de rotina. Mas é só aparecer uma mudança na rotina e eu entro em pânico (ou quase). E aqui estou eu, a pouco mais de uma semana do embarque, já olhando pra remédios tarja preta e chamando-os de "amigos".

A melhor coisa que fiz até agora foi ter dado um tempo de "respiro" entre o fim da minha vida pregressa e o início da que vai começar. Foram três meses desde que saí de São Paulo e me mudei de volta para a casa dos meus pais. Isso me permitiu não só um porto seguro (e mordomias), mas também tempo e tranquilidade para lidar com as questões pré-imigração uma a uma. Estou podendo ler bastante, considerar cenários e tomar decisões com um pouco mais de embasamento do que se eu tivesse feito tudo às pressas, tipo pegar o visto e ir pro aeroporto. Eu já vinha fazendo pesquisas antes, mas muitos cenários mudam quando a gente tem uma janela de espera muito longa, então os três meses para mim foram realmente muito bem aproveitados.

Fechei o seguro-saúde ontem. Cotei com a Blue Cross, com a Manulife, com a GTA (piadas nerds!) e com outra cujo nome esqueci, mas acabei ficando mesmo com a GTA pelo preço (foi a mais barata) e pela possibilidade de poder pagar em real mesmo. Fiz pelo site, entrei em contato com um vendedor, depositei o dinheiro e eles emitiram o voucher, que já está comigo. Espero não precisar usar pra nada, mas, em todo caso, é o tipo de coisa que não dá pra arriscar, na minha opinião.

Outra coisa que eu não ia fazer, mas mudei de ideia aos 45 do segundo tempo, foi a minha Carteira de Habilitação. Eu não dirigi nunca durante todos os meus anos em São Paulo. Só usei transporte público e minhas pernas. Se eu já me estressava com o trânsito de Brasília, acho que teria cometido alguns homicídios com o trânsito em São Paulo. E eu estou tão desligado de carro, gasolina, IPVA e afins que minha carteira venceu em 2013 e eu nem tchum... daí quando notei a coisa, já aqui na casa dos meus pais, pensei, pensei e resolvi deixar pra tirar a carteira do Canadá, mesmo tendo que passar pelo processo todo. E assim ficou, até que eu lembrei que, em algum momento, li que, se você faz o processo para obtenção da carteira lá no Canadá, tem que ficar um ou dois anos dirigindo com uma espécie de carteira provisória e mais alguém que tenha a definitiva do seu lado. Agora, realiza eu, no Canadá, só podendo dirigir com alguém do meu lado por um ou dois anos? Acho que nem me daria o trabalho. Pra evitar isso, é preciso solicitar um documento do DETRAN, no qual conste o seu histórico como motorista. Se você apresentar isso lá nas Terras do Norte, aparentemente não precisa cumprir esse purgatório automobilístico.

Então, para evitar perrengues, resolvi renovar logo minha CNH aqui mesmo e pronto. Isso não só regulariza minha situação como motorista, como me dá mais 5 anos de documento válido (embora só nos primeiros seis meses eu possa usar a carteira para dirigir no Canadá - coisa que eu não vejo acontecendo, mas vá lá, eu nunca me imaginei morando pra valer em São Paulo e acabou acontecendo). O tal documento do DETRAN eu deixei pra ver quando eu resolver de fato virar o Sr. Volante em Montreal.

De forma que, ainda com muita pesquisa todos os dias e várias tarefas sendo concluídas aos poucos, entro na reta final com, basicamente, duas pendências: a lista de bens que vão comigo e a de bens que irão depois (ainda não sei quão detalhista devo ser... tenho 300 livros, tenho que listar um por um, com título, autor, número de páginas e quanto vale no Mercado Livre?), e a arrumação das malas. Já resolvi que vou levar pouca coisa logo de cara, pelo menos comparado a quem leva trocentas malas, mas, ainda assim, é preciso ver se o espaço e o peso estão dentro do esperado pra não ter surpresas.

É isso. Minha contagem regressiva já começou. Menos de dez dias. Momentos de calmaria. Momentos de ansiedade. Um medo do cão de tudo que vem pela frente. Será que isso acaba um dia?


À bientôt!

P.S.: e esse dólar que está batendo em Marte???

segunda-feira, 2 de março de 2015

Encontro de imigrantes e De Volta para o Futuro

Nesse último fim de semana, teve um encontro de imigrantes aqui em Brasília! Eu gosto bastante desses encontros, porque é uma maneira não só de conhecer gente nova, mas de conhecer gente que viveu, está vivendo ou vai viver coisas semelhantes as que estou vivendo agora. A gente se vê um pouco em quem está nos primeiros estágios do processo e também naqueles que estão alguns passos à frente nessa caminhada da imigração. Conheci pessoalmente o Filipe, do blogue Dream on Canada, e a Agnes, do Coxinha Resfriada. Gente boa, como todos os que foram e que espero rever em breve!

Além desse, outro evento marcou meu dia de uma forma que eu nem suspeitava. Como bom nerd que sou, não podia perder a oportunidade de ir assistir "De Volta para o Futuro" no cinema! Sim, já vi o filme inúmeras vezes, já decorei todas as falas em inglês e na dublagem da Sessão da Tarde da década de 90, mas não me canso de assistir! E, me diz, como é que eu ia perder a chance de ver o filme na tela grande, já que eu não assisti na estreia original em 1985 porque, bem, na época os únicos filmes que eu tinha condições de acompanhar - e olhe lá! - eram os dos Trapalhões!




Então, combinei com alguns amigos, além da minha irmã. E os olhos brilharam ao ver o "Steven Spielberg presents" no início, os pelos do braço se eriçaram quando o Marty McFly acelerou o DeLorean para fugir dos terroristas líbios rumo ao passado ao som da inesquecível trilha sonora, sorrisos iam e vinham ao ver os pequenos detalhes que alterariam os eventos do futuro/presente do personagem... e quando a banda começou a tocar "Earth Angel" no baile em que o Marty estava tentando de tuuuuudo pra fazer os pais se apaixonarem e, com isso, assegurar sua existência, eu me dei conta que eu não podia estar em melhor companhia: minha irmã, que me acompanhou na infância e grande parte da adolescência como uma sombra, minha amiga de muitas e muitas horas, boas e ruins, que serviu de atriz principal para as minhas filmagens improvisadas com a filmadora do meu pai, que se empolgava com filmes, gibis e vídeo games basicamente porque me via empolgado com eles. Ali estava eu, com ela, sentados lado a lado, comemorando os 30 anos de um filme que sempre está nas minhas listas cinematográficas, que sempre esteve presente na nossa infância e adolescência. E me dei conta, também, que aquele momento já era uma espécie de despedida. Despedida da infância, da adolescência, e desses momentos em que a gente compartilha algo que, às vezes, só tem grande peso e importância pra gente mesmo, que só a gente consegue sentir, mas que faz com que a gente se sinta mais vivo e grato por tudo.

Então, não tive dúvidas: quando o Doc Brown subiu à Torre do Relógio para tentar religar os fios que tinham se soltado, e enquanto o Marty disparava com o DeLorean pela rua, correndo contra o tempo (paradoxos de um filme sobre viagem no tempo) para tentar estar no local e momento exatos para tentar voltar para casa, passei o meu braço pelo da minha irmã e acompanhamos tudo ainda mais próximos, como se estivéssemos vendo pela primeira vez. Coração disparados, pelos eriçados mais uma vez, o sorriso de quem sabe exatamente o que vai acontecer, mas não consegue deixar de se empolgar. Quando o raio atingiu o relógio da torre, o circuito se fechou - e também uma parte do meu ciclo com a minha irmã.

Saímos do cinema felizes da vida, voltamos para casa comentando detalhes que passaram despercebidos nas inúmeras Sessões da Tarde e outros que só vemos mesmo com a idade  a experiência. Ela não sabe o quanto aquilo significou pra mim, mas agradeci muito a ela e a tudo e todos os responsáveis por permitirem eu m despedir da minha irmã de um jeito tão único, tão próprio, tão nosso.

Te amo, irmã. Distância não é nada. Para onde quer que sigamos, não precisaremos de estradas.

À bientôt!


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Último dia de trabalho

Este é uma daquelas postagens que têm de ser escritas no calor do momento. Se não, o cérebro entra em ação, pesa, mede, avalia, quantifica tudo, e aí não sobra muito o que sentir. Então lá vai.

O ser humano pode ser bem engraçado - no sentido de curioso, esquisito, estranho. Eu passei o último ano inteiro e boa parte dos anos anteriores pensando no dia de hoje: o dia em que, finalmente, deixaria o serviço público e iniciaria uma nova etapa na minha vida. Ansiei por isso, lutei por isso, baixei até um aplicativo de celular que me mostrava quantos dias, horas, minutos e segundos faltava para esse dia chegar. E aí, ele chegou. E fiquei triste.

Talvez porque toda despedida seja triste, ou talvez porque, embora não fosse segredo que haveria uma festinha de despedida, eu não esperasse ouvir tantas coisas legais a meu respeito, como pessoa e como profissional, e muito menos que algumas lágrimas descessem pelos rostos de algumas pessoas. Colegas de trabalho vieram, inclusive de outros setores, me abraçaram, me desejaram toda a sorte do mundo, me parabenizaram pela minha coragem. Falaram que vão sentir minha falta. Lembraram coisas engraçadas que eu disse em algum momento. Me abraçaram de novo. Me deram presentinhos (um par de havaianas com as cores do Brasil, que é pra "matar a saudade da terrinha" quando eu estiver lá no norte gelado, e um guia Lonely Planet do Canadá, que é pra eu não me perder e lembrar que Montreal fica no leste e Vancouver no oeste - piadinha interna porque eu sou péssimo com pontos cardeais). Agradeceram minha ajuda. Pediram pra não sumir, pra escrever, pra atualizar o Facebook para eles poderem acompanhar a jornada. Me abraçaram de novo e se foram.

E eu ali, tendo consciência de que, muito provavelmente, estaria vendo cada um deles pela última vez. Vou embora de São Paulo sem ter feito um único amigo de verdade, daqueles com os quais você pode contar e que carrega para a vida toda. Mas, embora não tenham se tornado meus amigos de verdade, meus colegas de trabalho foram as pessoas com quem mais convivi nesses quase sete anos de São Paulo. A gente estava ali, todos os dias, unidos basicamente pelo trabalho, concorrendo para os objetivos do trabalho, ficando irritados juntos por causa do trabalho, prometendo que íamos largar aquilo tudo um dia. Então, não há como negar que fizeram parte da minha vida durante todos esses anos. Tenho total consciência de que vamos nos perder em algum momento. Não é pessimismo ou a tristeza falando: já estou neste planeta há tempo suficiente pra entender que a gente sempre sabe, de forma semi-consciente, quem vai ficar e quem não vai. E eu sei que eles não vão. Vamos manter contato neste início, talvez me escrevam quando eu me mudar, perguntem como está indo. Mas isso vai ficar para trás rápido.

Ainda assim, eles são as pessoas de quem me lembrarei quando pensar na época em que morei em em São Paulo. E, por toda a convivência, pelas risadas que demos no trabalho, pela ajuda mútua lá dentro, pelo apoio durante os perrengues que passamos juntos, pela compreensão na hora da revolta com o serviço público e a vontade de ir embora, eu sou e sempre serei grato a todos os meus colegas de trabalho. Não fosse por eles, eu já teria chutado o balde há muito tempo.

E agora é tempo de olhar pra frente.

À bientôt!

P.S.: mas do trabalho em si, ah, desse eu não vou sentir falta alguma!! Serviço público dos infernos!



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Escolhendo o caminho a seguir - Parte 2

Continuando o post anterior (que você pode ler clicando aqui).

Voltar a estudar é uma coisa que nem passa pela cabeça de boa parte dos candidatos à emigração. Num mundo ideal, (quase) todo mundo quer chegar lá no Canadá, se instalar, mandar currículos, ser contratado no primeiro mês e ganhar bem o suficiente para soltar um "ufa!" de alívio e tirar 580 Kg das costas. Mas, se você ainda não sabe, nem sempre isso acontece, e nem tudo são flores.

Quem tem profissões regulamentadas e cujos requisitos não são exatamente de fácil digestão como sopa de minhoca sabe que voltar aos estudos é quase uma obrigação. Muitos profissionais da saúde, para poderem atuar de fato na profissão, precisam fazer ou refazer algumas disciplinas da faculdade ou até o curso inteiro, dependendo do caso. Então, a imigração para o Canadá já vem acompanhada de uma matrícula em algum curso - e esse curso pode durar alguns anos. Outros, contudo, não precisariam, em tese, passar por novos estudos, mas, na prática, acabam não conseguindo escapar. É o caso, por exemplo, de quem chega lá com uma boa experiência na bagagem, mas que não é imediatamente transferível para a realidade canadense. A pessoa não consegue emprego não por não ser qualificada, mas por faltar um know-how específico que você aprende, idealmente, em um primeiro emprego ou, na falta deste, fazendo um curso.

Trazendo essa papagaiada para a minha situação: como já falei antes, eu sou da área de línguas estrangeiras e tradução. Trabalhei anos no serviço público em quase nada relacionado à minha área. Quais as chances que eu teria de trabalhar em uma grande empresa de tradução, passando documentos, filmes ou o que seja do inglês para o francês ou vice-versa, sem experiência recente nessas duas línguas, sem experiência no Canadá, sem nem referências por lá? Embora nada seja impossível nessa vida, vamos concordar que as chances não seriam lá muito elevadas, né? Entre nativos que crescem falando os dois idiomas, que conhecem a cultura quebequense (e canadense) por dentro, e um recém-imigrado que ainda está em frase de aprendizado pelo menos em um dos idiomas e que não conhece quase nada da cultura local (tradução não é só "passar de uma língua pra outra", se me permitem a doutrinação), quem vocês acham que as empresas vão escolher? Não é uma questão de me diminuir. Eu sei o quanto gosto de línguas estrangeiras, sei que posso aprender rápido, mas sei que será difícil arrumar algo na minha área de saída sem ter muito a oferecer como garantia. Como disse no post anterior, tenho até algumas opções para tentar entrar no jogo logo de cara, mas ainda estou tentando resolver se compensaria.

Então, pensei: por que não utilizar esse primeiro ano, em que tudo é bonito, novo e diferente, para aprimorar meus conhecimentos no inglês e no francês sem o desespero da busca por um emprego? "Por causa da grana", diria alguém, e é um motivo justo. Mas acho que o que eu juntei para ir para Montreal daria para cobrir as despesas com o dia a dia de estudante pobre e as taxas dos cursos. Daí eu poderia realmente competir no mercado de trabalho tendo em mãos certificados e um pouco de vivência. Obviamente, a experiência em relação à área ainda seria um obstáculo a superar, mas, pelo menos, eu chegaria ao mercado com mais armas do que tenho agora. E, quem sabe, as empresas sorriam pra mim?

Outra opção - ainda ligada a estudos - é voltar para a universidade mesmo: fazer um mestrado ou chutar o balde mesmo e fazer uma nova graduação. Ainda estou considerando a possibilidade. A vontade é forte, tenho feito pesquisas há um ano a respeito, mas volta e meia eu me pergunto se não estou querendo demais. Ao mesmo tempo, penso que, se é pra recomeçar, talvez valha a pena fazer tudo de novo - só que diferente, néam? E aí todo um leque de possibilidades se abre.

Enfim, resumindo: não me fecharei a oportunidades de emprego, mas estou fortemente inclinado a começar minha nova vida estudando. Seja uma nova faculdade, seja cursos de idiomas, cada vez mais acho que o meu início vai ser pautado por livros, cadernos (usam laptop em sala de aula hoje me dia, gente? Meu Deus, tô véio!!) e professores!

À bientôt!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Escolhendo o caminho a seguir - Parte 1

Quando o cidadão vai recomeçar a vida em outro país, pode haver uma infinidade de opções e caminhos a serem escolhidos e trilhados. Ele pode, por exemplo, chegar e sair distribuindo currículos, batendo na porta das empresas e já enfrentar a batalha pelo primeiro emprego; ele pode voltar aos estudos, seja em um college ou universidade; ele pode tirar um ano sabático e ficar passeando pela  cidade, pela província e pelo país, buscando assimilar mais a cultura; ele pode casar com um(a) nativo(a) rico(a) e viver da renda dele(a);





 e por aí vai.

O que vai definir qual caminho o cidadão vai seguir é um conjunto de fatores envolvendo as situações pessoal e profissional, além da disposição do dito cujo em inovar, digamos assim. Por exemplo, se a profissão do abençoado está em alta demanda, se ele é especializado ou tem anos de experiência que são facilmente transferíveis para a nova vida, e se ele sente arrepios de prazer com a profissão que escolheu, talvez não haja motivo para ele ficar perambulando por aí. Ele poderia, já de cara, ir bater na porta de empresas e vender seu peixe. Mas, se a profissão requer que ele faça um curso, obtenha um determinado diploma ou seja aceito por uma determinada ordem, pode ser que chegar e meter a cara nos livros seja mais interessante, pensando no futuro. Ainda assim, nada é certo nesta vida e, além disso, cada ceru mano é único. A pessoa pode chegar lá no país de destino super bem preparada, profissionalmente falando, mas resolver que quer se dedicar a cuidar de coalas nessa nova vida (e correr atrás disso), ou pode mal ter dinheiro para três meses de vida na nova pátria e, ainda assim, achar que merece tirar um ano de descanso e dar uma de mochileiro.


E onde é que eu quero chegar com essa apologia da diversidade? Bom, nas próximas semanas estarei encerrando uma vida, daí terei um intervalo, digamos assim, para daí começar uma outra lá no Canadá, mais especificamente na província do Quebec, mais especificamente ainda em Montreal. E aí, como vai ser essa nova vida? Vou chegar chutando a porta do mercado de trabalho? Vou esquentar banco de universidade? Vou fazer qualquer coisa até ver qual é a minha praia nesse novo mundo? Vou tomar conta de coalas (ou de alces, ursos, ou de crianças que correm o risco de ser raptadas por águias em parques públicos)?






 São perguntas que precisam ser respondidas o mais rápido possível se eu não quiser perder algumas oportunidades.


Falando honestamente, eu não acho que eu tenha condições de encarar o mercado de trabalho pra valer na minha área assim que chegar. Como já mencionei antes, uma das características mais tenras do serviço público é fazer você se tornar, gradualmente, alguém completamente alienado ao que se passa à sua volta, principalmente em termos profissionais. É um outro mundo, e, nesse mundo, você não adquire exatamente muitas competências, na maioria dos casos (mas incompetências, ah, aí tem de monte!). Então, posso declamar um poema falando sobre certas qualidades pessoais que adquiri ou foram desenvolvidas nesse tempo, mas, na prática, muito pouco será levado para um novo trabalho. Quanto à minha área específica, como ela ficou em quinto plano, não há tanta experiência recente que eu possa exibir com orgulho, principalmente nos últimos anos. De forma que, sim, eu posso tentar algumas vagas específicas (tenho algumas em mente, em empresas específicas), mas, com certeza, não serão vagas com pagamento elevado (ou mesmo mediano). Seriam vagas do tipo survival job na minha área. De qualquer forma, isso não seria ruim, se me der uma graninha e permitir que eu adquira um pouco de experiência canadense já na minha área.


Então essa seria a opção de trabalho mais próxima da minha realidade, de acordo com método científico rigorosamente testado, comprovado e aplicado (também chamado de "minha opinião com base em nada concreto fora navegar na Internet e ler bastante").


Mas por que não passar um tempo, digamos, o primeiro ano - em que tudo é belo, tudo é perfeito, aquele em que a neve tem um brilho especial só pra você, em que você come poutine todo fim de semana e acha que nunca comeu coisa igual, em que cada bonjour hi pronunciado por um vendedor soa como uma peça de Mozart esquecida e recuperada - porque não passar um tempo fazendo algo que pode te dar as ferramentas necessárias para já brigar por algo profissionalmente mais palatável?



Clique aqui para ler a parte 2!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Frustrações de uma Vida não Iniciada

Essa fase na qual me encontro no momento é, ao mesmo tempo, extremamente empolgante e incrivelmente frustrante. É aquela na qual você quer começar a sua nova vida, mas ainda não encerrou o ciclo da antiga e, portanto, não tem como dar o primeiro passo de fato. Trocando em miúdos, é estar meio cá, meio lá.

De um lado, você está aqui, separando roupas e utensílios de cozinha para doação, tentando organizar, no meio do ninho de cobra da bagunça que só aumenta, o que vai e o que fica. Do outro, tem todas aquelas pesquisas que você faz, pensando em como sua vida poderá ser, tentando antecipar alguns problemas ou dificuldades e se planejando para lidar com tudo isso. O problema é que a distância física da nova vida te impede de ir além de um determinado ponto, o que, às vezes, faz você querer tirar as calças e pisar em cima.

Exemplificando:

Moradia

Acredito que seja a principal preocupação de quem chega. Ainda que você tenha algum conhecido que gentilmente se ofereça para te hospedar na sua chegada, na maioria das vezes você vai querer (ou precisar) arrumar um canto só seu o quanto antes. É o meu caso. Se aparecer alguém disposto a me tolerar por algumas semanas, ótimo, mas eu ficaria incomodado se minha estadia se prolongasse muito porque (1) eu gosto de ter o meu canto e (2) sou o tipo de hóspede que sempre está com receio de incomodar o anfitrião. Então, ainda que seja melhor do que ficar torrando grana em hotel, eu não ficarei 100% tranquilo enquanto não achar o meu canto

O que tenho feito: olho com alguma frequência os sites de anúncios de aluguel de imóveis, como o Kijiji e o Padmapper. Leio blogues de quem já está morando lá em Montreal, principalmente os posts relacionados aos bairros e ao tipo de residência. Teve a viagem que fiz a Montreal ano passado também, que ajudou a colocar um pouco em perspectiva o tamanho da cidade.

O que tirei de bom até agora: basicamente, a média de preços (o que permite te dar uma ideia de quantas moedas de ouro serão consumidas na brincadeira de pagar aluguel mensal) e uma ideia geral dos bairros da cidade. Ah, e, às vezes, você esbarra em algo que parece ter sido feito pensando em você, com carinho de mãe. E daí devaneia, imaginando como sua vida será perfeita lá na parte de cima do mundo!



Por que é frustrante: estando neste hemisfério, tudo o que posso ver são fotos. Não posso ir visitar, não posso ver o tanto que as fotos correspondem à realidade, não sei como a parte do contrato funciona na real, não sei se o proprietário irá com a minha cara ou se meu inglês e francês serão suficientes pra não ser enrolado. E sabe o apê construído com esmero, que você viu num anúncio ontem como um sinal divino da sua futura vida perfeita? Pois é, você não pôde ir lá e, no dia seguinte, o anúncio já foi tirado do ar porque alugaram.




Móveis, roupas e utensílios

Como já falei em algum post do passado, eu descobri que posso viver com pouco em casa, principalmente quando a situação é incerta. Vim pra São Paulo não pensando em ficar vários anos, mas voilà! E aí descobri que posso viver, por exemplo, sem conjunto de mesa com seis cadeiras ou fogão quatro bocas high-tech. Mas, ainda assim, alguma coisa a gente acaba tendo de comprar, né? Roupas então... porque eu que não vou tentar encarar -20°C com meu casaquinho da C&A.

O que tenho feito: só pesquisa mesmo em sites, como o da IKEA, Wallmart ou The North Face. Há uma variedade grande, para todos os gostos.

O que tirei de bom até agora: É outra maneira de você ver as moedas de ouro que podem ir embora nos primeiros meses. E, se você ainda está em estado de nirvana porque encontrou a casa dos sonhos no Kijiji e resolve pensar nos móveis para cada ambiente, rapidinho a pesquisa deixa de ser pesquisa e volta a ser devaneio.



Por que é frustrante: porque eu ainda não tenho casa, não sei o tamanho dela, não sei nem se vai ter mais de um ambiente, quanto mais se vai precisar de mesa de canto. Alguns apartamentos tem geladeira e fogão incluídos no preço do aluguel, alguns prédios têm máquina de lavar e secar comunitárias, outros não.. então, acabo tendo uma ideia de preços, mas, no fim, é como se eu estivesse jogando The Sims.




Trabalho

Aqui é onde o monstro embaixo da cama reside, no meu caso. Minha área (línguas estrangeiras e tradução) tem uma certa demanda (escutei alguém de TI rindo aí?), mas, em se tratando de inglês e francês, eu não tenho como concorrer muito com nativos logo de cara. Então sei que há um loooooongo caminho pela frente, e eles não são pavimentados exatamente com tijolos amarelos.

O que tenho feito: continuo coletando vagas pela internet, visitando sites de empresas e de profissionais autônomos. Minha vida profissional vai mudar radicalmente.

O que tirei de bom até agora: já deu pra ter algumas ideias em relação a encaixar meu perfil, e ver quais requerimentos e atributos precisarei desenvolver para determinadas vagas. Além disso, tenho consultado mais algumas outras opções que não estão diretamente ligadas à minha área, mas que podem me ajudar e até, quem sabe, se tornar meu ganha-pão principal.



Por que é frustrante: eu ainda não dei a cara a tapa, não mandei currículos nem contatei possíveis empregadores. Poderia ser um termômetro para ver como estaria a aceitação do meu currículo e experiência atuais, mas, lembrando que eu fiquei os últimos sete anos atrofiando o cérebro no serviço público, digamos que eu já tenha uma ideia. E, se você começa a duvidar que pode encontrar algo legal, logo, logo está imaginando que outras opções você terá se tudo der errado.




Estudos

E, em parte pelo receio de não encontrar trabalho, em parte por vontade mesmo, eu acabo voltando à ideia de estudar. A ideia, pra mim, é de recomeço mesmo, nesse caso: voltar para os bancos da faculdade, e estou falando de graduação, não de mestrado ou doutorado (embora não descarte estes). Se é pra recomeçar, talvez eu deva recomeçar direito.

O que tenho feito: entro em dezenas de sites de colleges, CEGEPS e universidades. Listo cursos que me agradam, aqueles que não faria nem por decreto, me informo sobre os custos. Tem muita informação sobre tudo, e as opções são as mais variadas. De gastronomia a mecânica de aviões, de metalurgia a Ph.D. em estudos africanos, dá pra gastar um bom tempo namorando os cursos. E, como eu sempre curti estudar e o meio acadêmico, é difícil parar de pesquisar e de imaginar as aulas.



Por que é frustrante: a perspectiva de estudar em outro país, em outro idioma, sempre foi empolgante, mas também intimidante pra mim. A duração do curso também pode vir a ser um problema. Se eu começo uma graduação, são três ou quatro anos de estudo pela frente. Como tenho o péssimo hábito de gostar de assuntos que não dão um emprego líquido, certo e prático no mundo real, pode ser que eu tenha que fazer mais um ou dois anos de mestrado, e três ou quatro de doutorado. Pense em dez anos estudando!!! Além disso, o fato de não estar ainda nas terras geladas dificulta um tanto o acesso a informações mais precisas. Pra dar um exemplo: eu me interessei pelo curso de Literatura Inglesa na McGill. PARECE, pelo que pesquisei e pelo que disseram em resposta às minhas dúvidas, que eu só poderia tentar entrar como Mature Applicant. Pois bem, uma das exigências para entrar nessa condição é concluir dois cursos ou disciplinas como pré-requisitos na área de interesse. Tentei conseguir mais detalhes sobre isso e disseram que eu poderia cursar essas disciplinas em CEGEPS, colleges ou na própria universidade. Perguntei o que seria aceito como pré-requisito para Literatura Inglesa e daí falaram pra eu entrar em contato com o Departamento de Inglês. Mandei um e-mail e me disseram que eu tinha que falar com o setor de admissões. Fiz isso e me disseram que eu tinha de contatar o Departamento de Inglês (!). Fiz isso de novo e disseram que eu tinha que cursar "alguma coisa como English Reading and Writing" em um CEGEP ou college. Entrei em contato com um college., expliquei a situação e me responderam dizendo que, no meu caso, é melhor cursar os pré-requisitos direto na universidade, porque tenho nível superior e pularia a etapa do college (!!). Agora, como eu faço isso se a universidade disse que eu tenho que fazer isso num college?



Perguntei também se eu poderia cursar matérias avulsas no college pra servir como pré-requisito. Ainda estou aguardando uma resposta, mas já deu pra sentir o drama, né? Será que o sistema de educação canadense é um tanto misterioso até para os canadenses ou sou eu que sou obtuso, produção?

Conclusão

Adivinha? Realmente, não dá pra passar o carro na frente dos bois. Enquanto eu estiver aqui no Brasil, só poderei ter uma visão parcial das coisas e acesso limitado às informações. Pesquisar e se informar é bom, mas também pode ser extremamente frustrante quando não leva diretamente a uma solução ou decisão. Então, nessas horas, é bom simplesmente ir estourar umas cabeças jogando GTA.

À bientôt!


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Emigrar é abrir mão

Todos nós, que estamos saindo do Brasil para um outro país, passamos por isso num momento ou em outro (e você aí, que ainda está planejando, também passará): a gente conta pra alguém que vai emigrar, a pessoa fala algo tipo "que legal!", e começa a fazer perguntas. Em geral, elas querem saber se você está indo fazer intercâmbio ("como assim, você tem green card???"), se você já tem emprego lá ("como assim, você não tem???") e se você já tem contatos lá pra te ajudar ("como assim, você vai sozinho???"). Em geral, para por aí, a pessoa te deseja sorte, sorri e vai fazer o que estava fazendo antes.

Mas algumas pessoas vão além. Elas veem ali uma chance pra elas também e, naturalmente, querem saber mais! Aí, como boa pessoa, você explica mais. Fala sobre a palestra do escritório do Québec, fala sobre os requisitos, indica sites, blogues e tudo mais. A pessoa fica empolgada, vai pra casa, e, quando você a reencontra, pergunta se ela gostou das informações, se ficou animada para dar entrada no processo. E a resposta, em 99% dos casos que presenciei, foi algo do tipo:

-Ah, eu queria muito, mas meu caso é mais complicado...

Naturalmente, você quer saber o por quê, e pede ao cidadão ou cidadã de bem para que ela elabore essa frase genérica. E aí, em 95% dos casos, a resposta cai em algo semelhante às opções abaixo:

1. Ah, eu não posso largar meu emprego assim...
2. Ah, eu tenho filho(s)(a)(as)/família;
3. Ah, eu tenho um(a) namorado(a);
4. Ah, eu teria que recomeçar a vida;
5. Ah, eu teria que aprender inglês/francês/etc;
6. Ah, eu teria que ser rico(a)...

Há outras, mas a maioria das respostas costuma girar em torno dessas opções aí (às vezes, várias na mesma resposta). Antigamente, eu apenas sorria, falava algo bem vago também como "é..." e deixava por isso mesmo. Mas, depois do tempo todo de processo, vendo não só as minhas angústias, escolhas e decisões, mas a de outras pessoas também, eu respondo, em geral, com outra pergunta:

- E você acha que eu não tenho nada disso?

Uma vez, li o prefácio do livro de um escritor em que ele falava como as pessoas chegavam até ele e diziam que tinham muita vontade de escrever. Ele, por sua vez, perguntava o que as impedia, e elas diziam, em geral, que não tinham tempo. Assim, como se escrever, para ele, fosse um passatempo, um hobby, algo que ele fazia enquanto executava o trabalho "de verdade", aquele que, de fato, colocava o leitinho das crianças na geladeira. E ele falava que a diferença entre os escritores e os aspirantes era justamente essa: eles encaravam a escrita como atividade profissional, com horas de trabalho divididas, com planejamento e método, e não da forma que a maioria das pessoas imagina (algo como acordar às 10 da manhã, tomar um café da manhã até às 11, sentar na frente do computador, decidir que precisa de "inspiração" e sair para passear e por aí vai). Basicamente, eles abrem mão do conforto de ter um emprego das 8hs às 18hs, com salário fixo, pagamento no fim do mês, plano odontológico e vale-coxinha e se dedicam à profissão deles. Em sua, eles fazem uma escolha - ou várias - e se comprometem com isso.

O que isso tem a ver com a situação genérica que abriu o post? Tudo.

Quem nunca pensou seriamente em emigrar geralmente tem uma lista de obstáculos intransponíveis prontinha para ser apresentada caso perguntem "se você quer ir, por que não vai?". Não vou, de forma alguma, dizer que não existem situações que pesem mais que outras. Mas, no fim, é tudo escolha. É tudo uma questão de se você quer abrir mão de algo ou não. Se está disposto e preparado a sair da sua zona de conforto, ainda no Brasil, para ir atrás de algo diferente. E, no fim, é você quem sempre escolhe. Não é "a vida", " a situação", o "destino". É você, e só você. 

Você tem um filho pequeno? Tem gente que está emigrando com dois filhos pequenos, ou com um adolescente e um bebê de colo, com três filhos de todas as cores e tamanhos. Você tem família? Pois é, eu também. Estou deixando (de novo)  meu pai, minha mãe e minha irmã para trás, só as três pessoas que mais amo neste planeta inteiro, sem falar dos meus tios e primos mais próximos. Você tem um namorado(a)? Eu e várias pessoas já terminamos um namoro (em alguns casos, até um casamento!) por causa do processo. Você tem um emprego estável, que te paga bem? Deixa eu te contar que ninguém está indo para o Canadá ou para sei lá onde pensando em ficar rico (ou, pelo menos, não deveria estar). E eu mesmo estou largando um "belo" emprego no setor público, com pagamento certinho, com situação estável, em troca de, talvez, ter de me virar com empregos considerados "baixo nível" no  Brasil. Você está financiando sua casa? Eu e vários temos adiado a compra de um apartamento ou casa pra viver de aluguel baratinho e juntar dinheiro para ir embora. Você teria que recomeçar a vida? E o que você acha que eu e todos os outros que estão nessa jornada vão fazer? Ser amigo do rei? Um monte de gente, mesmo não querendo de saída, vai ter de voltar para cadeiras de universidade, refazer cursos, aprimorar experiência, reaprender a pegar ônibus, a falar, a agir, a pensar. Ninguém está indo continuar a vida. Todos estão indo recomeçar, seja em um ou em outro nível.

Enfim, pra encurtar algo que já está longo, quase ninguém emigra com uma situação ideal. A imensa maioria, a maioria esmagadora tem que correr atrás de tudo, seja antes do processo (aprender idiomas, fazer pesquisa, juntar papelada), seja durante o processo (mais papelada, paciência, espera, pesquisa), seja depois do processo (finalizar a vida no país de origem e começar outra no país de destino). Ao contrário do que talvez você pense, ninguém fica esperando um alinhamento planetário perfeito no céu para só então dar o pontapé inicial. Como falei lá atrás, é uma questão de escolha. E escolha é pessoal. Se, pra você, o risco de vender a casa aqui e ficar sem residência própria lá no Canadá é muito alto para correr, tudo bem. Se você fica com receio de levar sua esposa e seu filho pequeno para fora do país por não saber no que vai dar, ok. Não há problema nisso. Mas pense um tanto antes de falar que sua vida ou situação é "complicada" ou que você estaria abrindo mão de "muita coisa". Afinal de contas, emigrar é, antes de tudo, abrir mão de muita coisa.

À bientôt!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Últimas férias no Brasil!

E é isso, minha gente: estou no finzinho das minhas últimas férias como trabalhador no Brasil. Se isso fez alguma diferença? Bom, na viagem que fiz, não. Mas no resto? Muita!

Não tinha nenhuma viagem dos sonhos programada ou coisa do tipo. A única coisa que eu queria é que fosse uma viagem tranquila, que me fizesse esquecer trabalho e imigração, que eu curtisse do primeiro ao último dia, tudo pra poder voltar renovado e encarar o que vem pela frente. E, salvo um ou dois percalços nada mirabolantes pelo caminho, assim foi!

O relato da viagem em si talvez fique para outra hora. Aliás, fui para fora do Brasil, passei por alguns controles de fronteira e, caso alguém aí esteja se perguntando, não, ninguém fez nenhuma indagação sobre o meu visto de imigrante colado no passaporte. Obviamente, não quer dizer que ninguém nunca fará (eu soube de um caso em que o cara teve de responder uma ou duas perguntas sobre o visto), mas, aparentemente, ninguém tá nem aí com o seu visto de imigrante de outro país.

O que rolou foi um daqueles momentos em que você, por um breve instante, consegue vislumbrar algo além do seu próprio mundo. Algo como Wendy, João e Miguel faziam naquele momento entre estar dormindo e acordado, no qual o véu que separa o mundo da Terra do Nunca pode ser rasgado. Foi um daqueles momentos em que me dou conta da minha pequenez diante do mundo e do tanto que os meus receios, embora embasados no mundo material e concreto do meu dia a dia, são insignificantes, ridículos e pueris diante da grandeza de tudo ao meu redor.

Um dia, durante a viagem, parei para pensar que, naquele momento, o pessoal no trabalho estaria fazendo as mesmas coisas de sempre, sem ter a menor noção de que, a meio mundo de distância, tantas outras coisas estavam acontecendo com outras pessoas, em outros lugares. Da mesma forma, eu estava presenciando uma ínfima parcela da realidade, sem me dar conta de que, a outro meio mundo de distância, outras pessoas estavam presenciando outras parcelas da realidade. Cada um de nós, talvez, absorto no "todo" ao nosso redor, sem percebermos que o todo, de fato, é tão maior e tão  mais abrangente, que as nossas vidas, a nossa rotina, nossos problema se nossas alegrias são ridiculamente pequenos.

Depois dessa pequena jornada interna, tive de encarar um outro tipo de realidade: minha avó morreu. Eu não era exatamente próximo dela, mas acompanhei, mesmo à distância, a luta dela contra doença, pobreza e abandono. Algumas almas boas tornaram o fim dela menos doloroso e mais digno. Mas toda a situação dela, que foi uma pessoa que teve outras pessoas trabalhando para ela no passado de bonança, me fizeram pensar em quanto a minha (nossa) tentativa de controlar tudo pode ser apenas desgastante e infrutífera. Não, não deixei de achar que é melhor prevenir que remediar. Mas ficou claro pra mim que certas coisas simplesmente estão bem além do nosso controle. Assim como todas as parcelas de realidade que não podemos contemplar, como o que um pescador está fazendo numa vila da China enquanto eu digito esse texto, ou o que eu estarei fazendo quando você estiver lendo estas linhas.

De modo que, sim, imigrar, mudar de país, deixar o certo para trás e abraçar um duvidoso que apresenta tantas ramificações que você simplesmente não sabe onde pode dar continua sendo um tanto assustador. Não dá pra saber onde eu vou parar. Mas, além de todos os outros motivos para imigrar, passei a curtir mais a ideia de estar a par de uma outra parcela ínfima de realidade.

À bientôt!