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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Último dia de trabalho

Este é uma daquelas postagens que têm de ser escritas no calor do momento. Se não, o cérebro entra em ação, pesa, mede, avalia, quantifica tudo, e aí não sobra muito o que sentir. Então lá vai.

O ser humano pode ser bem engraçado - no sentido de curioso, esquisito, estranho. Eu passei o último ano inteiro e boa parte dos anos anteriores pensando no dia de hoje: o dia em que, finalmente, deixaria o serviço público e iniciaria uma nova etapa na minha vida. Ansiei por isso, lutei por isso, baixei até um aplicativo de celular que me mostrava quantos dias, horas, minutos e segundos faltava para esse dia chegar. E aí, ele chegou. E fiquei triste.

Talvez porque toda despedida seja triste, ou talvez porque, embora não fosse segredo que haveria uma festinha de despedida, eu não esperasse ouvir tantas coisas legais a meu respeito, como pessoa e como profissional, e muito menos que algumas lágrimas descessem pelos rostos de algumas pessoas. Colegas de trabalho vieram, inclusive de outros setores, me abraçaram, me desejaram toda a sorte do mundo, me parabenizaram pela minha coragem. Falaram que vão sentir minha falta. Lembraram coisas engraçadas que eu disse em algum momento. Me abraçaram de novo. Me deram presentinhos (um par de havaianas com as cores do Brasil, que é pra "matar a saudade da terrinha" quando eu estiver lá no norte gelado, e um guia Lonely Planet do Canadá, que é pra eu não me perder e lembrar que Montreal fica no leste e Vancouver no oeste - piadinha interna porque eu sou péssimo com pontos cardeais). Agradeceram minha ajuda. Pediram pra não sumir, pra escrever, pra atualizar o Facebook para eles poderem acompanhar a jornada. Me abraçaram de novo e se foram.

E eu ali, tendo consciência de que, muito provavelmente, estaria vendo cada um deles pela última vez. Vou embora de São Paulo sem ter feito um único amigo de verdade, daqueles com os quais você pode contar e que carrega para a vida toda. Mas, embora não tenham se tornado meus amigos de verdade, meus colegas de trabalho foram as pessoas com quem mais convivi nesses quase sete anos de São Paulo. A gente estava ali, todos os dias, unidos basicamente pelo trabalho, concorrendo para os objetivos do trabalho, ficando irritados juntos por causa do trabalho, prometendo que íamos largar aquilo tudo um dia. Então, não há como negar que fizeram parte da minha vida durante todos esses anos. Tenho total consciência de que vamos nos perder em algum momento. Não é pessimismo ou a tristeza falando: já estou neste planeta há tempo suficiente pra entender que a gente sempre sabe, de forma semi-consciente, quem vai ficar e quem não vai. E eu sei que eles não vão. Vamos manter contato neste início, talvez me escrevam quando eu me mudar, perguntem como está indo. Mas isso vai ficar para trás rápido.

Ainda assim, eles são as pessoas de quem me lembrarei quando pensar na época em que morei em em São Paulo. E, por toda a convivência, pelas risadas que demos no trabalho, pela ajuda mútua lá dentro, pelo apoio durante os perrengues que passamos juntos, pela compreensão na hora da revolta com o serviço público e a vontade de ir embora, eu sou e sempre serei grato a todos os meus colegas de trabalho. Não fosse por eles, eu já teria chutado o balde há muito tempo.

E agora é tempo de olhar pra frente.

À bientôt!

P.S.: mas do trabalho em si, ah, desse eu não vou sentir falta alguma!! Serviço público dos infernos!



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Escolhendo o caminho a seguir - Parte 2

Continuando o post anterior (que você pode ler clicando aqui).

Voltar a estudar é uma coisa que nem passa pela cabeça de boa parte dos candidatos à emigração. Num mundo ideal, (quase) todo mundo quer chegar lá no Canadá, se instalar, mandar currículos, ser contratado no primeiro mês e ganhar bem o suficiente para soltar um "ufa!" de alívio e tirar 580 Kg das costas. Mas, se você ainda não sabe, nem sempre isso acontece, e nem tudo são flores.

Quem tem profissões regulamentadas e cujos requisitos não são exatamente de fácil digestão como sopa de minhoca sabe que voltar aos estudos é quase uma obrigação. Muitos profissionais da saúde, para poderem atuar de fato na profissão, precisam fazer ou refazer algumas disciplinas da faculdade ou até o curso inteiro, dependendo do caso. Então, a imigração para o Canadá já vem acompanhada de uma matrícula em algum curso - e esse curso pode durar alguns anos. Outros, contudo, não precisariam, em tese, passar por novos estudos, mas, na prática, acabam não conseguindo escapar. É o caso, por exemplo, de quem chega lá com uma boa experiência na bagagem, mas que não é imediatamente transferível para a realidade canadense. A pessoa não consegue emprego não por não ser qualificada, mas por faltar um know-how específico que você aprende, idealmente, em um primeiro emprego ou, na falta deste, fazendo um curso.

Trazendo essa papagaiada para a minha situação: como já falei antes, eu sou da área de línguas estrangeiras e tradução. Trabalhei anos no serviço público em quase nada relacionado à minha área. Quais as chances que eu teria de trabalhar em uma grande empresa de tradução, passando documentos, filmes ou o que seja do inglês para o francês ou vice-versa, sem experiência recente nessas duas línguas, sem experiência no Canadá, sem nem referências por lá? Embora nada seja impossível nessa vida, vamos concordar que as chances não seriam lá muito elevadas, né? Entre nativos que crescem falando os dois idiomas, que conhecem a cultura quebequense (e canadense) por dentro, e um recém-imigrado que ainda está em frase de aprendizado pelo menos em um dos idiomas e que não conhece quase nada da cultura local (tradução não é só "passar de uma língua pra outra", se me permitem a doutrinação), quem vocês acham que as empresas vão escolher? Não é uma questão de me diminuir. Eu sei o quanto gosto de línguas estrangeiras, sei que posso aprender rápido, mas sei que será difícil arrumar algo na minha área de saída sem ter muito a oferecer como garantia. Como disse no post anterior, tenho até algumas opções para tentar entrar no jogo logo de cara, mas ainda estou tentando resolver se compensaria.

Então, pensei: por que não utilizar esse primeiro ano, em que tudo é bonito, novo e diferente, para aprimorar meus conhecimentos no inglês e no francês sem o desespero da busca por um emprego? "Por causa da grana", diria alguém, e é um motivo justo. Mas acho que o que eu juntei para ir para Montreal daria para cobrir as despesas com o dia a dia de estudante pobre e as taxas dos cursos. Daí eu poderia realmente competir no mercado de trabalho tendo em mãos certificados e um pouco de vivência. Obviamente, a experiência em relação à área ainda seria um obstáculo a superar, mas, pelo menos, eu chegaria ao mercado com mais armas do que tenho agora. E, quem sabe, as empresas sorriam pra mim?

Outra opção - ainda ligada a estudos - é voltar para a universidade mesmo: fazer um mestrado ou chutar o balde mesmo e fazer uma nova graduação. Ainda estou considerando a possibilidade. A vontade é forte, tenho feito pesquisas há um ano a respeito, mas volta e meia eu me pergunto se não estou querendo demais. Ao mesmo tempo, penso que, se é pra recomeçar, talvez valha a pena fazer tudo de novo - só que diferente, néam? E aí todo um leque de possibilidades se abre.

Enfim, resumindo: não me fecharei a oportunidades de emprego, mas estou fortemente inclinado a começar minha nova vida estudando. Seja uma nova faculdade, seja cursos de idiomas, cada vez mais acho que o meu início vai ser pautado por livros, cadernos (usam laptop em sala de aula hoje me dia, gente? Meu Deus, tô véio!!) e professores!

À bientôt!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Escolhendo o caminho a seguir - Parte 1

Quando o cidadão vai recomeçar a vida em outro país, pode haver uma infinidade de opções e caminhos a serem escolhidos e trilhados. Ele pode, por exemplo, chegar e sair distribuindo currículos, batendo na porta das empresas e já enfrentar a batalha pelo primeiro emprego; ele pode voltar aos estudos, seja em um college ou universidade; ele pode tirar um ano sabático e ficar passeando pela  cidade, pela província e pelo país, buscando assimilar mais a cultura; ele pode casar com um(a) nativo(a) rico(a) e viver da renda dele(a);





 e por aí vai.

O que vai definir qual caminho o cidadão vai seguir é um conjunto de fatores envolvendo as situações pessoal e profissional, além da disposição do dito cujo em inovar, digamos assim. Por exemplo, se a profissão do abençoado está em alta demanda, se ele é especializado ou tem anos de experiência que são facilmente transferíveis para a nova vida, e se ele sente arrepios de prazer com a profissão que escolheu, talvez não haja motivo para ele ficar perambulando por aí. Ele poderia, já de cara, ir bater na porta de empresas e vender seu peixe. Mas, se a profissão requer que ele faça um curso, obtenha um determinado diploma ou seja aceito por uma determinada ordem, pode ser que chegar e meter a cara nos livros seja mais interessante, pensando no futuro. Ainda assim, nada é certo nesta vida e, além disso, cada ceru mano é único. A pessoa pode chegar lá no país de destino super bem preparada, profissionalmente falando, mas resolver que quer se dedicar a cuidar de coalas nessa nova vida (e correr atrás disso), ou pode mal ter dinheiro para três meses de vida na nova pátria e, ainda assim, achar que merece tirar um ano de descanso e dar uma de mochileiro.


E onde é que eu quero chegar com essa apologia da diversidade? Bom, nas próximas semanas estarei encerrando uma vida, daí terei um intervalo, digamos assim, para daí começar uma outra lá no Canadá, mais especificamente na província do Quebec, mais especificamente ainda em Montreal. E aí, como vai ser essa nova vida? Vou chegar chutando a porta do mercado de trabalho? Vou esquentar banco de universidade? Vou fazer qualquer coisa até ver qual é a minha praia nesse novo mundo? Vou tomar conta de coalas (ou de alces, ursos, ou de crianças que correm o risco de ser raptadas por águias em parques públicos)?






 São perguntas que precisam ser respondidas o mais rápido possível se eu não quiser perder algumas oportunidades.


Falando honestamente, eu não acho que eu tenha condições de encarar o mercado de trabalho pra valer na minha área assim que chegar. Como já mencionei antes, uma das características mais tenras do serviço público é fazer você se tornar, gradualmente, alguém completamente alienado ao que se passa à sua volta, principalmente em termos profissionais. É um outro mundo, e, nesse mundo, você não adquire exatamente muitas competências, na maioria dos casos (mas incompetências, ah, aí tem de monte!). Então, posso declamar um poema falando sobre certas qualidades pessoais que adquiri ou foram desenvolvidas nesse tempo, mas, na prática, muito pouco será levado para um novo trabalho. Quanto à minha área específica, como ela ficou em quinto plano, não há tanta experiência recente que eu possa exibir com orgulho, principalmente nos últimos anos. De forma que, sim, eu posso tentar algumas vagas específicas (tenho algumas em mente, em empresas específicas), mas, com certeza, não serão vagas com pagamento elevado (ou mesmo mediano). Seriam vagas do tipo survival job na minha área. De qualquer forma, isso não seria ruim, se me der uma graninha e permitir que eu adquira um pouco de experiência canadense já na minha área.


Então essa seria a opção de trabalho mais próxima da minha realidade, de acordo com método científico rigorosamente testado, comprovado e aplicado (também chamado de "minha opinião com base em nada concreto fora navegar na Internet e ler bastante").


Mas por que não passar um tempo, digamos, o primeiro ano - em que tudo é belo, tudo é perfeito, aquele em que a neve tem um brilho especial só pra você, em que você come poutine todo fim de semana e acha que nunca comeu coisa igual, em que cada bonjour hi pronunciado por um vendedor soa como uma peça de Mozart esquecida e recuperada - porque não passar um tempo fazendo algo que pode te dar as ferramentas necessárias para já brigar por algo profissionalmente mais palatável?



Clique aqui para ler a parte 2!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Frustrações de uma Vida não Iniciada

Essa fase na qual me encontro no momento é, ao mesmo tempo, extremamente empolgante e incrivelmente frustrante. É aquela na qual você quer começar a sua nova vida, mas ainda não encerrou o ciclo da antiga e, portanto, não tem como dar o primeiro passo de fato. Trocando em miúdos, é estar meio cá, meio lá.

De um lado, você está aqui, separando roupas e utensílios de cozinha para doação, tentando organizar, no meio do ninho de cobra da bagunça que só aumenta, o que vai e o que fica. Do outro, tem todas aquelas pesquisas que você faz, pensando em como sua vida poderá ser, tentando antecipar alguns problemas ou dificuldades e se planejando para lidar com tudo isso. O problema é que a distância física da nova vida te impede de ir além de um determinado ponto, o que, às vezes, faz você querer tirar as calças e pisar em cima.

Exemplificando:

Moradia

Acredito que seja a principal preocupação de quem chega. Ainda que você tenha algum conhecido que gentilmente se ofereça para te hospedar na sua chegada, na maioria das vezes você vai querer (ou precisar) arrumar um canto só seu o quanto antes. É o meu caso. Se aparecer alguém disposto a me tolerar por algumas semanas, ótimo, mas eu ficaria incomodado se minha estadia se prolongasse muito porque (1) eu gosto de ter o meu canto e (2) sou o tipo de hóspede que sempre está com receio de incomodar o anfitrião. Então, ainda que seja melhor do que ficar torrando grana em hotel, eu não ficarei 100% tranquilo enquanto não achar o meu canto

O que tenho feito: olho com alguma frequência os sites de anúncios de aluguel de imóveis, como o Kijiji e o Padmapper. Leio blogues de quem já está morando lá em Montreal, principalmente os posts relacionados aos bairros e ao tipo de residência. Teve a viagem que fiz a Montreal ano passado também, que ajudou a colocar um pouco em perspectiva o tamanho da cidade.

O que tirei de bom até agora: basicamente, a média de preços (o que permite te dar uma ideia de quantas moedas de ouro serão consumidas na brincadeira de pagar aluguel mensal) e uma ideia geral dos bairros da cidade. Ah, e, às vezes, você esbarra em algo que parece ter sido feito pensando em você, com carinho de mãe. E daí devaneia, imaginando como sua vida será perfeita lá na parte de cima do mundo!



Por que é frustrante: estando neste hemisfério, tudo o que posso ver são fotos. Não posso ir visitar, não posso ver o tanto que as fotos correspondem à realidade, não sei como a parte do contrato funciona na real, não sei se o proprietário irá com a minha cara ou se meu inglês e francês serão suficientes pra não ser enrolado. E sabe o apê construído com esmero, que você viu num anúncio ontem como um sinal divino da sua futura vida perfeita? Pois é, você não pôde ir lá e, no dia seguinte, o anúncio já foi tirado do ar porque alugaram.




Móveis, roupas e utensílios

Como já falei em algum post do passado, eu descobri que posso viver com pouco em casa, principalmente quando a situação é incerta. Vim pra São Paulo não pensando em ficar vários anos, mas voilà! E aí descobri que posso viver, por exemplo, sem conjunto de mesa com seis cadeiras ou fogão quatro bocas high-tech. Mas, ainda assim, alguma coisa a gente acaba tendo de comprar, né? Roupas então... porque eu que não vou tentar encarar -20°C com meu casaquinho da C&A.

O que tenho feito: só pesquisa mesmo em sites, como o da IKEA, Wallmart ou The North Face. Há uma variedade grande, para todos os gostos.

O que tirei de bom até agora: É outra maneira de você ver as moedas de ouro que podem ir embora nos primeiros meses. E, se você ainda está em estado de nirvana porque encontrou a casa dos sonhos no Kijiji e resolve pensar nos móveis para cada ambiente, rapidinho a pesquisa deixa de ser pesquisa e volta a ser devaneio.



Por que é frustrante: porque eu ainda não tenho casa, não sei o tamanho dela, não sei nem se vai ter mais de um ambiente, quanto mais se vai precisar de mesa de canto. Alguns apartamentos tem geladeira e fogão incluídos no preço do aluguel, alguns prédios têm máquina de lavar e secar comunitárias, outros não.. então, acabo tendo uma ideia de preços, mas, no fim, é como se eu estivesse jogando The Sims.




Trabalho

Aqui é onde o monstro embaixo da cama reside, no meu caso. Minha área (línguas estrangeiras e tradução) tem uma certa demanda (escutei alguém de TI rindo aí?), mas, em se tratando de inglês e francês, eu não tenho como concorrer muito com nativos logo de cara. Então sei que há um loooooongo caminho pela frente, e eles não são pavimentados exatamente com tijolos amarelos.

O que tenho feito: continuo coletando vagas pela internet, visitando sites de empresas e de profissionais autônomos. Minha vida profissional vai mudar radicalmente.

O que tirei de bom até agora: já deu pra ter algumas ideias em relação a encaixar meu perfil, e ver quais requerimentos e atributos precisarei desenvolver para determinadas vagas. Além disso, tenho consultado mais algumas outras opções que não estão diretamente ligadas à minha área, mas que podem me ajudar e até, quem sabe, se tornar meu ganha-pão principal.



Por que é frustrante: eu ainda não dei a cara a tapa, não mandei currículos nem contatei possíveis empregadores. Poderia ser um termômetro para ver como estaria a aceitação do meu currículo e experiência atuais, mas, lembrando que eu fiquei os últimos sete anos atrofiando o cérebro no serviço público, digamos que eu já tenha uma ideia. E, se você começa a duvidar que pode encontrar algo legal, logo, logo está imaginando que outras opções você terá se tudo der errado.




Estudos

E, em parte pelo receio de não encontrar trabalho, em parte por vontade mesmo, eu acabo voltando à ideia de estudar. A ideia, pra mim, é de recomeço mesmo, nesse caso: voltar para os bancos da faculdade, e estou falando de graduação, não de mestrado ou doutorado (embora não descarte estes). Se é pra recomeçar, talvez eu deva recomeçar direito.

O que tenho feito: entro em dezenas de sites de colleges, CEGEPS e universidades. Listo cursos que me agradam, aqueles que não faria nem por decreto, me informo sobre os custos. Tem muita informação sobre tudo, e as opções são as mais variadas. De gastronomia a mecânica de aviões, de metalurgia a Ph.D. em estudos africanos, dá pra gastar um bom tempo namorando os cursos. E, como eu sempre curti estudar e o meio acadêmico, é difícil parar de pesquisar e de imaginar as aulas.



Por que é frustrante: a perspectiva de estudar em outro país, em outro idioma, sempre foi empolgante, mas também intimidante pra mim. A duração do curso também pode vir a ser um problema. Se eu começo uma graduação, são três ou quatro anos de estudo pela frente. Como tenho o péssimo hábito de gostar de assuntos que não dão um emprego líquido, certo e prático no mundo real, pode ser que eu tenha que fazer mais um ou dois anos de mestrado, e três ou quatro de doutorado. Pense em dez anos estudando!!! Além disso, o fato de não estar ainda nas terras geladas dificulta um tanto o acesso a informações mais precisas. Pra dar um exemplo: eu me interessei pelo curso de Literatura Inglesa na McGill. PARECE, pelo que pesquisei e pelo que disseram em resposta às minhas dúvidas, que eu só poderia tentar entrar como Mature Applicant. Pois bem, uma das exigências para entrar nessa condição é concluir dois cursos ou disciplinas como pré-requisitos na área de interesse. Tentei conseguir mais detalhes sobre isso e disseram que eu poderia cursar essas disciplinas em CEGEPS, colleges ou na própria universidade. Perguntei o que seria aceito como pré-requisito para Literatura Inglesa e daí falaram pra eu entrar em contato com o Departamento de Inglês. Mandei um e-mail e me disseram que eu tinha que falar com o setor de admissões. Fiz isso e me disseram que eu tinha de contatar o Departamento de Inglês (!). Fiz isso de novo e disseram que eu tinha que cursar "alguma coisa como English Reading and Writing" em um CEGEP ou college. Entrei em contato com um college., expliquei a situação e me responderam dizendo que, no meu caso, é melhor cursar os pré-requisitos direto na universidade, porque tenho nível superior e pularia a etapa do college (!!). Agora, como eu faço isso se a universidade disse que eu tenho que fazer isso num college?



Perguntei também se eu poderia cursar matérias avulsas no college pra servir como pré-requisito. Ainda estou aguardando uma resposta, mas já deu pra sentir o drama, né? Será que o sistema de educação canadense é um tanto misterioso até para os canadenses ou sou eu que sou obtuso, produção?

Conclusão

Adivinha? Realmente, não dá pra passar o carro na frente dos bois. Enquanto eu estiver aqui no Brasil, só poderei ter uma visão parcial das coisas e acesso limitado às informações. Pesquisar e se informar é bom, mas também pode ser extremamente frustrante quando não leva diretamente a uma solução ou decisão. Então, nessas horas, é bom simplesmente ir estourar umas cabeças jogando GTA.

À bientôt!


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Carta de referência pedida

Olha, eu realmente não sei se carta de recomendação e carta de referência são amplamente utilizadas aqui no Brasil. Eu, particularmente, quase nunca vejo ninguém comentando sobre isso quando está procurando emprego ou se candidatando a vagas na universidade. Mâââââsss... eu não sou exemplo de pessoa experimentada, testada e embrutecida na iniciativa privada e, na vida púbrica, pfff... no máximo, rola um QI, mas ninguém coloca no papel.

Enfim, como eu não faço ideia dos caminhos que precisarei desbravar uma vez que estiver pisando em terras nortenhas, resolvi pedir uma carta de referência para o meu chefe atual. Vai que, néam? A minha ideia era dar uma lida em alguns modelos, ver o que o pessoal foca mais na hora de escrever (porque ninguém vai querer ler - ou acreditar - em 10 páginas de elogios), mas estou para fazer isso desde a semana passada e sempre esqueço. Daí esqueço também de perguntar pro meu chefe e aí a vida segue.

Mas hoje... ah, hoje foi diferente!

Meu chefe me chamou na sala dele para me passar algumas coisas e, no meio do papo, ele falou a palavra "carta" e - tuím! - meu cérebro fez as conexões necessárias e eu guardei para o fim. Quando ele me liberou, soltei um "aproveitando...", respirei fundo e perguntei se ele podia fazer uma carta de referência, já que estou prestes a sair. Eu não esperava que ele dissesse "não", mas a rapidez com que ele disse "sim" me pegou um tanto de surpresa. Achei que ele ia perguntar primeiro se ele precisaria colocar o cargo dele, o que precisaria especificar, se talvez não seria bom falar com a chefia máxima do órgão e todas essas coisas que tornam o serviço público tenro e aconchegante. Mas não. No fim, ele pediu pra eu fazer a carta e ele assinar (!), o que eu recusei porque meu estoque de óleo de peroba não dá nem chega pra redigir uma carta dizendo que sou uma das maravilhas do mundo moderno e passar isso pra outra assinar. E daí fechamos na alternativa de eu trazer um modelo e ele fazer em cima dele.

E aí agora vou ter que ir atrás de um modelo - o que já era previsto - e de algumas informações extras. Por exemplo, acabou de me ocorrer o seguinte: supondo que ele assine a carta até dezembro, mas eu a use efetivamente só daqui a um ou dois anos, o fato de a data já ser um tanto "velha" é um fator problemático? Porque obviamente não sei se ainda terei contato com o meu chefe daqui a um ou dois anos para poder pedir uma carta, então eu queria levar algumas cartas de referência para poder ter em mãos e usar conforme fosse necessário (para me candidatar à universidade, por exemplo). Alguém aí sabe dizer se essa dúvida procede ou se não preciso me preocupar?

De qualquer forma, é mais um passo em direção ao futuro. Vou contatar outros ex-chefes com quem ainda tenho contato e tentar juntar uma quantidade razoável de expressões de apreço pela minha pessoa.

À bientôt!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Mon travail, je n'en peux plus!

Eu estou numa situação bastante cômoda: faltam seis semanas para eu sair do trabalho, todo mundo já está sabendo, ninguém está exigindo mais de mim do que o que eu posso oferecer até a minha saída. Ou seja, a situação não está ruim. Mas, gente... começando hoje, oficialmente eu já não aguento mais ir pro trabalho!



Tá certo que esse sempre foi mais ou menos meu sentimento desde que me tornei servidor público. Exceto para aqueles que, de fato, possuem uma formação que se encaixa direitinho no setor público ou para aqueles que só querem saber de estabilidade e salário pago em dia no fim do mês (cof, cof, e eu acho que esses são a maioria esmagadora cof, cof), o trabalho é sacal. Você não desenvolve nada, você não cria nada, você está sempre sujeito a uma "portaria", uma "lei", uma "orientação de serviço", documentos, em geral, redigidos por gente que não faz a mínima ideia de como as coisas funcionam na prática e acham que, assinando um pedaço de papel com linguagem rebuscada, resolvem tudo.

Não vou entrar nos detalhes. Não é um sentimento novo pra mim. Mas agora, com a proximidade do começo da minha nova vida (e com uma penca de coisas para resolver), o trabalho passou de aborrecimento necessário para fardo insuportável. Já disse inúmeras vezes que, se meu processo de imigração fosse recusado, eu, de qualquer forma, não ficaria mais nessa bagaça de serviço público. Quem quiser olhar só as vantagens e achar que é o paraíso, fique à vontade (e com a minha vaga). O que mais escuto é gente falando que queria estar no meu lugar, que eu sou louco de largar essa "boquinha" (blargh!), ou falando que tem horror à corrupção, ao jeitinho brasileiro e a outras coisas, mas tá louca para entrar no serviço público, uma máquina inchada, incrivelmente corrupta, que tem bem mais gente do que precisa e bem menos aparelhamento, planejamento e boa administração do que deveria, além de benefícios e vantagens que muita gente não tem o menor pudor em distorcer para se beneficiar ainda mais. Boa parte dos servidores acredita que cumpriu sua missão quando conseguem passar num concurso e querem apenas desfrutar dos benefícios e vantagens. Trabalho? Não foi pra isso que eles prestaram concurso público. Prestaram para ganhar um salário acima da média, para ter pouco ou nenhum trabalho, para ficar reivindicando aumentos que são surreais face ao (péssimo) trabalho que desempenham, e reclamar que os outros (políticos, juízes, desembargadores, ministros, procuradores, o seu Zé da esquina) são corruptos e ladrões, mas eles mesmos estão acima do bem e do mal. Até quando você encontra um setor/departamento/seção/divisão/coordenadoria em que pode, de fato, fazer algo e se sentir útil, tem sempre alguém para diminuir o seu ritmo e falar para você não vir com muitas ideias criativas (porque elas não vão pra frente mesmo, diante do tanto de assinaturas, "cientes" e "de acordos" que precisariam ter) e nem fazer tudo muito rápido (senão, o trabalho acaba e o setor/departamento/seção/divisão/coordenadoria fica parecendo um local ocioso).

Eu tenho total consciência de que eu não faço ideia do que o futuro me reserva, e que pode ser que a minha situação, no Canadá ou no Brasil, seja tão ruim, mas tão ruim, que eu chore de saudade do serviço público. Mas eu juro de pé junto que eu vou mover montanhas para que eu nunca, mas NUNCA precise voltar para um trabalho tão inútil, frustrante e inócuo quanto esse.

Desculpem o desabafo. Segue o show.

À bientôt!