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terça-feira, 16 de agosto de 2016

O imigrante "sabão"

Quem já mora há algum tempo fora sabe: existem vários tipos de imigrantes por aí. Tem o deslumbrado, o reclamão, o chorão, o ensandecido, o mil-sorrisos, o medroso, o amigão, o batalhador... mas hoje vou focar num tipo que é relativamente comum (e irritante): o imigrante "sabão".

(Antes que alguém deduza que o post terá algo a ver com limpeza, explico: "sabão", no caso, é uma singela homenagem a uma história da Turma da Mônica que eu li quando moleque. Nela, o pessoal da Turma chamava de "sabão" alguém que sabia muito. Bem linguagem de criança: o cara sabe muito, então, é um "sabão".)




Quando cheguei aqui, recebi ajuda de várias formas. Teve o meu amigo que me hospedou por um mês e meio até eu encontrar meu apartamento; teve conhecidos que me deram dicas sobre onde ir para encontrar certas coisas de que precisava; e alguns que me contaram coisas que aconteceram com eles para que eu ficasse atento a certas questões aqui. Pra quem está chegando, ajuda é sempre bem-vinda. Aliás, não só pra quem está chegando. Você pode estar vivendo há anos fora; se alguém te fala algo sobre a cidade, um serviço ou produto que você não conhecia, é sempre bom. Melhor ainda quando é num bate-papo descontraído.

O problema é quando uma pessoa acredita ter a chave para o fim de todos os problemas que te afligem. Ou às vezes ela nem tem, mas ela faz questão de contar como ela evitou esses mesmos problemas ou situações pelas quais você está passando por ser mais esperta, mais bem informada, mais popular, ter mais dinheiro, mais amigos ou conhecidos... enfim, ser melhor que você. E não só melhor que você. Melhor que todos os outros imigrantes. O imigrante "sabão" é assim: tudo que ele fez e faz é melhor do que o que todo mundo fez e faz, não importa em que área da vida.

Por exemplo: estava eu num café um tempo atrás com alguns imigrantes. Uma das pessoas do grupo falou sobre a dificuldade que estava tendo para receber uma autorização para trabalhar. O cônjuge dela veio com permissão de estudos e ela deveria ter recebido a autorização para trabalhar, mas, por algum motivo que ela não quis expor para o resto de nós (afinal, somos apenas "conhecidos"), estava demorando a sair e ela estava preocupada. Enfim, era apenas uma pessoa passando por uma situação difícil e buscando apoio e compreensão das pessoas em volta. Mas, dentre essas pessoas, estava um imigrante "sabão". A pobre moça teve que ouvir que ela devia ter lido mais a respeito do visto e se preparado melhor, porque imigração não é brincadeira. Que há vários casos de imigrantes que vem no oba-oba e que acabam se dando muito mal. Que há órgãos que podem ajudar a ver o que está acontecendo, é só procurar no Google.




E, como todo imigrante "sabão", ele não pode simplesmente orientar: ele tem que mostrar que ele sabe e que o que ele fez é o melhor. Depois da "ajuda", ele teve que narrar como, desde antes de sair do país dele, ele contatou várias pessoas aqui em Montreal para saber direitinho de todos os direitos e deveres dele. Não se fiou apenas no que leu nos sites oficiais e nem em blogues, que são cheios de gente mal informada. Ele leu, trocou e-mails, imprimiu manuais, telefonou, fez estudo comparativo de casos, de modo a não poder ser contestado em nenhum momento. Em suma, ele fez tudo e se deu bem; a outra fez pouco e, por isso, estava se dando mal. Azar o dela. Agora aguenta. 

Num outro lugar, uma pessoa perguntou qual o seguro residencial que as pessoas do grupo haviam contratado. Uma imigrante "sabona", em vez de responder a pergunta simplesmente, disse

—Olha, é obrigatório ter seguro. Se você não tiver, você pode ser responsabilizado criminalmente se o fogo começar na sua casa. Se você não tem, tem que correr pra fazer. Acho que pode até ter problemas para que te aceitem se você estiver morando há muito tempo sem seguro, porque aqui eles levam a sério e alguém que não tem seguro levanta suspeitas. Eu, quando cheguei, encontrei uma corretora ma-ra-vi-lho-sa, que me orientou em tudo, me explicou todos os detalhes e, graças aos céus, estou protegida desde o primeiro dia. Agora que tenho uma casa, então, durmo tranquila sabendo que não corro riscos.




Obrigado pelo texto de comercial. Mas responder a pergunta, que é bom, nada. Qual o seguro você contratou? Foi de banco? De seguradora? E a corretora ma-ra-vi-lho-sa, cadê o número, o contato, alguma coisa? E detalhe: nem tudo que ela falou procede.

Mas o imigrante "sabão" é assim. Se você tem conta no banco X, ele tem conta no banco Y e enumera todas as vantagens que ele recebe por ser cliente do banco e que você, como cliente do banco X, não tem. Se você faz transferência usando o método W, ele dá risada porque esse método cobra uma taxa de serviço absurda. O método que ele usa (que ele ou não revela, ou só revela depois do discurso de vitória, e isso se alguém perguntar de novo) faz com que ele economize muito mais que todas as outras pessoas e alienígenas do universo. Se você achou caro o pacote de açúcar que comprou no supermercado da esquina, ele põe na ponta do lápis quão pouco ele gasta com compras do mês — e provavelmente comendo mais e melhor que você. Se você quer fazer um curso de inglês e não sabe bem onde procurar, o imigrante "sabão" já fez vários, de "the book is on the table" até "how to hold your shit together when you are lecturing about quantum mechanics", sempre com excelentes professores e resultados excepcionais. Se você gosta de sorvete de morango, ele já provou o melhor sorvete de morango de Montreal, trazido diretamente de Nárnia, e conhece o dono da fábrica. Às vezes, ele está aqui só há um pouco mais de tempo que você, mas pode confiar: ele já viveu muito mais e já é "da terrinha", enquanto você, pobre mortal, ainda está lutando para decorar o nome da estação de metrô mais próxima da sua casa.

O que nutre esse comportamento, acredito eu, não é só uma simples vontade de aparecer: é a necessidade de competir, de se comparar com os outros e se sair vencedor. Muitos imigrantes veem sua nova vida aqui como uma espécie de tarefa que precisa produzir frutos grandes, brilhantes, lustrosos e abundantes para serem colocados na vitrine. Aliás, é só ver como a maioria dos imigrantes (e dos que sonham em imigrar, mas ainda não conseguiram) veem o retorno de alguém ao seu país de origem como uma derrota. "Ué, voltou? Ih, coitado(a), foi pro Canadá achando que ia virar barão e se deu mal. Agora vai ter que se virar no Brasilzão/Chilezão/Marrocão/Nepalzão". Poucos param pra pensar que, na verdade, desconhecem as razões que levam as pessoas a voltar. Ainda assim, a volta quase sempre é encarada como derrota, independente dos motivos, como se anos passados fora do país de origem fossem desprezíveis só porque a pessoa "não ficou pra sempre". Daí a necessidade (imaginária, mas incorporada por quase todos como ossos do ofício de imigrante) de ter que mostrar que está bem no novo país. Há quase uma obrigação pessoal de relatar constantemente tudo de bom que está ocorrendo, como as coisas são melhores do que se esperava, como você está vivendo o "sonho" (não gosto dessa palavra nesse sentido, mas explico isso outra hora). É uma cobrança, provavelmente muito mais interna do que externa. E essa cobrança leva aos "sabões", que parecem sentir que precisam se comparar o tempo todo com quem está à sua volta, e que se sentem exultantes quando percebem que sua história é "melhor" que a dos outros.

Enfim, os imigrantes "sabões" estão por aí, e é preciso lidar com eles. O melhor, na minha opinião, é só escutar cordialmente e, assim que ele fechar a boca, mudar o rumo da conversa. Eles detestam não estar "instruindo" as pessoas à sua volta, então, quanto menos você ficar impressionado com a narrativa deles, melhor. Só tomem cuidado para não se tornarem um deles.

À bientôt!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte V (Problemas no Paraíso (2))

Bom, 2016 já chegou, se instalou, mas no meu relato das aulas da Universidade de Montreal, ainda estou em 2015! Então vamos lá contar o resto e dizer qual foi o resultado final.

No último post sobre o assunto, falei da aula de francês oral, que foi proveitosa, apesar de não ser algo que vá ficar na minha memória para sempre. Aproveitei a oportunidade para falar, conversar, explorar o conteúdo que a professora passava, mas não houve momento algum em que eu me sentisse à vontade pra valer na aula. Uma grande parte disso é culpa da minha ansiedade, então há que se relevar. Pois bem, se a de francês oral foi assim, a de francês escrito corre o risco de ficar guardada na memória por ter sido a primeira aula verdadeiramente ruim que tive em terras canadenses.




Eu havia contado em post anterior que, já na primeira aula, a professora passou textos de Voltaire e La Fontaine pra gente analisar. Ali, pego de surpresa sem nem ter tido chance de assentar o derrière na cadeira direito, eu achei que o problema era eu: eu é que estava chegando com o bonde andando (o rapaz vai parar no nível 6 e quer moleza?), eu é que tinha inadvertidamente feito magia negra e ido muito melhor no teste de nivelamento do que meu domínio do idioma, de fato, me permitiria, eu é que iria ter que correr atrás do prejuízo. Pensei seriamente, durante duas semanas, em desistir da aula, trancar e esperar eu evoluir um pouco mais no francês oral, porque me dava cólicas pensar em ser chamado, na frente de todo mundo, para analisar textos numa língua estrangeira. Mas resolvi encarar porque já estava molhado e a chuva não tinha cara de que ia parar.

Pois bem. Ainda bem que fui adiante, porque as aulas foram meio que uma piada. Eu até agora não entendi a razão de a professora brincar de análise de texto com a gente na primeira aula, porque não usamos aquilo praticamente pra mais nada. Há uma vaga ligação entre o que ela mostrou sobre a análise e o que vimos nas outras aulas (que tiveram mais a ver com textos persuasivos e resenhas), mas tenho a ligeira impressão que as duas ou três primeiras aulas foram especialmente elaboradas pra assustar os alunos mesmo. Aliás, lembro direitinho de ela dizer, ao final do primeiro dia, que quem quisesse abandonar a aula tinha até o dia tal, então, ainda estava em tempo. Convenhamos: isso, no mínimo, não é encorajador, certo?

O método de aula dela se resumia a passar algumas orientações de livros e sites, copiando palavra por palavra no quadro, e, às vezes, atacar pontos gramaticais usando exatamente os mesmos exemplos da gramática que ela levava para a sala de aula. Ela repetia, de forma incansável, que precisávamos aprender a ler para aprender a escrever, mas havia pouquíssimos conselhos práticos sobre como fazer isso. E não é que a professora não soubesse o conteúdo: ela, claramente, já estava bastante habituada com os assuntos que levava (e talvez esse tenha sido um dos problemas: ela já estava no piloto automático) e tinha postura de quem entende do assunto. Ainda assim, raramente passava qualquer coisa para fazermos em casa (ou mesmo na sala) o que mostra muito sobre quão proveitoso foi o curso: uma aula de francês escrito no qual você praticamente não escreve? De repente, me lembrei de várias histórias de francisation que me contaram e pensei que, pelo menos, quando as aulas na francisation são ruins, estão te pagando pra você não aprender ou aprender mais ou menos. No caso da Universidade de Montreal, a gente está pagando, né?




Enfim, eu nunca recebi um dos (raros) deveres de casa de volta. Não sei se ela deu pro cachorro comer, se usou pra desenhar coraçõezinhos enquanto falava ao telefone, se usou como porta-copos ou o que for. O fato é que eu nunca vi os erros ou acertos que cometi nessas atividades. Quanto às provas, fizemos três. Fui receber a nota da primeira só um mês e meio depois de tê-la feito, depois, inclusive, de já ter feito a segunda prova. Ou seja, eu não sabia como estava indo no curso até depois da metade dele. Se eu estivesse dependendo de boas notas no histórico por algum motivo (para bolsa ou para ser aceito num curso de pós-graduação, por exemplo), eu teria ficado sem saber como estava me saindo até depois do prazo dado para abandono. E aí seria adeus bolsa ou carreira acadêmica.

Fora isso, boa parte do que ela falava era expressado de forma incrivelmente confusa. De novo, de início, achei que era eu. O burrinho aqui ainda não entende francês bem o suficiente, precisa treinar, blá, blá, blá. Mas aí eu me dei conta de duas coisas: primeiro, eu entendia, sim, praticamente todas as palavras que ela falava. O problema é que elas não faziam lá muito sentido e, não raras vezes, entravam em contradição com outras palavras que a própria professora tinha dito em aulas anteriores. Segundo, não era incomum que os outros alunos pedissem para ela repetir alguma coisa várias vezes, principalmente quando se tratavam de instruções para os deveres e provas. Aliás, nunca vou esquecer o dia em que chegamos para uma das provas, ela disse que teríamos que fazer uma synthèse e um aluno levantou a mão e perguntou o que era uma synthèse. Uma hora o texto que tínhamos de escrever deveria ter 500 palavras, na aula seguinte, deveria ter 800. Questionada, a professora falava que o mínimo era 500, mas que ela não aceitaria mais de 600. E o texto tinha que ter introdução, dois parágrafos de desenvolvimento e conclusão, e o terceiro parágrafo de desenvolvimento tinha que apresentar um contra-argumento e refutá-lo. Mas, senhor! Não eram só dois parágrafos no desenvolvimento? Não, tem que ter três. Mas tudo tem que ter só 600 palavras no máximo? O máximo é de 600 palavras, mas ela iria corrigir textos que tivessem até 700 palavras. Tudo que estivesse além disso seria descartado e afetaria a nota.



Diante desse quadro de Salvador Dali no País das Maravilhas de Mordor, resolvi que não valia a pena discutir. E nem me estressar. Quando a louca pular e começar a dançar, pula e dança junto até a música acabar e você poder sair sem que ela note. Então fiz os (poucos) deveres e todas as provas, e só falei em sala de aula quando expressamente requisitado. A prova final foi, na verdade, um trabalho para o qual tivemos que fazer uma pesquisa sobre um tema, reunir artigos que girassem em torno desse tema e produzir um texto que demonstrasse um ponto de vista específico. Ah, não, espera! Os artigos tinham que mostrar visões diferentes e o seu texto deveria mostrar as diferentes opiniões sobre o tema. Sabe quando você senta para escrever algo e não sai nada? Pois é, nunca tive esse problema, mas eu nunca demorei tanto pra escrever algo pra alguém como na aula dessa mulher, simplesmente porque eu me perguntava, a cada instante, se o que eu estava fazendo seguia remotamente alguma das instruções contraditórias que ela havia passado.

No fim, eu não sei o que funcionou ou não. Terminei a aula com nota A-, o que é muito mais do que eu estava esperando. Eu entregava cada prova e trabalho pensando: "não faço ideia do que essa professora vai pensar disso", e estava sempre preparado para tomar na cara. Então, foi surpreendente receber essa nota e ainda mais surpreendente ouvir dela que eu era, com certeza, o melhor aluno da classe. Se fosse outra professora, talvez eu tivesse ficado feliz e me sentido realizado. Mas, com essa, eu só agradeci e pensei: "será que posso acreditar que você leu de fato algum dos textos que escrevi?".

Enfim, fico feliz de ter ido adiante e deixado essa disciplina (e, principalmente, essa professora) para trás. São 3 créditos a menos para eu obter o certificado, e é só isso que eu posso salvar da aula. A nota é ótima para o meu currículo acadêmico e, aliada à nota da aula de francês oral (que foi um A), me deixa numa boa situação já no primeiro trimestre do programa. Vamos ver como será o resto. Só tenho certeza de uma coisa: se eu me inscrever para uma disciplina e essa professora estiver escalada, eu tranco antes da primeira aula.

À bientôt!

domingo, 28 de junho de 2015

Problemas no Paraíso (1)

Todo mundo sabe (ou deveria saber) que vai ter problemas quando sair do conforto do seu lar e do seu país para embarcar numa jornada ao desconhecido. Muita gente sonha com o CSQ e o visto de residente permanente como se eles fossem o fim dessa jornada, como se, a partir dali, você só tivesse que colher os louros da sua "árdua" batalha. Batalha essa que, em boa parte dos casos, tem a ver mais com ansiedade, impaciência e falta de informação do "combatente" do que com lutas travadas contra obstáculos reais. Então, muita gente diz que sabe que problemas surgirão, mas sequer pensa neles. Nem nos mais básicos, como dificuldade com idioma, a falta que a família e/ou os amigos vai fazer e por aí vai. É como se o CSQ ou o visto fossem o objetivo final, e tudo girasse em torno deles, quando, na verdade, eles são só o início do futuro - que continua sendo tão incerto quanto no dia que você mandou sua papelada para o BIQ.

Com esse discurso, estou inaugurando uma série aqui para contar os problemas que surgirem pelo meu caminho. Podem ser pequenos ou grandes, mas, se me incomodarem, eu vou tentar vir aqui e relatar. O objetivo é não só parte da meta principal do blogue (manter um relato sobre a minha jornada, algo que eu possa depois vir vasculhar e lembrar como foi), mas também ministrar doses de realidade, principalmente para aqueles que, quando pensam em vir pro Canadá ou pro Québec, confundem o lugar com esse aí, ó:



Então vamos lá?


A Origem

Todo mundo que acompanha o blogue sabe que estou fazendo um curso de inglês na McGill pra destravar, e que ele tem feito muito bem pra mim. Sabe também que eu me dei muito bem com a turma, fui elogiado pelos professores, fiz um amigo quebeco quando achava que ia levar eras até conhecer um canadense e por aí vai. Realmente, as seis semanas do curso me fizeram um bem enoooooooorme, não só pro meu inglês, como pro meu bem-estar nesse início de jornada.

Com o fim do módulo, quem ainda continuaria no curso correu pra fazer a matrícula para o próximo nível. O quebeco falou para irmos fazer juntos para garantir que ficássemos na mesma turma. Achei muito legal da parte dele, e assim fizemos. Inclusive, perguntei para a atendente se aquilo bastava para sermos colocados na mesma sala e ela falou que achava que não haveria problema algum, até porque fomos alguns dos primeiros a se matricular. Ótimo!

Só que não. As aulas recomeçaram na última segunda-feira e, quando olhei a lista dos integrantes da turma, eu e meu amigo (além de outros) havíamos sido separados. Na hora, senti a minha motivação despencar. Quer dizer que eu chego aqui, sozinho, dou a sorte de fazer um amigo local com quem REALMENTE me dou bem, a ponto de as pessoas em volta acharem que a gente já se conhecia ANTES do curso, tudo pra chegar agora, no último nível, e ser separado assim, do nada?? E ainda por cima tendo pedido pra ficar na mesma sala? Não teve jeito. A motivação afundou e eu fiquei me sentindo marido traído.

"Ué, Doug? Esse é o seu problema? Ficou separado do amiguinho de turma? Buá, buá, faz novas amizades, segue em frente e pronto!"

Respondo à pergunta em instantes, mas, primeiro uma declaração do nosso patrocinador. Eu sempre fui alguém com uma certa dificuldade para socializar. Sempre curti coisas que a maioria das pessoas só faz quando não tem o que fazer ou quando está chovendo lá fora. Enquanto todo mundo se amarra em ir pro boteco com os amigos, encher a cara e falar sobre "variedades", eu sempre curti jogar vídeo game ou ler um gibi, ou rever Guerra nas Estrelas pela 189341987 vez. Não é melhor nem pior do que ir pro tal boteco (embora muita gente insista que é bem, bem pior, sim), é só diferente. Eu me divirto tanto com um gibi do Batman quanto algumas pessoas se divertem ingerindo bebidas amargas. Mas por aí dá pra notar que eu nunca fui o cara mais popular, cheio de amigos, e com vários convites para eventos diversos, né? Então, o mês e meio que passei no primeiro módulo do curso da McGill me deu a chance de viver algo que há muito, muito tempo eu não vivia: fazer parte de um grupo, ser aceito por ele e encontrar alguém que seja tão nerd quanto eu. Assim, ser separado das pessoas que fizeram eu me sentir tão bem depois de tanto tempo seria um problema, pra mim, sim. Digno de vir aqui chorar as pitangas, falar que o mundo é injusto, que nunca mais vai acontecer nada assim e blábláblá. Mesmo sendo um cara adulto e reconhecendo que a revoltinha seria infantil, eu sei exatamente o porque disso me afetar. Mas, ainda assim, eu provavelmente iria ficar chateado uns dias, comer um pote de sorvete e tentar me animar para as próximas seis semanas de curso.

Mas não, fiel leitor(a). Esse foi UM problema, mas não O problema que me motivou a escrever essa postagem.. Antes fosse. Eu viria aqui, bancaria o menininho, um monte de gente gritaria "VIRA HOMEM!" e pronto. Então, sem mais delongas, senhoras e senhores, uma salva de palmas para...

Meu Perseguidor Particular


Na turma anterior, em meio a toda aquela gente legal que mencionei, havia um cidadão pitoresco, para dizer o mínimo. Visual esquisito, um tanto desleixado. Mas, até aí, viva a revolução e vivam as diferenças, né? Ele não foi o primeiro e nem será o último cujas peculiares escolhas de indumentária vão fazer minha sobrancelha subir.

Eu falava pouco com ele e ele falava pouco comigo. Não sentávamos perto e, como a amizade com o quebeco surgiu logo nos primeiros dias (e como o cara ficava bem na dele na maior parte do tempo), não houve muita oportunidade pra interagir. Quando falo que ele ficava na dele, vocês têm de ter em mente que eu sou um cara na minha. Eu não saio batendo altos papos com desconhecidos. Quando falo com alguém que não conheço, acho que devo soar até meio formal demais. Mas esse cara é um nível diferente. Nas vezes em que ele era chamado a se manifestar na sala de aula, eu não entendia o que ele falava, não só pelo sotaque, mas porque ele tinha um jeito brusco de falar, meio "cortado". Tenho dúvidas até se os próprios professores entendiam tudo.

Aí, como comentei em outros posts, virei meio que "garoto sensação do momento" por causa do meu sotaque, de como me saía nas apresentações e nas notas. De repente, um monte de gente ficou curiosa a meu respeito e se aproximou. Eu fui receptivo com todo mundo, morrendo de vergonha, porque estar no centro das atenções definitivamente não é o meu habitat natural, mas posso dizer que foi legal ver as pessoas me aceitando, me recebendo e, de certa forma, me admirando (se já esqueceu, releia o parágrafo ali em cima sobre a minha dificuldade para fazer amizades e tente imaginar como eu me senti. Não tem nada a ver com "me achar"). Mas o tal cara, não. Não falou nada, não perguntou nada, não fez nada. Continuou como sempre tinha sido até ali.

Até que descobrimos que moramos no mesmo prédio.

Foi justamente no dia da minha primeira apresentação "séria", com plateia e avaliação. Aquele dia foi o início da minha "consagração" pela turma e, quando voltei pra casa depois da aula, pimba - trombei com o cara na entrada do prédio. "Ah, você mora aqui?", "Moro! Você também?, "Que coincidência!", e todo aquele papo de comadre no elevador. Aí ele fez o convite pela primeira vez:

- Vamos lá no meu apartamento pra você conhecer!

Se você, saliente leitor(a), pensou alguma bobagem, eu não te culpo. Mas, por hora, relembre apenas que eu sou uma pessoa discreta, não socializo fácil, sou de Brasília (que, segundo pesquisas informais, só rivaliza com Curitiba no quesito "pessoas frias que não fazem amizade com alguém de manhã e já chamam pra festa de família à noite"), tenho um histórico de passatempos que dão sono na maioria das pessoas. Então, minha resposta foi um reflexo desse contexto.

- Ah, obrigado! Quem sabe outro dia?

E fui embora pro meu apartamento. Até aí, tudo bem. Ele podia só estar sendo simpático e cordial (tipo "beijomeliga") e nem querer que eu fosse mesmo lá. Foi uma das razões que me fez recusar. Sou de uma cultura em que às vezes as pessoas falam só por educação; então, na dúvida, melhor recusar. E tudo bem.

Só que, depois desse dia, praticamente todas as vezes em que eu esbarrava com o cidadão na escola, ele falava que eu podia ir ao apartamento dele na hora que eu quisesse. Eu agradecia e saía andando. Só que ele começou a mudar o discurso. Em vez de falar que eu podia ir ao apartamento dele, começou a falar que eu devia ir. E também que ele queria ir ver como era o meu apartamento. Comecei a inventar desculpas e a ver que tinha algo estranho ali. Afinal, com meu parco conhecimento de mundo, ninguém fica insistindo tanto assim para que você vá visitar, a não ser que seja aquela sua tia solteirona esquecida por todos. Achei melhor ficar na minha.

Mas aí, um belo dia, eis que esbarro com o dito cujo novamente na entrada do prédio.  "Danou-se", pensei. "Lá vamos nós de novo". E claro que ele veio falar comigo e me dizer pra ir ao apartamento dele. Quando recusei, ele disse:

-Então vamos lá ao seu apartamento agora para eu ver como é.

Prendi a respiração. "Quer saber?", pensei, "vamos acabar logo com isso então".

-Claro, vamos lá. Já te adianto que não tem quase nada, porque não comprei mobília ainda.

Abri a porta (tomando o cuidado de deixá-la bem aberta, mesmo depois que entramos), mostrei o apê pra ele (não que ele não pudesse ver tudo já da porta; afinal, é uma quitinete, né?), ele fez sugestões sobre o que eu deveria comprar (!), eu agradeci, e aí ele resolveu ir embora - não sem antes tentar me levar de novo pra conhecer o apartamento dele, mas eu recusei mais uma vez. Ele insistiu, e então eu falei que iria no dia seguinte depois da aula. A ideia era que, se eu acabasse logo com isso, ele ia ter que parar.

No dia seguinte, pedi pra um colega do curso me acompanhar e fui lá conhecer o apartamento do cara. Nada de mais, olhei tudo rapidamente só pra constar, agradeci e fui embora. Respirei aliviado e achei que tudo acabava ali.

Mas não. Nos dias subsequentes, sempre que o cara me achava sozinho na escola, ele vinha me falar pra eu ir de novo ao apartamento dele. Eu comecei a falar que já tinha ido conhecer, que era legal, mas que eu não precisava ir lá de novo. Ele falava que a gente podia jogar alguma coisa, ou ele podia ir ao meu apartamento e jogar vídeo game. Eu lembrava que ainda não tinha comprado nada pro apartamento (o que continua sendo verdade até hoje) e pronto. Mas todo dia ele, em algum momento, vinha falar as mesmas coisas: "já comprou móveis?", "e a televisão?", "vai lá pra casa hoje!", "me avisa quando você tiver televisão pra eu ir jogar vídeo game com você".

Até o final do curso, foi enchendo o saco, mas não passou disso. Era irritante, inconveniente, mas, como eu tinha meu grupinho de amigos de turma por perto na maior parte do tempo, o cara ficava à distância. Quando surgia uma brecha, ele ia falar comigo ("vai lá em casa hoje!", "já comprou a televisão?"), mas eu respondia com monossílabos e não dava corda. Inconveniente, mas não ia além disso.

Só que, como falei ali em cima, quando as aulas recomeçaram, descobri que tinham me separado dos meus amigos mais próximos. Caí numa turma em que não conhecia praticamente ninguém, e os poucos remanescentes da turma anterior não tinham porque estar comigo o tempo todo. E essa era a oportunidade dourada que o cidadão insistente precisava: "Oba! Ele está sozinho! Minha vez! \o/".

-Seu melhor amigo não está mais com você - foi a primeira fala dele no primeiro dia de aula.
-Pois é.
-Vocês vão continuar amigos?
-Hum-hum.

E aí ele retomou a ladainha sobre a mobília, a televisão e tudo o mais. Mas acrescentou uma particularidade diante da minha resposta:

-Vai lá em casa hoje depois da aula.
-Desculpa, cara, mas olha... eu realmente não sou muito de ir pra casa dos outros, principalmente sem motivo.
-Ah, a gente arranja alguma coisa pra fazer.
-Não, obrigado. Eu tenho minhas próprias coisas pra fazer.
-Então eu vou pro seu apartamento pra tomar um banho.

Não faço ideia da cara que eu fiz pra ele, mas sei que o que falei foi:

-Não, não vai mesmo!
-Por quê??? - ele perguntou como se fosse algo inconcebível.
-Porque não estamos com falta de água, você pode tomar banho na sua casa e eu não consigo imaginar porque você iria tomar banho no meu apartamento.

Ele resmungou alguma coisa e foi embora. E foi só nesse dia que eu realmente comecei a pensar que havia uma possibilidade de que, em algum momento, eu estivesse chegando ou saindo de casa e desse de cara com a Glenn Close em Atração Fatal.




Fui falar com o coordenador do curso e dei entrada num pedido de mudança de turma. Não mencionei a história do cara porque não queria expô-lo, complicar as coisas e também correr o risco de ser mal interpretado. Motivei o pedido apenas com base na minha vontade de ficar com os colegas da turma anterior - e esse teria sido o único motivo mesmo. E torci para que desse certo.

Só que a coisa ganhou outros contornos. Além de fazer as mesmas perguntas todos os dias, o cara começou a forçar a barra para sentar do meu lado e participar dos grupos de trabalho em que eu estava. Num espaço de dois dias, o que era só inconveniente antes ganhou contornos de perseguição pra mim. Ele começou a me falar coisas como:

-Eu vejo você às vezes voltando do supermercado com as sacolas.

Ou:

-Eu vejo você indo para a biblioteca.

"Vê"?? Vê como? Me avista por acaso na rua ou tá de olho no que eu tô fazendo?




A gota d'água foi na sexta-feira. Na semana anterior, o quebeco me chamou para a casa dele para jogarmos vídeo game e assistirmos seriados. Contexto completamente diferente do outro cidadão; então eu fui e levei meu vídeo game. No final, como realmente não tenho TV, e como eu queria mostrar um pouco mais de apreço (e gratidão) pelo meu amigo canadense, ofereci para que ele ficasse com o equipamento por uma semana. Ele se amarrou e eu deixei tudo lá. Combinamos que ele me levaria nessa última sexta e ele cumpriu o acordo. Tivemos uma atividade que envolveu as duas turmas do último nível do curso e o meu amigo aproveitou para me devolver o vídeo game ao final da atividade.

E o sujeito obscuro viu.

Quando meu amigo saiu, lá veio ele:

-Você já comprou a televisão?
-Não.
-Mas eu vi o seu melhor amigo te entregando um aparelho...
-Sim, eu tinha deixado na casa dele e ele me devolveu.
-Então você ainda não tem TV?
-Não.
-Hmmm... Não esqueça de me avisar quando tiver.
-...

Assim, ficou EVIDENTE pra mim que ele desconfiou que eu estivesse mentindo pra ele, que tivesse comprado a televisão e não tivesse chamado ele pra jogar vídeo game, enquanto jogava escondido com o meu "melhor amigo". Agora, me diz: que obrigação eu tenho de falar pra ele o que eu compro ou deixo de comprar, o que eu faço ou deixo de fazer, e com quem eu faço ou deixo de fazer??

Voltei ao coordenador do curso logo depois da aula. Eu vi, pela linguagem corporal dele, que ele ia negar meu pedido de mudança de turma. Então, assim que ele pediu que eu entrasse e me indicou a cadeira, já fui falando:

-There have been developments.

E aí ele voltou toda a atenção pra mim, o que achei muito legal da parte dele. Escutou a história toda. Na parte em que o cidadão falou que viria tomar banho aqui em casa, ele arregalou os olhos, deixou a boca aberta, soltou um risinho de nervoso e foi direto pro computador. Quando mencionei que uma garota da turma virou pra mim na quinta-feira e perguntou se eu já tinha notado que o cara ficava virando a cabeça pra olhar pra mim o tempo todo na sala de aula (e não, claro que eu não tinha notado. Eu faço o possível pra nunca olhar em qualquer direção em que ele esteja), o coordenador pulou da cadeira, pegou o telefone e disse:

-Estou te mudando de turma agora. Normalmente, não fazemos isso, muito menos para reunir colegas separados, mas essa situação é completamente diferente.

Pediu meus dados pra secretária, fez a alteração no sistema, me passou o número da sala nova e terminou com uma fala que eu sei que teve a melhor das intenções, mas que fez com que eu quisesse passar a noite num hotel:

-Olha, como coordenador eu não posso fazer nada fora daqui. Não acho que ele seja perigoso, mas a gente nunca pode ter certeza, e você me disse que ele mora no mesmo prédio que você. Então, vou pedir que você fique atento. Se as coisas continuarem desse jeito ou piorarem aqui na escola, venha me ver novamente. E, se isso continuar fora da escola, venha me ver também. Mesmo que eu não possa agir diretamente, posso pelo menos indicar onde você pode conseguir ajuda.


Considerações finais (pelo menos, por ora)

Então, taí meu primeiro problema pra valer em terras canadenses. O que acharam? Pra quem tava pensando que eu ia só chorar por não estar com o meu "melhor amigo", a trama se complicou, né?  Pra finalizar, algumas considerações:

1) Apesar das alusões e brincadeiras com imagens que fiz ao longo do texto, não acho que nada na situação tenha cunho sexual ou de obsessão. Como disse pro coordenador do curso, acho que o cara deve ser bastante solitário e não tem muito tato para fazer amizades. É possível que tenha algum distúrbio que o impeça de entender que certos comportamentos afastam as pessoas em vez de aproximá-las, e isso faz com que ele meta os pés pelas mãos na hora de tentar fazer amigos. E só;

2) Sei que uma das perguntas que provavelmente vai aparecer nos comentários ou por e-mail é: "de qual país ele é?". A curiosidade é natural, mas eu sinto dizer que não vou responder. Por mais que, pra muita gente, seja só mesmo curiosidade, há outras que criam e propagam estereótipos que nada têm a ver com um país ou com o restante da população. Se eu falo aqui de onde ele é, na próxima vez que alguém escutar esse país sendo mencionado em algum lugar, a primeira coisa que vão lembrar é que o cidadão esquisito é de lá. E, se a menção for de algo ruim, tá armado o circo: notícia ruim + o cara estranho de quem o Doug falou = país de gente doida. Então deixemos assim mesmo porque a nacionalidade dele não afeta nada do que relatei aqui;

3) Começo na outra turma amanhã, se o universo não inventar de bancar o engraçadinho pra cima de mim de novo. E, sim, estou muito feliz por poder passar as próximas cinco semanas com meus amigos do curso anterior, e com o quebeco em particular! Como mencionei alguns posts atrás, sei que é o tipo de amizade que dura apenas enquanto durarem as aulas. E, por isso mesmo, quero aproveitar o máximo possível a companhia deles durante as próximas semanas!

E que o meu perseguidor me esqueça!

À bientôt!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Frustrações de uma Vida não Iniciada

Essa fase na qual me encontro no momento é, ao mesmo tempo, extremamente empolgante e incrivelmente frustrante. É aquela na qual você quer começar a sua nova vida, mas ainda não encerrou o ciclo da antiga e, portanto, não tem como dar o primeiro passo de fato. Trocando em miúdos, é estar meio cá, meio lá.

De um lado, você está aqui, separando roupas e utensílios de cozinha para doação, tentando organizar, no meio do ninho de cobra da bagunça que só aumenta, o que vai e o que fica. Do outro, tem todas aquelas pesquisas que você faz, pensando em como sua vida poderá ser, tentando antecipar alguns problemas ou dificuldades e se planejando para lidar com tudo isso. O problema é que a distância física da nova vida te impede de ir além de um determinado ponto, o que, às vezes, faz você querer tirar as calças e pisar em cima.

Exemplificando:

Moradia

Acredito que seja a principal preocupação de quem chega. Ainda que você tenha algum conhecido que gentilmente se ofereça para te hospedar na sua chegada, na maioria das vezes você vai querer (ou precisar) arrumar um canto só seu o quanto antes. É o meu caso. Se aparecer alguém disposto a me tolerar por algumas semanas, ótimo, mas eu ficaria incomodado se minha estadia se prolongasse muito porque (1) eu gosto de ter o meu canto e (2) sou o tipo de hóspede que sempre está com receio de incomodar o anfitrião. Então, ainda que seja melhor do que ficar torrando grana em hotel, eu não ficarei 100% tranquilo enquanto não achar o meu canto

O que tenho feito: olho com alguma frequência os sites de anúncios de aluguel de imóveis, como o Kijiji e o Padmapper. Leio blogues de quem já está morando lá em Montreal, principalmente os posts relacionados aos bairros e ao tipo de residência. Teve a viagem que fiz a Montreal ano passado também, que ajudou a colocar um pouco em perspectiva o tamanho da cidade.

O que tirei de bom até agora: basicamente, a média de preços (o que permite te dar uma ideia de quantas moedas de ouro serão consumidas na brincadeira de pagar aluguel mensal) e uma ideia geral dos bairros da cidade. Ah, e, às vezes, você esbarra em algo que parece ter sido feito pensando em você, com carinho de mãe. E daí devaneia, imaginando como sua vida será perfeita lá na parte de cima do mundo!



Por que é frustrante: estando neste hemisfério, tudo o que posso ver são fotos. Não posso ir visitar, não posso ver o tanto que as fotos correspondem à realidade, não sei como a parte do contrato funciona na real, não sei se o proprietário irá com a minha cara ou se meu inglês e francês serão suficientes pra não ser enrolado. E sabe o apê construído com esmero, que você viu num anúncio ontem como um sinal divino da sua futura vida perfeita? Pois é, você não pôde ir lá e, no dia seguinte, o anúncio já foi tirado do ar porque alugaram.




Móveis, roupas e utensílios

Como já falei em algum post do passado, eu descobri que posso viver com pouco em casa, principalmente quando a situação é incerta. Vim pra São Paulo não pensando em ficar vários anos, mas voilà! E aí descobri que posso viver, por exemplo, sem conjunto de mesa com seis cadeiras ou fogão quatro bocas high-tech. Mas, ainda assim, alguma coisa a gente acaba tendo de comprar, né? Roupas então... porque eu que não vou tentar encarar -20°C com meu casaquinho da C&A.

O que tenho feito: só pesquisa mesmo em sites, como o da IKEA, Wallmart ou The North Face. Há uma variedade grande, para todos os gostos.

O que tirei de bom até agora: É outra maneira de você ver as moedas de ouro que podem ir embora nos primeiros meses. E, se você ainda está em estado de nirvana porque encontrou a casa dos sonhos no Kijiji e resolve pensar nos móveis para cada ambiente, rapidinho a pesquisa deixa de ser pesquisa e volta a ser devaneio.



Por que é frustrante: porque eu ainda não tenho casa, não sei o tamanho dela, não sei nem se vai ter mais de um ambiente, quanto mais se vai precisar de mesa de canto. Alguns apartamentos tem geladeira e fogão incluídos no preço do aluguel, alguns prédios têm máquina de lavar e secar comunitárias, outros não.. então, acabo tendo uma ideia de preços, mas, no fim, é como se eu estivesse jogando The Sims.




Trabalho

Aqui é onde o monstro embaixo da cama reside, no meu caso. Minha área (línguas estrangeiras e tradução) tem uma certa demanda (escutei alguém de TI rindo aí?), mas, em se tratando de inglês e francês, eu não tenho como concorrer muito com nativos logo de cara. Então sei que há um loooooongo caminho pela frente, e eles não são pavimentados exatamente com tijolos amarelos.

O que tenho feito: continuo coletando vagas pela internet, visitando sites de empresas e de profissionais autônomos. Minha vida profissional vai mudar radicalmente.

O que tirei de bom até agora: já deu pra ter algumas ideias em relação a encaixar meu perfil, e ver quais requerimentos e atributos precisarei desenvolver para determinadas vagas. Além disso, tenho consultado mais algumas outras opções que não estão diretamente ligadas à minha área, mas que podem me ajudar e até, quem sabe, se tornar meu ganha-pão principal.



Por que é frustrante: eu ainda não dei a cara a tapa, não mandei currículos nem contatei possíveis empregadores. Poderia ser um termômetro para ver como estaria a aceitação do meu currículo e experiência atuais, mas, lembrando que eu fiquei os últimos sete anos atrofiando o cérebro no serviço público, digamos que eu já tenha uma ideia. E, se você começa a duvidar que pode encontrar algo legal, logo, logo está imaginando que outras opções você terá se tudo der errado.




Estudos

E, em parte pelo receio de não encontrar trabalho, em parte por vontade mesmo, eu acabo voltando à ideia de estudar. A ideia, pra mim, é de recomeço mesmo, nesse caso: voltar para os bancos da faculdade, e estou falando de graduação, não de mestrado ou doutorado (embora não descarte estes). Se é pra recomeçar, talvez eu deva recomeçar direito.

O que tenho feito: entro em dezenas de sites de colleges, CEGEPS e universidades. Listo cursos que me agradam, aqueles que não faria nem por decreto, me informo sobre os custos. Tem muita informação sobre tudo, e as opções são as mais variadas. De gastronomia a mecânica de aviões, de metalurgia a Ph.D. em estudos africanos, dá pra gastar um bom tempo namorando os cursos. E, como eu sempre curti estudar e o meio acadêmico, é difícil parar de pesquisar e de imaginar as aulas.



Por que é frustrante: a perspectiva de estudar em outro país, em outro idioma, sempre foi empolgante, mas também intimidante pra mim. A duração do curso também pode vir a ser um problema. Se eu começo uma graduação, são três ou quatro anos de estudo pela frente. Como tenho o péssimo hábito de gostar de assuntos que não dão um emprego líquido, certo e prático no mundo real, pode ser que eu tenha que fazer mais um ou dois anos de mestrado, e três ou quatro de doutorado. Pense em dez anos estudando!!! Além disso, o fato de não estar ainda nas terras geladas dificulta um tanto o acesso a informações mais precisas. Pra dar um exemplo: eu me interessei pelo curso de Literatura Inglesa na McGill. PARECE, pelo que pesquisei e pelo que disseram em resposta às minhas dúvidas, que eu só poderia tentar entrar como Mature Applicant. Pois bem, uma das exigências para entrar nessa condição é concluir dois cursos ou disciplinas como pré-requisitos na área de interesse. Tentei conseguir mais detalhes sobre isso e disseram que eu poderia cursar essas disciplinas em CEGEPS, colleges ou na própria universidade. Perguntei o que seria aceito como pré-requisito para Literatura Inglesa e daí falaram pra eu entrar em contato com o Departamento de Inglês. Mandei um e-mail e me disseram que eu tinha que falar com o setor de admissões. Fiz isso e me disseram que eu tinha de contatar o Departamento de Inglês (!). Fiz isso de novo e disseram que eu tinha que cursar "alguma coisa como English Reading and Writing" em um CEGEP ou college. Entrei em contato com um college., expliquei a situação e me responderam dizendo que, no meu caso, é melhor cursar os pré-requisitos direto na universidade, porque tenho nível superior e pularia a etapa do college (!!). Agora, como eu faço isso se a universidade disse que eu tenho que fazer isso num college?



Perguntei também se eu poderia cursar matérias avulsas no college pra servir como pré-requisito. Ainda estou aguardando uma resposta, mas já deu pra sentir o drama, né? Será que o sistema de educação canadense é um tanto misterioso até para os canadenses ou sou eu que sou obtuso, produção?

Conclusão

Adivinha? Realmente, não dá pra passar o carro na frente dos bois. Enquanto eu estiver aqui no Brasil, só poderei ter uma visão parcial das coisas e acesso limitado às informações. Pesquisar e se informar é bom, mas também pode ser extremamente frustrante quando não leva diretamente a uma solução ou decisão. Então, nessas horas, é bom simplesmente ir estourar umas cabeças jogando GTA.

À bientôt!


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Emigrar é abrir mão

Todos nós, que estamos saindo do Brasil para um outro país, passamos por isso num momento ou em outro (e você aí, que ainda está planejando, também passará): a gente conta pra alguém que vai emigrar, a pessoa fala algo tipo "que legal!", e começa a fazer perguntas. Em geral, elas querem saber se você está indo fazer intercâmbio ("como assim, você tem green card???"), se você já tem emprego lá ("como assim, você não tem???") e se você já tem contatos lá pra te ajudar ("como assim, você vai sozinho???"). Em geral, para por aí, a pessoa te deseja sorte, sorri e vai fazer o que estava fazendo antes.

Mas algumas pessoas vão além. Elas veem ali uma chance pra elas também e, naturalmente, querem saber mais! Aí, como boa pessoa, você explica mais. Fala sobre a palestra do escritório do Québec, fala sobre os requisitos, indica sites, blogues e tudo mais. A pessoa fica empolgada, vai pra casa, e, quando você a reencontra, pergunta se ela gostou das informações, se ficou animada para dar entrada no processo. E a resposta, em 99% dos casos que presenciei, foi algo do tipo:

-Ah, eu queria muito, mas meu caso é mais complicado...

Naturalmente, você quer saber o por quê, e pede ao cidadão ou cidadã de bem para que ela elabore essa frase genérica. E aí, em 95% dos casos, a resposta cai em algo semelhante às opções abaixo:

1. Ah, eu não posso largar meu emprego assim...
2. Ah, eu tenho filho(s)(a)(as)/família;
3. Ah, eu tenho um(a) namorado(a);
4. Ah, eu teria que recomeçar a vida;
5. Ah, eu teria que aprender inglês/francês/etc;
6. Ah, eu teria que ser rico(a)...

Há outras, mas a maioria das respostas costuma girar em torno dessas opções aí (às vezes, várias na mesma resposta). Antigamente, eu apenas sorria, falava algo bem vago também como "é..." e deixava por isso mesmo. Mas, depois do tempo todo de processo, vendo não só as minhas angústias, escolhas e decisões, mas a de outras pessoas também, eu respondo, em geral, com outra pergunta:

- E você acha que eu não tenho nada disso?

Uma vez, li o prefácio do livro de um escritor em que ele falava como as pessoas chegavam até ele e diziam que tinham muita vontade de escrever. Ele, por sua vez, perguntava o que as impedia, e elas diziam, em geral, que não tinham tempo. Assim, como se escrever, para ele, fosse um passatempo, um hobby, algo que ele fazia enquanto executava o trabalho "de verdade", aquele que, de fato, colocava o leitinho das crianças na geladeira. E ele falava que a diferença entre os escritores e os aspirantes era justamente essa: eles encaravam a escrita como atividade profissional, com horas de trabalho divididas, com planejamento e método, e não da forma que a maioria das pessoas imagina (algo como acordar às 10 da manhã, tomar um café da manhã até às 11, sentar na frente do computador, decidir que precisa de "inspiração" e sair para passear e por aí vai). Basicamente, eles abrem mão do conforto de ter um emprego das 8hs às 18hs, com salário fixo, pagamento no fim do mês, plano odontológico e vale-coxinha e se dedicam à profissão deles. Em sua, eles fazem uma escolha - ou várias - e se comprometem com isso.

O que isso tem a ver com a situação genérica que abriu o post? Tudo.

Quem nunca pensou seriamente em emigrar geralmente tem uma lista de obstáculos intransponíveis prontinha para ser apresentada caso perguntem "se você quer ir, por que não vai?". Não vou, de forma alguma, dizer que não existem situações que pesem mais que outras. Mas, no fim, é tudo escolha. É tudo uma questão de se você quer abrir mão de algo ou não. Se está disposto e preparado a sair da sua zona de conforto, ainda no Brasil, para ir atrás de algo diferente. E, no fim, é você quem sempre escolhe. Não é "a vida", " a situação", o "destino". É você, e só você. 

Você tem um filho pequeno? Tem gente que está emigrando com dois filhos pequenos, ou com um adolescente e um bebê de colo, com três filhos de todas as cores e tamanhos. Você tem família? Pois é, eu também. Estou deixando (de novo)  meu pai, minha mãe e minha irmã para trás, só as três pessoas que mais amo neste planeta inteiro, sem falar dos meus tios e primos mais próximos. Você tem um namorado(a)? Eu e várias pessoas já terminamos um namoro (em alguns casos, até um casamento!) por causa do processo. Você tem um emprego estável, que te paga bem? Deixa eu te contar que ninguém está indo para o Canadá ou para sei lá onde pensando em ficar rico (ou, pelo menos, não deveria estar). E eu mesmo estou largando um "belo" emprego no setor público, com pagamento certinho, com situação estável, em troca de, talvez, ter de me virar com empregos considerados "baixo nível" no  Brasil. Você está financiando sua casa? Eu e vários temos adiado a compra de um apartamento ou casa pra viver de aluguel baratinho e juntar dinheiro para ir embora. Você teria que recomeçar a vida? E o que você acha que eu e todos os outros que estão nessa jornada vão fazer? Ser amigo do rei? Um monte de gente, mesmo não querendo de saída, vai ter de voltar para cadeiras de universidade, refazer cursos, aprimorar experiência, reaprender a pegar ônibus, a falar, a agir, a pensar. Ninguém está indo continuar a vida. Todos estão indo recomeçar, seja em um ou em outro nível.

Enfim, pra encurtar algo que já está longo, quase ninguém emigra com uma situação ideal. A imensa maioria, a maioria esmagadora tem que correr atrás de tudo, seja antes do processo (aprender idiomas, fazer pesquisa, juntar papelada), seja durante o processo (mais papelada, paciência, espera, pesquisa), seja depois do processo (finalizar a vida no país de origem e começar outra no país de destino). Ao contrário do que talvez você pense, ninguém fica esperando um alinhamento planetário perfeito no céu para só então dar o pontapé inicial. Como falei lá atrás, é uma questão de escolha. E escolha é pessoal. Se, pra você, o risco de vender a casa aqui e ficar sem residência própria lá no Canadá é muito alto para correr, tudo bem. Se você fica com receio de levar sua esposa e seu filho pequeno para fora do país por não saber no que vai dar, ok. Não há problema nisso. Mas pense um tanto antes de falar que sua vida ou situação é "complicada" ou que você estaria abrindo mão de "muita coisa". Afinal de contas, emigrar é, antes de tudo, abrir mão de muita coisa.

À bientôt!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Mon travail, je n'en peux plus!

Eu estou numa situação bastante cômoda: faltam seis semanas para eu sair do trabalho, todo mundo já está sabendo, ninguém está exigindo mais de mim do que o que eu posso oferecer até a minha saída. Ou seja, a situação não está ruim. Mas, gente... começando hoje, oficialmente eu já não aguento mais ir pro trabalho!



Tá certo que esse sempre foi mais ou menos meu sentimento desde que me tornei servidor público. Exceto para aqueles que, de fato, possuem uma formação que se encaixa direitinho no setor público ou para aqueles que só querem saber de estabilidade e salário pago em dia no fim do mês (cof, cof, e eu acho que esses são a maioria esmagadora cof, cof), o trabalho é sacal. Você não desenvolve nada, você não cria nada, você está sempre sujeito a uma "portaria", uma "lei", uma "orientação de serviço", documentos, em geral, redigidos por gente que não faz a mínima ideia de como as coisas funcionam na prática e acham que, assinando um pedaço de papel com linguagem rebuscada, resolvem tudo.

Não vou entrar nos detalhes. Não é um sentimento novo pra mim. Mas agora, com a proximidade do começo da minha nova vida (e com uma penca de coisas para resolver), o trabalho passou de aborrecimento necessário para fardo insuportável. Já disse inúmeras vezes que, se meu processo de imigração fosse recusado, eu, de qualquer forma, não ficaria mais nessa bagaça de serviço público. Quem quiser olhar só as vantagens e achar que é o paraíso, fique à vontade (e com a minha vaga). O que mais escuto é gente falando que queria estar no meu lugar, que eu sou louco de largar essa "boquinha" (blargh!), ou falando que tem horror à corrupção, ao jeitinho brasileiro e a outras coisas, mas tá louca para entrar no serviço público, uma máquina inchada, incrivelmente corrupta, que tem bem mais gente do que precisa e bem menos aparelhamento, planejamento e boa administração do que deveria, além de benefícios e vantagens que muita gente não tem o menor pudor em distorcer para se beneficiar ainda mais. Boa parte dos servidores acredita que cumpriu sua missão quando conseguem passar num concurso e querem apenas desfrutar dos benefícios e vantagens. Trabalho? Não foi pra isso que eles prestaram concurso público. Prestaram para ganhar um salário acima da média, para ter pouco ou nenhum trabalho, para ficar reivindicando aumentos que são surreais face ao (péssimo) trabalho que desempenham, e reclamar que os outros (políticos, juízes, desembargadores, ministros, procuradores, o seu Zé da esquina) são corruptos e ladrões, mas eles mesmos estão acima do bem e do mal. Até quando você encontra um setor/departamento/seção/divisão/coordenadoria em que pode, de fato, fazer algo e se sentir útil, tem sempre alguém para diminuir o seu ritmo e falar para você não vir com muitas ideias criativas (porque elas não vão pra frente mesmo, diante do tanto de assinaturas, "cientes" e "de acordos" que precisariam ter) e nem fazer tudo muito rápido (senão, o trabalho acaba e o setor/departamento/seção/divisão/coordenadoria fica parecendo um local ocioso).

Eu tenho total consciência de que eu não faço ideia do que o futuro me reserva, e que pode ser que a minha situação, no Canadá ou no Brasil, seja tão ruim, mas tão ruim, que eu chore de saudade do serviço público. Mas eu juro de pé junto que eu vou mover montanhas para que eu nunca, mas NUNCA precise voltar para um trabalho tão inútil, frustrante e inócuo quanto esse.

Desculpem o desabafo. Segue o show.

À bientôt!