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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte VIII

O outono chegou e, com ele, mais uma sessão de estudos de francês na Universidade de Montreal! E eu continuo me empolgando com esse tipo de coisa, mais um sinal inequívoco da nerdice que habita este que vos escreve.




Ao final da sessão de inverno, fechei doze créditos dos trinta que tenho que cumprir para o certificado. Minha ideia original era pegar duas disciplinas (seis créditos) em cada sessão e terminar tudo em dois anos. Só que duas coisas me fizeram mudar de ideia: primeiro, depois de terminar as duas primeiras sessões, eu me convenci de que o curso é tranquilo o suficiente para eu pegar mais créditos. A maioria das disciplinas tem aulas uma vez por semana apenas (embora sejam três horas a três horas e meia cada) e a quantidade de deveres, trabalhos e provas é totalmente manejável. Segundo, há algumas disciplinas que eu queria pegar que, até o momento, só foram oferecidas no período diurno. Eu estava crente que ia poder dedicar o dia à busca por emprego, mas tendo aulas de dia e de noite, a coisa complica. Então, resolvi pegar o que era possível pra finalizar o certificado, no máximo, na sessão de inverno de 2017.

Daí rolaram alguns probleminhas, sendo o principal deles o choque de horário. Também tentei pegar uma disciplina que me foi recusada. Alegaram que o curso é para quem tem, no máximo, nível 5 (e o meu é 7). Noves fora, acabou que só consegui pegar nove créditos, ou seja, três disciplinas, e isso em dias e turnos diferentes. Sabe o enigma da Esfinge pro Édipo? "O que tem quatro pernas de manhã, duas de tarde e três à noite?" Pois é, a resposta oficial agora é o Doug estudando francês na UdeM. De qualquer maneira, se eu conseguir pegar nove créditos também na sessão de inverno, ainda consigo terminar o certificado em abril. Dedos cruzados!




Os cursos que peguei foram os seguintes:

Língua e culturas: pra falar a verdade, ainda não entendi direito qual é a desse curso. Eu achei que seria uma visão sobre os países e culturas onde se fala francês, mas não sei se vai ser bem isso. Discutimos a francofonia nas duas primeiras aulas, então até aí tudo bem. Mas, segundo o plano de curso, vamos falar sobre a água (!) e sobre a felicidade (!!). A professora é francesa, mas guarda pouco daquele sotaque padrão francês. Acho que o tempo que ela já tem de Quebec deu uma entortadinha no sotaque.

Comunicação em contexto profissional: eu peguei essa disciplina só por desencargo de consciência. Muita gente corre pra esses cursos de ambientação e linguagem profissional, mas eu quase sempre os acho bem inúteis. Em geral, são fórmulas gerais para empregos gerais. Esse aqui não é muito diferente. A professora é vietnamita (!!!) e, apesar de rolar muito aquela história de "vamos simular uma reunião", há coisas interessantes sobre perguntas proibidas em entrevistas e modelos de cartas de apresentação. Nada que você não encontre fazendo uma pesquisa na Internet.

Compreensão escrita por meio de textos literários: nessa aula, me sinto como se já fosse gente grande em francês! Embora esteja longe de ser uma aula de literatura pra valer, ela dá o gostinho: temos textos e livros pra ler, temos de identificar temas, conhecer um pouco do contexto histórico e cultural das obras (embora sejam todas aqui do Quebec mesmo). A professora é quebeca, extremamente apaixonada pelo que ensina e muito motivada, o que, diga-se de passagem, é fundamental para uma aula que começa às 18 e vai até às 21:30.

O bom dessas três aulas é que elas focam bastante na escrita e na oral. Diria até que  mais na oral, pelo menos até agora, e pra mim isso é ótimo. Eu detesto trabalhos em grupo, sejam ele escritos ou orais (há um motivo simples pelo qual o Super-Homem trabalha sozinho), mas é um mal necessário nesses cursos. Já tive que fazer apresentação oral na segunda aula de Comunicação em Contexto Profissional, e foi um alívio ver que, finalmente, meu francês está fluindo mais, embora longe de ser perfeito. Outra coisa boa dessas aulas que peguei é que alguns alunos estão fazendo as mesmas, o que me deu — finalmente! — a possibilidade de pelo menos ter um pouco mais de contato com colegas de sala.

Em suma, a sessão começou bem e eu acho que será boa. Mais trabalhosa que as anteriores, mas totalmente suportável. E agora eu quero mesmo terminar isso pra poder me dedicar 100% ao mercado de trabalho, esteja o francês fluente ou não!

À bientôt!

sábado, 6 de agosto de 2016

E a minha resposta é...

... que eu não vou encarar a McGill.

Não tomei essa decisão feliz e contente. Durante um bom tempo, eu acalentei a possibilidade de voltar a estudar, fazer um outro bacharelado e, assim, tentar encontrar alguma coisa que me interessasse o suficiente para que eu quisesse correr atrás. Namorei alguns cursos da McGill e de outras universidades ao longo dos últimos anos, e fiquei me imaginando voltando a estudar, obtendo um diploma universitário daqui do Quebec e começando uma nova profissão aqui. Então, apesar de a vida aqui ter me feito pensar menos em fazer faculdade, dá pra imaginar que, além da surpresa de ter sido aceito na McGill, eu fiquei muito animado.

Só que, parando pra pensar depois da euforia, comecei a considerar as coisas. Eu entraria lá sem fazer muita ideia do que estudar e em que me formar. Começar um curso universitário não sabendo o que você quer fazer não me parece lá uma decisão muito acertada, ainda mais levando-se em conta que eu precisaria fazer uma dívida com o governo para poder bancar os estudos, mesmo que parcialmente. Em seguida, tem o fato de que um diploma na área de Humanas não é exatamente, digamos assim, extremamente requisitado no mercado de trabalho. Suponhamos que eu saia com um diploma em História, Literatura Inglesa ou Filosofia. No mercado de hoje, o que se faz com isso? Até mesmo para dar aulas eu precisaria de Mestrado e Doutorado, o que implicaria passar mais uns seis ou sete anos estudando (e lá vai dívida) para desembarcar num mercado acadêmico que está bem saturado, de acordo com tudo que li a respeito.

E, para finalizar, tem a questão da idade. Não, não é que eu ache que 36 anos é uma idade avançada para se aprender coisas novas (=tô véio pra essa bagaça). Eu nem acho que exista idade limite pra se aprender nada, desde que você esteja querendo aprender. Mas a questão é o mercado novamente: ainda que eu saísse da universidade em quatro anos (supondo-se que eu realmente desse conta de fazer tudo no tempo previsto), eu chegaria ao mercado com 40 anos e sem experiência profissional relevante (porque os empregos de verão que eu provavelmente pegaria não são lá um grande divisor de águas pra ninguém) e com um diploma daqui, mas em uma área pffff. Os canadenses podem ser bem mais abertos em relação ao fator idade, mas, como um dos meus amigos quebecos colocou na nossa última conversa, não é porque são mais abertos que vão escolher quem tem mais idade em detrimento de quem tem mais experiência.

No fim das contas, depois de pensar bastante, acho que embarcar nessa seria extremamente gratificante do ponto de vista pessoal (sou nerd, gente, gosto de estudar), mas uma jogada não muito boa do ponto de vista de profissão e carreira. Se eu curtisse muito uma área específica, fosse apaixonado por curso, ainda talvez valesse a pena correr o risco. Mas entrar às cegas na universidade torcendo para que eu encontre alguma coisa que me interesse e que me leve a uma carreira (e ainda criando dívida no processo) talvez seja forçar um pouco a barra.

Então é isso. Apesar de meu raciocínio ser esse, ainda não consegui ir lá no sistema da McGill e clicar em "decline". Tenho só mais dois ou três dias de prazo, mas acho que essa decisão não vai mudar. Em algum lugar, espero que alguém que está na lista de espera da McGill fique feliz :)

À bientôt!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Entrei na McGill! :) (2)

Eu não consigo acreditar até agora, mas parece que é pra valer: entrei na McGill (de novo), e dessa vez a coisa ficou séria!!



Mas eu sei que uma parte eu não contei: ano passado, depois de terminar o curso de inglês da McGill, tive que começar a pensar no que fazer da vida. É um assunto extremamente inquietante pra mim, porque eu tenho essa ideia de que gostaria de ter uma carreira de fato (embora hoje eu saiba muito bem que isso não é necessário), mas, ao mesmo tempo, não tenho muita ideia do que gostaria de fazer. Depois do curso de inglês, eu já havia resolvido que prosseguiria parcialmente nos estudos fazendo o Certificado de Francês da Universidade de Montreal; mas e aí? O que fazer "de verdade", como trabalho? Ou melhor, como profissão, como carreira, a longo prazo (já que empregos sempre existem nos classificados)? Nada de novo no fronte. Uma coisa me interessa aqui, outra chama a minha atenção ali, mas nada que faça os olhos brilharem. E aí?

No meio da indecisão, e como eu nunca gostei de ficar parado esperando o raio divino (embora tenha tentado mais de uma vez), resolvi fazer a inscrição pra fazer um bacharelado na McGill. Bacharelado em quê? Não sabia; e o formulário de inscrição só pedia pra eu escolher uma das Faculties ou Schools, então não precisava resolver ali na hora. Escolhi a Faculdade de Artes e mandei ver.

Isso foi em outubro do ano passado. De lá pra cá, houve momentos em que fiquei extremamente ansioso e momentos em que eu dei risada do que tinha feito. Afinal de contas, já imaginou? Eu, com 36 anos, fazendo bacharelado em (interrogação) na McGill, tida como uma das melhores do Canadá? Tendo que fazer trabalho em grupo com a molecada de 20 anos, estudar pra prova, fazer empréstimo junto ao governo pra bancar os estudos? Me formar perto dos 40 anos, provavelmente em algo que não tem muita perspectiva de emprego, pra só então voltar ao mercado de trabalho (isso se não precisar de um Mestrado ou Doutorado)? Faz-me rir, né? De qualquer forma, nunca pensei que minhas chances fossem muito altas; não fiz inscrição para nenhuma outra universidade, talvez porque, em parte, eu quisesse ouvir um "não"; o "não" da McGill me daria um direcionamento, nem que fosse o de arrumar um emprego pra pagar as contas.

Mas aí, abro o sistema de admissão deles — de forma automática como vinha fazendo desde maio — e, na linha de status, em vez do "Reviewed - Decision Pending" que eu sempre via, tava lá um "Admitted". Juro que o coração parou. Foi um susto ENORME, posso garantir. Rolei a tela pra cima e pra baixo tentando encontrar os dizeres "Pegadinha do Malandro!!!", mas não tinha. O que tinha era o link para a carta formal de aceitação.

E agora, José?

Eu tô num misto de alegria, ansiedade, medo, empolgação, dúvida e angústia. Ao mesmo tempo que penso que já chutei o balde-mor deixando meu emprego e meu país para vir aqui ver "de qualé" e que, por isso mesmo, embarcar nessa experiência não seria pior, penso também que talvez seja tapar o sol com a peneira... que talvez, por não ter exatamente um plano eu devesse simplesmente deixar pra lá isso e tratar de arrumar trabalho antes que meu prazo de validade expire.

O que você faria?

À bientôt!

terça-feira, 21 de junho de 2016

O Curso de Inglês da McGill - Epílogo II

Essa me pegou totalmente desprevenido.

Certo dia, resolvi ir ao supermercado. Calcei o tênis, peguei minha mochila e só quando já estava prontinho para a guerra foi que vi que havia deixado o celular em cima da cama. Bateu a preguiça de tirar parte do traje de combate só para ir pegar o celular, então fui sem mesmo. O supermercado fica quase do lado de casa, então achei que, só dessa vez, ele ia ficar esperando eu voltar.

Fui, voltei e, como Murphy é Murphy, tinha uma ligação perdida. Número desconhecido. "Telemarketing", pensei, "ou então alguém que discou o número errado". Se fosse a segunda opção, logo eu provavelmente receberia uma mensagem de voz com a pessoa se desculpando (pois é, já aconteceu mais de uma vez.)

Comecei a guardar as coisas e o celular deu sinal de vida indicando mensagem de voz. "Ahá", pensei, "taí. Número errado". Coloquei pra ouvir enquanto guardava os limões, mas parei praticamente assim que a mensagem começou:

"Oi, Doug, aqui é a Fulana da McGill. Estou ligando a respeito do seu prêmio. Por favor, entre em contato, pois preciso saber como você vai querer fazer. Estarei até as 5 da tarde aqui; se não puder falar, estarei de volta na terça-feira. Meu número é..."

Prêmio? A primeira coisa que veio à minha cabeça é que era algum golpe (sim, também tem por aqui). Eu ia ligar, eles iam dizer que eu ganhei, sei lá, uma barra de ouro, mas que precisam do número do meu cartão de crédito para confirmar a identidade. Ou qualquer outra bizarrice do gênero. Porém, o fato de a Fulana falar meu nome e falar que era da McGill me atiçou. Ligar de volta era praticamente perda de tempo porque já havia passado das 5, mas tentei. Ninguém atendeu. Daí fiquei pensando que era algum engano, porque eu não estava participando de concurso algum. Não dei meu nome pra concorrer a nada, então, se a ligação tinha vindo de fato da McGill, com certeza era algum engano.

Pois bem, no dia seguinte, fui pegar a correspondência e — tcham, tcham! — tinha uma cartinha da McGill. Abri, li, e quase caí pra trás. Transcrevo:

"Dear Mr. Doug,

Please accept my sincere congratulations on being selected as the recipient of the [nome do prêmio] for the 2015/2016 academic year.

You are now a member of an elite group of learners - those who are prizewinners for the year's most outstanding academic record in their program or course. For most students enrolled in programs and courses offered by the School, pursuing further education must be balanced with many other commitments, making this achievement all the more significant. You should be proud of your achievement as we are proud of you.

The amount of [valor do prêmio] has been deposited in your bank account according to the information we have on file.

Sincerely,"

Fala sério!!!! Eu nem sabia que esse prêmio existia!! Foi uma surpresa sensacional! E — descobri na terça seguinte — foi por isso que a tia da McGill ligou: eu não tinha incluído informações bancárias no meu cadastro e ela queria saber se mandava o cheque pelo correio ou se eu iria lá buscar. Oh, Canada!!

Lembrei que o site da McGill dá a opção da gente conferir o histórico não-oficial para ver as notas e tá bonito, viu? Nota "A" nos dois módulos que fiz, mais "Lista de Honra do Reitor" e, agora, "Ganhador do Prêmio X"! Filma eu, Galvão!



À bientôt!

sábado, 11 de junho de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte VII

Três meses de sumiço não é mole, não! Mas vou te contar, viu... que períodozinho lasquei esse desde o meu último post. Não foi só o tempo pra escrever, engolido pelas coisas que tive que fazer ao longo dos últimos meses, que me manteve afastado do bloque. Recebi uma notícia nada agradável do Brasil e tive que tirar um templo pra pensar na vida. Ninguém morreu (ainda bem!), mas, ainda assim, foi um período de luto que foi intensificado por tudo com o que tive que lidar: aulas, provas, imposto de renda, renovação da Assurance Maladie, celular estragado, o Hodor, renovação de passaporte, trabalho voluntário... nesses meses, mesmo as coisas pequenas tinham peso maior. Daí não tinha o que me fizesse realmente pensar em sentar e escrever (embora digam que ajuda).

Mas, cá estou! As coisas, ou melhor, o meu lado emocional está melhor agora. Como já mencionei ali em cima, muita água rolou, mas vamos com nosso querido Jack: por partes.




A Sessão de Inverno na UdeM

Eu já havia dado um apanhado geral do que estava achando das aulas nesse post aqui. Minha opinião não mudou muito de lá pra cá. O curso de Compreensão Oral cumpriu o que prometeu: fomos expostos a sotaques de francófonos de várias partes do mundo, mas com uma atenção especial para o francês falado no Quebec, claro. A professora se esforçava muito para não ser do tipo rígida, ou melhor, para não passar a impressão de ser sisuda, mas pra mim ficou claro que ela estava tentando representar um papel de professora gente boa. Acho que o que ela curte mesmo é pegar pesado com os alunos, mas só em alguns momentos ao logo dos três meses de aula chegamos a ver esse Mr. Hyde fora do Dr. Jekyll.

Essa aula é obrigatória, então ainda que eu não tivesse gostado teria que fazê-la em algum momento. Mas não me arrependo. Obviamente, não tem como o curso ou a professora ativarem uma chave mágica no cérebro dos alunos para que eles comecem a entender francês quebeco do dia pra noite. O que ela fez, além de dar uma lista enooooooooorme de sites e outros recursos onde podemos ouvir o francês daqui, foi chamar a atenção dos nossos ouvidos para certos fenômenos que acontecem no idioma. Foi assim que descobri que "sur + la" frequentemente vira "saaaa" (um "sa" alongado), da mesma forma que "sur + les" vira "sêêêê" (um "sê" alongado). Foi assim também que fui apresentado ao "fón", que é como alguns quebequenses pronunciam a palavra inglesa "fun" ("c'est le fun" vira "cél-fón"). Vimos também a ditongação que é feita em várias palavras ("jaune" é pronunciado "jôun", com "o" e "u" bem marcados) e o uso da partícula "tu" (sim, partícula, não pronome) como indicação de interrogação ("Il va tu au cinéma ce soir?"). 



Apesar de tudo ser muito interessante e de termos chance de ouvir esses fenômenos linguísticos em áudios e vídeos que a professora levava, acho que tinha gente na sala que achava que só saber essas coisas resolvia os problemas. A professora passava áudios e vídeos na sala, fazíamos exercícios (alguns em casa), mas ela falava o tempo todo: tem que escutar fora da sala de aula também. Rádio, TV, podcasts, séries, filmes, o povo no ônibus, na feira. Tem que ler também, porque ver a palavra escrita ajuda a reconhecê-la quando a ouvimos. Enfim, é um trabalho constante e sem fim. Se a pessoa vai pra aula, apura os ouvidos lá, mas volta pra casa ouvindo o idioma nativo, se encontra só com os amigos compatriotas, usa inglês pra fazer as coisas na rua... não tem curso que salve. E foi assim que, pra minha surpresa, vi uma quantidade razoável de pessoas se dar mal. Claro, não sei da vida de ninguém; muita gente estuda, trabalha, cuida dos filhos, do cachorro, e mil outras coisas; no máximo, tiro uma média pelo que me contam. Mas, sinceramente, a aula em si não é difícil se você tem o hábito, pelo menos, de escutar notícias em rádio, podcasts ou TV. A maior parte das avaliações se baseia em noticiários — o que facilita muito, pois os locutores/apresentadores falam de forma mais pausada e clara. Ainda assim, na última prova, vi algumas pessoas suplicando para ouvir o áudio uma última vez com fone de ouvido.

A aula de fonética, por outro lado, foi bem mais puxada. Fiz tanta pergunta e pedi tanto para ser corrigido pela professora e pelo assistente que nós três acabamos indo pra um bar um dia hahahahahaha! A professora é sensacional: bem-humorada, atenta, meticulosa, manja muuuuuuuito do conteúdo e consegue te esculhambar ainda parecendo ser sua melhor amiga. Era comum termos de ler palavras (no início do curso), frases e parágrafos inteiros (mais para o fim) em voz alta durante a aula, e se ela não ficava satisfeita pedia para a pessoa repetir quarenta vezes. Nessa aula eu via muito mais gente interessada do que na de Compreensão Oral — e, por interessada, quero dizer ralando pra fazer certo. Ainda assim, a própria professora comentava, de vez em quando, que ela conseguia distinguir facilmente os alunos que treinavam em casa daqueles que só se preocupavam em tentar fazer os sons certos quando estavam na aula. As avaliações e exercícios valendo nota eram todos gravados e enviados pra ela ou pro assistente, e sempre, sempre recebemos, além da nota, um comentário bastante detalhado sobre o que estava bom e o que estava ruim. E o melhor: tudo isso com litros de diversão durante a aula.

Vou te dizer que fiquei bem preocupado na metade do curso. Não com nota ou coisa do tipo; mas é que, em determinado momento, parecia que eu estava "desaprendendo" o que eu sabia e não estava conseguindo aprender o que não sabia. Lá ia eu falar com a professora ou com o assistente (às vezes, com os dois) e pedir, "me ajuda, me anima, me dá esperança, me exorciza!". 




E eles diziam que eu estava indo bem, que a minha pronúncia era boa, o assistente dizia que eu soava como francófono em vários dos exercícios gravados, e eu dizia, "não, não, não, francófono de onde, da Índia?". E aí eles riam, indicavam uma coisa aqui e ali que eu podia tentar melhorar e ficava por isso mesmo. Até que um dia (o dia do bar), eu chorei as pitangas de novo e a professora me disse o seguinte:

—Doug, vou ser o mais sincera que posso com você. Obviamente, você não soa como um falante nativo do Quebec. Seu sotaque tem um pouco do sotaque brasileiro, mas tem muito do sotaque padrão francês, o que é normal, já que vocês aprendem o francês da França. Porém, o meu ponto é: você não tem problema algum de pronúncia; você não pronuncia "b" em vez de "v" como vários sul-americanos, você não tem dificuldade pra pronunciar e distinguir "ê" de "é", "ô" de "ó"; você pronuncia bem o "u" francês, você faz distinção entre "in", "en", "an", "on" e "un"... em suma, você não tem nada que eu possa chamar de problemas reais de fonética. Outros alunos tem alguns desses, e outros ainda tem todos, o que é de deixar qualquer um sem dormir à noite. O que você tem é uma coisa: medo de falar! Eu vejo a diferença na sua pronúncia quando você grava os exercícios e quando você está aqui, ao vivo, conversando. Em casa, gravando, você está relaxado, sabe que se fizer um erro é só apagar o arquivo, gravar de novo e pronto. Aqui, você sabe que não tem como fazer isso; você fica nervoso e isso faz com que você queira falar rápido, não para parecer fluente, mas para acabar logo porque você não quer errar e não quer ser julgado. Meu conselho continua sendo o mesmo desde o início: você tem que encontrar um modo de relaxar quando estiver falando francês. Tem que deixar de ter medo de ser julgado, de parecer estúpido, de ter que recomeçar uma frase porque não sabe como terminá-la, de trocar uma palavra pela outra. Tudo isso faz parte do processo de aprender idiomas. Eu te garanto, pelo que você já mostrou na aula, que se você conseguisse relaxar mais quando fala francês por aí, nem aqui fazendo o certificado você estaria.

O que que você fala pra uma professora que te diz isso tudo? Paguei uma rodada no bar, né?



É claro que ela tem razão. Pelo menos em relação à parte de eu precisar relaxar, porque, quanto à pronúncia, não acho que seja essa Coca-Cola toda, não. Mas, enfim, de lá pra cá, venho tentando superar a ansiedade também nesse quesito. Não vou dizer que tenha feito grandes progressos, não, pois ainda me cobro muito toda vez que abro a boca. Porém, pelo menos agora eu tento, durante os segundos antes de abrir a boca pra falar francês com alguém, pensar que eu não vou ser morto a tiros se falar alguma besteira ou não souber completar um pensamento. Tem dias que vai mais fácil, tem dia que vai mais difícil. Mas vai.

As aulas de Compreensão Oral e de Fonética acabaram no fim de abril. É sempre uma pena pra mim deixar de ir pra aulas das quais gosto, mas fazer o quê? A recompensa de tudo veio semanas depois: fiquei com A+ em ambas as disciplinas, o que me deixa com um média acumulada muito boa que pode ser útil para um eventual retorno à universidade. Pelo menos, o currículo tá ficando bonito :P

Ah, eu recomendo MUITO a aula de Fonética pra qualquer pessoa que venha pra cá! É sensacional o tanto que se aprende e, se você realmente colocar em prática o que for viso na aula, sua pronúncia com certeza vai melhorar bastante! Dá pra fazer como aluno livre na Universidade de Montreal, ou seja, não precisa se inscrever pro certificado inteiro pra poder cursar. Fica a dica!

À bientôt!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte VI

Confesso que minha primeira sessão do Certificado de Francês da Universidade de Montreal ficou aquém do que eu imaginava. As aulas de francês oral, embora boas, eram poucas demais para permitir que eu aprimorasse meu discurso em francês (e a turma não ajudava muito, como contei). As aulas de francês escrito... bom, já chorei as pitangas nesse post aqui, então não vou repetir. Fiquei com boas notas no fim do trimestre, mas comecei a me perguntar se o que viria pela frente seria no mesmo nível (e, por tabela, se valeria a pena continuar, nesse caso). Porque ninguém merece ir para um curso sentindo que está indo pra forca.



Mas vamos por partes: quando fui aceito no programa do certificado e tive que passar por uma conselheira acadêmica (isso não é mais obrigatório), ela havia falado pra eu fazer, de início, um curso oral e outro escrito (que foi exatamente o que fiz na primeira sessão) e, na sessão seguinte, fazer um de fonética e um outro de francês escrito. Na palestra de informação sobre o certificado, a diretora do programa já havia enfatizado que muitos alunos não se preocupam com a parte escrita e acabam tendo que correr atrás do prejuízo no fim do programa ou mesmo depois de terminar o curso. Minha conselheira, na época, voltou a bater na mesma tecla. Disse para eu não deixar de lado a escrita porque era uma parte importante do curso e da língua, principalmente no mercado de trabalho.

Só que, depois do meu primeiro curso de francês escrito desanimador e da minha incapacidade de falar francês tranquilamente mesmo em situações simples, eu resolvi jogar as sugestões da dona conselheira no mato. Quer dizer, pelo menos em parte. Ora, eu estou com dificuldades é pra falar, certo? O curso foca nas partes oral e escrita, mas deixa a escolha sobre o que privilegiar por minha conta, certo? Não tive nota ruim no curso de francês escrito e ainda fui elogiado, certo? Tá certo que esse último argumento deve ser aceito com ressalvas por causa da qualidade duvidosa da aula, mas, enfim, o que eu quero dizer é que, por mais que a conselheira esteja lá pra ajudar, ela não conhece tudo a meu respeito (aliás, conhece nada). E, assim, prefiro assumir a responsabilidade do que eu fizer no curso em vez de, no fim, colocar a culpa na pobre senhora.

Com esse discurso de auto-afirmação na cabeça, me inscrevi no curso de fonética e de compreensão oral. No primeiro, porque, afinal, é um curso de prática oral, e eu fiquei com a impressão de que o meu sotaque era, digamos assim, poderoso; e no segundo, porque é um dos cursos obrigatórios, mas que eu fiquei feliz de pegar porque a gente, teoricamente, vai ser exposto a diversos sotaques de francófonos mundo afora.

Ainda assim, depois do trimestre passado, não posso dizer que estava muito IPI-IPI-URRAAA em relação a voltar às aulas. Minha esperança era que os cursos não fossem ruins e que eu conseguisse treinar mais o francês, nem que fosse batendo papo no corredor.



Compreensão Oral

Essa foi a primeira aula da sessão e, rapaz, que diferença! No trimestre passado, eu saí traumatizado da sala de aula; dessa vez, saí aliviado. Não por achar que a aula vai ser fácil, mas porque a professora não só manja dos paranauê como se mostrou totalmente aberta e receptiva. Ela não faz a linha professora amiga e descontraída, mas ela se esforça. É palpável a energia que ela dispende pra tentar deixar todo mundo à vontade. 

A turma também parece um pouco mais homogênea do que a das minhas aulas anteriores. Há pessoas que falam menos que eu, mas a maioria está mais ou menos no meu nível. Os alunos-estrela da sala são dois romenos. Ambos já estão aqui em Montreal há mais de dois anos. Não que o tempo aqui seja necessariamente proporcional à qualidade da desenvoltura em fazer biquinho: uma colombiana que senta do meu lado está aqui há cinco anos, diz que fala francês há três, e ainda tem não só um sotaque bem carregado como comete erros gerais na hora de falar. Mas fala, e se expressa bem. Ah, fora eu, não há brasileiros.

Na aula, basicamente a gente assiste a vídeos ou escuta o áudio de vários tipos de mídia, desde trechos de séries de TV francesas até entrevistas com o Seu Zé da Quitanda, que mora em Rimouski. Eu consigo entender uma boa parte da maioria do que é passado, mas vou te contar que quando são dois quebecos falando descontraidamente num bar com a música rolando e o povo falando em volta, dá vontade de voltar pra casinha, viu? Já teve entrevista com senegalês, pesquisa de opinião com idosos franceses, mas põe dois quebecos adolescentes pra cantar Frère Jacques e parece que você tá ouvindo Klingon.



Tivemos a primeira prova semana passada. Assistimos um vídeo de um programa que tinha dois convidados para falar sobre os prós e contras do inverno. Em seguida, tínhamos que resumir oralmente o que tinha acontecido no vídeo, identificando quem era a favor e quem era contra, com os respectivos argumentos. Parece simples, e até que é, mas os sotaques da apresentadora, dos entrevistados e dos convidados eram totalmente diferentes. Cada um vinha de um canto do mundo. Segundo, o vídeo não tinha nada tão óbvio quanto "então, Seu Jão, me diz aí três argumentos pró-inverno". Não, um começava a falar, outro respondia, um terceiro se metia, a apresentadora cortava pra remeter a um outro assunto ligado e daí voltava todo mundo pro ponto de partida. Não quero passar a impressão de que a prova era impossível; eu não acho que tenha ido lá muito bem, mas isso, basicamente, porque não estou com os ouvidos ainda tão afinados pro francês. Fiz o mesmo tipo de exercício em inglês na McGill, por exemplo, e lá não tive problema algum, simplesmente porque estou mais acostumado com o inglês, mesmo com sotaques diferentes. Então não tem outro remédio: é aumentar a frequência do que eu escuto em francês (atualmente, uma hora de vídeo e outra de áudio por dia) e dar tempo ao tempo.

Fonética

Já digo logo: disparado, a minha aula de francês favorita de todos os tempos! Fui meio sem saber o que esperar, e ficava imaginando diagramas da boca e garganta humanas, com indicações de onde colocar a língua, como fazer as cordas vocais subirem e como torcer as amígdalas até dar cãibra. Felizmente, a aula é muito, mas muito melhor que isso!

De cara, a professora já disse que a gente teria que se divertir na aula, e isso por uma razão muito simples: não tem como você entender de fato o que está falando errado e consertar se você não exagerar os sons. Isso dá origem a todo tipo de caras e bocas que vocês possam imaginar. De início, fiquei um pouco preocupado com essa abordagem Xou da Xuxa na aula, principalmente porque os alunos se sentiram tão à vontade que começaram a conversar e rir mesmo durante as explicações. Mas isso não tardaria a mudar. Mwahahaha!

Depois da primeira aula, que teve mais apresentação que conteúdo, cada aluno teve que fazer uma gravação de áudio lendo um texto que a professora escolheu. Ela avisou que seria bem rígida nessa avaliação, porque era pra dar uma ideia bem real e próxima de como um falante nativo percebe o sotaque e a pronúncia de um não-nativo. Então, ninguém devia se assustar se tirasse C ou D. Daí, com essa pouca pressão, lá foi o Doug fazer a gravação dele. Gravar não foi ruim: o ruim mesmo foi ter que ficar escutando minha própria voz e me dar conta que Carmen Miranda cantando com banana e abacaxi na cabeça soava mais francesa que eu. Enfim, não dava pra ficar lá no laboratório de línguas da universidade a noite toda, então teve uma hora que segurei na mão de Odin e fui. Ou melhor, cliquei em "envoyer". 

A professora tinha avisado que deixaria um comentário geral na página do nosso curso no sistema da universidade, e que entregaria uma cópia do texto com anotações mais detalhadas na aula seguinte. Só fui receber o meu comentário no dia da aula, mas valeu a pena a espera:



Gente, que alívio ler isso!!! Eu juro como estava pensando que ia ter que suar a língua, mas parece que vou conseguir levar a aula um pouco mais tranquilo! :D

Pensei que a professora, na verdade, tivesse feito um terrorzinho pra obrigar todo mundo a se esforçar na leitura, mas que ela fosse distribuir As e Bs no fim das contas. Mas me enganei: não sei a média da turma, mas vi um monte de C- nas folhas das pessoas que estavam mais próximas (daí a razão de todo mundo ter passado a rir menos e conversar menos fora de hora). A professora anunciou que só tinha dado um A. Como ainda não tinha decorado os nomes, ela perguntou quem era. Fiquei quieto de início porque aoooooonde... se eu já travo quando uma pessoa está me olhando, imagina com uma turma inteira olhando pra minha cara. Mas não teve jeito. Num outro momento, a professora me chamou pelo nome e, na frente da turma, falou sorrindo: "Ah, foi você que tirou A! Parabéns! Por que você  não falou nada quando falei que tinha sido o único A da turma?". Fiquei roxo de vergonha, tentei dar uma explicação furada que unia horóscopo com a atual situação política da Turquia, tudo isso em francês desconexo, mas a professora percebeu o meu constrangimento e voltou pra aula.

A aula, em si, consiste em fazer exercícios de conscientização (ou seja, saber, de fato, onde você está colocando a língua na hora de falar e descobrir porque não está saindo esse ou aquele som), tentar corrigir e fazer exercícios de leitura. Parece banal, mas é de uma ajuda inestimável! Estamos fazendo contraste de sons a cada aula: na primeira foi entre os sons /i/ (como em finir), /u/ (como o ou em tout) e /y/ (como o u em plu). Passamos para os diferentes tipos de "o", os diferentes tipos de "e" e por aí vai. Estou adorando e, além de corrigir palavras que eu pronunciava de forma menos distinta, ainda estou aprendendo o alfabeto fonético internacional, que é uma mão na roda na hora de fazer os exercícios (e descobrir como se lê essa ou aquela palavra em dicionários que possuem transcrição fonética).

Bom, é isso. Estou curtindo muito as duas aulas, então esse trimestre tem tudo pra ser mais leve (embora não menos trabalhoso) do que o anterior. Continuo com o objetivo de melhorar o francês, mais do que obter essa ou aquela nota, e se eu chegar ao fim da sessão melhor do que comecei, já terá valido muito a pena!

À bientôt!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

É oficial: eu preciso de álcool

Estou quase terminando o próximo post sobre as minhas aulas na Universidade de Montreal, mas essa eu tinha que vir aqui contar HOJE, no calor do momento: eu, preocupado como sempre em tentar melhorar meu francês, cheguei pra minha professora de fonética no intervalo da aula (um momento sempre mais informal) e disse:

—O que eu posso fazer pra diminuir meu sotaque? Quando escuto os francófonos falando, eu sei que não soo como eles. Mesmo quando termino uma frase sem tropeçar nas palavras, mesmo engolindo as mesmas sílabas e letras que eles engolem, algo não está saindo direito. O que eu devo fazer?

A professora parou um instante, olhou pra mim, franziu a testa e fixou os olhos nos meus. Deu uns três segundos e ela pousou a mão no meu ombro:

—Doug — disse ela por fim — Acho que o que você precisa é começar a beber.

Não sei qual a cara que fiz, mas ela não perdeu tempo:

—Começa com duas caipirinhas que você vai ver.

Gente, tem como não gostar dessa professora? Acho que caso com ela até o meio do ano!

À bientôt!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte V (Problemas no Paraíso (2))

Bom, 2016 já chegou, se instalou, mas no meu relato das aulas da Universidade de Montreal, ainda estou em 2015! Então vamos lá contar o resto e dizer qual foi o resultado final.

No último post sobre o assunto, falei da aula de francês oral, que foi proveitosa, apesar de não ser algo que vá ficar na minha memória para sempre. Aproveitei a oportunidade para falar, conversar, explorar o conteúdo que a professora passava, mas não houve momento algum em que eu me sentisse à vontade pra valer na aula. Uma grande parte disso é culpa da minha ansiedade, então há que se relevar. Pois bem, se a de francês oral foi assim, a de francês escrito corre o risco de ficar guardada na memória por ter sido a primeira aula verdadeiramente ruim que tive em terras canadenses.




Eu havia contado em post anterior que, já na primeira aula, a professora passou textos de Voltaire e La Fontaine pra gente analisar. Ali, pego de surpresa sem nem ter tido chance de assentar o derrière na cadeira direito, eu achei que o problema era eu: eu é que estava chegando com o bonde andando (o rapaz vai parar no nível 6 e quer moleza?), eu é que tinha inadvertidamente feito magia negra e ido muito melhor no teste de nivelamento do que meu domínio do idioma, de fato, me permitiria, eu é que iria ter que correr atrás do prejuízo. Pensei seriamente, durante duas semanas, em desistir da aula, trancar e esperar eu evoluir um pouco mais no francês oral, porque me dava cólicas pensar em ser chamado, na frente de todo mundo, para analisar textos numa língua estrangeira. Mas resolvi encarar porque já estava molhado e a chuva não tinha cara de que ia parar.

Pois bem. Ainda bem que fui adiante, porque as aulas foram meio que uma piada. Eu até agora não entendi a razão de a professora brincar de análise de texto com a gente na primeira aula, porque não usamos aquilo praticamente pra mais nada. Há uma vaga ligação entre o que ela mostrou sobre a análise e o que vimos nas outras aulas (que tiveram mais a ver com textos persuasivos e resenhas), mas tenho a ligeira impressão que as duas ou três primeiras aulas foram especialmente elaboradas pra assustar os alunos mesmo. Aliás, lembro direitinho de ela dizer, ao final do primeiro dia, que quem quisesse abandonar a aula tinha até o dia tal, então, ainda estava em tempo. Convenhamos: isso, no mínimo, não é encorajador, certo?

O método de aula dela se resumia a passar algumas orientações de livros e sites, copiando palavra por palavra no quadro, e, às vezes, atacar pontos gramaticais usando exatamente os mesmos exemplos da gramática que ela levava para a sala de aula. Ela repetia, de forma incansável, que precisávamos aprender a ler para aprender a escrever, mas havia pouquíssimos conselhos práticos sobre como fazer isso. E não é que a professora não soubesse o conteúdo: ela, claramente, já estava bastante habituada com os assuntos que levava (e talvez esse tenha sido um dos problemas: ela já estava no piloto automático) e tinha postura de quem entende do assunto. Ainda assim, raramente passava qualquer coisa para fazermos em casa (ou mesmo na sala) o que mostra muito sobre quão proveitoso foi o curso: uma aula de francês escrito no qual você praticamente não escreve? De repente, me lembrei de várias histórias de francisation que me contaram e pensei que, pelo menos, quando as aulas na francisation são ruins, estão te pagando pra você não aprender ou aprender mais ou menos. No caso da Universidade de Montreal, a gente está pagando, né?




Enfim, eu nunca recebi um dos (raros) deveres de casa de volta. Não sei se ela deu pro cachorro comer, se usou pra desenhar coraçõezinhos enquanto falava ao telefone, se usou como porta-copos ou o que for. O fato é que eu nunca vi os erros ou acertos que cometi nessas atividades. Quanto às provas, fizemos três. Fui receber a nota da primeira só um mês e meio depois de tê-la feito, depois, inclusive, de já ter feito a segunda prova. Ou seja, eu não sabia como estava indo no curso até depois da metade dele. Se eu estivesse dependendo de boas notas no histórico por algum motivo (para bolsa ou para ser aceito num curso de pós-graduação, por exemplo), eu teria ficado sem saber como estava me saindo até depois do prazo dado para abandono. E aí seria adeus bolsa ou carreira acadêmica.

Fora isso, boa parte do que ela falava era expressado de forma incrivelmente confusa. De novo, de início, achei que era eu. O burrinho aqui ainda não entende francês bem o suficiente, precisa treinar, blá, blá, blá. Mas aí eu me dei conta de duas coisas: primeiro, eu entendia, sim, praticamente todas as palavras que ela falava. O problema é que elas não faziam lá muito sentido e, não raras vezes, entravam em contradição com outras palavras que a própria professora tinha dito em aulas anteriores. Segundo, não era incomum que os outros alunos pedissem para ela repetir alguma coisa várias vezes, principalmente quando se tratavam de instruções para os deveres e provas. Aliás, nunca vou esquecer o dia em que chegamos para uma das provas, ela disse que teríamos que fazer uma synthèse e um aluno levantou a mão e perguntou o que era uma synthèse. Uma hora o texto que tínhamos de escrever deveria ter 500 palavras, na aula seguinte, deveria ter 800. Questionada, a professora falava que o mínimo era 500, mas que ela não aceitaria mais de 600. E o texto tinha que ter introdução, dois parágrafos de desenvolvimento e conclusão, e o terceiro parágrafo de desenvolvimento tinha que apresentar um contra-argumento e refutá-lo. Mas, senhor! Não eram só dois parágrafos no desenvolvimento? Não, tem que ter três. Mas tudo tem que ter só 600 palavras no máximo? O máximo é de 600 palavras, mas ela iria corrigir textos que tivessem até 700 palavras. Tudo que estivesse além disso seria descartado e afetaria a nota.



Diante desse quadro de Salvador Dali no País das Maravilhas de Mordor, resolvi que não valia a pena discutir. E nem me estressar. Quando a louca pular e começar a dançar, pula e dança junto até a música acabar e você poder sair sem que ela note. Então fiz os (poucos) deveres e todas as provas, e só falei em sala de aula quando expressamente requisitado. A prova final foi, na verdade, um trabalho para o qual tivemos que fazer uma pesquisa sobre um tema, reunir artigos que girassem em torno desse tema e produzir um texto que demonstrasse um ponto de vista específico. Ah, não, espera! Os artigos tinham que mostrar visões diferentes e o seu texto deveria mostrar as diferentes opiniões sobre o tema. Sabe quando você senta para escrever algo e não sai nada? Pois é, nunca tive esse problema, mas eu nunca demorei tanto pra escrever algo pra alguém como na aula dessa mulher, simplesmente porque eu me perguntava, a cada instante, se o que eu estava fazendo seguia remotamente alguma das instruções contraditórias que ela havia passado.

No fim, eu não sei o que funcionou ou não. Terminei a aula com nota A-, o que é muito mais do que eu estava esperando. Eu entregava cada prova e trabalho pensando: "não faço ideia do que essa professora vai pensar disso", e estava sempre preparado para tomar na cara. Então, foi surpreendente receber essa nota e ainda mais surpreendente ouvir dela que eu era, com certeza, o melhor aluno da classe. Se fosse outra professora, talvez eu tivesse ficado feliz e me sentido realizado. Mas, com essa, eu só agradeci e pensei: "será que posso acreditar que você leu de fato algum dos textos que escrevi?".

Enfim, fico feliz de ter ido adiante e deixado essa disciplina (e, principalmente, essa professora) para trás. São 3 créditos a menos para eu obter o certificado, e é só isso que eu posso salvar da aula. A nota é ótima para o meu currículo acadêmico e, aliada à nota da aula de francês oral (que foi um A), me deixa numa boa situação já no primeiro trimestre do programa. Vamos ver como será o resto. Só tenho certeza de uma coisa: se eu me inscrever para uma disciplina e essa professora estiver escalada, eu tranco antes da primeira aula.

À bientôt!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte IV

E eis que meu primeiro trimestre cursando o Certificado de Francês da Universidade de Montreal vai chegando ao fim... e que longo trimestre curto foi! Ao mesmo tempo que as aulas se sucederam com uma rapidez assustadora pra mim, tinha horas que parecia que não ia acabar nunca, principalmente no que diz respeito à aula de francês escrito, tudo isso patrocinado pela minha ansiedade, claro. Afff!


Mas vamos por partes: a minha aula de francês oral já acabou. Há uma semana, para ser preciso. Como ela tem uma carga horária semanal maior, começou um pouco depois e terminou um tanto antes da de francês escrito, que só acaba daqui a três semanas. Posso dizer que fiquei bem satisfeito com a aula: como a professora deixou claro lá no início, o objetivo era falar. E isso nós fizemos! Todas as segundas-feiras, tínhamos que ler um artigo tirado da imprensa e apresentá-lo para um grupinho de alunos da turma. Além disso, a professora sempre trazia pontos gramaticais que costumam criar problemas para quem está aprendendo francês (passado do subjuntivo, condicional, etc) e dava exercícios (orais e escritos) pra gente. O uso dos pronomes (le, la, y, en...) teve um lugar cativo no coração de todos (só que não), já que a maioria tenta evitar usá-los. Também tivemos a oportunidade de assistir alguns curtas e animações em francês do Quebec, com direito a lista de expressões, diferenças entre palavras do francês daqui e de la France, entre várias outras atividades.

A turma não era exatamente empolgante. Diferentemente do que aconteceu na McGill, não houve em nenhum momento uma sensação de união, por assim dizer. Por um lado, talvez essa união esteja mais em como eu percebia as pessoas e me relacionava com elas lá na McGill do que na turma em si. De qualquer forma, eu chegava na turma da McGill e me sentia em casa; na turma da UdeM, isso não acontecia. Primeiro, porque tínhamos aulas só duas vezes por semana. Ver as pessoas todos os dias ajuda a criar intimidade ou companheirismo mais rápido, na minha opinião; então, a gente já saiu perdendo nesse quesito. Segundo, a União Europeia da sala (mais especificamente, as alemãs, a finlandesa e a austríaca) formaram um núcleo um tanto antipático. Se isolaram num lado da sala e tratavam os outros alunos com uma cordialidade fria que fez com que todo o restante da turma entendesse que elas estavam muito bem sem nós, obrigado. As únicas interações delas com o resto dos mortais era quando éramos separados em grupo para as atividades. Além disso, elas tinham o hábito extremamente desagradável de rir abertamente cada vez que alguém cometia um erro. O alvo preferido delas era um iraniano que realmente tinha imensa dificuldade pra se expressar. Bullying dos grandes, mas ele só olhava pra elas com desprezo e voltava a tentar acertar a frase. Triste da parte delas, que têm um nível alto de habilidade com o idioma. Se eu fosse religioso, faria uma prece por elas; como só o sou às terças e quintas à noite, espero que um cachorro faça xixi nos pés delas.



Outro aspecto que dificultou o entrosamento da turma (e talvez tenha se originado desse primeiro ponto aí em cima) é que os outros alunos meio que se retraíram e estabeleceram uma parceria/cumplicidade com quem estava imediatamente próximo — e só. Ninguém pareceu muito à vontade para ir sentar perto de outras pessoas que não aquelas que estavam na sua vizinhança, e nem na hora do intervalo era comum ver as pessoas interagindo. Cada um ficava com seu celular e pronto. Curiosamente, fora as alemãs e a austríaca, ninguém ficou amiguinho de alunos que tinham o mesmo idioma nativo. Talvez, de forma consciente ou não, todos tenham achado melhor evitar a possibilidade de deixar de falar francês pra falar o idioma da terra natal. O outro brasileiro da turma fugiu de mim logo na terceira aula. Nem precisava, porque eu não teria problema algum em falar só francês com ele. Mas ouvi ele dizendo pra uma aluna certo dia que ele preferia não falar com outros brasileiros porque ele achava esquisito falar outra língua que não o português com um conterrâneo. Então tá. Aparentemente, ele não foi o único a pensar assim: os iranianos só se cumprimentavam, as sul-americanas nem isso.




Acabou que fiz amizade (ou "coleguismo de sala de aula") com um espanhol, que até tentou entrar no grupinho da União Europeia (geograficamente, ele teria direito), mas não conseguiu. Talvez porque seria o único homem no grupo, talvez porque o francês dele ainda não estivesse no nível exigido para se tornar membro, ou talvez ainda porque a Espanha é economicamente mais fraca que a Alemanha, a Áustria e a Finlândia. Vai saber. O fato é que não deram muita bola pra ele (mas evitavam rir abertamente dos erros dele. Solidariedade seletiva), e ele achou que talvez tivesse mais sorte comigo. Acho que foi bom para nós dois, no fim. Como tínhamos um nível semelhante, nos sentíamos perfeitamente à vontade um com o outro para conversar e fazer as atividades durante a aula. E, como fazíamos metade do trajeto de metrô juntos, tínhamos mais oportunidade para praticar. No fim, mesmo que não tenhamos forjado nenhuma amizade verdadeira pra atravessar gerações, foi bom poder contar com alguém durante as aulas e ter um parceiro para os trabalhos e provas (além de poder dar umas risadas juntos de bobagens aleatórias) foi legal.

Ah, as provas! O que faríamos sem elas? Bom, muita coisa, eu poderia fazer uma lista, mas não importa: elas existem e a gente tem que se submeter, no fim das contas. Tivemos três travaux pratiques (que eles chamam de TP), um intra (uma prova de meio do trimestre) e o examen final. Apesar da diferença nos nomes e também no peso das notas, foram todos bastante similares: tivemos que discutir o assunto de um artigo ou vídeo que tínhamos assistido (em alguns casos, de livre escolha; em outros, indicados pela professora) antes da aula ou no próprio momento da prova, às vezes gravando a conversa em gravadores digitais, às vezes na frente da professora. Minha ansiedade não ajudava em nada quando tinha que apresentar para ou conversar diretamente com a professora, basicamente porque fico sempre constrangido na hora de falar com nativos; em compensação, ficava bem mais tranquilo quando eu só tinha que conversar com o meu colega espanhol.

As notas me surpreenderam bastante! Nivelando pela fluência que a União Europeia da turma demonstrava, eu claramente estava abaixo e, por isso mesmo, não esperava muita coisa. Não estava esperando notas baixíssimas, mas achava que ficaria na média. Quando a professora entregava as notas, porém, eu sempre me assustava, porque eram notas altas. Acabou que, embora eu ainda não tenha o resultado final, é bem possível que eu fique com A ou A- (com uma possibilidade de cair pra B+, se o meu desempenho na última prova tiver sido desastroso). Agora, uma coisa é a nota, e outra é como eu me sinto em relação à minha habilidade com o idioma. Eu acho que houve progresso, sim, embora a minha ansiedade dificulte fazer uma avaliação mais precisa. Mas eu continuo não achando que sou avançado coisa nenhuma. Eu consigo me expressar em boa parte das situações, a professora falou que meu sotaque não é um problema, mas eu sinto que me falta vocabulário, eu ainda erro tempos verbais (na hora de fazer o discurso indireto então...), e quase nunca tenho certeza de qual preposição usar com esse ou aquele verbo. Então, por mais que, para fins de histórico escolar seja ótimo ficar com um A ou A-, eu com certeza me daria uma nota mais baixa. Pra mim, aluno avançado é aquele que já domina as estruturas do idioma e está polindo o discurso, ou seja, incorporando vocabulário mais específico e/ou de linguagem mais culta. Mas deve ser por isso que não tenho escola de idiomas (e por isso que tanta gente por aí tem "avançado" no currículo).

No fim, embora as aulas de francês oral tenham sido proveitosas, vou sentir mais falta da oportunidade de praticar francês duas vezes por semana do que da turma ou das atividades em si. Mas não me arrependo de forma alguma, e fiquei contente por ter tido a chance de fazê-la. Agora é esperar o trimestre de inverno e torcer para que a fluência um dia chegue!

À bentôt!

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Portes Ouvertes (UdeM)

Como mencionei no post passado, além do evento da McGill eu fui também ao da Université de Montréal. Ele aconteceu no dia 8 de novembro, também das 10 hs às 16 hs, e a maior parte das "atrações" ficou concentrada justamente no prédio da Faculté de l'Éducation Permanente em que tenho minhas aulas de francês, então não tive como me perder.




Mas essa segurança fez com que eu me atrasasse na hora de sair de casa e perdesse a primeira palestra, que era sobre o processo de admissão da universidade. Nada totalmente trágico,  já que a palestra seria repetida mais tarde, mas eu queria estar de posse das informações mais básicas para depois poder fazer perguntas específicas nos lugares adequados. Tudo bem,  né, fazer o quê?

A UdeM usou três andares do prédio para o evento. Além das palestras, havia diversos quiosques (ou banquinhas) de diversos cursos e serviços da universidade. O térreo ficou mais com quiosques de informações sobre serviços (tipos de admissão, bolsa, benefícios de ser aluno da UdeM, etc), enquanto os andares superiores ficaram com os cursos de graduação, alguns de pós-graduação e alguns de serviços mais específicos. Reservaram uma sala do último andar para que os candidatos expusessem suas dúvidas a um funcionário do serviço de admissão e recebessem reposta imediata. Se o caso fosse muito complexo, o candidato ainda poderia ser encaminhado para um encontro de 10 a 15 minutos com um conselheiro de admissão, que analisaria o caso e indicaria o melhor caminho. Tudo bem organizado e bem distribuído, apesar de que, em alguns momentos certos lugares ficaram bem muvucados e parecia mais pré-ensaio da Unidos do Cotovelo.

A primeira palestra da qual participei foi sobre financiamento de estudos. Há bolsas de tudo quanto é tipo, parciais e integrais, dadas pela universidade ou pelo governo, baseadas em renda ou em mérito, blábláblá. É bastante coisa e eu mesmo só conhecia algumas opções. Aliás, continuo só conhecendo algumas porque a palestra, obviamente, deu apenas uma visão geral sobre as bolsas e nos passou os sites e links para ler mais a respeito (coisa que ainda não parei pra fazer). Mas de cara, é bem legal essa possibilidade de poder contar com tanto incentivo pra estudar.

Em seguida, assisti a palestra sobre a admissão. Como no caso da McGill, as informações eram destinadas mais aos candidatos quebequenses recém-saídos dos CÉGEPs da vida e aos alunos estrangeiros, então não apresentou grandes novidades em relação ao que eu já sabia. Aliás, a Universidade de Montreal tem um site em português com informações sobre admissão, caso você aí que está lendo essas linhas tenha interesse. É só clicar aqui.



A terceira e última palestra do dia foi sobre o que fazer após um bacharelado em ciências sociais. Eu resolvi assistir porque pensei que seria uma espécie de palestra de auto-ajuda pra quem não é chegado em engenharia, TI, química, enfermagem e outros cursos que têm emprego quase certo. Ou seja, pensei que seria uma palestra tipo "olha, não pense que você vai morrer de fome se estudar Ciência Política, veja o que dá pra fazer!", mas não foi bem isso. Falaram sobre mestrado e sobre como um bacharelado na área pode ser um passo inicial até para uma mudança de área. Assim, o objetivo deles não era o que eu imaginava, claro, mas ainda assim não desceu muito bem a ideia de fazer um bacharelado em ciências sociais "só" para fazer um mestrado e/ou mudar de área depois.

Entre uma palestra e outra, fiz o que eu queria mesmo fazer: passeei pelos vários estandes de cursos da universidade. Foi algo de que senti falta na McGill e acho que eles fariam muito bem em incorporar usando o modelo da UdeM. Cada quiosque tinha professores e alunos dispostos a responder suas dúvidas e explicar o funcionamento do curso, além de material impresso todo pensado pra te convencer. Passei nos estandes de História, de Línguas Modernas, de Literatura, Ciência Política, Estudos Orientais, Estudos Alemães e o do curso que mais me chamou atenção, o de Estudos Internacionais. Eu queria ter batido mais papo com os alunos, mas imagina se eu fico com vergonha de falar francês no meio dos nativos, né? Ainda mais que era bem comum eu chegar pra pedir informações e chegarem mais dois ou três candidatos pra ficar escutando. Então, só bati um papo mais longo e mais interessante mesmo com um aluno de História e outro que estava promovendo o novíssimo bacharelado de Línguas Modernas.




Depois de tudo isso, ainda fui tirar minhas dúvidas na salinha de admissão que mencionei antes. Era um tanto mais fast-food do que tinha parecido a princípio: você entrava numa fila e, ao final dela, haviam improvisado guichês de atendimento. Então foi quase como ir ao banco ou pedir um lanche no McDonald's. A menina que me atendeu respondeu todas as minhas dúvidas, mas ela tinha uma certa pressa em me cortar antes que eu concluísse a pergunta, o que fez com que eu tivesse que repetir porque nem sempre ela acertava o que eu queria saber de fato. Enfim, primeiro eu quis saber se poderia ser admitido mesmo já estando fazendo o certificado de francês e ela disse que sim, mas que eu talvez tivesse que priorizar um em detrimento do outro caso fosse aceito. Perguntei também se algo no regulamento da universidade me obrigaria a fazer menos de 90 créditos para me formar (e expliquei a história do que acontece na McGill para quem quer fazer um segundo bacharelado) e ela informou que não, que terei que cumprir o total de créditos exigidos pelo curso e para a obtenção de um bacharelado. Também quis saber se eles olhariam o meu histórico do ensino médio e o da minha primeira faculdade ou se seria só a da faculdade, e ela disse que só a da faculdade (com cálculo de GPA), a não ser que alguma situação especial faça com que um exame das notas do ensino médio seja necessário. Por fim, perguntei sobre o teste de francês e quando eu poderia começar a esperar uma decisão e ela disse que é difícil apontar uma data, mas que antes de março era pouco provável. Quanto ao teste, ela pediu pra eu ir falar com um cara num outro estande, e ele me informou que eu teria até julho do ano que vem pra apresentar o resultado do teste.

Saí de lá bem satisfeito (e com dor de cabeça) com o evento. De forma geral, eles realmente te dão toda a informação de base e, nos casos mais específicos, indicam onde você pode conseguir mais detalhes. Eu, agora, me encontro naquele estágio em que preciso analisar várias coisas, como por exemplo: 1) volto mesmo pros bancos da universidade e postergo o início da vida profissional aqui (caso seja aceito, claro)?; 2) fazer uma dívida com o governo em se tratando de cursos que eu não sei onde vão dar é uma boa?; 3) faço o pedido de admissão pra mais de uma universidade, pra cursos diferentes (=atirando pra todo lado) e aceito o que vier ou será que dá pra tentar não só restringir os cursos, mas também as universidades?; 4) Faço o teste de francês só depois de receber a resposta das universidades (caso seja aceito em alguma francófono, claro)?

E uma última que não tem como deixar de existir: tenho as caras de fazer uma nova faculdade en français, se tiver que fazer?

À bientôt!

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Open House (McGill)

Voltar ou não para a universidade é uma questão para a qual ainda não tenho resposta. Às vezes, acho que é meio sem noção querer fazer outra faculdade sem ter muita ideia do que quero realmente pra vida; outras vezes, penso que sem noção é ficar achando que serei atingido por um raio divino que vai me indicar o caminho "certo" e que, portanto, é melhor tentar do que ficar parado ou trabalhar com qualquer coisa. Essas duas maneiras de ver a questão se alternam quase o tempo todo, e elas se revezam no pódio de campeão do dia da minha mente dependendo de coisas tão banais quanto meu humor no dia ou um vídeo que alguém me envia.

Mas, enfim, ainda sou da opinião de que, se você não precisa tomar uma decisão às pressas, é bom se informar. E foi com essa intenção que participei, nas últimas semanas, de dois eventos em duas universidades aqui de Montreal cuja intenção é convencer os futuros alunos a escolher a universidade e mesmo o curso para seguir com os estudos. Esses eventos são bem comuns por aqui. Vi vários anúncios de universidades, colleges, CÉGEPs e outras escolas anunciando o seu próprio evento de "portas abertas", um dia em que você pode conhecer as instalações, assistir palestras, falar com alunos e professores, e tirar dúvidas sobre que tenha sobre admissão.

Nota: a ideia era falar sobre os dois eventos num post só, mas, pra variar, escrevi mais que a Wikipédia. Então, vou falar sobre o evento da McGill aqui e deixo para falar sobre o da Universidade de Montreal no próximo.

Open House - McGill University

O primeiro evento ao qual fui foi o da McGill. Ele aconteceu no dia 25 de outubro, das 10 às 16. Cheguei um pouquinho depois das 10, me identifiquei na área de recepção e ganhei sacolinha, mapa do campus, lista das palestras e outras indicações.

De lá, fui logo assistir a primeira palestra que me interessava. Era sobre admissão, mas acabou não me sendo de grande valia. Como era de se esperar, toda a informação foi voltada para estudantes vindos do sistema de educação canadense e dos Estados Unidos, com um pouco para alunos internacionais. Na verdade, havia uma palestra toda dedicada aos alunos internacionais, mas eu sou residente permanente, já tenho faculdade, então... fico meio no limbo nessa hora. E, se ainda não deu pra notar pelas postagens, eu sou tímido, então imagina se eu ia levantar a mão no fim pra fazer perguntas tipo: "Oi, sou um tanto velho, não sei exatamente qual curso fazer e nem quais partes do processo de admissão se encaixam pra mim, então será que você poderia me ajudar?". Preferi deixar pra encurralar alguém depois.

Campus da McGill


De lá, fui a um painel bem legal que era uma espécie de mesa redonda. Havia um estudante de pós-graduação (que fez a graduação também na McGill), dois estudantes atualmente na graduação, uma que já é formada pela McGill e está atuando no mercado de trabalho, e uma mãe de aluno. O painel começou com a mediadora fazendo perguntas do tipo "o que mais você gosta/gostou na McGill?", "qual foi a maior dificuldade durante os estudos?" e por aí vai, e era interessante ver as diferentes histórias (mas claro, sempre com o lado positivo da vida na McGill). Em seguida, as pessoas no auditório puderam fazer perguntas, e uma em especial foi interessante: uma mãe de candidato, americana, perguntou sobre a questão de consumo de álcool na universidade. Como nos EUA a idade mínima legal para beber é 21 anos, ela tinha receio do impacto que o álcool mais cedo (no Quebec, é liberado a partir dos 18 anos) poderia ter na vida pessoal e acadêmica do filho. Quem respondeu foi uma das alunas da graduação, que é americana, e ela disse acredita que o consumo de álcool aqui seja bem menos badalada que nos EUA. Lá, como a idade legal é 21, todo adolescente fica louco de vontade de "infringir a lei", beber escondido pra se sentir "livre" e "desafiando o sistema". Aqui, como a cultura é diferente, e como a idade legal é mais baixa, beber acaba não sendo um grande tcham na maioria dos casos. Enquanto nos EUA os universitários se acham o máximo tomando porres com 20 anos, consumir álcool aqui perde o glamour (se é que tem) mais cedo. Obviamente, o uso ou abuso vai de cada um, e todo mundo sabe que os adolescentes começam a beber bem antes da idade legal nos dois países.

Em seguida, participei de uma palestra de admissão da faculdade de Direito. Em um passado distante, eu pensei seriamente em estudar Direito. Até cheguei a fazer vestibular pra UPFR no Brasil. Mas foi uma coisa de momento que passou logo. Ainda assim, já tinha ouvido falar que o curso de Direito da McGill é puxado, e que aqui você precisa ter graduação pra ir estudar Direito. Enfim, fui lá pra descobrir como era a coisa. A palestrante, embora toda vestida de advogada bem-sucedida, aparentemente não tem muito o hábito de falar em público ou, no mínimo, não conhecia exatamente o processo de admissão. Foi uma palestra um tanto confusa, e ficou ainda pior porque ela falava ora em francês, ora em inglês. Enfim, o que tirei de lá é que (1) sim, precisa-se realmente ter uma graduação para só então ir estudar Direito; (2) a McGill é uma das poucas universidades (se não a única pras bandas de cá) que ensina o Direito Civil (utilizado no Quebec) e a Common Law (usada no restante do Canadá); (3) por isso mesmo, conhecimento das duas línguas é essencial, mesmo que o candidato não seja totalmente fluente, já que há disciplinas em inglês e disciplinas em francês; (4) o GPA (espécie de média das notas da faculdade) mínimo para ser considerado pelo comitê de admissão é 3.8. De uma escala de 4.0!!! Gente, isso significa que você precisa ter uma graduação praticamente impecável pra ser CONSIDERADO!!! Além disso, você ainda vai ser comparado a todos os outros crânios que tem GPA de 3.8 ou mais (acredite, eles existem!) e pode perder o lugar porque alguém fez um trabalho voluntário em algo relacionado a Direitos Humanos, por exemplo. Deve ser osso!! Eu já tinha ouvido dizer que se você tem GPA abaixo de 3.5 é difícil entrar em qualquer curso da McGill, mas essa do Direito me deu toda uma nova dimensão da coisa.


Campus da McGill


A última palestra pra mim foi da Faculdade de Artes e Ciências. Estava bem animado porque eu (in)felizmente eu me interesso por cursos que têm uma grande chance de me levar a uma vida de pobreza: História, Literatura, Cultura e Civilização e por aí vai. Então sentei mais próximo ao palco e fui até criando coragem para fazer perguntas. Mas tomei um balde de água fria: a palestra durou 15 minutos, e a dona que nos agraciou com sua voz usou esse tempo para, basicamente, repetir informações do site. Ok, tá bom, eu entendo que muita coisa pode ser encontrada no site, mas se você vai dar uma palestra pra apresentar a sua faculdade, custa fazer um trabalhinho mais elaborado? As outras palestras duraram entre 40 e 60 minutos, mais o tempo pra perguntas. Por que a da Faculdade de Artes, que tem um zilhão de cursos, tinha que durar 15? Todo mundo ficou surpreso quando a palestrante perguntou se alguém tinha dúvidas e, diante do silêncio, encerrou a sessão. Só que, óbvio, TODO MUNDO tinha dúvidas, então formaram uma fila pra ir perguntar sobre tudo que ela não havia dito.

Campus da McGill


Saí frustrado, mas ainda tinha uma missão: encurralar alguém pra bombardear com as minhas questões. E achei! Simpática, a mocinha ouviu toda a minha história e, em resumo, me disse o seguinte:

1) O processo de admissão é o mesmo que todo estudante canadense/quebequense segue. No meu caso, vão me avaliar pelo meu GPA da UnB em vez do segundo grau, mas, fora isso, o trâmite é o mesmo;

2) Como já tenho um bacharelado, se eu for admitido eles vão me considerar como Second Degree, ou seja, alguém que vai fazer um segundo bacharelado. Nesse caso, eu estarei limitado a 60 créditos (contra os 90-120 que um estudante que vai fazer o primeiro bacharelado tem que fazer). Isso é bom por um lado, pois significa que eu poderia ter um novo diploma universitário em dois anos. Porém, o lado ruim é que limita bastante o que eu poderia explorar na faculdade (sei que isso soa bem nerd, mas, se você acompanha o blogue há algum tempo, já deve ter se acostumado);


3) Não terei necessariamente que ficar só com as vagas que sobrarem. Como expliquei à moça simpática, a parte sobre Second Degree no site da McGill está junto com a parte de Transfer Students, o que faz parecer que ambos seguem as mesmas regras, e lá diz que estudantes pedindo transferência de uma outra faculdade só são aceitos se sobrarem vagas. Mas, segundo a moça simpática me explicou, se eu tiver um GPA competitivo, posso receber uma oferta de admissão logo no início da temporada, que começa em dezembro. Ainda assim, ela lembrou que o processo é bastante competitivo, e que eu não deveria esperar uma resposta antes de março ou abril do ano que vem.

Ela não soube me confirmar sobre a história do GPA mínimo de 3.5 pra ser considerado. Só disse que isso varia de um ano para outro e repetiu que o processo de admissão da McGill é bem competitivo. Senti que eu precisaria ser um Cavaleiro Jedi pra conseguir entrar, mesmo tendo GPA maior que o suposto mínimo. Mas, enfim, por enquanto, é só uma ideia, não é mesmo? 

*Suspira*

À bientôt!


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O Curso de Inglês da McGill - Epílogo

Não bastasse a McGill ter sido responsável por alguns dos meus melhores dias até agora aqui em Montreal, olha o que eles ainda me deram no final:




Chegou na hora certa pra dar me dar novo ânimo em relação ao francês. Quem sabe chego lá um dia também na língua de Molière, né?

À bientôt!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte III


Depois do susto da primeira aula de francês escrito, sentei e coloquei a cabeça no lugar (ou tentei, pelo menos). Cheguei à conclusão que, provavelmente, a maioria dos alunos que mandou muito bem na hora de falar talvez já more há um tempo por aqui. Afinal, o curso é aberto para qualquer um que não seja francófono nativo. Então, é bem possível que muita gente já esteja vivendo aqui há um tempo, consiga se expressar muito bem falando, mas tenha problemas para escrever. Isso é algo bem normal, em qualquer idioma. Quando parei pra pensar, me lembrei que vários brasileiros que conheço obviamente se expressam muito bem em português na hora de bater um papo; mas coloque-os para escrever e você vê o slogan "Brasil: Pátria Inducadora" em ação:


Claro que esse pensamento não resolvia o meu problema, mas me dava, ao menos, um pouco de calma. Decidi não tomar nenhuma decisão quanto à minha permanência na aula de francês escrito antes de ir pra aula de francês oral. Depois que eu sentisse o drama da coisa e, principalmente, se eu sentisse que a coisa seria tão ou mais puxada que a aula escrita, eu resolveria o que fazer.

Ainda assim, tinha a tal da análise pra fazer, né? Em algum momento do dia seguinte à aula de francês escrito, me dei conta que eu não sabia se havia um formato específico a ser seguido: precisava imprimir? Manda por e-mail? Precisa de cabeçalho? Quais informações preciso colocar, além do dever em si? Pode parecer besteira, mas aprendi na McGill uma série de coisas desse tipo que podem até fazer você perder nota, dependendo do professor. Então, como a professora não disse nada, resolvi escrever um e-mail pra ela.

Tentei ser o mais formal que pude, já que ela não foi um poço de simpatia durante a aula. Perguntei se havia um formato específico para os trabalhos da aula, onde podia obter esse tipo de informação, se precisava imprimir o trabalho ou mandar por e-mail. Ainda acrescentei que talvez as perguntas fossem muito básicas, mas era o meu primeiro trimestre, então, eu estava um tanto perdido.

Ela me respondeu no fim de semana. Ou talvez eu devesse dizer que ela tentou responder. Na verdade, ela só disse o que eu já tinha ouvido na sala: tínhamos que fazer a análise do texto "seguindo o que foi passado na aula" (embora ela não tenha dado nenhum roteiro explícito para isso, o que me fez pensar que só quem já fez análise de texto teria uma ideia do que ela provavelmente queria) e que tudo seria corrigido na aula. Nada sobre formato para os trabalhos gerais da aula, sobre se há um lugar para eu pegar essas informações, se eu devia usar o sistema para enviar o trabalho (afinal, ela falou em correção em sala, mas, até aí, ela poderia querer ver o que a gente tinha feito. Isso sem falar que ela abriu um link no sistema para envio do trabalho), nada. E aí?

Resolvi defecar pra ela. Já que não respondeu de forma clara e objetiva, eu ia fazer como me desse na telha. Mas isso me mostrou que realmente ela não é do tipo professora Helena. 


Se eu resolvesse ficar, tinha a séria impressão de que seria osso.

Entretanto, como falei, adiei a decisão para depois da aula de francês oral. Tive uma semana entre a aula escrita e a oral, e aproveitei para estudar o máximo que pude e me aconselhar com o meu colega quebeco com quem estou fazendo intercâmbio linguístico. Falei da minha impressão em relação à aula e à professora e que estava com receio da aula de francês oral ser mais ou menos do mesmo nível. E falei que não estava pronto pra expor opiniões e pensamentos lá muito complexos em francês.

—Mas você faz isso toda semana aqui comigo!—respondeu ele.

—Mas com um bilhão de erros, né?—retruquei.

Em suma, ele falou pra eu relaxar. Que talvez a aula de francês escrito não tenha sido uma boa primeira impressão, mas que eu iria ganhando confiança ao longo do trimestre e logo estaria tudo bem. Concordei em relação à parte de "ganhar confiança", mas tinha minhas dúvidas quanto ao "tudo bem".

Enfim, chegou a segunda-feira seguinte e lá fui eu pra aula de francês oral. Mesmo ritual: saí mais cedo de casa, peguei três metrôs, cheguei no prédio da Faculté de L'éducation Permanente e fui consultar o quadro com a listagem e classificação. Eu sabia que era impossível eu estar num nível alto dada a tragédia que foi a minha entrevista, então nem estava tão preocupado, no fim. Como tinha ficado no Avançado 1 no francês escrita, com certeza tinha ficado no Intermediário Qualquer Coisa no francês oral. Procurei meu nome na lista. Achei. Nível de francês oral: Avançado 2.


Que @!#$@*&! é essa???? Quem deixa esses avaliadores da Universidade de Montreal beberem antes de entrevistar os alunos??? Não tem ninguém comandando essa bagaça desse universo, não?? Ou é o Darkseid que tá pilotando essa !@$&*#&@????

Quase, quase, QUASE fui falar com a coordenadora do curso, que estava ali perto orientando os perdidos. Pensei em chegar lá e falar "onde é que você deixou seu juízo, minha senhora?", mas é óbvio que eu tinha primeiro que assistir à aula pra poder falar isso de forma tão... direta.

Achei a sala bem rápido e sentei lá no fundão. Ah, queria nem saber! Não estava nem aí de onde eram os outros alunos, se a sala era grande, pequena, oval, se a cor da parede combinava com a lousa ou se tinha tomadas para eu carregar o celular (mas tinha). Estava pensando é que, como aquecimento, era bem possível que a professora pedisse pra gente recitar de cor nossa passagem favorita de Molière ou Victor Hugo e explicar o contexto histórico da joça toda sem esquecer nenhuma liaison. Ah, inferno!

Quando a professora entrou e deu "bonsoir!", eu já quase levantei a mão e disse "protesto!". Mas aí notei que ela, pelo menos, tinha cumprimentado—coisa que a outra, de francês escrito, não tinha se dignado a fazer. Então esperei. E fiz bem! A professora não só se apresentou, perguntou o nome de cada um, fez um joguinho pra tentar adivinhar de onde todo mundo era e explicou como seriam as aulas, como também perguntou se havia pessoas novas no programa, gente que nunca havia estudado na UdeM. Passou uma lista para os novatos colocarem o nome e, em seguida, começou a aula.

De cara, foi bem mais rápido fazer uma pré-avaliação da turma. Afinal, como é uma aula de francês oral, todo mundo tem que falar, néam? Então eu relaxei um pouco mais, pois vi que tem gente de todos os níveis, mais ou menos como no curso de inglês da McGill, que também era avançado. As europeias da sala (duas alemãs, uma finlandesa e uma austríaca) tem um nível muito, muito bom. Algo que eu realmente classificaria como "avançado". Já eu, um espanhol, um iraniano, uma mexicana e um búlgaro temos um nível que eu diria ser intermediário. O restante (umas cinco ou seis pessoas, incluindo um outro brasileiro) tem um nível mais no limite entre básico e intermediário. Claro que isso tudo é muito subjetivo: a minha escala particular, como ficou óbvio, não bate em nada com a da UdeM, e provavelmente não bate com o do Quadro Comum Europeu, e nem com a sua classificação pessoal, caro(a) leitor(a). Mas é só pra dar uma ideia de que, embora a turma seja "Avançado 2", tem gente em todos os níveis de aprendizado.

A professora—francesa, o que acabou com as minhas esperanças de escutar o sotaque quebeco mais assiduamente neste trimestre—foi um anjo de candura. Deixou todo mundo tranquilo em relação ao acompanhamento das aulas, trabalhos e provas, mas disse que o importante é falar. Falar entre nós, falar com ela (professora), participar em sala. Falou pra evitarmos as línguas maternas (e lançou um olharzinho todo especial pra mim e pro outro brasileiro, e também para as alemãs e a austríaca, embora tenha ignorado os de fala hispânica) e finalizou dizendo que não existe aula que ensine ninguém a falar: ela dá as ferramentas pros alunos utilizarem e, em seguida, é com eles.

Resultado: saí de lá beeeeeeeeem mais tranquilo. Não que tenha me parecido fácil; meu problema maior é falar, então qualquer aula já seria um tanto complicada, principalmente por causa da minha ansiedade. Mas, pelo menos, não me senti tão atrás de todo mundo como aconteceu na aula anterior. Senti que realmente consigo fazer o que preciso fazer, por mais que isso exija de mim. Enfim, senti que talvez tenha ficado no nível certo, por mais que discorde do tal "avançado". E, como a professora disse, agora é comigo.

Com base nisso, resolvi que iria dar a cara a tapa e iria continuar na aula de francês escrito. Se eu tivesse que mostrar meu francês uga-buga, paciência. Fora meu orgulho, o dano seria mínimo, já que não posso ser avaliado pelo meu francês oral na aula de francês escrito, certo? Então, pronto.

Isso tudo aconteceu na primeira semana entre as duas aulas, entre 08 e 14 de setembro. Tô só um pouquinho atrasado hehehe. Mas, como as aulas, em si, são só aulas, não preciso ficar relatando tudo o que acontece, claro. Então no próximo post (ou talvez nos próximos) eu vou fazer um apanhado de como foram as coisas até agora. Sim, porque até prova nas duas aulas eu já fiz.