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segunda-feira, 23 de março de 2015

Conta em banco, Assurance Maladie e frio nazureba!

A segunda já havia sido muito emocionante em termos de obrigações relacionadas à residência permanente e contato com nativos, mas essa parte ainda não havia terminado. Como não consegui ir ao banco no primeiro dia, resolvi que seria a primeira coisa a fazer na terça. Acabou sendo a segunda, porque a primeira foi esperar a neve diminuir.


Conta bancária

Foi a primeira vez que vi neve caindo pra valer. E, vou te contar, fiquei hipnotizado pela bagaça! Passei um bom tempo vendo o vento soprando cada hora de um lado e a neve rodopiando ora pra cá, ora pra lá. Sim, é deslumbre de recém-chegado, eu sei, mas vamos combinar que eu mereço, né? Depois de todo o estresse e de ficar andando de mão dada com crises de pânico iminentes nos últimos três dias, eu merecia um momento Kodak pra relaxar.

Demorou pra neve diminuir, mas, quando ela diminuiu, lá fui eu pra rua. Eu tinha escolhido o Scotia Bank pra abrigar minhas moedas de ouro, e, no dia anterior, tinha tentado ir na agência do metrô McGill. Mas descobri que havia uma perto de onde estou, e foi pra lá que rumei. Quando cheguei, a recepcionista me cumprimentou com um "Bonjour". Então respirei fundo e soltei:

- Bonjour! Je suis un nouvel arrivant et je voudrais parler à quelqu'un sur la possibil--

- Pour ouvrir un compte?

Poxa, dona... eu tô aqui, me esforçando, fazendo exercício de relaxamento do maxilar, tentando levar meu distúrbio de ansiedade do jeito mais leve possível e você não me deixa nem terminar a frase? Mas oui, é isso aí mesmo, vamo lá... Ela foi até a mesinha, pegou um cartão e anotou que eu teria um rendez-vous com um gerente de contas dali a quarenta minutos. Já me disseram que pra tudo tem rendez-vous. Se você vai à farmácia procurando um remédio pra dor de estômago, eles marcam um rendez-vous com o farmacêutico dali a 10 minutos, mas você não escapa. Ela pediu meu passaporte e um comprovante de residência (apresentei o contrato de celular, mas ela pediu outro. Então apresentei a folha impressa quando peguei o NAS, e aí ela aceitou).

Fui matar tempo e voltei no horário marcado. Pontualmente, fui levado até a sala do gerente. Depois das devidas apresentações, expliquei que eu tinha acabado de chegar e que eu já tinha lido que o banco possui um programa para imigrantes recém-chegados e gostaria de saber dos detalhes. Cara... eu nunca recebi tanta atenção em banco algum no Brasil! Tá certo que minha vida bancária nunca foi muito agitada, mas eu já tive que falar com um ou dois gerentes algumas vezes e NUNCA recebi tanta atenção. Verdade seja dita: o gerente que me atendeu foi cordial e profissional, mas não exalava simpatia (só que eu provavelmente também não exalo, então dá empate). A boa notícia é que consegui entender 98% do que o gerente falou, o que é bem importante na hora de lidar com a instituição que vai cuidar do seu ouro.

Ganhei vááááários papéis (que estou lendo aos poucos), vááários cartões de visita do gerente ("caso você tenha amigos imigrantes que estejam chegando"), folhetos e brochuras com informações sobre as operações bancárias, uma pastinha para guardar tudo e o mais importante: um cartão de débito (ativado na hora, no caixa da agência) e o pedido do cartão de crédito já pré-aprovado. E ele chegou três dias depois (a previsão era de 10)! Consequentemente, já estou construindo meu histórico de crédito (pagando conta de celular e comprando pão, mas tá valendo, néam?).


Comprinha

Depois do banco, fiquei tão feliz da vida que resolvi dar o passo seguinte, que é... gastar! Nada como o capitalismo e o consumismo pra fazer a gente relaxar (só que não). O fato é que eu não trouxe o meu computador do Brasil, por uma série de razões: primeiro, ele é bem antigo e já estava bem lento; segundo, por ser bem antigo, dá pra imaginar que ele é bem pesado, principalmente se comparado com os modelos modernosos; terceiro, o espaço era restrito (viajei só com uma mala, além da bagagem de mão), e era melhor aproveitar esse espaço com outras coisas que me serviriam mais permanentemente do que com um computador que não demoraria muito a morrer de vez.

Então, uma das coisas que eu queria fazer logo que chegasse era comprar um laptop novo. Dei uma olhada em lojas no centro de Montreal, mas não achei exatamente o que estava procurando. Me aconselharam ir até o mercado central, que é um aglomerado de várias lojas grandes que fica fora do centrão, um pouco mais para o norte. Peguei o metrô (pro lado errado) e demorei um tanto pra chegar lá. Na verdade, desci na estação de l'Acadie e já tinha me proposto a caminhar até o mercado (embora pudesse muito bem pegar o ônibus).

E andei... e andei... e andei... e consultei o Google Maps pra ver se eu estava indo pro lugar certo... e andei mais... e o negócio não chegava. Acho que durou uns 20, 25 minutos pra eu poder avistar os prédios. Mas andar não foi o problema: o problema foi o vento! O boulevard é reto, com construções baixas, então o vento passa numa boa por todo lado! Eu estava bem agasalhado, mas tinha deixado o rosto e as orelhas expostas porque ah, não é tão longe, e eu não tava sentindo incômodo. Bom, quando passei a mão nas zurebas, descobri que não estava sentindo nada porque elas já estavam dormentes há um bom tempo (e, quando peguei, elas começaram a doer). Eu tinha levado o gorro, mas já estava tão perto do mercado que valia mais apertar o passo do que parar pra tirar o dito cujo da mochila.

Na loja, demorei a me decidir por um laptop, mas finalmente escolhi. Na saída, taquei o gorro pra deixar de ser besta e pensei em pegar o ônibus de volta. Mas, quando você está bem protegido, tudo fica mais fácil, de modo que voltei andando mesmo e curtindo o céu azul e o -8ºC que o termômetro marcava.


Assurance Maladie

A quarta-feira foi gasta com pesquisas sobre as quais vou falar em algum outro post. Na quinta, havia o meu rendez-vous (olha ele aí de novo) na Régie d'assurance maladie. Eu poderia ter tentado ir lá antes, já que, se você não marcou, pode tentar se "encaixar" na hora. Mas quis fazer tudo bonitinho, então deixei pra ir só no dia e hora indicados mesmo.

Mas me atrasei 15 minutos por ainda não saber me situar na cidade e não ter ideia do tempo que se leva de um lugar a outro. Entrei no prédio meio esbaforido e tentei localizar o balcão de recepção (Rá! Pegadinha do Malandro, não tem disso no prédio e você perambula à vontade), daí me lembrei que estava em Montreal e fui pro elevador. Achei a salinha e me identifiquei à guarida que ficava perto da entrada da sala. Ela achou meu nome na lista e já me encaminhou para um guichê. Lá, fui muito bem recebido por uma funcionária que me deu várias informações sobre a assurance maladie (como, por exemplo, a de que eu deixo de ser coberto pelo sistema de saúde pública se ficar mais de 183 dias por ano fora do Quebec). Ela pediu meu passaporte, minha confirmação de residente permanente, meu CSQ e um comprovante de residência (lá vai o contrato de celular de novo), saiu, voltou, pediu pra eu assinar vários papéis e, no fim, falou o que eu já imaginava: estarei coberto pelo sistema de saúde pública a partir do dia 1º de junho, e minha carteirinha deve chegar um pouco depois dessa data.

Ou seja: realmente procede a história de que o mês em que você se apresenta à Regie já conta como primeiro mês cheio, independente do dia. Se eu fosse lá dia 31 de março, continuaria entrando no sistema só em 1º de junho. Se tivesse ido antes, nada mudaria. E de que isso serve? Serve pra você aí, que ainda vai vir, calcular direitinho até quando terá de cumprir carência e contratar um seguro particular por fora para o número de dias exatos em que não estará coberto, evitando assim pagar pelos dias em que já estará coberto pela saúde pública daqui.

Ah, teve uma surpresa! No final do atendimento, além de me desejar as boas-vindas, ela elogiou meu francês! A minha cara de choque deve ter sido bem evidente, pois ela sorriu, confirmou e disse que, em geral, os brasileiros não falam bem e quase sempre se expressam em inglês lá na Régie. Então, gente boa que está vindo, vamos aí contribuir pra mudar essa imagem dos brasileiros! Cheguem com o francês afiadinho pra tirar a assurance maladie! ;-)

Na saideira, você paga 10 moedas de ouro canadenses para tirar a foto que vai vir na carteirinha. Eu estava com um casacão vermelho e esqueci de tirá-lo na hora da foto. Então desconfio que eu vá parecer a princesa Amidala. Fazer o que, né...



À bientôt!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Entrando na reta final

Estou a pouco mais de uma semana de terminar de chutar o balde aqui no Brasil começar a jornada mais louca da minha vida e, por Odin.... essa ficha não cai!!!!

A bem da verdade, não dá pra dizer que estou do mesmo jeito que há um mês. Em fevereiro, pesquisei e fiz muitas coisas relacionadas à mudança, mas ainda era uma coisa láááááááá pro distante mês de março. Só que, agora, março chegou, já se instalou e está aqui, batendo o pezinho no chão e o dedo no relógio, dizendo: "VAMO, MEU FILHO!!" Então começam aqueles vários episódios de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC, para os íntimos), nos quais você checa os documentos 3 x (4N/X*15²) + 700, repassa a lista de medicamentos o mesmo tanto, corre para blogues de quem já fez o landing para ver se está esquecendo algo e, inevitavelmente, começa a se perguntar:



Eu sou a contradição em pessoa: tinha uma vidinha estável, salário na conta todo mês, meus maiores aborrecimentos estavam relacionados a como o serviço público está repleto de gente estúpida e só. Ao mesmo tempo, foi tudo isso aí (aliado a outras coisas) que serviu de trampolim para que eu iniciasse o processo de imigração. Ou seja, tenho várias características de pessoas que não gostam de rotina. Mas é só aparecer uma mudança na rotina e eu entro em pânico (ou quase). E aqui estou eu, a pouco mais de uma semana do embarque, já olhando pra remédios tarja preta e chamando-os de "amigos".

A melhor coisa que fiz até agora foi ter dado um tempo de "respiro" entre o fim da minha vida pregressa e o início da que vai começar. Foram três meses desde que saí de São Paulo e me mudei de volta para a casa dos meus pais. Isso me permitiu não só um porto seguro (e mordomias), mas também tempo e tranquilidade para lidar com as questões pré-imigração uma a uma. Estou podendo ler bastante, considerar cenários e tomar decisões com um pouco mais de embasamento do que se eu tivesse feito tudo às pressas, tipo pegar o visto e ir pro aeroporto. Eu já vinha fazendo pesquisas antes, mas muitos cenários mudam quando a gente tem uma janela de espera muito longa, então os três meses para mim foram realmente muito bem aproveitados.

Fechei o seguro-saúde ontem. Cotei com a Blue Cross, com a Manulife, com a GTA (piadas nerds!) e com outra cujo nome esqueci, mas acabei ficando mesmo com a GTA pelo preço (foi a mais barata) e pela possibilidade de poder pagar em real mesmo. Fiz pelo site, entrei em contato com um vendedor, depositei o dinheiro e eles emitiram o voucher, que já está comigo. Espero não precisar usar pra nada, mas, em todo caso, é o tipo de coisa que não dá pra arriscar, na minha opinião.

Outra coisa que eu não ia fazer, mas mudei de ideia aos 45 do segundo tempo, foi a minha Carteira de Habilitação. Eu não dirigi nunca durante todos os meus anos em São Paulo. Só usei transporte público e minhas pernas. Se eu já me estressava com o trânsito de Brasília, acho que teria cometido alguns homicídios com o trânsito em São Paulo. E eu estou tão desligado de carro, gasolina, IPVA e afins que minha carteira venceu em 2013 e eu nem tchum... daí quando notei a coisa, já aqui na casa dos meus pais, pensei, pensei e resolvi deixar pra tirar a carteira do Canadá, mesmo tendo que passar pelo processo todo. E assim ficou, até que eu lembrei que, em algum momento, li que, se você faz o processo para obtenção da carteira lá no Canadá, tem que ficar um ou dois anos dirigindo com uma espécie de carteira provisória e mais alguém que tenha a definitiva do seu lado. Agora, realiza eu, no Canadá, só podendo dirigir com alguém do meu lado por um ou dois anos? Acho que nem me daria o trabalho. Pra evitar isso, é preciso solicitar um documento do DETRAN, no qual conste o seu histórico como motorista. Se você apresentar isso lá nas Terras do Norte, aparentemente não precisa cumprir esse purgatório automobilístico.

Então, para evitar perrengues, resolvi renovar logo minha CNH aqui mesmo e pronto. Isso não só regulariza minha situação como motorista, como me dá mais 5 anos de documento válido (embora só nos primeiros seis meses eu possa usar a carteira para dirigir no Canadá - coisa que eu não vejo acontecendo, mas vá lá, eu nunca me imaginei morando pra valer em São Paulo e acabou acontecendo). O tal documento do DETRAN eu deixei pra ver quando eu resolver de fato virar o Sr. Volante em Montreal.

De forma que, ainda com muita pesquisa todos os dias e várias tarefas sendo concluídas aos poucos, entro na reta final com, basicamente, duas pendências: a lista de bens que vão comigo e a de bens que irão depois (ainda não sei quão detalhista devo ser... tenho 300 livros, tenho que listar um por um, com título, autor, número de páginas e quanto vale no Mercado Livre?), e a arrumação das malas. Já resolvi que vou levar pouca coisa logo de cara, pelo menos comparado a quem leva trocentas malas, mas, ainda assim, é preciso ver se o espaço e o peso estão dentro do esperado pra não ter surpresas.

É isso. Minha contagem regressiva já começou. Menos de dez dias. Momentos de calmaria. Momentos de ansiedade. Um medo do cão de tudo que vem pela frente. Será que isso acaba um dia?


À bientôt!

P.S.: e esse dólar que está batendo em Marte???

domingo, 15 de fevereiro de 2015

E a maratona continua...

Começou o carnaval! E eu não estou nem aí! :D

Essa foi mais uma semana produtiva no estilo "corra que o Canadá tá vindo aí"! Faltam quatro semanas para a mudança, e as coisas que eu ainda enrolo e procrastino tem de começar a ser feitas, néam?

Primeiro, resolvi definitivamente como levar minhas moedas de ouro para o Canadá. Vou fazer um mix de opções e levar um pouquinho de cada maneira. E não vou levar tudo de uma vez. Vou deixar uma parte aplicada aqui, como já estava, e, com o tempo, resolvo se levo tudo ou se mantenho a conta aqui.

Segundo, fiz os check-ups médicos e odontológicos. Fiz exames de sangue, fui ao oftalmologista e ao dentista, dentre outras coisas, e, graças a Deus, está tudo certo. Agora, o sistema de saúde do Québec é que vai ter que dar conta daqui pra frente!

Comecei a separar também as coisas que vou levar. Como doei boa parte das minhas roupas no fim do ano passado, e como vou deixar um pouco aqui na casa dos meus pais para evitar ter que trazer cada vez que vier visitar (mesmo sabendo que as visitas dificilmente serão frequentes), acho que vai sobrar bastante espaço na mala. E, além do meu vídeo-game, levarei alguns DVDs e livros para me fazer companhia nos primeiros meses - mas ainda falta separá-los. Decidi deixar meu laptop também, porque ele veio pro Brasil numa das naus que trouxeram a comitiva do Descobrimento em 1500. Ele esquenta mais do que processa qualquer coisa, e, além de antigo, é bem pesado. Investirei em um novo lá em Montreal.

E ainda sobrou um tempinho para curtir meu aniversário e o da minha irmã! Aliás, as despedidas também já começaram. E vai ficando cada vez mais difícil, eu sei...

À bientôt!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Procuração feita

E a trabalheira pré-imigração continua! Meu pai, graças a Deus, está bem novamente. E, pra provar, foi comigo hoje para solicitar a procuração. Fiz uma de plenos poderes e, além do meu pai, coloquei minha irmã também. Foi bem tranquilo, bem mais tranquilo do que eu imaginava. Eles já têm um modelo pronto lá no cartório, e inclui tudo e mais um pouco. O texto da procuração tenta cobrir os assuntos mais comuns (solicitação e retirada de documentos em órgãos públicos, cancelamento de serviços, pagamentos, movimentação de conta bancária) e cita, se não todos, pelos menos os órgãos e empresas mais comuns (Polícia Federal, Ministério Público, Secretaria de Segurança, INSS, Receita Federal; Oi, TIM, Claro, Vivo; NET, Sky, GVT; e vários outros). Ah, e você pode incluir alguma coisa específica ou dar detalhes sobre qualquer coisa. Por exemplo, na minha procuração, o escrivão colocou, além do nome do banco, a agência e a conta corrente, que é pra não ter erro. São plenos poderes meeeeeeeeeeeeesmo!



Custou R$ 31,55. Bem menos do que eu tinha pensado depois de ler alguns relatos. Fiquei com duas vias, que ficarão com meu pai e com a minha irmã. Agora, eles podem fazer tudo por mim, mas eu torço pra que eles não precisem se preocupar nem 1/10 do que está lá.

Terminada essa etapa, fomos à minha agência. Mas, surpresa! Os vigilantes aqui entraram em greve, e as agências bancárias que não tinham seguranças disponíveis não abriram. Legal, né? Então não pude deixar cópia da procuração pra já adiantar as coisas. Fui a uma outra agência para pegar informações sobre remessa para o exterior, mas gente... eu sabia que eles metiam a faca, mas agora vi que eles enfiam fundo e ainda rodam! Tanto que fiquei seriamente tentado a correr e abrir uma conta no HSBC, como todo mundo faz, mesmo com dezenas e dezenas de relatos por aí de pessoas insatisfeitas com o banco. Acho que, no fim, a economia realmente é grande (embora pareça gerar dores de cabeça proporcionais). Enfim, como eu não podia fazer nenhum tipo de atualização cadastral ou entrega de documentos nessa agência, ficou mesmo pra outra hora.

Ah, uma última nota: olhem o que eu ganhei da minha irmã!



Não é um bonecão de posto. Ela pensou no irmão passando frio lá em Montreal e, voilà, trouxe um casaco maneiro pra mim! Não faço ideia de quantos graus esse casaco suporta, mas vou tentar descobrir. Com certeza, vai quebrar um galhão!

À bientôt!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Frustrações de uma Vida não Iniciada

Essa fase na qual me encontro no momento é, ao mesmo tempo, extremamente empolgante e incrivelmente frustrante. É aquela na qual você quer começar a sua nova vida, mas ainda não encerrou o ciclo da antiga e, portanto, não tem como dar o primeiro passo de fato. Trocando em miúdos, é estar meio cá, meio lá.

De um lado, você está aqui, separando roupas e utensílios de cozinha para doação, tentando organizar, no meio do ninho de cobra da bagunça que só aumenta, o que vai e o que fica. Do outro, tem todas aquelas pesquisas que você faz, pensando em como sua vida poderá ser, tentando antecipar alguns problemas ou dificuldades e se planejando para lidar com tudo isso. O problema é que a distância física da nova vida te impede de ir além de um determinado ponto, o que, às vezes, faz você querer tirar as calças e pisar em cima.

Exemplificando:

Moradia

Acredito que seja a principal preocupação de quem chega. Ainda que você tenha algum conhecido que gentilmente se ofereça para te hospedar na sua chegada, na maioria das vezes você vai querer (ou precisar) arrumar um canto só seu o quanto antes. É o meu caso. Se aparecer alguém disposto a me tolerar por algumas semanas, ótimo, mas eu ficaria incomodado se minha estadia se prolongasse muito porque (1) eu gosto de ter o meu canto e (2) sou o tipo de hóspede que sempre está com receio de incomodar o anfitrião. Então, ainda que seja melhor do que ficar torrando grana em hotel, eu não ficarei 100% tranquilo enquanto não achar o meu canto

O que tenho feito: olho com alguma frequência os sites de anúncios de aluguel de imóveis, como o Kijiji e o Padmapper. Leio blogues de quem já está morando lá em Montreal, principalmente os posts relacionados aos bairros e ao tipo de residência. Teve a viagem que fiz a Montreal ano passado também, que ajudou a colocar um pouco em perspectiva o tamanho da cidade.

O que tirei de bom até agora: basicamente, a média de preços (o que permite te dar uma ideia de quantas moedas de ouro serão consumidas na brincadeira de pagar aluguel mensal) e uma ideia geral dos bairros da cidade. Ah, e, às vezes, você esbarra em algo que parece ter sido feito pensando em você, com carinho de mãe. E daí devaneia, imaginando como sua vida será perfeita lá na parte de cima do mundo!



Por que é frustrante: estando neste hemisfério, tudo o que posso ver são fotos. Não posso ir visitar, não posso ver o tanto que as fotos correspondem à realidade, não sei como a parte do contrato funciona na real, não sei se o proprietário irá com a minha cara ou se meu inglês e francês serão suficientes pra não ser enrolado. E sabe o apê construído com esmero, que você viu num anúncio ontem como um sinal divino da sua futura vida perfeita? Pois é, você não pôde ir lá e, no dia seguinte, o anúncio já foi tirado do ar porque alugaram.




Móveis, roupas e utensílios

Como já falei em algum post do passado, eu descobri que posso viver com pouco em casa, principalmente quando a situação é incerta. Vim pra São Paulo não pensando em ficar vários anos, mas voilà! E aí descobri que posso viver, por exemplo, sem conjunto de mesa com seis cadeiras ou fogão quatro bocas high-tech. Mas, ainda assim, alguma coisa a gente acaba tendo de comprar, né? Roupas então... porque eu que não vou tentar encarar -20°C com meu casaquinho da C&A.

O que tenho feito: só pesquisa mesmo em sites, como o da IKEA, Wallmart ou The North Face. Há uma variedade grande, para todos os gostos.

O que tirei de bom até agora: É outra maneira de você ver as moedas de ouro que podem ir embora nos primeiros meses. E, se você ainda está em estado de nirvana porque encontrou a casa dos sonhos no Kijiji e resolve pensar nos móveis para cada ambiente, rapidinho a pesquisa deixa de ser pesquisa e volta a ser devaneio.



Por que é frustrante: porque eu ainda não tenho casa, não sei o tamanho dela, não sei nem se vai ter mais de um ambiente, quanto mais se vai precisar de mesa de canto. Alguns apartamentos tem geladeira e fogão incluídos no preço do aluguel, alguns prédios têm máquina de lavar e secar comunitárias, outros não.. então, acabo tendo uma ideia de preços, mas, no fim, é como se eu estivesse jogando The Sims.




Trabalho

Aqui é onde o monstro embaixo da cama reside, no meu caso. Minha área (línguas estrangeiras e tradução) tem uma certa demanda (escutei alguém de TI rindo aí?), mas, em se tratando de inglês e francês, eu não tenho como concorrer muito com nativos logo de cara. Então sei que há um loooooongo caminho pela frente, e eles não são pavimentados exatamente com tijolos amarelos.

O que tenho feito: continuo coletando vagas pela internet, visitando sites de empresas e de profissionais autônomos. Minha vida profissional vai mudar radicalmente.

O que tirei de bom até agora: já deu pra ter algumas ideias em relação a encaixar meu perfil, e ver quais requerimentos e atributos precisarei desenvolver para determinadas vagas. Além disso, tenho consultado mais algumas outras opções que não estão diretamente ligadas à minha área, mas que podem me ajudar e até, quem sabe, se tornar meu ganha-pão principal.



Por que é frustrante: eu ainda não dei a cara a tapa, não mandei currículos nem contatei possíveis empregadores. Poderia ser um termômetro para ver como estaria a aceitação do meu currículo e experiência atuais, mas, lembrando que eu fiquei os últimos sete anos atrofiando o cérebro no serviço público, digamos que eu já tenha uma ideia. E, se você começa a duvidar que pode encontrar algo legal, logo, logo está imaginando que outras opções você terá se tudo der errado.




Estudos

E, em parte pelo receio de não encontrar trabalho, em parte por vontade mesmo, eu acabo voltando à ideia de estudar. A ideia, pra mim, é de recomeço mesmo, nesse caso: voltar para os bancos da faculdade, e estou falando de graduação, não de mestrado ou doutorado (embora não descarte estes). Se é pra recomeçar, talvez eu deva recomeçar direito.

O que tenho feito: entro em dezenas de sites de colleges, CEGEPS e universidades. Listo cursos que me agradam, aqueles que não faria nem por decreto, me informo sobre os custos. Tem muita informação sobre tudo, e as opções são as mais variadas. De gastronomia a mecânica de aviões, de metalurgia a Ph.D. em estudos africanos, dá pra gastar um bom tempo namorando os cursos. E, como eu sempre curti estudar e o meio acadêmico, é difícil parar de pesquisar e de imaginar as aulas.



Por que é frustrante: a perspectiva de estudar em outro país, em outro idioma, sempre foi empolgante, mas também intimidante pra mim. A duração do curso também pode vir a ser um problema. Se eu começo uma graduação, são três ou quatro anos de estudo pela frente. Como tenho o péssimo hábito de gostar de assuntos que não dão um emprego líquido, certo e prático no mundo real, pode ser que eu tenha que fazer mais um ou dois anos de mestrado, e três ou quatro de doutorado. Pense em dez anos estudando!!! Além disso, o fato de não estar ainda nas terras geladas dificulta um tanto o acesso a informações mais precisas. Pra dar um exemplo: eu me interessei pelo curso de Literatura Inglesa na McGill. PARECE, pelo que pesquisei e pelo que disseram em resposta às minhas dúvidas, que eu só poderia tentar entrar como Mature Applicant. Pois bem, uma das exigências para entrar nessa condição é concluir dois cursos ou disciplinas como pré-requisitos na área de interesse. Tentei conseguir mais detalhes sobre isso e disseram que eu poderia cursar essas disciplinas em CEGEPS, colleges ou na própria universidade. Perguntei o que seria aceito como pré-requisito para Literatura Inglesa e daí falaram pra eu entrar em contato com o Departamento de Inglês. Mandei um e-mail e me disseram que eu tinha que falar com o setor de admissões. Fiz isso e me disseram que eu tinha de contatar o Departamento de Inglês (!). Fiz isso de novo e disseram que eu tinha que cursar "alguma coisa como English Reading and Writing" em um CEGEP ou college. Entrei em contato com um college., expliquei a situação e me responderam dizendo que, no meu caso, é melhor cursar os pré-requisitos direto na universidade, porque tenho nível superior e pularia a etapa do college (!!). Agora, como eu faço isso se a universidade disse que eu tenho que fazer isso num college?



Perguntei também se eu poderia cursar matérias avulsas no college pra servir como pré-requisito. Ainda estou aguardando uma resposta, mas já deu pra sentir o drama, né? Será que o sistema de educação canadense é um tanto misterioso até para os canadenses ou sou eu que sou obtuso, produção?

Conclusão

Adivinha? Realmente, não dá pra passar o carro na frente dos bois. Enquanto eu estiver aqui no Brasil, só poderei ter uma visão parcial das coisas e acesso limitado às informações. Pesquisar e se informar é bom, mas também pode ser extremamente frustrante quando não leva diretamente a uma solução ou decisão. Então, nessas horas, é bom simplesmente ir estourar umas cabeças jogando GTA.

À bientôt!


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Minhas janelas temporais para a imigração

É, o tarado por listas/tópicos/esquemas aqui voltou com tudo! Para tentar por ordem no galinheiro e controlar a ansiedade (embora, às vezes, eu fique em dúvida sobre se listas aumentam ou diminuem a ansiedade), tão logo voltei para São Paulo e minha mente já começou a traçar rotas e planos.




Bom, basicamente, há duas grandes "janelas temporais" até a minha mudança para o Canadá. A primeira é daqui até por volta do dia 15 de dezembro. Nesse período, estarei cuidando das pesquisas mais genéricas e, principalmente, finalizando as pendências aqui em São Paulo. Fico no trabalho até o dia 05 de dezembro, espero doar/vender tudo que não vou levar até o dia 10 ou 12 e, então, pegar o voo para Brasília. Já tenho levado tudo que cabe na franquia das companhias aéreas cada vez que vou visitar meus pais, para que eu deixe pouco ou nada aqui. Mas é livro e gibi demais, minha gente... provavelmente, vou ter que contratar algum serviço para enviar o que sobrar.

A única pendência grande que espero deixar dessa primeira parte é justamente a entrega do apartamento para a imobiliária. Como meu contrato só permite sair sem multa a partir de janeiro (avisando com 30 dias de antecedência.. ô, inferno...), só entregarei o apartamento definitivamente lá pelo começo de fevereiro de 2015. Ou seja, terei de voltar ainda uma vez aqui em São Paulo.

A segunda "janela" é depois da minha mudança para a casa dos meus pais, em Brasília, e vai até meados de março, quando pego o avião de vez. Nesse período, pretendo intensificar as pesquisas, principalmente as mais específicas (vagas de trabalho, por exemplo...), estudar muito francês (e inglês e alemão também, vai), definir o que estiver faltando e tomar medidas na prática (passar procuração, por exemplo). Vai ser intenso!

Uma coisa está resolvida em linhas gerais, pelo menos: nada mesmo de HSBC pra mim. Pretendo trocar uma parte dos meu suado dinheirinho para o primeiro mês lá em Montreal e depois levo o resto, escolhendo o que for mais vantajoso no momento. Quanto aos bancos, estou entre o Banque de Montréal, o Scotia Bank e o RBC. Como nenhum deles aceita que o futuro imigrante abra conta antes de chegar (ou exige um tanto de coisas para isso), quando estiver em Montreal pretendo dar uma passeada por eles, ver o que têm a oferecer e escolher aquele que me fizer a melhor proposta (principalmente em relação a cartão de crédito, de forma a ir construindo meu histórico).

Os estudos são outra coisa que eu acho que terão de esperar. Apesar da vontade de voltar para uma universidade, eu vou esperar chegar mesmo em Montreal, sentir a pressão e aí, dependendo do rumo das coisas, tocar essa ideia adiante. Como já falei antes, vou tentar arrumar emprego e pretendo dar um carinho todo especial para melhorar meu inglês e francês, seja fazendo cursos bancados pelo governo, seja pagando do meu próprio bolso. Daí, dependendo do rumo que as coisas tomarem, eu tento voltar às cadeiras universitárias após meu primeiro ano de Canadá.

Por enquanto, é isso! Parece simples, mas tenho que confessar que já estou começando a sentir o gostinho da ansiedade mais acentuado hehehe.

À bientôt!

terça-feira, 27 de maio de 2014

Bancos e o meu rico dinheirinho

Esse é um dos assuntos que mais me preocupam no quesito "agora é pra valer, vou embora do Brasil". Depois de anos tentando juntar uma graninha (e falhando miseravelmente quase o tempo todo), eis que agora tenho que pegar tudo, colocar numa trouxa e levar para fora. E aí? #comofaz?




Olha, eu já aviso que não entendo quase nada de taxas, impostos, aplicações e outras criaturas mitológicas da economia. Aprendi jogando SimCity que não se deve gastar mais do que se ganha se você quer poupar e utilizar recursos para construir um estádio ou um parque para seus cidadãos. E aprendi também que, quando um disco voador invade sua cidade, se você não tem uma boa reserva em caixa, reconstruir tudo não vai ser fácil. E só.





Bom, quem já tem um tempo de processo de imigração pro Québec (ou, pelo menos, de pesquisa pro processo de imigração) com certeza sabe que o meio mais usado pelos imigrantes dos últimos anos é abrir uma conta premier no HSBC. Com essa conta, reza a lenda que você pode abrir uma conta em  uma agência no HSBC do Canadá e fazer transferência pelo sistema deles, o Global View. A vantagem é que você tem conta no mesmo banco no Brasil e no Canadá, pode transferir quantias com um clique e paga uma cotação mais barata do que a média das casas de câmbio e outros bancos. Parece ótimo, não?

Só que talvez não seja (ou não pra todos, pelo menos).

Quando estive em Brasília, fui a uma agência do HSBC conversar com uma gerente de contas premier para saber se tudo isso procedia. Grosso modo, procede sim. Para ter uma conta premier, você precisa ter renda mensal de, no mínimo, R$ 7.000, ou deixar R$ 100.000 aplicados no banco. Se deixar de R$ 100.000 em diante, você fica isento da taxa de manutenção, que é em torno de 60 moedas de ouro por mês. A não ser que você tenha muita grana e/ou já tenha emprego garantido no Canadá, sua renda mensal a partir do dia da sua imigração vai ser R$ 0,00, e aqueles R$ 100.000 ali logo vão começar a diminuir, já que você vai ter de pagar contas, né? Saindo da zona dos 100.000 dinheiros aplicados, assim que eles fizerem uma revisão das contas, você provavelmente vai cair na conta Advance, que tem menos firulas que a conta premier, mas que permite a transferência via Global View numa boa. Conclusão: não é preciso a conta premier. Basta a Advance.

Então, qual é a pegadinha? Pode ser o meu universo de amostragem, mas praticamente TODO MUNDO que eu conheço que já está no Canadá e que abriu conta no HSBC teve algum problema. Seja o Global View que não funciona, gerentes que não respondem mensagens e/ou esquecem de tomar providências necessárias, cobranças indevidas, cartões clonados, tokens que não funcionam em todos os sistemas, pedidos e mais pedidos de documentos que já haviam sido enviados... enfim, tem gente até que está tendo de sacar uma quantia todos os dias porque, com o cadastro ou sei lá o que desatualizado, o HSBC bloqueia vários serviços até que tudo esteja nos trilhos. Teoricamente, eles fazem isso "para sua segurança", porque, teoricamente (de novo), você ainda não enviou os documentos que precisava. Mas e quando você já enviou e está aguardando alguém ter a decência de atualizar a documentação? Fica quase sem banco? Pode isso, Arnaldo?

Enfim, o HSBC era minha primeira e única opção. Mas, vendo reclamação de tudo quanto é lado, resolvi expandir os horizontes. Contatei o Banco do Brasil Américas, mas eles aparentemente não são exatamente um banco e, sim, uma espécie de filial do Banco do Brasil lá fora. Para todos os fins, o banco seria o Banco do Brasil, e os serviços bancários pelo BB Américas ainda era extremamente limitado. Contatei o próprio Banco do Brasil, mas o máximo que eles podem fazer é transferir minhas moedas de ouro via wire transfer. No Itaú, a mesma coisa. Enfim, basicamente uma questão de quem cobraria menos, tanto IOF como o próprio serviço.

Desanimado, comecei a olhar bancos canadenses, até porque acho que em algum momento terei conta só num banco de lá mesmo. E comecei a ver um pouco mais de luz nesse túnel lúgubre e comprido. Eles, os bancos canadenses, têm alguns obstáculos: em geral, ou não deixam você abrir conta do Brasil, ou não te dão um cartão de crédito para que você comece a construir seu histórico. O Desjardins, um dos que são bastante escolhidos por quem já está lá no Québec, permite que você abra sua conta estando ainda no Brasil, mas não te dá cartão de crédito enquanto você não tiver uma renda mínima comprovada. Ou seja, se você não tiver aquele emprego garantido que mencionei lá atrás, vai ficar sem doce. O Scotia Bank parece ter um bom pacote para imigrantes recém-chegados - incluindo cartão de crédito com limite e, aparentemente, caução - mas não permite que você abra uma conta estando ainda no Brasil. O BMO também te dá cartão de crédito se você deixar uma caução, mas tem algumas burocracias mais chatas, aparentemente.

A conclusão: não há resposta "certa". Há o que for melhor para você. Uns preferem uma cotação baixa para fazer valer o rico dinheirinho suado que passaram juntando, mesmo correndo alguns riscos, outros preferem ter menos dor de cabeça, ainda que tenham de pagar um pouco mais por isso. Eu não sei exatamente ainda o que vou fazer (e quem quiser me dar uma sugestão, fique à vontade!). Mas acho que uma combinação de algumas dessas possibilidades pode ser uma boa saída. Talvez abrir conta no HSBC, transferir o dinheiro para o Canadá e depois transferi-lo de novo para um banco menos problemático... ou abrir conta no Desjardins, ir transferindo aos poucos e pedir cartão de crédito em outro banco... ou trocar parte do dinheiro em papel-moeda, ir pro Québec, abrir uma conta lá e só depois pensar em fazer transferência... enfim, muitas opções, nenhuma definitiva, todas com potencial para alguma dor de cabeça.

Quem disse que o visto é o fim?

À bientôt!