Banner

Banner
Mostrando postagens com marcador McGill. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador McGill. Mostrar todas as postagens

sábado, 6 de agosto de 2016

E a minha resposta é...

... que eu não vou encarar a McGill.

Não tomei essa decisão feliz e contente. Durante um bom tempo, eu acalentei a possibilidade de voltar a estudar, fazer um outro bacharelado e, assim, tentar encontrar alguma coisa que me interessasse o suficiente para que eu quisesse correr atrás. Namorei alguns cursos da McGill e de outras universidades ao longo dos últimos anos, e fiquei me imaginando voltando a estudar, obtendo um diploma universitário daqui do Quebec e começando uma nova profissão aqui. Então, apesar de a vida aqui ter me feito pensar menos em fazer faculdade, dá pra imaginar que, além da surpresa de ter sido aceito na McGill, eu fiquei muito animado.

Só que, parando pra pensar depois da euforia, comecei a considerar as coisas. Eu entraria lá sem fazer muita ideia do que estudar e em que me formar. Começar um curso universitário não sabendo o que você quer fazer não me parece lá uma decisão muito acertada, ainda mais levando-se em conta que eu precisaria fazer uma dívida com o governo para poder bancar os estudos, mesmo que parcialmente. Em seguida, tem o fato de que um diploma na área de Humanas não é exatamente, digamos assim, extremamente requisitado no mercado de trabalho. Suponhamos que eu saia com um diploma em História, Literatura Inglesa ou Filosofia. No mercado de hoje, o que se faz com isso? Até mesmo para dar aulas eu precisaria de Mestrado e Doutorado, o que implicaria passar mais uns seis ou sete anos estudando (e lá vai dívida) para desembarcar num mercado acadêmico que está bem saturado, de acordo com tudo que li a respeito.

E, para finalizar, tem a questão da idade. Não, não é que eu ache que 36 anos é uma idade avançada para se aprender coisas novas (=tô véio pra essa bagaça). Eu nem acho que exista idade limite pra se aprender nada, desde que você esteja querendo aprender. Mas a questão é o mercado novamente: ainda que eu saísse da universidade em quatro anos (supondo-se que eu realmente desse conta de fazer tudo no tempo previsto), eu chegaria ao mercado com 40 anos e sem experiência profissional relevante (porque os empregos de verão que eu provavelmente pegaria não são lá um grande divisor de águas pra ninguém) e com um diploma daqui, mas em uma área pffff. Os canadenses podem ser bem mais abertos em relação ao fator idade, mas, como um dos meus amigos quebecos colocou na nossa última conversa, não é porque são mais abertos que vão escolher quem tem mais idade em detrimento de quem tem mais experiência.

No fim das contas, depois de pensar bastante, acho que embarcar nessa seria extremamente gratificante do ponto de vista pessoal (sou nerd, gente, gosto de estudar), mas uma jogada não muito boa do ponto de vista de profissão e carreira. Se eu curtisse muito uma área específica, fosse apaixonado por curso, ainda talvez valesse a pena correr o risco. Mas entrar às cegas na universidade torcendo para que eu encontre alguma coisa que me interesse e que me leve a uma carreira (e ainda criando dívida no processo) talvez seja forçar um pouco a barra.

Então é isso. Apesar de meu raciocínio ser esse, ainda não consegui ir lá no sistema da McGill e clicar em "decline". Tenho só mais dois ou três dias de prazo, mas acho que essa decisão não vai mudar. Em algum lugar, espero que alguém que está na lista de espera da McGill fique feliz :)

À bientôt!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Entrei na McGill! :) (2)

Eu não consigo acreditar até agora, mas parece que é pra valer: entrei na McGill (de novo), e dessa vez a coisa ficou séria!!



Mas eu sei que uma parte eu não contei: ano passado, depois de terminar o curso de inglês da McGill, tive que começar a pensar no que fazer da vida. É um assunto extremamente inquietante pra mim, porque eu tenho essa ideia de que gostaria de ter uma carreira de fato (embora hoje eu saiba muito bem que isso não é necessário), mas, ao mesmo tempo, não tenho muita ideia do que gostaria de fazer. Depois do curso de inglês, eu já havia resolvido que prosseguiria parcialmente nos estudos fazendo o Certificado de Francês da Universidade de Montreal; mas e aí? O que fazer "de verdade", como trabalho? Ou melhor, como profissão, como carreira, a longo prazo (já que empregos sempre existem nos classificados)? Nada de novo no fronte. Uma coisa me interessa aqui, outra chama a minha atenção ali, mas nada que faça os olhos brilharem. E aí?

No meio da indecisão, e como eu nunca gostei de ficar parado esperando o raio divino (embora tenha tentado mais de uma vez), resolvi fazer a inscrição pra fazer um bacharelado na McGill. Bacharelado em quê? Não sabia; e o formulário de inscrição só pedia pra eu escolher uma das Faculties ou Schools, então não precisava resolver ali na hora. Escolhi a Faculdade de Artes e mandei ver.

Isso foi em outubro do ano passado. De lá pra cá, houve momentos em que fiquei extremamente ansioso e momentos em que eu dei risada do que tinha feito. Afinal de contas, já imaginou? Eu, com 36 anos, fazendo bacharelado em (interrogação) na McGill, tida como uma das melhores do Canadá? Tendo que fazer trabalho em grupo com a molecada de 20 anos, estudar pra prova, fazer empréstimo junto ao governo pra bancar os estudos? Me formar perto dos 40 anos, provavelmente em algo que não tem muita perspectiva de emprego, pra só então voltar ao mercado de trabalho (isso se não precisar de um Mestrado ou Doutorado)? Faz-me rir, né? De qualquer forma, nunca pensei que minhas chances fossem muito altas; não fiz inscrição para nenhuma outra universidade, talvez porque, em parte, eu quisesse ouvir um "não"; o "não" da McGill me daria um direcionamento, nem que fosse o de arrumar um emprego pra pagar as contas.

Mas aí, abro o sistema de admissão deles — de forma automática como vinha fazendo desde maio — e, na linha de status, em vez do "Reviewed - Decision Pending" que eu sempre via, tava lá um "Admitted". Juro que o coração parou. Foi um susto ENORME, posso garantir. Rolei a tela pra cima e pra baixo tentando encontrar os dizeres "Pegadinha do Malandro!!!", mas não tinha. O que tinha era o link para a carta formal de aceitação.

E agora, José?

Eu tô num misto de alegria, ansiedade, medo, empolgação, dúvida e angústia. Ao mesmo tempo que penso que já chutei o balde-mor deixando meu emprego e meu país para vir aqui ver "de qualé" e que, por isso mesmo, embarcar nessa experiência não seria pior, penso também que talvez seja tapar o sol com a peneira... que talvez, por não ter exatamente um plano eu devesse simplesmente deixar pra lá isso e tratar de arrumar trabalho antes que meu prazo de validade expire.

O que você faria?

À bientôt!

terça-feira, 21 de junho de 2016

O Curso de Inglês da McGill - Epílogo II

Essa me pegou totalmente desprevenido.

Certo dia, resolvi ir ao supermercado. Calcei o tênis, peguei minha mochila e só quando já estava prontinho para a guerra foi que vi que havia deixado o celular em cima da cama. Bateu a preguiça de tirar parte do traje de combate só para ir pegar o celular, então fui sem mesmo. O supermercado fica quase do lado de casa, então achei que, só dessa vez, ele ia ficar esperando eu voltar.

Fui, voltei e, como Murphy é Murphy, tinha uma ligação perdida. Número desconhecido. "Telemarketing", pensei, "ou então alguém que discou o número errado". Se fosse a segunda opção, logo eu provavelmente receberia uma mensagem de voz com a pessoa se desculpando (pois é, já aconteceu mais de uma vez.)

Comecei a guardar as coisas e o celular deu sinal de vida indicando mensagem de voz. "Ahá", pensei, "taí. Número errado". Coloquei pra ouvir enquanto guardava os limões, mas parei praticamente assim que a mensagem começou:

"Oi, Doug, aqui é a Fulana da McGill. Estou ligando a respeito do seu prêmio. Por favor, entre em contato, pois preciso saber como você vai querer fazer. Estarei até as 5 da tarde aqui; se não puder falar, estarei de volta na terça-feira. Meu número é..."

Prêmio? A primeira coisa que veio à minha cabeça é que era algum golpe (sim, também tem por aqui). Eu ia ligar, eles iam dizer que eu ganhei, sei lá, uma barra de ouro, mas que precisam do número do meu cartão de crédito para confirmar a identidade. Ou qualquer outra bizarrice do gênero. Porém, o fato de a Fulana falar meu nome e falar que era da McGill me atiçou. Ligar de volta era praticamente perda de tempo porque já havia passado das 5, mas tentei. Ninguém atendeu. Daí fiquei pensando que era algum engano, porque eu não estava participando de concurso algum. Não dei meu nome pra concorrer a nada, então, se a ligação tinha vindo de fato da McGill, com certeza era algum engano.

Pois bem, no dia seguinte, fui pegar a correspondência e — tcham, tcham! — tinha uma cartinha da McGill. Abri, li, e quase caí pra trás. Transcrevo:

"Dear Mr. Doug,

Please accept my sincere congratulations on being selected as the recipient of the [nome do prêmio] for the 2015/2016 academic year.

You are now a member of an elite group of learners - those who are prizewinners for the year's most outstanding academic record in their program or course. For most students enrolled in programs and courses offered by the School, pursuing further education must be balanced with many other commitments, making this achievement all the more significant. You should be proud of your achievement as we are proud of you.

The amount of [valor do prêmio] has been deposited in your bank account according to the information we have on file.

Sincerely,"

Fala sério!!!! Eu nem sabia que esse prêmio existia!! Foi uma surpresa sensacional! E — descobri na terça seguinte — foi por isso que a tia da McGill ligou: eu não tinha incluído informações bancárias no meu cadastro e ela queria saber se mandava o cheque pelo correio ou se eu iria lá buscar. Oh, Canada!!

Lembrei que o site da McGill dá a opção da gente conferir o histórico não-oficial para ver as notas e tá bonito, viu? Nota "A" nos dois módulos que fiz, mais "Lista de Honra do Reitor" e, agora, "Ganhador do Prêmio X"! Filma eu, Galvão!



À bientôt!

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Open House (McGill)

Voltar ou não para a universidade é uma questão para a qual ainda não tenho resposta. Às vezes, acho que é meio sem noção querer fazer outra faculdade sem ter muita ideia do que quero realmente pra vida; outras vezes, penso que sem noção é ficar achando que serei atingido por um raio divino que vai me indicar o caminho "certo" e que, portanto, é melhor tentar do que ficar parado ou trabalhar com qualquer coisa. Essas duas maneiras de ver a questão se alternam quase o tempo todo, e elas se revezam no pódio de campeão do dia da minha mente dependendo de coisas tão banais quanto meu humor no dia ou um vídeo que alguém me envia.

Mas, enfim, ainda sou da opinião de que, se você não precisa tomar uma decisão às pressas, é bom se informar. E foi com essa intenção que participei, nas últimas semanas, de dois eventos em duas universidades aqui de Montreal cuja intenção é convencer os futuros alunos a escolher a universidade e mesmo o curso para seguir com os estudos. Esses eventos são bem comuns por aqui. Vi vários anúncios de universidades, colleges, CÉGEPs e outras escolas anunciando o seu próprio evento de "portas abertas", um dia em que você pode conhecer as instalações, assistir palestras, falar com alunos e professores, e tirar dúvidas sobre que tenha sobre admissão.

Nota: a ideia era falar sobre os dois eventos num post só, mas, pra variar, escrevi mais que a Wikipédia. Então, vou falar sobre o evento da McGill aqui e deixo para falar sobre o da Universidade de Montreal no próximo.

Open House - McGill University

O primeiro evento ao qual fui foi o da McGill. Ele aconteceu no dia 25 de outubro, das 10 às 16. Cheguei um pouquinho depois das 10, me identifiquei na área de recepção e ganhei sacolinha, mapa do campus, lista das palestras e outras indicações.

De lá, fui logo assistir a primeira palestra que me interessava. Era sobre admissão, mas acabou não me sendo de grande valia. Como era de se esperar, toda a informação foi voltada para estudantes vindos do sistema de educação canadense e dos Estados Unidos, com um pouco para alunos internacionais. Na verdade, havia uma palestra toda dedicada aos alunos internacionais, mas eu sou residente permanente, já tenho faculdade, então... fico meio no limbo nessa hora. E, se ainda não deu pra notar pelas postagens, eu sou tímido, então imagina se eu ia levantar a mão no fim pra fazer perguntas tipo: "Oi, sou um tanto velho, não sei exatamente qual curso fazer e nem quais partes do processo de admissão se encaixam pra mim, então será que você poderia me ajudar?". Preferi deixar pra encurralar alguém depois.

Campus da McGill


De lá, fui a um painel bem legal que era uma espécie de mesa redonda. Havia um estudante de pós-graduação (que fez a graduação também na McGill), dois estudantes atualmente na graduação, uma que já é formada pela McGill e está atuando no mercado de trabalho, e uma mãe de aluno. O painel começou com a mediadora fazendo perguntas do tipo "o que mais você gosta/gostou na McGill?", "qual foi a maior dificuldade durante os estudos?" e por aí vai, e era interessante ver as diferentes histórias (mas claro, sempre com o lado positivo da vida na McGill). Em seguida, as pessoas no auditório puderam fazer perguntas, e uma em especial foi interessante: uma mãe de candidato, americana, perguntou sobre a questão de consumo de álcool na universidade. Como nos EUA a idade mínima legal para beber é 21 anos, ela tinha receio do impacto que o álcool mais cedo (no Quebec, é liberado a partir dos 18 anos) poderia ter na vida pessoal e acadêmica do filho. Quem respondeu foi uma das alunas da graduação, que é americana, e ela disse acredita que o consumo de álcool aqui seja bem menos badalada que nos EUA. Lá, como a idade legal é 21, todo adolescente fica louco de vontade de "infringir a lei", beber escondido pra se sentir "livre" e "desafiando o sistema". Aqui, como a cultura é diferente, e como a idade legal é mais baixa, beber acaba não sendo um grande tcham na maioria dos casos. Enquanto nos EUA os universitários se acham o máximo tomando porres com 20 anos, consumir álcool aqui perde o glamour (se é que tem) mais cedo. Obviamente, o uso ou abuso vai de cada um, e todo mundo sabe que os adolescentes começam a beber bem antes da idade legal nos dois países.

Em seguida, participei de uma palestra de admissão da faculdade de Direito. Em um passado distante, eu pensei seriamente em estudar Direito. Até cheguei a fazer vestibular pra UPFR no Brasil. Mas foi uma coisa de momento que passou logo. Ainda assim, já tinha ouvido falar que o curso de Direito da McGill é puxado, e que aqui você precisa ter graduação pra ir estudar Direito. Enfim, fui lá pra descobrir como era a coisa. A palestrante, embora toda vestida de advogada bem-sucedida, aparentemente não tem muito o hábito de falar em público ou, no mínimo, não conhecia exatamente o processo de admissão. Foi uma palestra um tanto confusa, e ficou ainda pior porque ela falava ora em francês, ora em inglês. Enfim, o que tirei de lá é que (1) sim, precisa-se realmente ter uma graduação para só então ir estudar Direito; (2) a McGill é uma das poucas universidades (se não a única pras bandas de cá) que ensina o Direito Civil (utilizado no Quebec) e a Common Law (usada no restante do Canadá); (3) por isso mesmo, conhecimento das duas línguas é essencial, mesmo que o candidato não seja totalmente fluente, já que há disciplinas em inglês e disciplinas em francês; (4) o GPA (espécie de média das notas da faculdade) mínimo para ser considerado pelo comitê de admissão é 3.8. De uma escala de 4.0!!! Gente, isso significa que você precisa ter uma graduação praticamente impecável pra ser CONSIDERADO!!! Além disso, você ainda vai ser comparado a todos os outros crânios que tem GPA de 3.8 ou mais (acredite, eles existem!) e pode perder o lugar porque alguém fez um trabalho voluntário em algo relacionado a Direitos Humanos, por exemplo. Deve ser osso!! Eu já tinha ouvido dizer que se você tem GPA abaixo de 3.5 é difícil entrar em qualquer curso da McGill, mas essa do Direito me deu toda uma nova dimensão da coisa.


Campus da McGill


A última palestra pra mim foi da Faculdade de Artes e Ciências. Estava bem animado porque eu (in)felizmente eu me interesso por cursos que têm uma grande chance de me levar a uma vida de pobreza: História, Literatura, Cultura e Civilização e por aí vai. Então sentei mais próximo ao palco e fui até criando coragem para fazer perguntas. Mas tomei um balde de água fria: a palestra durou 15 minutos, e a dona que nos agraciou com sua voz usou esse tempo para, basicamente, repetir informações do site. Ok, tá bom, eu entendo que muita coisa pode ser encontrada no site, mas se você vai dar uma palestra pra apresentar a sua faculdade, custa fazer um trabalhinho mais elaborado? As outras palestras duraram entre 40 e 60 minutos, mais o tempo pra perguntas. Por que a da Faculdade de Artes, que tem um zilhão de cursos, tinha que durar 15? Todo mundo ficou surpreso quando a palestrante perguntou se alguém tinha dúvidas e, diante do silêncio, encerrou a sessão. Só que, óbvio, TODO MUNDO tinha dúvidas, então formaram uma fila pra ir perguntar sobre tudo que ela não havia dito.

Campus da McGill


Saí frustrado, mas ainda tinha uma missão: encurralar alguém pra bombardear com as minhas questões. E achei! Simpática, a mocinha ouviu toda a minha história e, em resumo, me disse o seguinte:

1) O processo de admissão é o mesmo que todo estudante canadense/quebequense segue. No meu caso, vão me avaliar pelo meu GPA da UnB em vez do segundo grau, mas, fora isso, o trâmite é o mesmo;

2) Como já tenho um bacharelado, se eu for admitido eles vão me considerar como Second Degree, ou seja, alguém que vai fazer um segundo bacharelado. Nesse caso, eu estarei limitado a 60 créditos (contra os 90-120 que um estudante que vai fazer o primeiro bacharelado tem que fazer). Isso é bom por um lado, pois significa que eu poderia ter um novo diploma universitário em dois anos. Porém, o lado ruim é que limita bastante o que eu poderia explorar na faculdade (sei que isso soa bem nerd, mas, se você acompanha o blogue há algum tempo, já deve ter se acostumado);


3) Não terei necessariamente que ficar só com as vagas que sobrarem. Como expliquei à moça simpática, a parte sobre Second Degree no site da McGill está junto com a parte de Transfer Students, o que faz parecer que ambos seguem as mesmas regras, e lá diz que estudantes pedindo transferência de uma outra faculdade só são aceitos se sobrarem vagas. Mas, segundo a moça simpática me explicou, se eu tiver um GPA competitivo, posso receber uma oferta de admissão logo no início da temporada, que começa em dezembro. Ainda assim, ela lembrou que o processo é bastante competitivo, e que eu não deveria esperar uma resposta antes de março ou abril do ano que vem.

Ela não soube me confirmar sobre a história do GPA mínimo de 3.5 pra ser considerado. Só disse que isso varia de um ano para outro e repetiu que o processo de admissão da McGill é bem competitivo. Senti que eu precisaria ser um Cavaleiro Jedi pra conseguir entrar, mesmo tendo GPA maior que o suposto mínimo. Mas, enfim, por enquanto, é só uma ideia, não é mesmo? 

*Suspira*

À bientôt!


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O Curso de Inglês da McGill - Epílogo

Não bastasse a McGill ter sido responsável por alguns dos meus melhores dias até agora aqui em Montreal, olha o que eles ainda me deram no final:




Chegou na hora certa pra dar me dar novo ânimo em relação ao francês. Quem sabe chego lá um dia também na língua de Molière, né?

À bientôt!

sábado, 1 de agosto de 2015

O Curso de Inglês da McGill - Parte III: O Fim

Ontem chegou ao fim o meu curso de inglês na McGill.


Mas vamos por partes.

Um novo começo

Se você acompanha o blogue há algum tempo, deve saber que comecei o último módulo do curso com o pé esquerdo. Não só fui separado do meu melhor amigo de sala de aula, como de outros colegas com quem me dava bem. Adicione-se à mistura o cidadão que começou a me perseguir pra todo lado e que — numa pegadinha safada do Universo — ficou na mesma turma que eu. Toda a carga positiva e motivacional que eu trouxe do módulo anterior se esvaiu em alguns dias apenas. Depois de seis semanas excelentes naquele módulo, eu achei que teria seis semanas do cão. Mas consegui trocar de sala por causa do perseguidor implacável (aquele abraço, "amigão"! Você, que era meu problema, foi parte da solução!), e então o Universo teve que ir atrás de outro pra zoar.

O módulo anterior, que eles chamam de Avançado A, tinha foco no inglês voltado para a universidade. Foram várias apresentações orais (individuais e em grupo), trabalhos escritos, bastante vocabulário (dá-lhe phrasal verbs), muitas discussões sobre temas variados. Esse módulo de agora, o Avançado B, foi voltado para o inglês profissional, de negócios. Achei o primeiro bem mais puxado que este, não só em termos do número de trabalhos e avaliações, como em relação a lições de casa e atividades em sala de aula. Não quer dizer que tenhamos ficado ociosos em algum momento (isso não ocorre de jeito nenhum), mas realmente há uma diferença de ritmo entre os dois módulos.

No Avançado B, tivemos muito vocabulário voltado para reuniões de negócios. Tivemos também aulas sobre como redigir e-mails corporativos, de reclamação, cover letters e um pouco sobre currículos. Algumas avaliações eram simulações de reuniões de empresas (ganhei o infame papel de CEO do McDonald's em uma delas — rá!) e de entrevistas de emprego. Tivemos que ler um livro também, cujos capítulos eram apresentados semanalmente por uma dupla de alunos, envolvendo um pouco de discussão (mas bem menos do que eu esperava) e atividades de compreensão. Aprendemos também técnicas para ajudar a redigir um texto persuasivo. Enfim, foi um curso bem abrangente. Tivemos tempo para explorar cada tema, fazer as atividades, trabalhos e avaliações, e passar para o assunto seguinte. Ou seja, teve coisa pra caramba, mas ainda assim, foi bem mais tranquilo do que o Avançado A, na minha opinião.

Uma característica do curso da McGill que não lembro se comentei nos outros posts é que eles têm um programa de "parceiros de conversação". São, em geral, alunos universitários nativos que vão até a escola uma vez por semana e ficam de uma a duas horas à disposição para quem quiser conversar. A cada dia, tínhamos um parceiro diferente. A maioria do pessoal dispensava a oportunidade (assim como faziam com as tardes de guided studies, que eram períodos reservados para tirar dúvidas com os professores, pedir explicações mais aprofundadas e por aí vai), mas eu estava lá toda vez que um dos parceiros aparecia, e ficava batendo papo do primeiro ao último minuto. Não só era uma excelente oportunidade de ter um outro anglófono nativo conversando com você — e te corrigindo — como também eram mais uma maneira de fazer valer o dinheiro que investi no curso, néam? Aliás, nesse quesito, acho que fiz valer bem: usei biblioteca, laboratório, computadores, projetor, gravador, tudo que estava à minha disposição para aprender.

Os professores não foram os mesmos do módulo passado, como era de se esperar. Mas não ficaram devendo nada aos anteriores: o meu professor da manhã era excelente. Ele focava na parte escrita, e pouquíssimas vezes na vida inteira eu recebi comentários tão detalhados de um professor sobre o meu trabalho em sala. Cada avaliação ou trabalho que entregávamos para ele era devolvido com uma folha extra, na qual ele destrinchava não só os pontos concedidos, mas também o que estava bom e o que estava ruim. Aquela coisa de escrever só "Muito bom! Parabéns! Continue assim!" na sua prova ou texto não existe pra ele. Vem sempre um parágrafo enorme, personalizado, com todos os pontos positivos e negativos.

A professora da tarde era sempre muito animada. Não tive tanto retorno dela quanto tive do professor da manhã, mas ela é o tipo de professora que se coloca junto com os alunos em sala de aula. Sempre disposta a ajudar, sempre tentando levantar o ânimo da turma (e precisa ser assim mesmo, ainda mais numa sala cheia de pessoas cuja média de idade é 23, 24 anos e que estavam sempre pescando de sono com a barriga estufada depois do almoço) e sempre focando mais no aprendizado dos alunos do que no prazo do trabalho X. Minha única ressalva a ela — e talvez nem seja a ela e, sim, à estrutura do módulo — é que discutimos muito pouco o livro que tivemos que ler. A leitura ocupou tanto tempo, e é um livro que tem potencial para boas conversas e discussões, mas não fizemos mais do que trocar uma ou duas frases durante as apresentações dos capítulos. Aliás, acho que tivemos bem menos chance de praticar a expressão oral neste módulo.

A Turma

Muitas das pessoas que conheci no módulo anterior estavam terminando o certificado naquela sessão (pode parecer esquisito, mas o Avançado A não é pré-requisito para o Avançado B. Você pode cursar na ordem que quiser, e um não interfere no outro) ou simplesmente não iam continuar no curso. Daí o meu número de colegas de classe conhecidos foi consideravelmente reduzido. Mas é pra isso que servem os novos alunos, né não?

Tá certo que eu e o meu amigo quebeco voltamos a ser Super-Gêmeos-Ativar assim que eu fui mudado pra sala dele. Aliás, o professor da manhã puxou a nossa orelha já no meu primeiro dia, porque nós dois começamos a tricotar e colocar o papo em dia durante o que era pra ser uma atividade individual. Então, naturalmente, eu passava 95% do tempo com ele. Mas isso não me impediu de conhecer outras pessoas. Conheci dois caras da Líbia, ambos pessoas sensacionais. Fiz quase todas as avaliações em grupo desse módulo com um deles (os grupos eram definidos por sorteio), de modo que a gente passou um bom tempo juntos. Conheci também uma menina do Tibete e outra da China que tinham tão pouco sotaque dos idiomas delas que eu tive que elogiá-las. E, por fim, dos que ficaram mais próximos, conheci um italiano figuraça, daquele bem estereótipo, que está sempre comendo algum tipo de massa e que fala Good morning como se estivesse gritando, e com um sotaque tão pesado que você acha que está assistindo um capítulo de Terra Nostra.




Houve outros: chineses, colombianos, mexicanos, argelinos, marroquinos, malianos. Todos bastante abertos, simpáticos e receptivos. Claro que ninguém fica amigão de todo mundo. Mas mesmo aqueles com quem tive pouco contato eram sempre calorosos e falavam comigo com um sorriso nos lábios.

Algumas atividades nos obrigaram a sair juntos fora do período de aulas para visitar lugares em Montreal ou reunir material para apresentações. E isso faz com que a gente expanda um pouco a relação que é, via de regra, uma coisa que só existe na sala de aula. Nessa última semana, para comemorar o fim da sessão, fomos todos almoçar em um restaurante mexicano perto do Mercado Jean Talon. E ontem teve o churrasco oficial de despedida da sessão de verão, bancado pela McGill para todos os alunos de todos os níveis do curso. Fui o último a ir embora, e, se você lembrar que eu já disse algumas vezes aqui que não sou exatamente a pessoa mais sociável do mundo, isso dá a dimensão do quanto eu curti o curso, as pessoas e a escola.

O fim

O que explica porque eu estou desde ontem à noite com uma sensação de melancolia que me faz suspirar a cada dez minutos. Se você, caro(a) leitor(a), já fez um intercâmbio na vida, principalmente quando novo(a), e se esse intercâmbio foi, como na maioria dos casos, uma experiência inesquecível, você deve lembrar como foi difícil a hora de ter de se despedir de todos os seus novos amigos, entrar no avião e ter que voltar para o seu país e a sua "vida real". Eu fiz isso quando tinha 19 anos. Passei dois meses fora e foi uma das melhores experiências da minha vida. O momento de ir embora foi terrível. Brasileiro e dramático por natureza, chorei baldes na noite anterior à minha partida abraçado a um amigo alemão durante a festa de despedida que tinham organizado pra mim e pra uma venezuelana. Apesar de todo o drama, eu achava que manteria contato com todos, que seríamos como um seriado americano, todos vivendo em seus respectivos países, mas com um lindo laço de amizade unindo todo mundo através das eras... e, quinze anos depois, eu tenho contato apenas com duas pessoas daquela época, e ambas são brasileiras.

O fato é que a gente acaba perdendo mesmo o contato com a maior parte dos — senão todos os — amigos e colegas que fazemos nesses cursos e vivências no exterior. E quanto mais o tempo passa, pior. Há sempre juras, promessas de manter o contato, de escrever todos os meses ou todas as semanas, de todo mundo se reencontrar em um, cinco, dez anos... mas a verdade é que poucas vezes isso de fato acontece. Pode até ser verdade nos primeiros meses e, com alguma sorte, nos primeiros anos depois da vivência, mas a tendência é cada um seguir sua vida e só as lembranças ficarem. E não há nada de errado com isso, embora possa tornar uma nova despedida numa situação semelhante um tanto mais... nostálgica.

Ontem, à medida que o pessoal foi deixando o churrasco, eu ouvi as mesmas palavras que ouvi há quinze anos: "temos que manter contato!", "vou te escrever!", "não some!", "vai me visitar no meu país, vou ficar feliz em te receber lá!" e por aí vai. E trocam-se e-mails, Facebook, até números de telefone com códigos de DDI que eu nunca vi, tudo com a certeza de que a tecnologia facilitará a continuidade da amizade. Abraços, apertos de mão calorosos, "aprendi muito com você", "foi muito bom ter você na turma", e até torcida de uma professora, que chegou para mim e para o quebeco e disse que a gente deve continuar a amizade fora da sala já que nos damos tão bem. Juramos que sim, falo que vou fazer um curso de francês em setembro e ele vai ter que ficar aturando meu sotaque brasileiro tentando falar francês quebequense. Ele ri e diz que vai precisar fazer isso acompanhado de bastante cerveja e vídeo game, porque só assim pra valer a pena. Minha vez de rir. Mas a verdade é que não sabemos se vamos nos ver de novo. Era uma excelente amizade de sala de aula; agora que a sala de aula não existe mais, vamos ter vontade e disposição para ir além dela?

Independente da resposta, é hora de seguir adiante. O curso da McGill me proporcionou muito mais do que eu esperava a princípio. Foi o melhor comitê de boas-vindas que eu poderia ter! Eu me matriculei com o objetivo de destravar no inglês. Consegui isso, mas muito mais. Conheci gente a dar com o rodo, virei queridinho de alguns professores, fiquei mais consciente de algumas oportunidades, fui aceito em um grupo de pessoas de um jeito que eu não era há muito tempo, criei laços, descobri novos horizontes, fiquei mais alegre, mais leve, mais animado, como há muito tempo não ficava; ganhei mais confiança em mim mesmo, me senti mais em casa, dei risada com gente de lugares que eu talvez nunca visite, tive a chance de ajudar pessoas, fazer a diferença em alguns momentos, contribuir para algo e receber os frutos disso; enfim, foram três meses realmente intensos e que me fizeram um bem imenso! Mas agora é hora de usar tudo isso como combustível para começar a vida pra valer por aqui — sim, porque dessa vez, os outros estão indo embora e eu estou ficando. Minha vida real é aqui.

Afinal, vida de estudante internacional é boa, mas não enche a barriga nem paga as contas da internet que estou usando para escrever este poema, néam?

À bientôt!

domingo, 28 de junho de 2015

Problemas no Paraíso (1)

Todo mundo sabe (ou deveria saber) que vai ter problemas quando sair do conforto do seu lar e do seu país para embarcar numa jornada ao desconhecido. Muita gente sonha com o CSQ e o visto de residente permanente como se eles fossem o fim dessa jornada, como se, a partir dali, você só tivesse que colher os louros da sua "árdua" batalha. Batalha essa que, em boa parte dos casos, tem a ver mais com ansiedade, impaciência e falta de informação do "combatente" do que com lutas travadas contra obstáculos reais. Então, muita gente diz que sabe que problemas surgirão, mas sequer pensa neles. Nem nos mais básicos, como dificuldade com idioma, a falta que a família e/ou os amigos vai fazer e por aí vai. É como se o CSQ ou o visto fossem o objetivo final, e tudo girasse em torno deles, quando, na verdade, eles são só o início do futuro - que continua sendo tão incerto quanto no dia que você mandou sua papelada para o BIQ.

Com esse discurso, estou inaugurando uma série aqui para contar os problemas que surgirem pelo meu caminho. Podem ser pequenos ou grandes, mas, se me incomodarem, eu vou tentar vir aqui e relatar. O objetivo é não só parte da meta principal do blogue (manter um relato sobre a minha jornada, algo que eu possa depois vir vasculhar e lembrar como foi), mas também ministrar doses de realidade, principalmente para aqueles que, quando pensam em vir pro Canadá ou pro Québec, confundem o lugar com esse aí, ó:



Então vamos lá?


A Origem

Todo mundo que acompanha o blogue sabe que estou fazendo um curso de inglês na McGill pra destravar, e que ele tem feito muito bem pra mim. Sabe também que eu me dei muito bem com a turma, fui elogiado pelos professores, fiz um amigo quebeco quando achava que ia levar eras até conhecer um canadense e por aí vai. Realmente, as seis semanas do curso me fizeram um bem enoooooooorme, não só pro meu inglês, como pro meu bem-estar nesse início de jornada.

Com o fim do módulo, quem ainda continuaria no curso correu pra fazer a matrícula para o próximo nível. O quebeco falou para irmos fazer juntos para garantir que ficássemos na mesma turma. Achei muito legal da parte dele, e assim fizemos. Inclusive, perguntei para a atendente se aquilo bastava para sermos colocados na mesma sala e ela falou que achava que não haveria problema algum, até porque fomos alguns dos primeiros a se matricular. Ótimo!

Só que não. As aulas recomeçaram na última segunda-feira e, quando olhei a lista dos integrantes da turma, eu e meu amigo (além de outros) havíamos sido separados. Na hora, senti a minha motivação despencar. Quer dizer que eu chego aqui, sozinho, dou a sorte de fazer um amigo local com quem REALMENTE me dou bem, a ponto de as pessoas em volta acharem que a gente já se conhecia ANTES do curso, tudo pra chegar agora, no último nível, e ser separado assim, do nada?? E ainda por cima tendo pedido pra ficar na mesma sala? Não teve jeito. A motivação afundou e eu fiquei me sentindo marido traído.

"Ué, Doug? Esse é o seu problema? Ficou separado do amiguinho de turma? Buá, buá, faz novas amizades, segue em frente e pronto!"

Respondo à pergunta em instantes, mas, primeiro uma declaração do nosso patrocinador. Eu sempre fui alguém com uma certa dificuldade para socializar. Sempre curti coisas que a maioria das pessoas só faz quando não tem o que fazer ou quando está chovendo lá fora. Enquanto todo mundo se amarra em ir pro boteco com os amigos, encher a cara e falar sobre "variedades", eu sempre curti jogar vídeo game ou ler um gibi, ou rever Guerra nas Estrelas pela 189341987 vez. Não é melhor nem pior do que ir pro tal boteco (embora muita gente insista que é bem, bem pior, sim), é só diferente. Eu me divirto tanto com um gibi do Batman quanto algumas pessoas se divertem ingerindo bebidas amargas. Mas por aí dá pra notar que eu nunca fui o cara mais popular, cheio de amigos, e com vários convites para eventos diversos, né? Então, o mês e meio que passei no primeiro módulo do curso da McGill me deu a chance de viver algo que há muito, muito tempo eu não vivia: fazer parte de um grupo, ser aceito por ele e encontrar alguém que seja tão nerd quanto eu. Assim, ser separado das pessoas que fizeram eu me sentir tão bem depois de tanto tempo seria um problema, pra mim, sim. Digno de vir aqui chorar as pitangas, falar que o mundo é injusto, que nunca mais vai acontecer nada assim e blábláblá. Mesmo sendo um cara adulto e reconhecendo que a revoltinha seria infantil, eu sei exatamente o porque disso me afetar. Mas, ainda assim, eu provavelmente iria ficar chateado uns dias, comer um pote de sorvete e tentar me animar para as próximas seis semanas de curso.

Mas não, fiel leitor(a). Esse foi UM problema, mas não O problema que me motivou a escrever essa postagem.. Antes fosse. Eu viria aqui, bancaria o menininho, um monte de gente gritaria "VIRA HOMEM!" e pronto. Então, sem mais delongas, senhoras e senhores, uma salva de palmas para...

Meu Perseguidor Particular


Na turma anterior, em meio a toda aquela gente legal que mencionei, havia um cidadão pitoresco, para dizer o mínimo. Visual esquisito, um tanto desleixado. Mas, até aí, viva a revolução e vivam as diferenças, né? Ele não foi o primeiro e nem será o último cujas peculiares escolhas de indumentária vão fazer minha sobrancelha subir.

Eu falava pouco com ele e ele falava pouco comigo. Não sentávamos perto e, como a amizade com o quebeco surgiu logo nos primeiros dias (e como o cara ficava bem na dele na maior parte do tempo), não houve muita oportunidade pra interagir. Quando falo que ele ficava na dele, vocês têm de ter em mente que eu sou um cara na minha. Eu não saio batendo altos papos com desconhecidos. Quando falo com alguém que não conheço, acho que devo soar até meio formal demais. Mas esse cara é um nível diferente. Nas vezes em que ele era chamado a se manifestar na sala de aula, eu não entendia o que ele falava, não só pelo sotaque, mas porque ele tinha um jeito brusco de falar, meio "cortado". Tenho dúvidas até se os próprios professores entendiam tudo.

Aí, como comentei em outros posts, virei meio que "garoto sensação do momento" por causa do meu sotaque, de como me saía nas apresentações e nas notas. De repente, um monte de gente ficou curiosa a meu respeito e se aproximou. Eu fui receptivo com todo mundo, morrendo de vergonha, porque estar no centro das atenções definitivamente não é o meu habitat natural, mas posso dizer que foi legal ver as pessoas me aceitando, me recebendo e, de certa forma, me admirando (se já esqueceu, releia o parágrafo ali em cima sobre a minha dificuldade para fazer amizades e tente imaginar como eu me senti. Não tem nada a ver com "me achar"). Mas o tal cara, não. Não falou nada, não perguntou nada, não fez nada. Continuou como sempre tinha sido até ali.

Até que descobrimos que moramos no mesmo prédio.

Foi justamente no dia da minha primeira apresentação "séria", com plateia e avaliação. Aquele dia foi o início da minha "consagração" pela turma e, quando voltei pra casa depois da aula, pimba - trombei com o cara na entrada do prédio. "Ah, você mora aqui?", "Moro! Você também?, "Que coincidência!", e todo aquele papo de comadre no elevador. Aí ele fez o convite pela primeira vez:

- Vamos lá no meu apartamento pra você conhecer!

Se você, saliente leitor(a), pensou alguma bobagem, eu não te culpo. Mas, por hora, relembre apenas que eu sou uma pessoa discreta, não socializo fácil, sou de Brasília (que, segundo pesquisas informais, só rivaliza com Curitiba no quesito "pessoas frias que não fazem amizade com alguém de manhã e já chamam pra festa de família à noite"), tenho um histórico de passatempos que dão sono na maioria das pessoas. Então, minha resposta foi um reflexo desse contexto.

- Ah, obrigado! Quem sabe outro dia?

E fui embora pro meu apartamento. Até aí, tudo bem. Ele podia só estar sendo simpático e cordial (tipo "beijomeliga") e nem querer que eu fosse mesmo lá. Foi uma das razões que me fez recusar. Sou de uma cultura em que às vezes as pessoas falam só por educação; então, na dúvida, melhor recusar. E tudo bem.

Só que, depois desse dia, praticamente todas as vezes em que eu esbarrava com o cidadão na escola, ele falava que eu podia ir ao apartamento dele na hora que eu quisesse. Eu agradecia e saía andando. Só que ele começou a mudar o discurso. Em vez de falar que eu podia ir ao apartamento dele, começou a falar que eu devia ir. E também que ele queria ir ver como era o meu apartamento. Comecei a inventar desculpas e a ver que tinha algo estranho ali. Afinal, com meu parco conhecimento de mundo, ninguém fica insistindo tanto assim para que você vá visitar, a não ser que seja aquela sua tia solteirona esquecida por todos. Achei melhor ficar na minha.

Mas aí, um belo dia, eis que esbarro com o dito cujo novamente na entrada do prédio.  "Danou-se", pensei. "Lá vamos nós de novo". E claro que ele veio falar comigo e me dizer pra ir ao apartamento dele. Quando recusei, ele disse:

-Então vamos lá ao seu apartamento agora para eu ver como é.

Prendi a respiração. "Quer saber?", pensei, "vamos acabar logo com isso então".

-Claro, vamos lá. Já te adianto que não tem quase nada, porque não comprei mobília ainda.

Abri a porta (tomando o cuidado de deixá-la bem aberta, mesmo depois que entramos), mostrei o apê pra ele (não que ele não pudesse ver tudo já da porta; afinal, é uma quitinete, né?), ele fez sugestões sobre o que eu deveria comprar (!), eu agradeci, e aí ele resolveu ir embora - não sem antes tentar me levar de novo pra conhecer o apartamento dele, mas eu recusei mais uma vez. Ele insistiu, e então eu falei que iria no dia seguinte depois da aula. A ideia era que, se eu acabasse logo com isso, ele ia ter que parar.

No dia seguinte, pedi pra um colega do curso me acompanhar e fui lá conhecer o apartamento do cara. Nada de mais, olhei tudo rapidamente só pra constar, agradeci e fui embora. Respirei aliviado e achei que tudo acabava ali.

Mas não. Nos dias subsequentes, sempre que o cara me achava sozinho na escola, ele vinha me falar pra eu ir de novo ao apartamento dele. Eu comecei a falar que já tinha ido conhecer, que era legal, mas que eu não precisava ir lá de novo. Ele falava que a gente podia jogar alguma coisa, ou ele podia ir ao meu apartamento e jogar vídeo game. Eu lembrava que ainda não tinha comprado nada pro apartamento (o que continua sendo verdade até hoje) e pronto. Mas todo dia ele, em algum momento, vinha falar as mesmas coisas: "já comprou móveis?", "e a televisão?", "vai lá pra casa hoje!", "me avisa quando você tiver televisão pra eu ir jogar vídeo game com você".

Até o final do curso, foi enchendo o saco, mas não passou disso. Era irritante, inconveniente, mas, como eu tinha meu grupinho de amigos de turma por perto na maior parte do tempo, o cara ficava à distância. Quando surgia uma brecha, ele ia falar comigo ("vai lá em casa hoje!", "já comprou a televisão?"), mas eu respondia com monossílabos e não dava corda. Inconveniente, mas não ia além disso.

Só que, como falei ali em cima, quando as aulas recomeçaram, descobri que tinham me separado dos meus amigos mais próximos. Caí numa turma em que não conhecia praticamente ninguém, e os poucos remanescentes da turma anterior não tinham porque estar comigo o tempo todo. E essa era a oportunidade dourada que o cidadão insistente precisava: "Oba! Ele está sozinho! Minha vez! \o/".

-Seu melhor amigo não está mais com você - foi a primeira fala dele no primeiro dia de aula.
-Pois é.
-Vocês vão continuar amigos?
-Hum-hum.

E aí ele retomou a ladainha sobre a mobília, a televisão e tudo o mais. Mas acrescentou uma particularidade diante da minha resposta:

-Vai lá em casa hoje depois da aula.
-Desculpa, cara, mas olha... eu realmente não sou muito de ir pra casa dos outros, principalmente sem motivo.
-Ah, a gente arranja alguma coisa pra fazer.
-Não, obrigado. Eu tenho minhas próprias coisas pra fazer.
-Então eu vou pro seu apartamento pra tomar um banho.

Não faço ideia da cara que eu fiz pra ele, mas sei que o que falei foi:

-Não, não vai mesmo!
-Por quê??? - ele perguntou como se fosse algo inconcebível.
-Porque não estamos com falta de água, você pode tomar banho na sua casa e eu não consigo imaginar porque você iria tomar banho no meu apartamento.

Ele resmungou alguma coisa e foi embora. E foi só nesse dia que eu realmente comecei a pensar que havia uma possibilidade de que, em algum momento, eu estivesse chegando ou saindo de casa e desse de cara com a Glenn Close em Atração Fatal.




Fui falar com o coordenador do curso e dei entrada num pedido de mudança de turma. Não mencionei a história do cara porque não queria expô-lo, complicar as coisas e também correr o risco de ser mal interpretado. Motivei o pedido apenas com base na minha vontade de ficar com os colegas da turma anterior - e esse teria sido o único motivo mesmo. E torci para que desse certo.

Só que a coisa ganhou outros contornos. Além de fazer as mesmas perguntas todos os dias, o cara começou a forçar a barra para sentar do meu lado e participar dos grupos de trabalho em que eu estava. Num espaço de dois dias, o que era só inconveniente antes ganhou contornos de perseguição pra mim. Ele começou a me falar coisas como:

-Eu vejo você às vezes voltando do supermercado com as sacolas.

Ou:

-Eu vejo você indo para a biblioteca.

"Vê"?? Vê como? Me avista por acaso na rua ou tá de olho no que eu tô fazendo?




A gota d'água foi na sexta-feira. Na semana anterior, o quebeco me chamou para a casa dele para jogarmos vídeo game e assistirmos seriados. Contexto completamente diferente do outro cidadão; então eu fui e levei meu vídeo game. No final, como realmente não tenho TV, e como eu queria mostrar um pouco mais de apreço (e gratidão) pelo meu amigo canadense, ofereci para que ele ficasse com o equipamento por uma semana. Ele se amarrou e eu deixei tudo lá. Combinamos que ele me levaria nessa última sexta e ele cumpriu o acordo. Tivemos uma atividade que envolveu as duas turmas do último nível do curso e o meu amigo aproveitou para me devolver o vídeo game ao final da atividade.

E o sujeito obscuro viu.

Quando meu amigo saiu, lá veio ele:

-Você já comprou a televisão?
-Não.
-Mas eu vi o seu melhor amigo te entregando um aparelho...
-Sim, eu tinha deixado na casa dele e ele me devolveu.
-Então você ainda não tem TV?
-Não.
-Hmmm... Não esqueça de me avisar quando tiver.
-...

Assim, ficou EVIDENTE pra mim que ele desconfiou que eu estivesse mentindo pra ele, que tivesse comprado a televisão e não tivesse chamado ele pra jogar vídeo game, enquanto jogava escondido com o meu "melhor amigo". Agora, me diz: que obrigação eu tenho de falar pra ele o que eu compro ou deixo de comprar, o que eu faço ou deixo de fazer, e com quem eu faço ou deixo de fazer??

Voltei ao coordenador do curso logo depois da aula. Eu vi, pela linguagem corporal dele, que ele ia negar meu pedido de mudança de turma. Então, assim que ele pediu que eu entrasse e me indicou a cadeira, já fui falando:

-There have been developments.

E aí ele voltou toda a atenção pra mim, o que achei muito legal da parte dele. Escutou a história toda. Na parte em que o cidadão falou que viria tomar banho aqui em casa, ele arregalou os olhos, deixou a boca aberta, soltou um risinho de nervoso e foi direto pro computador. Quando mencionei que uma garota da turma virou pra mim na quinta-feira e perguntou se eu já tinha notado que o cara ficava virando a cabeça pra olhar pra mim o tempo todo na sala de aula (e não, claro que eu não tinha notado. Eu faço o possível pra nunca olhar em qualquer direção em que ele esteja), o coordenador pulou da cadeira, pegou o telefone e disse:

-Estou te mudando de turma agora. Normalmente, não fazemos isso, muito menos para reunir colegas separados, mas essa situação é completamente diferente.

Pediu meus dados pra secretária, fez a alteração no sistema, me passou o número da sala nova e terminou com uma fala que eu sei que teve a melhor das intenções, mas que fez com que eu quisesse passar a noite num hotel:

-Olha, como coordenador eu não posso fazer nada fora daqui. Não acho que ele seja perigoso, mas a gente nunca pode ter certeza, e você me disse que ele mora no mesmo prédio que você. Então, vou pedir que você fique atento. Se as coisas continuarem desse jeito ou piorarem aqui na escola, venha me ver novamente. E, se isso continuar fora da escola, venha me ver também. Mesmo que eu não possa agir diretamente, posso pelo menos indicar onde você pode conseguir ajuda.


Considerações finais (pelo menos, por ora)

Então, taí meu primeiro problema pra valer em terras canadenses. O que acharam? Pra quem tava pensando que eu ia só chorar por não estar com o meu "melhor amigo", a trama se complicou, né?  Pra finalizar, algumas considerações:

1) Apesar das alusões e brincadeiras com imagens que fiz ao longo do texto, não acho que nada na situação tenha cunho sexual ou de obsessão. Como disse pro coordenador do curso, acho que o cara deve ser bastante solitário e não tem muito tato para fazer amizades. É possível que tenha algum distúrbio que o impeça de entender que certos comportamentos afastam as pessoas em vez de aproximá-las, e isso faz com que ele meta os pés pelas mãos na hora de tentar fazer amigos. E só;

2) Sei que uma das perguntas que provavelmente vai aparecer nos comentários ou por e-mail é: "de qual país ele é?". A curiosidade é natural, mas eu sinto dizer que não vou responder. Por mais que, pra muita gente, seja só mesmo curiosidade, há outras que criam e propagam estereótipos que nada têm a ver com um país ou com o restante da população. Se eu falo aqui de onde ele é, na próxima vez que alguém escutar esse país sendo mencionado em algum lugar, a primeira coisa que vão lembrar é que o cidadão esquisito é de lá. E, se a menção for de algo ruim, tá armado o circo: notícia ruim + o cara estranho de quem o Doug falou = país de gente doida. Então deixemos assim mesmo porque a nacionalidade dele não afeta nada do que relatei aqui;

3) Começo na outra turma amanhã, se o universo não inventar de bancar o engraçadinho pra cima de mim de novo. E, sim, estou muito feliz por poder passar as próximas cinco semanas com meus amigos do curso anterior, e com o quebeco em particular! Como mencionei alguns posts atrás, sei que é o tipo de amizade que dura apenas enquanto durarem as aulas. E, por isso mesmo, quero aproveitar o máximo possível a companhia deles durante as próximas semanas!

E que o meu perseguidor me esqueça!

À bientôt!

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Três meses de Canadá!

Segunda-feira passada, completei três meses de Canadá! Agora posso dar  meu testemunho de fé: realmente, passa muito rápido!





Olhando pra trás, o primeiro mês foi o mais lento. Mesmo com todas as pendengas pra resolver (tirar documentos, comprar número de celular, procurar apartamento, etc), lembro que parecia que estava levando uma eternidade para cada semana passar. E eu achando ótimo, porque o que mais queria (e ainda quero) é ter tempo para absorver as novidades. O segundo mês foi gasto com menos obrigações e mais passeios. Foi também o mês da mudança pro apê que aluguei e do início das aulas na McGill. E o terceiro mês foi gasto única e exclusivamente com essas aulas, e acho que o tempo que elas me tomaram foi o grande responsável pela sensação de vídeo acelerado.

Então, depois de três meses, estou adaptado? Acho que seria presunçoso responder "sim", mas também não posso dizer "não". Algumas coisas que eram um bicho de sete cabeças no início e faziam com que eu me sentisse o Chico Bento (como usar totens de auto-atendimento no supermercado ou não fazer ideia de pra onde a linha verde do metrô vai) já não despertam tanto receio ou estranheza. Outras, como pensar o tempo todo que meu francês precisa melhorar pra anteontem, me lembram que ainda tem muito chão pela frente.

Ainda que não esteja me sentindo totalmente "em casa", muita coisa já mudou pra melhor nesses três meses. Continuo com as minhas corridinhas três ou quatro vezes por semana; estou mais próximo de pessoas aqui do que jamais estive em sete anos de São Paulo; posso andar com geringonças tecnológicas na rua sem medo de que algum trombadinha passe correndo e leve ou que algum infeliz resolva brincar de sequestro-relâmpago comigo; também posso percorrer o mesmo caminho que uma mulher, ficando coincidentemente atrás dela o tempo todo, sem que ela ache que eu vou assaltá-la ou estuprá-la (em São Paulo, e provavelmente no resto do Brasil, bastavam 30 segundos de trajeto em comum para qualquer mulher começar a espiar por cima do ombro a cada 5 passos e ver se eu ainda estava atrás dela); tenho REALMENTE vontade de ir pra fora de casa e aproveitar meu tempo livre a céu aberto; e destravei completamente no inglês (a ponto de me assustar quando alguém me fala "bonjour" na rua).

Falando no inglês, terminei o módulo que estava cursando na McGill na sexta-feira passada. Sem dúvidas, me ajudou muuuuito!! Por mais que meu bloqueio fosse mais psicológico que linguístico, estar num ambiente de sala de aula foi de grande valia. E, de quebra, a gente sempre aprende algo novo, né? Tem sempre uma palavra nova, um phrasal verb do inferno, e até gramática que você não sabia que não dominava. Eu, por exemplo, me dei conta que nunca tinha estudado pontuação em inglês formalmente. Pontuava misturando regras do português com o que eu via em textos por aí (e até que dava certo). Mas foi bom sentar e ver como se faz o negócio direito. Além disso, conheci pessoas de vários cantos do mundo. E o mais legal desse processo é você perceber que os rótulos que você mesmo põe no início ("o cara do Irã", "a menina do Congo") vão sendo substituídos à medida que você passa a enxergar esse pessoal como gente de carne e osso como você. Então, eles passam a ser "meu colega Asghar" ou "aquela fofa da Martina". Caem as fronteiras, erguem-se as amizades, mesmo que sejam de sala de aula.

E foi tão legal esse período de aulas que realmente fiquei nostálgico no último dia. Tivemos festa de confraternização em que cada um levou um prato ou bebida típicos de seu país. Eu não cozinho (ainda), então saí na chuva e paguei caro num Guaraná Antártica, tudo pra ouvir o comentário "é bem doce" - mas faz parte, né? No fim, passei no módulo com A+, ganhei elogios mil dos professores (minha professora da tarde repetiu a frase "ainda não sei o que você está fazendo aqui" várias vezes ao longo das últimas semanas), e, contrariamente ao que todo mundo esperava, resolvi seguir adiante e fazer o último módulo. Só falta mais um mesmo, né? Ter um certificado a mais no currículo não machuca. E não é como se eu tivesse abarrotado de coisas para fazer. Embora exista a pressão interna pra dar um rumo pra vida, ainda estou tentando me manter fiel à ideia de dedicar o primeiro ano aos idiomas. Vamos ver se aguento!

E que venham os próximos meses!

À bientôt!

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O Curso de Inglês da McGill - Parte II

No post anterior, falei um pouco do meu objetivo, das expectativas e das primeiras impressões em relação ao curso de inglês que estou fazendo na McGill. Agora, vamos chamar o Jack e destrinchar em partes minha avaliação após quase quatro semanas de curso.

Nível da turma

Se você leu os posts anteriores relacionados ao curso, sabe que fiquei super feliz (embora surpreso) quando fui classificado no nível avançado, não só por constatar que meu inglês talvez não estivesse tão ruim assim, como também pela economia que eu faria. Vim pra cá pensando que talvez precisasse cursar uns quatro níveis do programa da McGill, então economizar a grana de dois módulos realmente me aliviou financeiramente.

Quando comecei na turma, achei que seria um dos alunos com nível mais macarrônico. Afinal de contas, terminando esse curso você já cumpre o requisito de idioma para ingressar na graduação, mestrado ou doutorado na McGill. Então, poxa, o que você espera? Que o nível avançado seja fodasticamente difícil e que as pessoas ali recitem Shakespeare enquanto dormem, né?

Só que não é bem assim.

Eu comentei que meus colegas de turma vêm de várias partes do mundo. Então, é claro que todos têm sotaque (inclusive eu), uns mais fáceis de entender, outros mais difíceis. Se o problema fosse o sotaque, tudo bem. Mas gente... há pessoas na minha turma que mal conseguem terminar uma frase quando abrem a boca. Não são a maioria de forma alguma, mas existem essas pessoas. A grande parte da turma começa uma frase e tem de recomeçar porque não sabe concluir. Fazem vários errinhos de concordância, tempo verbal, uso de artigos e pronúncia. Na escrita, a coisa é pior: não só erros de ortografia, mas de coerência, lógica e estrutura. Ouvi a professora da tarde perguntar pra pelo menos dois alunos se eles não se sentiriam melhor num nível mais baixo. A resposta, claro, é não. Afinal de contas, se eles foram aprovados nos níveis anteriores, por que raios teriam de regredir, não é? No meu caso e no do quebeco, por exemplo, como é a nossa primeira sessão, poderia até ter havido um erro de avaliação. Afinal, os avaliadores são humanos e eles têm, basicamente, um texto de algumas linhas  e uma conversa de, em média, 10 minutos com o aluno. Então poderiam ter cometido um engano. Mas quando o aluno já faz aula na escola há um tempo, é passado adiante e chega no nível avançado sem conseguir se expressar... difícil não achar a avaliação dos professores em sala deixa a desejar.

Fora isso, a turma é show! Nunca me imaginei dando risada com um iraniano de 40 anos (a média de idade parece estar em algum lugar ali pelos 25, 26 anos, mas tem um punhado com mais de 30), apresentando trabalho com uma vietnamita, ouvindo um pouco de história do Oriente Médio por meio de uma libanesa ou sendo comido vivo com os olhos por uma equatoriana. E, com gente com nomes como Rola, Porras e Aladin (eu juro!!!), não tem como você não dar umas risadas.

Nível das Aulas

Contrariamente ao que se poderia esperar, dado o nível da turma, o das aulas é diferente. Dá pra dizer que o módulo avançado realmente tem conteúdo avançado. Embora os professores tenham excelente dicção e falem pausadamente (o que facilita a opinião de qualquer um), eles falam sem parar. Então, se a sua compreensão não é lá muito boa, você pode se perder ou deixar de notar alguns detalhes. Já teve gente que deixou de entregar tarefas e trabalhos porque entendeu mal as datas ou não tinha entendido que era pra imprimir levar fisicamente em vez de mandar por e-mail.

Da mesma forma, não deixam passar nada na escrita. Comeu uma letra, errou o tempo verbal, trocou ripe por rape (aconteceu! Eu juro, de novo!!), pimba! Vai ter pontinho descontado. Se vai apresentar um trabalho oral e fica claro que você não domina o assunto e tem dificuldade para se expressar com as suas palavras, toma mais desconto. Há leituras com nível acadêmico para serem feitas, e trabalhos em que a escrita acadêmica é exigida. Em suma, a turma, no geral, pode estar mais no nível intermediário, mas o conteúdo do módulo realmente está mais pra avançado.


Professores

Como falei no post anterior, tenho dois professores. O professor da manhã cuida mais da parte escrita, enquanto a da tarde foca mais na parte oral. 

Eu tenho sentimentos confiantes em relação ao professor da manhã. Achei ele um tanto perdido nos primeiros dias. Não perdido no sentido de não saber o conteúdo ou como usar o projetor, mas, sim, no sentido de já estar fazendo a mesma coisa há tanto tempo que ele esquece que, pra turma, muita coisa é novidade. Então foi bem comum vê-lo começando a falar de uma coisa como se a gente já soubesse, daí ele perceber que ninguém estava acompanhando o que ele estava dizendo e aí ele se dar conta que não tinha de fato explicado nada. Isso desapareceu na segunda semana, mas foi um tanto desestimulante.

Esse professor faz o tipo sério e rígido. Dificilmente faz alguma piada e está 100% do tempo focado no conteúdo que precisa passar e no desempenho dos alunos. Ele não tem medo de chamar a atenção de um aluno individualmente ou da turma como um todo. Semana passada, chegou a dizer na lata que ele via muitos alunos ali que não tinham nível para ir para a universidade, tanto pelo nível de inglês como pelo de responsabilidade. Por outro lado, ele está sempre disponível para ajudar. Se você manda um e-mail, em geral ele responde depois de algumas horas. Se você precisa discutir algo com ele, ele marca um horário na sala dele ou abre um espaço na agenda de forma que facilite a sua vida. Ele realmente se dispõe a ajudar, mas ele segue o que parece ser o estilo norte-americano de ensino: ele passa o básico, o aluno vai atrás do resto e, se tiver dúvida, volta ao professor. Não tem essa de ficar correndo atrás do aluno e dizendo o que ele precisa fazer.

A professora da tarde é mais light em certos aspectos. A aula dela é sempre mais informal, ela faz piadas, procura estimular todo mundo a falar levantando temas polêmicos ou simplesmente pedindo a opinião. Corrige pacientemente cada erro de pronúncia, encoraja os alunos a reformular as frases ou sugere alternativas, tudo de um jeito que não tem o peso da palavra "erro". Ainda assim, experimenta chegar atrasado(a) na aula dela ou deixar de entregar um trabalho no prazo! Toda a ternura de vovó que faz bolo de fubá desaparece, e a mulher consegue fazer você se sentir cocô de mosca só com um olhar e duas ou três palavras. É de dar pena de quem está nessa situação.

Em suma, os dois são bastante competentes e responsáveis, sabem bastante sobre a língua e também como transmitir. Com uma turma em nível adequado, com certeza poderiam fazer bem mais, mas aí já não é com eles.

Volume de trabalho

Todos os dias de todas as semanas têm atividades em sala e para fazer em casa. Podem ser exercícios de vocabulário, gramática, vídeos para assistir, transcrições para fazer, leituras para fazer, parágrafos para escrever... enfim, tem de tudo. Eles ocupam um bom tempo dos horários de aula e um bom número de horas depois (varia de acordo com o dia e a semana, mas eu diria que pelo menos duas depois do curso são necessárias todos os dias para fazer tudo).

Fora isso, toda semana tem, pelo menos, um "grande" trabalho para ser entregue, com regras, prazo, notas e o pacote todo. Na primeira semana, tive que assistir o vídeo de uma palestra gravada e fazer uma resenha crítica dela. Na segunda, pude escolher uma palestra e fiz o mesmo, mas, dessa vez, em sala de aula (a primeira, mandamos por e-mail). Além disso, tive que fazer uma apresentação oral de 15 minutos sobre um tema que eu quisesse (falei sobre o Brasil, mas NÃO, não falei de samba, praias, carnaval, futebol, nem bossa nova).

Ainda na segunda semana, tive que ler um artigo escolhido pela professora e explicá-lo a um grupo de pessoas. Essa atividade foi gravada com um aparelho para a professora poder escutar fora da aula (depois, os arquivos são disponibilizados no site da McGill para os alunos escutarem e perceberam os erros indicados na ficha de avaliação). Na terceira semana, tive uma atividade semelhante: tive que ouvir um programa de rádio (sem transcrição) e contar a outro grupo de pessoas do que se tratava, tudo com as minhas palavras, e dar a minha opinião no final (tudo gravado também).

Esta semana, tive as apresentações em grupo. A primeira foi uma explicação de uma seção de gramática da língua inglesa. Fiz essa apresentação com o quebeco. A segunda foi a apresentação de uma palestra que assistimos. Eu, o quebeco e o japonês da turma tivemos que resumir as informações e apresentar nossa opinião sobre o tema da palestra e a posição do palestrante. A terceira, que foi hoje, inclusive, dizia respeito a um estilo musical (de livre escolha) e sua relação com a sociedade. Fiz com o quebeco e a vietnamita da turma e, por milagre divino, nenhum dos dois é obcecado por música - assim como eu, pra falar a verdade. Eles deixaram pra eu escolher, e então, obviamente, puxei a sardinha para o meu lado: falamos sobre trilhas sonoras de filmes e video games! Não sei ainda a opinião da professora, mas eu adorei fazer esse!

Para a semana que vem, sei que terei que gravar um podcast, mas ainda não tenho detalhes. E, para a última semana, o projetão final: uma pesquisa séria, usando artigos acadêmicos como fonte, sobre um tema de livre escolha. O trabalho deve ser todo formatado com o padrão utilizado em boa parte das universidades da América do Norte, e tem todo um procedimento a ser seguido. O objetivo é familiarizar os alunos com o tipo de trabalho que eles vão encontrar na faculdade. Ainda na última semana, esse trabalho deve apresentado oralmente para os dois professores.

É, amigo, não tem the book is on the table por aqui não!

Instalações

A unidade da McGill onde os cursos são dados são realmente um primor. Projetores e sistema de som em todas as salas, aparelhos para uso de alunos e professores (como os gravadores), laptops, mesas e cadeiras confortáveis, climatização que não deixa você passar frio ou calor, microondas para você esquentar sua marmita... enfim, toda uma gama de comodidades para tornar a sua vida mais agradável, já que, fazendo esse curso, você passa boa parte do dia lá.

Fora isso, há laboratórios de línguas que fica à disposição dos alunos. Neles, além de praticar a pronúncia e treinar os ouvidos, você pode também fazer os trabalhos que são pedidos em sala. Todos os programas necessários estão lá, e o acesso à Internet é ilimitado. Há também uma "clínica" de pronúncia, destinada aos alunos que têm dificuldade para pronunciar certos sons, e um laboratório de texto, voltado para quem tem dificuldades para escrever. Para essas duas últimas, contudo, você precisa ser "recomendado" pelos professores (ou seja, se você é escalado para essas aulas, é porque o negócio tá ruim).

Como aluno do curso de inglês você também tem acesso à biblioteca da faculdade. Nem sei quantas tardes (e noites!) já passei lá desde que o curso começou! Eles te levam pra uma sessão de orientação, de forma que você aprenda como usar a biblioteca, o que precisa fazer para pegar um livro emprestado, como fazer uma pesquisa sobre determinado assunto e outras coisas. Além disso, você também tem acesso aos sistemas da universidade. Tudo é explicado na primeira semana e você sempre tem a quem perguntar, em caso de dúvidas.

E aí, tudo isso tá te servindo de alguma coisa?

Muito! Como falei no post anterior, eu me inscrevi no curso com o objetivo de me destravar, de ganhar mais confiança e não ter medo de falar com as pessoas inglês. Eu posso dizer honestamente que, ao final da primeira semana, eu já estava todo desbloqueado (sinal de que a trava é mais psicológica que linguística). No meu segundo dia, já criei coragem para ligar para o provedor de internet e contratar o serviço. Já fui parado não sei quantas vezes para dar informação na rua e, mesmo de supetão, consegui me expressar numa boa. Já bati papo com estranhos, fiz pedido em restaurante tailandês e telefonei para central de suporte técnico. Enfim, embora eu sempre vá ser um não-nativo e sempre vá esbarrar com palavras, expressões ou gírias que nunca vi antes, posso dizer que não senti nenhuma carência em relação ao inglês nas últimas 3-4 semanas. O que não quero que seja entendido como "estou me gabando" e, sim, como "que alívio que esse bloqueio sumiu".

Enfim, embora eu não possa falar sobre os outros níveis do curso de inglês da McGill, posso dizer agora que o avançado deles realmente dá pra ser encarado como avançado. O fato da minha turma, em média, estar no nível intermediário não chega a me atrapalhar, até porque alguns ali são, de fato, alunos avançados. Enfim, como em qualquer curso, há coisas boas e ruins, e aí acho que depende mais do objetivo de cada um saber se vale mais a pena fazer um curso assim.

Se alguém tiver dúvidas sobre esse curso, pode deixar nos comentários ou me mandar por e-mail.

À bientôt!

sábado, 23 de maio de 2015

O Curso de Inglês da McGill - Parte I

Um tempo atrás, escrevi um post contando que tinha entrado no curso de inglês da Universidade McGill. Ontem terminei a terceira semana (de um total de seis) do módulo em que estou matriculado, e só não escrevi antes porque, primeiro, queria dar uma opinião com mais substância (e não dá pra fazer isso com um ou dois dias de aula); segundo, estava sem internet no apartamento e dependia das bibliotecas pra usar wi-fi; e, terceiro, os trabalhos do próprio curso deixavam pouco tempo livre pra eu usar a internet para postar.

Mas eis que surge, radiante e belo (aí, hein, pai??), a minha opinião sobre o curso que estou fazendo! Não custa lembrar que é a minha opinião, sem embasamento científico e que não constitui verdade universal, ok?

Nível

O curso da McGill está dividido em oito módulos: dois elementares, quatro intermediários e dois avançados. É preciso fazer um teste de nivelamento para que determinem o seu nível. Eu fiquei no avançado. A questão do nível avançado é que ele é composto por dois módulos (A e B), mas você pode cursá-los em qualquer ordem. O Avançado A tem uma pegada mais acadêmica, enquanto o B é mais direcionada para o lado profissional. De qualquer forma, pra conseguir o certificado de proficiência, é preciso fazer os dois módulos, independente da ordem. Eu optei por começar pelo módulo acadêmico.

Então, infelizmente não sei falar nada sobre os níveis elementares e intermediários, exceto que exigem um conhecimento básico prévio do idioma pra você entrar mesmo no primeiro nível do curso. Mas não sei exatamente o que seria esse "conhecimento básico prévio", porque... bom, acho que vai ficar mais claro ao longo da postagem.

Objetivo e motivação

Meu objetivo principal não era aprender present perfect ou as regras para se dobrar as consoantes de verbos no gerúndio ou particípio. Resolvi fazer o curso porque eu queria destravar! Se você aí, caro(a) amigo(a) leitor(a), passou os olhos pelos meu posts sobre a chegada e os primeiros dias, deve ter notado que eu mencionei como as frases vinham bonitinhas à minha cabeça, mas eu não conseguia colocar pra fora. Ansiedade, complexo de inferioridade, angústia e outros companheiros que só Freud mesmo.



E por que a McGill? Falo de novo, não tem problema. Porque é uma universidade muito bem conceituada não só no Canadá, mas em rankings internacionais. Tá certo que o curso de inglês não deve ter nada a ver com esses rankings, mas é aquela coisa de confiar mais em quem já tem fama de fazer o negócio certo. Outro ponto é que a McGill aceita o certificado desse curso como prova de competência linguística para ingresso nos cursos de graduação e pós. Ou seja, em tese o troço é tão bom que eles dão a cara a tapa e dispensam outros testes (como TOEFL e IELTS). Além disso, algumas pessoas que eu conheci aqui e que fizeram ou estão fazendo o curso lá recomendaram fortemente. Então, né, gente? Quer mais o quê? Cobertura de caramelo?

Primeiros dias

Eu estava feliz que nem pinto no lixo com a ideia de voltar para um curso, mesmo sendo de inglês, algo com que tenho contato desde a época do guaraná com rolha. Então fui que nem o Emo-Aranha pro prédio da McGill onde seriam minhas aulas.



Já lá dentro, procurando a sala, captei uma conversa de corredor em que dois colegas de curso se reencontraram. A menina disse pro cara que ela não ia estudar com ele porque tinha sido reprovada e ia refazer o nível que eles tinham cursado juntos na sessão de inverno.

"Cristo Rei", pensei, já sentindo o esfíncter dar aquela mexida, "o povo é reprovado por aqui! Não é pagou-passou!"

O que, na verdade, me deixou ainda mais feliz, mas fez eu pensar que eu provavelmente seria um dos mais Uga-Buga da turma na hora que abrisse a boca para começar a falar. Mas já tinha saído na chuva, né, então se molhar era inevitável.

Achei minha sala e sentei na primeira cadeira vaga que vi. Já havia algumas pessoas na sala, mas todo mundo concentrado no seu mundinho (o celular). Dali a um tempo, o professor chegou, se apresentou e aí fez algo super diferente e inovador: pediu pra todo mundo se apresentar e contar um pouco da sua história. Tá certo que, na verdade, ele dividiu a gente em grupos para que conversássemos entre nós e, depois, apresentássemos uma pessoa do grupo. Caí com uma francesa que não queria papo nenhum, então só consegui arrancar dela que se chamava Camille, e isso quase tendo que pagar 10 moedas de ouro canadenses pra ela abrir a boca.

Ótima deixa para eu falar do quesito "variedade cultural" da sala de aula. Somos 22 alunos no total. Há três francesas, duas venezuelanas, uma equatoriana, duas mexicanas, dois chineses, uma vietnamita, um japonês, uma congolesa, um mauriciano, um saudita, uma camaronesa, um iraniano, uma libanesa, um líbio, uma sul-coreana e um quebeco (uia!), além do brasileiro aqui. Achei isso sensacional! Me amarro em ter gente de todos os cantos, porque ajuda a desconstruir estereótipos e você passa a enxergar as pessoas não como nacionalidades, mas como... pessoas. Já no primeiro dia, me aproximei do japonês e do quebeco (ou eles se aproximaram de mim, melhor dizendo, falando que meu sotaque era britânico), e o quebeco virou meu "melhor amigo" de sala de aula. Nunca imaginei que conheceria um quebeco assim tão rápido, e muito menos que ele fosse virar meu parceirão de sala de aula. Já li tantos relatos sobre a frieza dos canadenses/quebecos que eu não estava contando com nada como o que aconteceu. Eu e ele só não falamos mais bobagem e damos mais risada porque só ficamos seis horas dentro da escola. Claro que eu sei que só vai durar enquanto estivermos no curso, mas, ainda assim, foi uma surpresa pra mim.

Mas voltando. Ainda no primeiro dia, tivemos que fazer uma pequena redação para que o professor pudesse avaliar nossa escrita. Somos avisados, no dia do teste de nivelamento, de que nosso nível pode ser alterado se o professor julgar que o aluno está mais forte ou mais fraco do que o nível em que foi classificado. Ninguém saiu dali. Conclusão lógica: todos escreveram bem. Guardem isso.

Aí veio a primeira parte das letras miúdas do curso: as tardes de segunda e sexta são para o que eles chamam de "Guided Studies", um período que, teoricamente, os alunos devem usar para tirar dúvidas com os professores, trabalhar nos projetos que são desenvolvidos, usar o laboratório de línguas, enfim, estudar e praticar por conta própria. Na prática, é uma carta de alforria pra você ir pra casa, encher a cara, fazer compras, se harmonizar com Gaia, ou o que quer que você faça quando sobram algumas horas no dia. Eu tenho sentimentos conflitantes quando a isso. Por um lado, se você é um estudante dedicado, você vai fazer bom uso disso. Os professores ficam por lá, você pode ir conversar com eles, tirar dúvidas, pedir orientação, tem biblioteca que você pode usar, enfim... os recursos estão lá. Por outro, o curso é vendido como tendo 25 horas de contato por semana com os professores. Se você desconta as tardes de segunda e sexta, isso cai pra 20 horas. Então não está lá muito certo falar em 25 horas, sendo que isso praticamente não vai acontecer. Particularmente, tendo terminado a terceira semana, eu dou graças a Deus por ter essas tardes "livres" porque às vezes fico mega-ultra-atarefado com os trabalhos do curso. Mas, ainda assim, fica aquela pontinha de que eles vendem um peixe que não é assim tão fresco.

No segundo dia, o curso começou pra valer, com leituras, exercícios, discussões e coisas do tipo. Passaram o cronograma dos trabalhos, projetos, o valor que cada um teria na nota final, explicaram sobre as páginas da intranet da McGill a que temos acesso, o que é possível fazer nelas, como enviar trabalhos pelo sistema da universidade, informações sobre a carteira de estudante da McGill, etc. A turma mais entrosada, todos conversando um pouco com todos, o povo falando que meu sotaque era legal (!)... Cada módulo tem dois professores, um que fica pela manhã e, em geral, cuida mais da parte escrita, e outro que fica à tarde, que cuida mais da compreensão e expressão orais. Como não tivemos aula à tarde na segunda por causa dos tais "Guided Studies", só conhecemos a professora da tarde na terça. Dá-lhe apresentação de novo, todo mundo falando o nome, de onde vem, porque está ali e por aí ai. Chega a minha vez, repito minha história, e o comentário que ela faz em seguida foi esse:

- Estou achando muito interessante ouvir o seu sotaque. Deixa eu adivinhar: é australiano? Sul-africano?

No que metade da turma caiu na gargalhada e a outra começou a falar: "é britânico, é britânico!". A professora quis saber de onde vinha o raio do sotaque, e eu disse que, até dois dias antes, a única coisa que eu sabia é que eu tinha sotaque brasileiro. Falei que tinha estudado inglês em diversas escolas de idiomas, algumas mais voltadas para o inglês norte-americano, outras mais para o britânico, mas que, pra mim, era o sotaque brasileiro que aparecia mais, provavelmente misturado com a salada de sotaques que ouvia em sala de aula. Ela disse que não, e que eu poderia enganar as pessoas! Eu juro que não sabia onde enfiar a cara, e o povo da turma não ajudou: começaram a me chamar de "Australian guy" e de "my lord" (mas, graças aos céus, isso só durou alguns dias).

Eita, que o post já tá comprido e eu ainda nem tô perto de acabar! Então vou parar por aqui e continuo no próximo, ok?

À bientôt!

Clique aqui para ler a parte II!