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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Lá vai o imigrante pra clínica sans rendez-vous

Durei bastante sem precisar fazer visita a um médico aqui no Quebec. Mas, como ninguém é de ferro (e fator de cura ainda é coisa de histórias em quadrinhos), chegou o momento. 

Há uns dias, acordei com a garganta e a cabeça doendo, e também com um pouco de febre. Achei que pudesse ser uma gripe ou algo do tipo (eu tinha setecentos e quarenta e nove resfriados por ano no Brasil, além de crises de alergia e sinusite) e tomei a medicação que costumo tomar pra isso. Apesar de uma melhora nos sintomas, a garganta não ficou 100%. Aí abri o bocão na frente do espelho e logo ficou bem evidente que não era algo que ia sumir só com pensamento positivo e Advil.




Apesar de tudo, não estava morrendo, então descartei ir a um hospital. Recomenda-se deixar o hospital só para as urgências, porque o tempo de espera é grande e, se você não está morrendo, todo mundo que estiver mais para o lado de lá do que o de cá vai passando na sua frente. Fiz uma pesquisa na Internet para encontrar clínicas sans rendez-vous, ou seja, aquelas nas quais você vai sem ter marcado consulta. Achei uma que tinha uma avaliação melhorzinha por parte dos usuários e que ficava a uns 15 minutos de casa. De novo, a recomendação é para que se chegue cedo nessas clínicas, porque elas costumam lotar rápido. Embora já estivesse meio "tarde" (eram 9:40 quando saí de casa), resolvi arriscar. Foi bom pra conhecer o percurso e ver que o lance de chegar cedo realmente conta: quando achei a clínica, uma plaquinha na frente já anunciava: "Le sans rendez-vous est complet" (ou, em bom português, "cabô por hoje").

Achei que nem valia a pena sair à caça de outra clínica naquela hora, já que a situação provavelmente seria a mesma. E, de novo, eu não estava morrendo. Resolvi então acordar com as galinhas no dia seguinte (ou com os operários da construção na frente do meu prédio, o que dá praticamente na mesma. O povo madruga) e tentar a sorte de novo. A clínica abre às 7:30, e às 7:29 lá estava eu, o imigrante, em pé, na frente da porta, acompanhado apenas por uma mulher que estava agachada olhando o celular. "Tem gente realmente pior que eu", pensei. Logo apareceram outras pessoas e se formou uma pequena fila na frente da clínica. Às 7:33, a recepcionista abriu as portas. Fui o terceiro a ser atendido (deixei uma senhora, que estava lá antes de mim, mas na frente da porta errada, passar na minha frente). Quando chegou minha vez, ensaiei pra falar inglês, mas foi o francês que saiu. Falei que era minha primeira vez e que gostaria de ver um médico, mas não tinha hora marcada. Ela, sem sorrisos, mas profissional, pegou minha carteirinha da Assurance Maladie, fez um cadastro rápido (telefone e endereço) e me devolveu a carteirinha com  uma etiqueta com o número do meu dossiê. Aí a meia surpresa (porque eu já tinha lido casos assim): embora seja sem consulta marcada, o sans rendez-vous lá funciona com hora marcada. Ela pediu para eu voltar às 15 horas para ser atendido. E lá o imigrante foi cuidar da vida, porque ficar sete horas esperando lá, só se não tivesse mais nada pra fazer, néam?



Voltei à clínica às 14:50. Falei para a recepcionista (que era diferente da pessoa que me atendeu pela manhã) que tinha um horário sans rendez-vous (até agora acho isso meio insólito) às 15. Ela checou no computador e pediu para eu aguardar na sala de espera. Ambas as recepcionistas foram profissionais, mas não exatamente simpáticas. Raramente olharam para a minha cara e tinham aquele jeito de falar e agir de quem já conhece a rotina ali de trás pra frente, então não há muito espaço para sair do roteiro. Fui me sentar e só então prestei atenção de verdade na clínica: gente, juro que eu tinha a impressão de estar na sala de espera de algum dermatologista pra fazer limpeza da cútis. Poltronas, tapetes, quadros informativos, tudo tinindo de limpo e com cara de novo. Eu só havia entrado em uma clínica aqui antes, quando acompanhei o amigo que me hospedou num dia em que ele acordou não se sentindo bem, e já achei o lugar onde ele foi com cara de clínica privada. Essa na qual eu fui (Centre Médical Square Victoria) conseguiu ter aparência ainda melhor. Não faço ideia se todas as clínicas são desse tipo, mas essa me deu uma ótima impressão.

Não deu nem cinco minutos que eu estava sentado, uma enfermeira me chamou e me levou para uma sala de triagem. Pediu para eu sentar e descrever o que estava sentindo. Ela digitava todas as informações em um computador, fazia uma pergunta aqui, outra ali e, ao final, aferiu minha pressão e a minha temperatura. Em seguida, pediu para eu voltar para a sala e aguardar. Dez minutos depois, a médica me chamou. Extremamente cordial, pediu para eu me sentar e já falou: "A garganta está incomodando muito?" — sinal de que o meu prontuário foi eletronicamente da sala de triagem para o computador dela. Relatei novamente os problemas, ela me fez perguntas e me examinou. No fim, disse que estava em dúvida se eu estava com infecção viral ou bacteriana, porque eu tinha sintomas de ambas. Eu aproveitei e disse que eu tinha um histórico de infecções virais e que, por isso mesmo, achava que essa não era. Ela perguntou em quanto tempo eu me curava normalmente das virais e eu falei que os sintomas costumavam desaparecer completamente entre de 3 a 4 dias após a primeira manifestação, e eu tomava apenas medicação para aliviar os sintomas. A médica disse então que era provável que fosse bacteriana, mas que só com uma cultura pra saber. Ela informou que a cultura poderia ser feita ali mesmo, mas, como a clínica não realiza as análises no local, eu teria que pagar uma taxa para o transporte e análise do material. Eu disse que tudo bem.

—E eles mandam o resultado do exame direto pra cá? — perguntei.

—Mandam. Fica pronto em até 48 horas — respondeu a médica.

—E eu tenho que marcar agora pra voltar?

A médica parou, me olhou e franziu as sobrancelhas.

—Voltar?

—É — eu falei, achando que tivesse falado alguma bobagem em francês — Quer dizer, eu vou ter que voltar aqui pra saber o resultado e saber a medicação, né? Então já deixo marcado agora? Ou como funciona?

—Não, o senhor não precisa voltar — ela respondeu, meio incrédula — A não ser, claro, que não apresente melhoras. Eu vou lhe dar uma receita de antibiótico e o senhor vai ficar com ela. Quando o laboratório mandar o resultado da cultura, nós ligamos para o senhor para confirmar o diagnóstico e, se for realmente bactéria, o senhor pode começar a tomar o antibiótico. Não há necessidade de marcar nova consulta.

Acho que fiquei um tempinho com a boca aberta, mas consegui dar aquele sorriso meio sem graça e disse que não sabia, que era a primeira vez que eu estava me consultando com um médico no Quebec. Aí ela riu também, como quem diz "ah, agora eu entendi" e me explicou o funcionamento da clínica em linhas gerais, mas deixou claro que outras clínicas fazem certas coisas de maneira diferente. Achei essa médica bastante atenciosa e cordial. Eu, pra variar, estava com receio de ter dificuldade para entender e me fazer entender, mas foi bem mais tranquilo do que pensei, tanto pela simplicidade do atendimento como pelo nível linguístico necessário para interagir com o pessoal lá. Foi um alívio e tanto!

Agradeci e voltei à recepção, onde a secretária profissional fez a parte burocrática do pedido de cultura (incluindo a cobrança: 35 moedas de ouro canadenses) e me encaminhou para uma moça. Esta, por sua vez, me levou novamente para a sala de triagem, realizou a coleta em 2,47 segundos e me disse novamente que eles me ligariam para informar o resultado. Agradeci mais uma vez e, após aproximadamente 40 minutos de permanência na clínica, fui embora.

Posso dizer que fiquei bastante satisfeito — e surpreso! — com o atendimento geral. Já li tanta história de terror por aí que eu vivia agradecendo aos céus o fato de não ter precisado de atendimento médico de nenhum tipo até então. E agradeço mais ainda por, agora que precisei, ter sido algo simples e ter conseguido um bom atendimento. Vale lembrar que essa foi UMA experiência de UMA pessoa (este que vos escreve) em UMA clínica em UMA cidade do Canadá, para tratar de UM problema simples com UMA médica específica. Ou seja, você aí que está lendo, não tome esse relato como um exemplo da "saúde pública canadense" ou coisa do tipo. Pode ser que a média geral seja assim mesmo, ou pode ser que eu tenha tido sorte. Enfim, ainda assim, se você já está por aqui, pode valer a pena ir a essa clínica se você já não tiver uma de que goste. Ah, e se tiver passado por experiências semelhantes ou diferentes, nessa ou em outras clínicas ou hospitais, fique à vontade para colocar nos comentários. É o tipo de informação que vale a pena repassar :)

À bientôt!

sábado, 11 de junho de 2016

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte VII

Três meses de sumiço não é mole, não! Mas vou te contar, viu... que períodozinho lasquei esse desde o meu último post. Não foi só o tempo pra escrever, engolido pelas coisas que tive que fazer ao longo dos últimos meses, que me manteve afastado do bloque. Recebi uma notícia nada agradável do Brasil e tive que tirar um templo pra pensar na vida. Ninguém morreu (ainda bem!), mas, ainda assim, foi um período de luto que foi intensificado por tudo com o que tive que lidar: aulas, provas, imposto de renda, renovação da Assurance Maladie, celular estragado, o Hodor, renovação de passaporte, trabalho voluntário... nesses meses, mesmo as coisas pequenas tinham peso maior. Daí não tinha o que me fizesse realmente pensar em sentar e escrever (embora digam que ajuda).

Mas, cá estou! As coisas, ou melhor, o meu lado emocional está melhor agora. Como já mencionei ali em cima, muita água rolou, mas vamos com nosso querido Jack: por partes.




A Sessão de Inverno na UdeM

Eu já havia dado um apanhado geral do que estava achando das aulas nesse post aqui. Minha opinião não mudou muito de lá pra cá. O curso de Compreensão Oral cumpriu o que prometeu: fomos expostos a sotaques de francófonos de várias partes do mundo, mas com uma atenção especial para o francês falado no Quebec, claro. A professora se esforçava muito para não ser do tipo rígida, ou melhor, para não passar a impressão de ser sisuda, mas pra mim ficou claro que ela estava tentando representar um papel de professora gente boa. Acho que o que ela curte mesmo é pegar pesado com os alunos, mas só em alguns momentos ao logo dos três meses de aula chegamos a ver esse Mr. Hyde fora do Dr. Jekyll.

Essa aula é obrigatória, então ainda que eu não tivesse gostado teria que fazê-la em algum momento. Mas não me arrependo. Obviamente, não tem como o curso ou a professora ativarem uma chave mágica no cérebro dos alunos para que eles comecem a entender francês quebeco do dia pra noite. O que ela fez, além de dar uma lista enooooooooorme de sites e outros recursos onde podemos ouvir o francês daqui, foi chamar a atenção dos nossos ouvidos para certos fenômenos que acontecem no idioma. Foi assim que descobri que "sur + la" frequentemente vira "saaaa" (um "sa" alongado), da mesma forma que "sur + les" vira "sêêêê" (um "sê" alongado). Foi assim também que fui apresentado ao "fón", que é como alguns quebequenses pronunciam a palavra inglesa "fun" ("c'est le fun" vira "cél-fón"). Vimos também a ditongação que é feita em várias palavras ("jaune" é pronunciado "jôun", com "o" e "u" bem marcados) e o uso da partícula "tu" (sim, partícula, não pronome) como indicação de interrogação ("Il va tu au cinéma ce soir?"). 



Apesar de tudo ser muito interessante e de termos chance de ouvir esses fenômenos linguísticos em áudios e vídeos que a professora levava, acho que tinha gente na sala que achava que só saber essas coisas resolvia os problemas. A professora passava áudios e vídeos na sala, fazíamos exercícios (alguns em casa), mas ela falava o tempo todo: tem que escutar fora da sala de aula também. Rádio, TV, podcasts, séries, filmes, o povo no ônibus, na feira. Tem que ler também, porque ver a palavra escrita ajuda a reconhecê-la quando a ouvimos. Enfim, é um trabalho constante e sem fim. Se a pessoa vai pra aula, apura os ouvidos lá, mas volta pra casa ouvindo o idioma nativo, se encontra só com os amigos compatriotas, usa inglês pra fazer as coisas na rua... não tem curso que salve. E foi assim que, pra minha surpresa, vi uma quantidade razoável de pessoas se dar mal. Claro, não sei da vida de ninguém; muita gente estuda, trabalha, cuida dos filhos, do cachorro, e mil outras coisas; no máximo, tiro uma média pelo que me contam. Mas, sinceramente, a aula em si não é difícil se você tem o hábito, pelo menos, de escutar notícias em rádio, podcasts ou TV. A maior parte das avaliações se baseia em noticiários — o que facilita muito, pois os locutores/apresentadores falam de forma mais pausada e clara. Ainda assim, na última prova, vi algumas pessoas suplicando para ouvir o áudio uma última vez com fone de ouvido.

A aula de fonética, por outro lado, foi bem mais puxada. Fiz tanta pergunta e pedi tanto para ser corrigido pela professora e pelo assistente que nós três acabamos indo pra um bar um dia hahahahahaha! A professora é sensacional: bem-humorada, atenta, meticulosa, manja muuuuuuuito do conteúdo e consegue te esculhambar ainda parecendo ser sua melhor amiga. Era comum termos de ler palavras (no início do curso), frases e parágrafos inteiros (mais para o fim) em voz alta durante a aula, e se ela não ficava satisfeita pedia para a pessoa repetir quarenta vezes. Nessa aula eu via muito mais gente interessada do que na de Compreensão Oral — e, por interessada, quero dizer ralando pra fazer certo. Ainda assim, a própria professora comentava, de vez em quando, que ela conseguia distinguir facilmente os alunos que treinavam em casa daqueles que só se preocupavam em tentar fazer os sons certos quando estavam na aula. As avaliações e exercícios valendo nota eram todos gravados e enviados pra ela ou pro assistente, e sempre, sempre recebemos, além da nota, um comentário bastante detalhado sobre o que estava bom e o que estava ruim. E o melhor: tudo isso com litros de diversão durante a aula.

Vou te dizer que fiquei bem preocupado na metade do curso. Não com nota ou coisa do tipo; mas é que, em determinado momento, parecia que eu estava "desaprendendo" o que eu sabia e não estava conseguindo aprender o que não sabia. Lá ia eu falar com a professora ou com o assistente (às vezes, com os dois) e pedir, "me ajuda, me anima, me dá esperança, me exorciza!". 




E eles diziam que eu estava indo bem, que a minha pronúncia era boa, o assistente dizia que eu soava como francófono em vários dos exercícios gravados, e eu dizia, "não, não, não, francófono de onde, da Índia?". E aí eles riam, indicavam uma coisa aqui e ali que eu podia tentar melhorar e ficava por isso mesmo. Até que um dia (o dia do bar), eu chorei as pitangas de novo e a professora me disse o seguinte:

—Doug, vou ser o mais sincera que posso com você. Obviamente, você não soa como um falante nativo do Quebec. Seu sotaque tem um pouco do sotaque brasileiro, mas tem muito do sotaque padrão francês, o que é normal, já que vocês aprendem o francês da França. Porém, o meu ponto é: você não tem problema algum de pronúncia; você não pronuncia "b" em vez de "v" como vários sul-americanos, você não tem dificuldade pra pronunciar e distinguir "ê" de "é", "ô" de "ó"; você pronuncia bem o "u" francês, você faz distinção entre "in", "en", "an", "on" e "un"... em suma, você não tem nada que eu possa chamar de problemas reais de fonética. Outros alunos tem alguns desses, e outros ainda tem todos, o que é de deixar qualquer um sem dormir à noite. O que você tem é uma coisa: medo de falar! Eu vejo a diferença na sua pronúncia quando você grava os exercícios e quando você está aqui, ao vivo, conversando. Em casa, gravando, você está relaxado, sabe que se fizer um erro é só apagar o arquivo, gravar de novo e pronto. Aqui, você sabe que não tem como fazer isso; você fica nervoso e isso faz com que você queira falar rápido, não para parecer fluente, mas para acabar logo porque você não quer errar e não quer ser julgado. Meu conselho continua sendo o mesmo desde o início: você tem que encontrar um modo de relaxar quando estiver falando francês. Tem que deixar de ter medo de ser julgado, de parecer estúpido, de ter que recomeçar uma frase porque não sabe como terminá-la, de trocar uma palavra pela outra. Tudo isso faz parte do processo de aprender idiomas. Eu te garanto, pelo que você já mostrou na aula, que se você conseguisse relaxar mais quando fala francês por aí, nem aqui fazendo o certificado você estaria.

O que que você fala pra uma professora que te diz isso tudo? Paguei uma rodada no bar, né?



É claro que ela tem razão. Pelo menos em relação à parte de eu precisar relaxar, porque, quanto à pronúncia, não acho que seja essa Coca-Cola toda, não. Mas, enfim, de lá pra cá, venho tentando superar a ansiedade também nesse quesito. Não vou dizer que tenha feito grandes progressos, não, pois ainda me cobro muito toda vez que abro a boca. Porém, pelo menos agora eu tento, durante os segundos antes de abrir a boca pra falar francês com alguém, pensar que eu não vou ser morto a tiros se falar alguma besteira ou não souber completar um pensamento. Tem dias que vai mais fácil, tem dia que vai mais difícil. Mas vai.

As aulas de Compreensão Oral e de Fonética acabaram no fim de abril. É sempre uma pena pra mim deixar de ir pra aulas das quais gosto, mas fazer o quê? A recompensa de tudo veio semanas depois: fiquei com A+ em ambas as disciplinas, o que me deixa com um média acumulada muito boa que pode ser útil para um eventual retorno à universidade. Pelo menos, o currículo tá ficando bonito :P

Ah, eu recomendo MUITO a aula de Fonética pra qualquer pessoa que venha pra cá! É sensacional o tanto que se aprende e, se você realmente colocar em prática o que for viso na aula, sua pronúncia com certeza vai melhorar bastante! Dá pra fazer como aluno livre na Universidade de Montreal, ou seja, não precisa se inscrever pro certificado inteiro pra poder cursar. Fica a dica!

À bientôt!

quarta-feira, 16 de março de 2016

Um ano de Canadá!!!!

Eu estou fazendo um milhão e meio de coisas, mas eu tinha que vir aqui pra deixar registrado: estou completando um ano de Canadá!!!




Nem tem como descrever um ano em algumas palavras. Mas posso dizer que estou bem. Estou muito satisfeito com as decisões que tomei e como tenho conduzido as coisas (ou elas têm me conduzido) até aqui. Estou longe de conhecer intimamente a cidade, o país, o modo de vida canadense, mas, aos pouquinhos, vou descobrindo. Uma rua diferente, uma expressão diferente, um rosto diferente, uma bebida diferente. Uma marca de chocolate diferente. Até um jeito diferente de fazer uma compra. Quando a gente muda pra um outro país, tudo é novo, tudo vale a pena ser explorado.

Passei pelas quatro estações! Vi as ruas quase desertas quando cheguei, o pessoal aparecendo timidamente quando a temperatura começou a ficar próxima de 0ºC, a invasão das bicicletas quando o gelo e a neve derreteram, o calor do capeta que faz em julho, o colorido do outono e todo mundo sumindo de novo no inverno. E adorei! Quando dei por mim, já estava falando para as pessoas que cheguei "no fim do inverno" e que estudei inglês "no verão" e, de repente, isso tinha sentido, sim!

Mas, acho que o mais importante, é que não sou o mesmo cidadão assustado que desembarcou no aeroporto de Montreal em 15 de março de 2015. Não que eu tenha deixado de ser o nerd tímido que sempre fui para ser estrela do rock popular. Certas coisas não mudam (ainda bem), mas é aquela típica situação em que posso dizer sem medo de exagerar: se eu soubesse como seria, teria me estressado menos :)

Para esse próximo ano, meu maior desejo (além de continuar cultivando o bem-estar que redescobri aqui) é poder dar um rumo profissional pra minha vida. Se tiver que voltar para a faculdade, vamos lá; se for pra ir pro mercado de trabalho direto, simbora; mas quero poder fazer algo que me deixe em paz comigo mesmo. Quero continuar construindo a vida aqui, em suma, pois acho (ainda só acho) que vim pra ficar.

Feliz um ano de Canadá pra mim!

À bientôt!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Meu primeiro -24ºC (com gostinho de -39ºC!)

Quando o cidadão resolve sair de um país tropical para ir morar em um país em que as temperaturas são baixas (pelo menos, pelos padrões brasileiros) durante a maior parte do ano, das duas uma: ou ele gosta de frio ou está disposto a encará-lo como um problema menor frente às vantagens desse novo país. Eu estou no primeiro grupo, mas a ideia de ter de enfrentar temperaturas beeeeeeeem baixas me deixava um tanto apreensivo. Será que eu iria gostar? Será que eu iria aguentar? Será que, depois de anos detestando o verão perene à la Westeros do Brasil, eu iria choramingar como um menininho em idade pré-escolar e pensar que, no fim, o calorão me fazia falta?

 Segundo os dados e os relatos do pessoal que conheço aqui, os dois últimos invernos foram de lascar. Bem mais frios e longos do que de costume. Eu cheguei na metade de março e encarei alguns dias de sensação térmica por volta dos -10ºC ou -15ºC, mas o povo falou que fez muito mais frio antes. Este inverno aparentemente também está fora da escala, mas do outro lado do medidor: o inverno demorou a começar pra valer, e as temperaturas registradas têm sido, em geral, mais altas que a média. Daí já comecei a pensar que ia ter que esperar no mínimo um ano pra poder conhecer o inverno mais de perto.

Porém, como bem falam por aqui, o inverno tarda, mas não falha, e isso significa que, mais cedo ou mais tarde, você descobre as respostas a essas (e outras) perguntas. Semana passada, finalmente tive a minha primeira grande experiência frigorífica no inverno montrealense! No sábado, tinha que devolver um DVD para a biblioteca. Olhei lá pra fora e tinha neve pra todo lado. Consultei a temperatura externa: -24ºC, com sensação térmica de -39ºC!! Quase caí pra trás! De repente, a curiosidade em experimentar frio pra valer foi substituída pelo receio de desaparecer em meio ao frio e ao gelo e só ser reencontrado em abril, com um aspecto mais ou menos estilo Han Solo na carbonita.



Fiquei naquela: "Vou? Não vou? Vou? Não vou?" e, nesse meio tempo, passaram algumas almas andando calmamente pela rua. "Almas" no sentido poético figurado, porque estavam todas bem vivas e indo cuidar da vida. Isso me renovou o ânimo e me lembrou do fato de que, se o povo fosse parar a vida porque está muito frio lá fora, o Canadá teria que se mudar pelo menos uns três meses por ano. Então, respirei fundo, me empacotei todo e lá fui eu, igual um bonequinho do South Park.




O momento em que você sai para o ar frio lá fora não é o melhor momento para dizer se você acertou ou não no indumentário. Como o corpo está quente por estar no aquecedor, você ainda conserva esse calor durante um bom tempo. Depois de alguns minutos do lado de fora, contudo, o calor excessivo se dispersa e aí você consegue ter uma noção de se o seu passeio pelo guarda-roupa foi eficiente. Eu tenho apenas um casaco feito para frio heavy metal de verdade. Os outros, foram trazidos do Brasil. Fiz uma combinação de roupas que julguei ser suficiente e, para aquele dia, acertei. Quando você não está acostumado com temperaturas abaixo de zero durante dias a fio, (e variando de -24º a -1ºC), não tem muito jeito: tem que experimentar o que funciona pra você e ir aprendendo com os erros. Esse casaco do qual falei me faz passar calor em temperaturas por volta de -5ºC, -10ºC. Então, combino as roupas e casacos que tenho aqui de forma a minimizar o frio e o calor. Sim, porque pode estar frio na rua, mas, quando você vai para o metrô ou entra em algum prédio, está quente, e se você estiver com 72 casacos, ou tira tudo e fica segurando, ou vai suar em bicas até voltar pra rua. Então, às vezes mais vale sentir um pouco mais de frio no trajeto casa-metrô-escola/trabalho do que ficar suando em bicas ou carregando roupas como se estivesse recolhendo donativos.

Enfim, a experiência foi bastante positiva, no fim das contas. Gostar ou não de frio é muito pessoal, mas acho que pouquíssimas pessoas diriam que adoram ficar sentadas no parque quando está fazendo -20ºC. O que o frio faz comigo é que me sinto mais disposto, com mais energia, e meu sono costuma ser bem melhor quando está friozinho do que quando está fazendo calor. E agora que sei que posso sobreviver a sensação térmica de -39ºC, acho que não preciso ter medo de sair de casa.

Quer dizer, ainda não experimentei tempestade de neve... Gê-zuis!

À bientôt!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Mundo Lingo

Desde que terminei o curso de inglês na McGill, tive que adicionar um item à lista de "coisas nas quais ficar de olho": dar um jeito de treinar o idioma para não enferrujar e não voltar a ficar inseguro. De início, não me empenhei muito, já que continuava usando inglês quando falavam comigo em inglês e não tinha problemas. Mas, depois de começar o curso de francês, notei que as palavras em inglês estavam começando a demorar um pouco mais que o normal pra vir à mente e — pior! — algumas não vinham ou vinham com versões afrancesadas. Longe de ficar totalmente feliz por ver o francês se tornando mais presente no meu dia a dia, comecei a ficar com medo de perder o nível que consegui no inglês.

Obviamente, em termos de leitura e compreensão oral não há grandes problemas pra se encontrar maneiras de praticar. O mundo inteiro é praticamente todo em inglês. É facílimo encontrar material de leitura na Internet, e as séries de televisão e os filmes mais assistidos do mundo são em inglês. Há podcasts de notícias, sobre economia, cinema, quadrinhos, filosofia, história; vídeos de diversos canais de televisão anglófonos mundo afora; e aqui no Canadá, com as bibliotecas, tudo isso é ainda mais acessível. O problema mesmo é para falar. Não sei quanto a vocês, mas eu não tenho o hábito de parar estranhos na rua pra puxar papo e treinar idiomas.




Sendo assim, comecei a procurar outras opções. Uma delas, que já uso há algum tempo, é se cadastrar em sites para conhecer pessoas de outros países, à distância mesmo. A maioria é mais focada em chats ou trocas de e-mails, mas já é uma maneira de treinar a escrita. Se você e a outra pessoa animarem, podem partir pro Skype, o que permite treinar a fala. Só que, na minha experiência, isso é muito incerto. A maioria das pessoas está nesses sites sem muito propósito ou apenas com uma vaga intenção de praticar idiomas. Nem sempre é fácil encontrar quem queira sentar sistematicamente uma ou duas vezes por semana para falar inglês durante uma hora, por exemplo. Boa parte aparece na primeira ou na segunda semana e depois some.

Então resolvi reexaminar uma ideia que me foi passada logo que cheguei aqui e que eu nunca tinha experimentado: o Mundo Lingo




O Mundo Lingo é um grupo de pessoas que se reúne semanalmente em locais e horas determinados e que tem por objetivo promover o encontro de nativos e de estrangeiros. É uma forma de facilitar a adaptação de estrangeiros a um país novo (ou mesmo de pessoas que mudam de cidade dentro de um mesmo país) e também de treinar idiomas diversos. Até o momento, eles realizam encontros em 13 países. Aqui em Montreal, são três dias por semana, em três locais diferentes. Se quiser conferir a agenda, clique aqui.

O esquema é bem simples: você vai ao local do encontro dentro do horário estabelecido, encontra a mesa de recepção do Mundo Lingo e fala qual o seu país de origem e quais as línguas você quer praticar. Eles te dão, então, bandeirinhas adesivas representando o seu país e aqueles cujo idioma você quer treinar. Aqui costumam dar a bandeira canadense e a do Quebec quando você diz que quer praticar inglês e francês, respectivamente (mas peguei a da França uma vez porque a do Quebec tinha acabado). Você cola as bandeirinhas na camisa em ordem de fluência e, depois disso, é só perambular pelo local ou encontrar uma mesa em que o pessoal também tenha bandeirinhas.



Há várias vantagens nesse tipo de encontro, na minha opinião. Primeiro, obviamente, você tem a possibilidade de encontrar nativos e de efetivamente conversar com eles (e não apenas aquelas "conversas" de loja ou supermercado, em que você dá bom dia, a pessoa te fala o preço, você paga e diz "até logo"). É muito legal poder falar com pessoas que nasceram e cresceram aqui, ouvir as opiniões deles sobre a cidade e sobre o país, sem falar no próprio uso local dos idiomas. Segundo, há gente de todos os cantos do mundo, o que significa que você também é exposto a sotaques diferentes, o que ajuda muito a treinar o ouvido. Terceiro, não há obrigação alguma em relação a com quem falar, em qual grupo ficar ou coisa do tipo. Não gostou de um grupo, vai pra outro! Aliás, mudar de parceiros de conversação é algo que é encorajado, mas nada te impede também de ficar com um só grupo se você está gostando da conversa. Quarto, é um ótimo jeito de fazer novos amigos, locais e internacionais, embora (de novo) ninguém seja obrigado a trocar telefones, contato de Facebook ou coisas do tipo. Na maioria dos casos que presenciei, as pessoas chegam, batem papo a noite toda, agradecem, se despedem e é isso. Quinto, ninguém está lá pra julgar sua habilidade. Não sou ingênuo de achar que ninguém tem sua opinião sobre quão bem ou mal o outro está falando, mas é um ambiente para que pessoas de todos os níveis pratiquem. Então, todos que vão sabem que encontrarão de nativos a gente uga-buga. Faz parte do pacote.

Ah, por último e muito importante: exceto pela sua consumação no local do encontro, é tudo grátis ;)

Eu fui três vezes até agora, e só não fui mais porque sou muito bicho-do-mato antissocial. Nas duas primeiras vezes, fui com um dos meus colegas quebecos. Daí tivemos problemas de horário nas semanas seguintes e eu, com receio de ir sozinho, deixei quieto. Chamei outras pessoas, mas elas tinham compromisso ou estavam com preguiça. Aí, finalmente resolvi ir sozinho e, pra minha surpresa, meu colega espanhol da aula de francês me mandou uma mensagem perguntando se eu não queria ir com ele. Topei, claro, mas ainda assim passei uma boa parte do tempo "sozinho" porque ele levou uma hora e meia pra aparecer. E "sozinho" está entre aspas porque não fiquei sozinho em momento algum. Primeiro foi um japonês, aí chegaram um português e um brasileiro, daí chegaram uma libanesa, uma sueca e uma egípcia, mais tarde chegou um canadense anglófono, tudo isso só na mesa em que eu estava. Ainda tive a chance de falar com um peruano e um britânico, além dos vários quebecos que sempre estão por lá.

Enfim, quem diria que eu, antissocial como sou, estaria recomendando encontros grupais entre desconhecidos, mas voilà. É claro que o que é feito no Mundo Lingo não é exatamente excepcional. Muita gente vai pra bares e pubs e simplesmente começa a bater papo com quem estiver por perto. A diferença,  pra mim, é que os eventos do Mundo Lingo (como os Meetups) têm o objetivo bem claro, e todo mundo que se dispõe a ir vai sabendo que todos estarão abertos. Se você também procura um jeito mais espontâneo e focado de praticar, fica a dica!

À bientôt!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Encomenda na porta e um gostinho de inverno

Uma coisa que sempre me chama a atenção por aqui é como algumas entregas são feitas. Pelo que deu pra perceber, quando as encomendas são pequenas e o dono do apartamento não está em casa, a encomenda é deixada no chão, na frente da porta do apartamento, desse jeito aí, ó:




Tirei essa foto numa segunda-feira e o pacote continuou na frente da porta por mais três dias (acho que o morador estava viajando). É algo impensável em boa parte do Brasil, como expliquei pra um dos meus colegas quebecos no último fim de semana. Não é que a maioria das pessoas no Brasil fosse roubar a encomenda; eu acredito que a maior parte da população deixaria o pacote lá quieto, e talvez alguns até o pegassem para depois ir bater na porta do dono e entregar em mãos, com o intuito de evitar que fosse roubado. Mas os brasileiros sabem que a probabilidade de que alguém acabe, digamos, dando um fim pra um pacote da Amazon dando sopa assim é maior do que a gente gostaria de admitir. Infelizmente, no Brasil, teria gente que pegaria o pacote só pelo fato de poder pegar, mesmo sem ter ideia do que encontraria na hora em que abrisse.

Ainda acho estranhíssimo esse tipo de coisa. Eu ainda não entrei totalmente no clima "estou seguro aqui" por dois motivos. Primeiro, tem todas as décadas vividas no Brasil e as minhas experiências de violência urbana (que são bem mais leves do que as histórias que muita gente vivenciou por aí, mas, ainda assim, violência urbana é violência urbana, e só quem é submetido a ela sabe o quanto é ruim). Segundo, por mais que o Canadá seja infinitamente mais seguro que o Brasil, ele não é Avalon. Há mais ou menos um mês, circulou pelos grupos de Facebook e listas de discussão o caso de uma brasileira que teve o condo invadido quando ela estava fora. Fizeram uma limpa levando, entre outras coisas, o laptop dela. Há algum tempo, li também sobre um casal brasileiro que surpreendeu o zelador do prédio fazendo as "compras" do mês na geladeira deles. Aqui, os zeladores sempre têm uma chave extra do apartamento, que eles usam, teoricamente, apenas quando algo precisa ser verificado na unidade e o morador não está. Mas, obviamente, vai da índole do zelador agir dentro dessa regra ou não. E aí, com a vivência brasileira na veia, como é que o cidadão se acostuma do dia pra noite com essa história de deixar seus bens "desprotegidos"? No Brasil, trancando tudo a gente ainda fica com receio de voltar pra casa e descobrir que alguém fez uma visita inesperada durante a nossa ausência, imagina então você sabendo que, em algum momento, vão mesmo entrar no seu apartamento (no meu, sei que o zelador veio pelo menos duas vezes quando eu estava fora).

Mudando radicalmente de assunto, há umas duas semanas veio o primeiro indício de que o inverno está mesmo chegando. Taí a prova:




De lá pra cá, nevou em alguns dias, mas não o suficiente pra cobrir o chão, pelo menos não nas regiões da cidade pelas quais perambulo. Mas, como já disseram inúmeras vezes, que ninguém se engane: a neve tarda, mas não falha.

À bientôt!

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Seis meses de Canadá!




Quando acordei no dia 14 de março deste ano, não consegui de forma alguma me sentir bem. Não bastasse a saborosa apreensão natural de uma situação tão "banal" como mudar de país, ainda tinha a deliciosa cobertura extra de apreensão e angústia que eu sempre coloco em qualquer coisa que faço, mais a tristeza da separação da família, tudo por apenas um Real a mais. Era o dia da mudança, o dia da virada na vida, o dia que marcava o recomeço, mas eu não conseguiria sentir nada disso naquele 14 de março. Meu pensamento se dividia entre a tristeza por deixar minha família (de novo), um pouco de culpa por deixá-los tristes com uma nova partida minha, e as variantes para perguntas como "será que estou MESMO com todos os documentos de que vou precisar?".

O 15 de março chegou um pouco mais leve. Apesar de todo o perrengue de chega-numa-cidade-muda-de-avião-vai-pra-outra até aportar de vez em Montreal, o luto do dia anterior já se fazia mais discreto. Depois de encontrar meu amigo no aeroporto da cidade e ir pra casa dele (e, principalmente, depois de tomar um banho, comer e bater papo), comecei a olhar pra frente com mais otimismo e curiosidade.

Roda a fita pra seis meses depois, 15 de setembro de 2015. Seis meses de Canadá! Seis meses de Quebec! Seis meses de Montreal! Quanta coisa já mudou, quanta coisa continua a mesma, quanta coisa ainda acontecendo e por acontecer! Mudei de endereço (da casa do meu amigo para a "minha" quitinete alugada), de marca de computador (entrei pra ver qualé a dessa coisa de AiMéqui), de forma (um tanto esférica, quando cheguei, para algo mais retangular, depois que comecei a correr), de universidade (da McGill para a Universidade de Montreal, agora) e de idiomas (o tempo todo). A saudade da família continua, firme e forte, presente todos os dias, assim como continuam várias inseguranças e ignorâncias a respeito da nova cidade, da província escolhida, do país que parece ser dois. Aconteceu que descobri que sou fascinado por corvos, que meu inglês não é tão capenga quanto eu imaginava, que meu francês ainda vai chegar lá, que também tem stalker no Canadá; aconteceu também que fiz amizades com professores que se ofereceram até pra me dar carta de recomendação, com quebecos da gema que eu achava que só conheceria daqui a um booooooom tempo; está acontecendo de eu frequentar uma biblioteca de verdade pela primeira vez na vida, de morrer de vergonha toda vez que alguém me pergunta alguma coisa em francês na rua, de descobrir um lugar novo toda vez que saio de casa, de não cansar de ver os esquilos em duelos de fúria peluda nas árvores, de confirmar que eu e o Sol/calor/verão temos diferenças irreconciliáveis. Ainda está por acontecer o primeiro emprego, a fluência no francês, a decisão sobre os estudos, e toda uma lista de coisas que só aumenta a cada novo passo dado.

Com seis meses apenas, dá pra eu fazer um apanhado geral ou dar conselhos? Acho que ainda é cedo. Muito cedo. Por mais que eu já tenha tido o meu quinhão de experiências aqui, ainda me sinto muito cru para tirar conclusões ou traçar paralelos em demasia. Se tô gostando? Sim, e muito! Se acho que fiz a coisa certa? Quando penso no que eu estaria fazendo no Brasil, sem dúvida que me parece a coisa mais certa do mundo! Se dá vontade de voltar? Posso dizer que dá vontade — e muita! — de trazer os meus pra cá, ainda mais com as dificuldades que o Brasilzão velho de guerra está enfrentando agora. Se tenho receios? Sim, e muitos! Não estou bebendo champanhe e arrotando poutine só porque estou no Canadá. Dar um rumo pra vida é preciso, e isso dá origem a vários receios. Ao mesmo tempo, a oportunidade de poder começar de novo é muito, muito, muito estimulante!

Ah, um conselho eu acho que posso dar para quem ainda vai vir: trace seus planos, estude os idiomas, se prepare; mas, sobretudo, não se engane. A preparação não vai ser suficiente, não importa o quanto você se esforce, calcule ou imagine. Tem coisas que a gente só descobre e entende mesmo quando as vive. Então, não esqueça de tirar um tempo para relaxar e curtir o seu tempo aí no Brasil, com os seus.

À bientôt!

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Três meses de Canadá!

Segunda-feira passada, completei três meses de Canadá! Agora posso dar  meu testemunho de fé: realmente, passa muito rápido!





Olhando pra trás, o primeiro mês foi o mais lento. Mesmo com todas as pendengas pra resolver (tirar documentos, comprar número de celular, procurar apartamento, etc), lembro que parecia que estava levando uma eternidade para cada semana passar. E eu achando ótimo, porque o que mais queria (e ainda quero) é ter tempo para absorver as novidades. O segundo mês foi gasto com menos obrigações e mais passeios. Foi também o mês da mudança pro apê que aluguei e do início das aulas na McGill. E o terceiro mês foi gasto única e exclusivamente com essas aulas, e acho que o tempo que elas me tomaram foi o grande responsável pela sensação de vídeo acelerado.

Então, depois de três meses, estou adaptado? Acho que seria presunçoso responder "sim", mas também não posso dizer "não". Algumas coisas que eram um bicho de sete cabeças no início e faziam com que eu me sentisse o Chico Bento (como usar totens de auto-atendimento no supermercado ou não fazer ideia de pra onde a linha verde do metrô vai) já não despertam tanto receio ou estranheza. Outras, como pensar o tempo todo que meu francês precisa melhorar pra anteontem, me lembram que ainda tem muito chão pela frente.

Ainda que não esteja me sentindo totalmente "em casa", muita coisa já mudou pra melhor nesses três meses. Continuo com as minhas corridinhas três ou quatro vezes por semana; estou mais próximo de pessoas aqui do que jamais estive em sete anos de São Paulo; posso andar com geringonças tecnológicas na rua sem medo de que algum trombadinha passe correndo e leve ou que algum infeliz resolva brincar de sequestro-relâmpago comigo; também posso percorrer o mesmo caminho que uma mulher, ficando coincidentemente atrás dela o tempo todo, sem que ela ache que eu vou assaltá-la ou estuprá-la (em São Paulo, e provavelmente no resto do Brasil, bastavam 30 segundos de trajeto em comum para qualquer mulher começar a espiar por cima do ombro a cada 5 passos e ver se eu ainda estava atrás dela); tenho REALMENTE vontade de ir pra fora de casa e aproveitar meu tempo livre a céu aberto; e destravei completamente no inglês (a ponto de me assustar quando alguém me fala "bonjour" na rua).

Falando no inglês, terminei o módulo que estava cursando na McGill na sexta-feira passada. Sem dúvidas, me ajudou muuuuito!! Por mais que meu bloqueio fosse mais psicológico que linguístico, estar num ambiente de sala de aula foi de grande valia. E, de quebra, a gente sempre aprende algo novo, né? Tem sempre uma palavra nova, um phrasal verb do inferno, e até gramática que você não sabia que não dominava. Eu, por exemplo, me dei conta que nunca tinha estudado pontuação em inglês formalmente. Pontuava misturando regras do português com o que eu via em textos por aí (e até que dava certo). Mas foi bom sentar e ver como se faz o negócio direito. Além disso, conheci pessoas de vários cantos do mundo. E o mais legal desse processo é você perceber que os rótulos que você mesmo põe no início ("o cara do Irã", "a menina do Congo") vão sendo substituídos à medida que você passa a enxergar esse pessoal como gente de carne e osso como você. Então, eles passam a ser "meu colega Asghar" ou "aquela fofa da Martina". Caem as fronteiras, erguem-se as amizades, mesmo que sejam de sala de aula.

E foi tão legal esse período de aulas que realmente fiquei nostálgico no último dia. Tivemos festa de confraternização em que cada um levou um prato ou bebida típicos de seu país. Eu não cozinho (ainda), então saí na chuva e paguei caro num Guaraná Antártica, tudo pra ouvir o comentário "é bem doce" - mas faz parte, né? No fim, passei no módulo com A+, ganhei elogios mil dos professores (minha professora da tarde repetiu a frase "ainda não sei o que você está fazendo aqui" várias vezes ao longo das últimas semanas), e, contrariamente ao que todo mundo esperava, resolvi seguir adiante e fazer o último módulo. Só falta mais um mesmo, né? Ter um certificado a mais no currículo não machuca. E não é como se eu tivesse abarrotado de coisas para fazer. Embora exista a pressão interna pra dar um rumo pra vida, ainda estou tentando me manter fiel à ideia de dedicar o primeiro ano aos idiomas. Vamos ver se aguento!

E que venham os próximos meses!

À bientôt!

terça-feira, 14 de abril de 2015

Um mês nas Terras do Norte!

Nem acredito, mas hoje estou completando um mês de Canadá!





Não acredito por dois motivos: primeiro, durante tanto tempo eu pensei e "dispensei" em morar fora do Brasil (desde a adolescência, na verdade) que é difícil agora entender que estou fazendo isso agora. Segundo, porque esse primeiro mês passou tão rápido que eu praticamente nem vi!

Quando paro pra pensar, contudo, vejo que fiz bastante coisa: tirei o NAS, abri conta em banco, dei entrada na Assurance Maladie, comprei um número de celular, conheci pessoas novas, comecei a m orientar na cidade, fiz inscrição no curso de inglês da McGill, tive experiências cotidianas bem legais (como o caso do restaurante chinês que contei) e outras nem tão boas (como ficar travado na hora de falar alguma coisa em inglês/francês), assisti palestras de integração para recém-chegados, procurei apartamento (e achei! Peguei o contrato justamente hoje, e vou escrever um post sobre isso depois), vi neve de verdade caindo, encarei sensação térmica de -15 ºC, dei informação na rua (!), me assustei com preços no supermercado... enfim, tudo isso junto, muito mais e misturado!

Não posso responder à pergunta "valeu a pena?" ou mesmo a "está valendo a pena?" simplesmente porque é muito cedo pra isso. "Valer a pena", pra mim, tem a ver com recomeçar a vida e fazê-la seguir numa direção mais próxima do que eu considero legal pra mim. E isso inevitavelmente levará tempo. Algumas decisões que tomo agora só poderão ser encaradas como boas ou ruins daqui a algum tempo. Mas as primeiras impressões são positivas, e eu vou falar sobre elas num post (ou talvez um vídeozinho) que estou preparando em reposta a algumas perguntas que chegaram pra mim por e-mail. Aguardem! :)

À bientôt!

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Bureau en gros, comendo fora e passeio!

Depois da semana de palestras do governo, a última foi bem mais tranquila. Quer dizer, tranquila no sentido de não ter muito horário pra nada, mas ainda assim foi cheia de atividades. A principal foi a busca por um canto para chamar de meu, mas isso eu vou contar num outro post, quando já tiver meu cafofo.


Bureau en gros

Uma das coisas que precisei nessa semana foi imprimir algumas folhas avulsas. Sem ter impressora no apartamento, saí à cata de informações sobre onde eu poderia fazer isso. Descobri que bibliotecas e mesmo algumas farmácias fazem isso, além, claro, de lan houses. Mas me sugeriram um outro lugar, e eu resolvi experimentar: o Bureau en gros.

Em resumo, é uma loja grande de material para escritório. Além de cartuchos para impressora, cabos para equipamentos, papel e outros materiais, eles oferecem vários serviços - incluindo o de cópias e impressões. Peguei o endereço do Bureau en gros mais próximo e lá fui eu.

Demorei um pouquinho pra achar porque ainda não me acostumei com algo que parece ser comum por aqui: boa parte das lojas está dentro de prédios que funcionam como galerias ou mini-shoppings. Então, quando vou atrás de algum lugar, meu subconsciente está sempre procurando lojas igual eu via no Brasil, abertas pra rua, com letreiro/logo em cima, placas ou coisa do tipo. Aqui, eu juro pra vocês que eu não consigo dizer se um prédio é residencial, comercial, se é uma mistura dos dois, se é um shopping, uma galeria... Enfim, uma hora eu entendo como isso funciona. O fato é que fiquei um tempo dando voltas no lugar até me dar conta que provavelmente a loja estava dentro do prédio. E não deu outra.

Procurei o balcão de cópias e impressões e falei com o rapaz que lá estava que eu tinha duas páginas para ser impressas e perguntei se podia fazer ali. Ele perguntou se era papel comum e eu disse que sim. Aí ele disse que ele poderia fazer, mas que custaria 3 moedas de ouro canadense, enquanto se eu fizesse no self-service deles, a impressão colorida sairia por CAN$ 0,39 e a impressão em preto, por CAN$ 0,19. "Eu só vou lá e faço tudo sozinho?"; "Isso aí". Então tá.

Gente, cheguei lá e realmente me senti no primeiro mundo: havia impressoras e copiadoras numa área relativamente pequena, mas totalmente aberta. Ao lado de cada máquina, um totem para você inserir pendrive ou outro equipamento com USB e a parte para inserir cartão de crédito. Há um visor digital também que te permite buscar arquivos no Drive ou no Dropbox, por exemplo. Você insere o cartão, ele pede pra você colocar o pendrive, você escolhe o arquivo que quer imprimir, diz quantas cópias e voilà

Agora, dou três chances pra vocês adivinharem como eu me senti diante disso tudo.




Restaurante chinês

Algo que não falta aqui em Montreal é restaurante. Minha vida de recém-chegado que precisa economizar não me permite ir comer fora todo dia pra desbravar a cidade astronomicamente, mas, uma vez ou outra, apertando até que dá. E aceitei um convite para ir a um restaurante na rua em que estou morando.

De cara, já gostei do lugar porque ele me lembrou a abertura do filme Indiana Jones e o Templo da Perdição (nerdice nível master blaster). Na verdade, o lugar tem pouco a ver com o salão que aparece no filme (exceto, talvez, pelas mesas), mas senti todo um ar de Indiana Jones ali. A comida também era muito boa, pratos que eu nunca tinha provado em restaurante chinês no Brasil e outros com textura, recheio ou aspecto diferente do que eu conhecia. Mas nada, nada mesmo, superou o fato de ser atendido... em chinês.

Sério, à exceção da menina do caixa, todo mundo que passou oferecendo os pratos (vários garçons e garçonetes passam com um carrinho com diferentes pratos, mais ou menos como um rodízio, mas você paga por prato consumido) falava só chinês!! Era hilário ver o povo chegando na sua mesa, abrindo a boca e você sem fazer ideia se eles estavam perguntando se você queria um prato X, se queria sobremesa, se estava sendo bem servido, se estava com frio, se queria sorvete de pitanga ou jogar peteca. É uma algazarra contida, pode-se dizer, porque eles falam alto (como se isso fosse ajudar), mas acabam mostrando o prato pra você e você escolhe pela aparência (a não ser que já conheça, claro).

Dei muitas risadas contidas e adorei a experiência! Infelizmente, não peguei o nome do restaurante pra poder indicar, mas ele não fica muito longe daqui. Então, quando passar por lá de novo, eu pego o nome e coloco aqui. Vale a pena!


Passeio no Vieux Port

No fim de semana, senti falta de ver um pouco da Montreal que eu tinha visto em 2013 e que achei bonita. No inverno (e no começo da primavera, diga-se de passagem), a cidade fica com um jeito morto, sem cores e, embora a neve possa dar um aspecto legal a vários lugares, a beleza da cidade sofre com a ausência de árvores frondosas. Meio como a Jennifer Lopez sem maquiagem.

Então, fui lá pra um dos lados mais antigos da cidade, o do porto, uma região bem turística com construções antigas e coladinha no rio. Foi bem legal rever lugares em que estive em 2013, embora sem o mesmo colorido. Deu pra passar uma tarde legal por lá, e tirei até algumas fotos, olha aí:











À bientôt!

terça-feira, 31 de março de 2015

Conhecendo gente, adaptador e a biblioteca de Montreal!

Como nem só de tensão e compromissos oficiais vive o homem, no meu primeiro fim de semana aqui aceitei um convite do amigo que está me hospedando para ir conhecer alguns amigos dele durante um brunch. O lugar escolhido foi o Universel, que desde já eu aprovo e recomendo (e o Chuck também).



Uma coisa que pesa contra, pra mim, é que o lugar parece estar sempre cheio. Pelos comentários que ouvi, é desse jeito todo dia. Eles servem café da manhã, brunch e almoço (até onde vi), e tem de omelete a crepe, passando por uma bela pratada de petit déjeuner (que aqui é só déjeuner) ao estilo norte-americano. Eu tinha acordado cedo e, por isso, já tinha tomado um café com pão na chapa em casa (desapega, meu filho!!) e, como fomos pra lá depois das 11 da manhã, achei melhor não encarar o pratão de café da manhã e fui de crepe mesmo. Mas mesmo o crepe era de Itu, gente... uma delícia, massa fininha e recheio generoso, mas precisei de uma ajudazinha do Divino pra fazer descer os últimos pedaços.

Eu acho que devia ter umas 15 pessoas lá e, obviamente, não deu pra eu conversar com todo mundo. Mas todos pareceram ser muito gente boa. Eles estão já há dois, três, cinco anos aqui, então ninguém ainda está deslumbrado. O que foi bom, porque pude pegar algumas opiniões mais embasadas de gente que veio, viu e venceu, e de gente que ainda está vendo e vencendo. Uma coisa que me deixou um pouco mais tranquilo em relação à decisão de focar nos idiomas neste primeiro ano é que todos com quem falei voltaram para a sala de aula em algum momento. Não importa o nível em inglês ou francês, todos sentiram que precisavam fazer um esforço extra em relação aos idiomas. Conheci duas meninas que fizeram o curso de inglês que estou querendo fazer e elas disseram que é realmente excelente. Outros fizeram outros cursos (francisação no meio) e também foram unânimes em dizer que por melhor que a gente saiba ou fale o idioma, só por aqui mesmo é que você descobre o quanto ainda tem pra aprender.


Grande Bibliothèque de Montréal

Outra coisa que fiz nessa semana que passou foi ir conhecer - e me inscrever! - na Grande Biblioteca de Montreal. Eu já tinha a intenção de fazer isso, até porque, nerd do jeito que sou, não consigo ficar muito tempo sem livros pro perto. E, vindo de um lugar onde bibliotecas são raras (e pouco inspiradoras), eu iria entrar nesse mundo uma hora ou outra. Não bastasse isso, tanto na palestra de premières démarches como na do Objectif intégration os instrutores ressaltaram a importância de se estar inscrito numa biblioteca. O apelo vem não só pela chance de obter conhecimento de graça como também pelo fato de que as bibliotecas oferecem diversos serviços, incluindo grupos de conversação em idiomas e palestras para recém-chegados.

O site da Grande Biblioteca já dá uma ideia. São quatro milhões de documentos, sendo a metade só de livros. Eu peguei as informações para me inscrever e lá fui eu, munido de documento de identidade (meu passaporte, no caso, já que ainda não tenho carteirinha de nada daqui) e comprovante de residência (recebi a primeira correspondência em endereço canadense, então tá valendo!). Pra chegar à biblioteca, é super tranquilo: basta pegar o metrô onde quer que você esteja e descer na estação Berri-UQAM. Dali, você nem precisa ir pra rua: basta ir subindo as escadas e seguindo as placas e, quando você vê, pimba, tá de frente com a biblioteca.

Logo na entrada, há uns guichês com fila, mas, pra não marcar bobeira, fui consultar uma placa indicativa que fica antes dos guichês. E fiz bem, porque não era ali que faziam o registro de novos usuários. Seguindo para a direita, vi a placa de abonnement e, de novo, fila. Aí não deu pra escapar :P

O atendente foi muito simpático. Eu falei que queria fazer a minha carte d'abonné e ele perguntou se era a primeira vez. Disse que sim e ele me pediu os documentos (identidade e comprovante de residência). Com a maior educação, perguntou se podia tirar a carta de dentro do envelope para ver a data, pois o comprovante de residência precisa ter menos de 6 meses. Enquanto fazia o cadastro no sistema, me entregou um folheto com informações básicas sobre a biblioteca (quais os tipos de documentos existem, quanto tempo se pode ficar com cada um, multa por atraso, etc). Quando terminou, ele me entregou a carteirinha, pediu pra eu assinar na parte de trás e me deu uma senha provisória para fazer o acesso pelo site. Explicou que é possível fazer reserva de livros, salas e documentos pelo site, bem como utilizar outros serviços. Me desejou boas-vindas e pronto, acabou. Residentes do Quebec não pagam nada para se registrar e a carteirinha tem validade de dois anos.

Obviamente, fui logo explorar, né? Mesmo sabendo que seria besteira pegar algo emprestado logo de cara, com tantas coisas ainda pra fazer, nada me impedia de dar uma volta para conhecer o lugar. São quatro andares de puro deleite para quem curte leitura e conhecimento. Fiquei tão empolgado que saquei o celular (eles têm wi-fi gratuita para os usuários registrados) pra mandar WhatsApp pra minha mãe, que também é louca por livros. "Mãe, tô na biblioteca! Tem quatro andares!"; "Nossa, filho!! E você pode usar tudo?"; "Posso, mãe! É de graça!"; "Quantos livros você já tá segurando?"; "Nenhum, mas só porque acabei de entrar".

Os assuntos estão separados por andar e há placas indicativas para todo lado. A primeira surpresa foi quando esbarrei com uma sessão de jogos de vídeo-game. Sim, eles tem uma seção só de jogos de vídeo-game para emprestar!! Alguém já tinha comentado isso comigo, mas eu havia esquecido completamente. Já comecei a babar ali mesmo e fiquei perto de uma convulsão quando vi que eles também tem uma ala só de histórias em quadrinhos!! De vários gêneros (incluindo mangás), em vários idiomas (mas principalmente em inglês e francês, claro) e para todos os gostos.

Mas caí pra trás mesmo foi quando vi que eles têm não só uma sessão inteira dedicada a livros e métodos para aprendizado de línguas estrangeiras, como também um mini-laboratório de línguas à disposição dos usuários. Nessa hora, o lobo de desenho animado dentro de mim uivou.




Espanhol, holandês, alemão, russo, romeno, islandês, nepalês, árabe... não fiz uma lista, mas dá pra imaginar que vai ser difícil não encontrar algum idioma representado ali. Passei por livros de fazer arrepiar os pelos do braço para quem curte idiomas, tipo "Irlandês Antigo" ou "1001 verbos suecos". Afif. Queria sentar ali no chão mesmo com tudo nos braços. "Filho, você não tinha que ir fazer outras coisas?"; "Juro que tô tentando ir embora, mãe!".

No fim, resisti ao ímpeto e não levei nada. O fato de ainda não ter uma rotina estabelecida, ter ainda pendências a resolver, bem como não querer entulhar a casa do meu amigo com livros e mais livros me fez colocar tudo de volta na estante. Mas prometi pra cada livro que voltaria outro dia.


Adaptador de tomada

Como amante de viagens que sou (embora talvez esteja começando a deixar de sê-lo), tenho um conjuntinho de adaptadores de tomada. Não sei porque não padronizaram isso até hoje, mas, enfim... quem já viajou por aí sabe que é um saco você pegar o(a) seu(ua) barbeador/secador/carregador de celular/chapinha ou outro badulaque e só então descobrir que a tomada do lugar onde você está não possui dois furos redondinho e lembra mais uma das linhas de Nazca.

Então, precavido, juntei todos os meus adaptadores num saquinho, coloquei dentro de uma maletinha e... deixei dentro do armário no Brasil. Se fosse um caso de vida ou morte, eu levaria o Troféu Darwin de Seleção Natural, mas pelo menos dessa vez eu escapei. De início, me virei com o adaptador do meu amigo, mas, obviamente, às vezes os dois precisavam do troço ao mesmo tempo, e claro que ele é quem tem a prioridade. Então resolvi ir procurando nas lojas à medida que fosse passeando por aí.

Achei que seria fácil. Tolinho.

O primeiro lugar em que olhei foi na Future Shop, quando estava procurando o computador. Não tinham. Depois, olhei na Best Buy. Só tinham um kit com vários adaptadores e conversor de voltagem que saía por 40 moedas de ouro canadenses. Achei que era muito para pagar numa coisa que - não custa lembrar - eu já tenho, mesmo tendo esquecido no Brasil. Perguntei onde eu podia encontrar só o adaptador que eu queria e me sugeriram Jean Coutu, Pharmaprix, Unipharma... passei por todas e ou não tinham, ou só tinham em forma de kit (mais barato que na Best Buy, mas, ainda assim, em torno de 30 moedas de ouro).

Virou questão de honra. Fui pra internet e vi vários lugares em que, teoricamente, seria fácil achar. Só que eu ia nesses lugares e nada! Daí começaram a me dizer que era difícil achar, que só tinham visto o kit pra vender. Fui até em lojinha pra turista perguntar, mas não tive sorte. Até que resolvi chutar o balde e ir à Meca de todos os artigos para o lar: a Canadian Tire!

Já de cara gostei porque achei um kit de adaptadores pra viagem por 20 moedas de ouro, metade da Best Buy. Fiquei tão feliz que quase fui direto pro caixa, mas lembrei que não tinha compromisso e era uma boa oportunidade pra conhecer a loja. E, gente, vou te falar... parece que tem de tudo mesmo pra casa, viu? Até alguns móveis eles têm, mas o forte são ferramentas, eletrodomésticos e utensílios. Tem de furadeira a tampa de privada, passando por frigideira e umidificador de ar. É muita coisa. Já fiz uma nota mental pra quando tiver o meu canto.

Enfim, acabei encontrando o adaptador para tomadas redondas avulso, sem kit, sem conjunto, sem acessórios. Só ele! E esse Santo Graal dos adaptadores custou 4 moedas de ouro canadenses. Carinho pra um adaptador, na minha opinião, mas, depois da peregrinação que foi encontrar, eu paguei feliz. Com certeza deve haver opções bem mais em conta por aí, mas a minha ignorância de recém-chegado aliada ao esquecimento do pessoal que já está aqui há mais tempo e não lembra onde comprou não ajudaram. Quem mandou esquecer o kit no Brasil?

À bientôt!

quinta-feira, 26 de março de 2015

Palestras do governo para recém-chegados

Desde sexta-feira passada, estou num intensivão de palestras do governo para imigrantes recém-chegados. Fui inscrito em duas, ambas quando passei pela salinha do Quebec no aeroporto de Montreal, após fazer meu landing. A funcionária que me atendeu me ofereceu essas palestras e fez minha inscrição na hora, me entregando em seguida as folhinhas impressas com endereço e horário.

A primeira, que foi a da sexta-feira passada, era sobre as etapas de instalação para quem acabou de chegar. Dura três horas, e nela o palestrante fala sobre (quase) tudo: habitação, carteira de motorista, assurance maladie, escola, NAS, conta bancária, auxílios... mas não entra em grandes detalhes sobre nada disso. Você pode fazer perguntas e tudo mais, mas fica claro que a intenção é mostrar para o recém-chegado que existe isso, isso e aquilo no Quebec, e que, se ele quiser se informar mais, deve ir aqui, aqui e ali. Não é algo para eles te pegarem pela mão, analisarem tua situação específica e dizer o que você deve (ou poderia) fazer. Para quem passou anos fazendo pesquisas para o processo, não há muita novidade. Ainda assim, é bom ir para pegar alguns detalhes, tirar dúvidas ou treinar o francês (porque isso nunca é demais).


Objectif intégration

A outra, na verdade, é um ciclo de uma semana que começou, pra mim, na segunda à tarde. Tem sido todos os dias, pela manhã e à tarde, e termina amanhã pela manhã. Essas são as palestras que todo mundo devia ter direito a assistir antes de vir pra cá, talvez até mesmo antes de entrar no processo. Eles botam a real sobre o mercado de trabalho do Quebec, sobre o que é levado em conta numa contratação, sobre os costumes no ambiente de trabalho. Falaram sobre currículo, entrevista, seguro-desemprego, impostos, salário... enfim, um milhão de coisas sobre integração do imigrante ao mercado de trabalho.

Aliás, alguns imigrantes que estão na mesma turma que eu levantaram a peteca de que o programa de imigração é enganoso, que o Quebec faz parecer que tudo é fácil e tralálá, mas que só aqui é que a gente descobre como as coisas são. Resposta do palestrante: realmente, só dá pra sentir na pele quando se está aqui, mas todas as informações que ele passa estão disponíveis na Internet, nos sites do governo, em cartilhas, brochuras e outros meios, e quem planeja e lê para entrar no processo acaba entrando em contato com tudo. De forma que, se você achou que seria fácil, você não pesquisou o suficiente.




Na segunda-feira, parecia que o negócio não ia pra lugar algum. Basicamente, a palestra foi sobre história do Quebec e os valores da sociedade. Mas logo fica evidente que isso é para ambientar quem está chegando de fora (isto é, nós) sobre os motivos de certas coisas serem como são. Aqui e ali você consegue fazer relações entre a história, a sociedade e o modus operandi do mercado de trabalho quebequense. Claro, não dá pra ficar expert no assunto, mas serve pra você ver que há uma razão de ser para as coisas (pelo menos em alguns casos).

Na terça e na quarta, as palestras foram focadas no tal plano de ação personalizado. Basicamente, foi pra deixar claro que é preciso definir qual o seu objetivo profissional aqui, e daí ver se falta algo pra você poder chegar até lá e, em caso afirmativo, como fazer pra atingir o objetivo. Um exemplo que o palestrante deu foi de uma francesa que imigrou para o Quebec e se candidatou a uma vaga de caixa em um banco local. Ela possuía vários anos de experiência atuando em bancos franceses, principalmente em serviços ligados ao atendimento à clientela, mas optou por começar como caixa aqui. Amigos e parentes disseram que ela não precisava começar por baixo devido à fluência no idioma e à experiência profissional, e a resposta dela era que ela realmente tinha tudo isso, mas ela não conhecia o sistema bancário canadense e nem as relações interpessoais aqui. Começando "de baixo", ela teria condições de aprender tudo isso e reconstruir sua carreira aqui, já que seu objetivo era fazer o mesmo que fazia na França.

Obviamente, essa é uma escolha pessoal. Tem gente que não admite dar passos para trás, outros precisam estudar para obter condições de se candidatar a um emprego, e há ainda aqueles que resolvem mudar totalmente de carreira. Em cada caso, um objetivo, e, para cada objetivo, um caminho diferente a seguir. Esse é a mais ou menos o resumo desses dois dias de palestra.

Hoje foi basicamente sobre aspectos legais do trabalho. Uma coisa que eu particularmente não sabia é que nem sempre há contrato de trabalho. Você pode trabalhar sem contrato e, ainda assim, estar dentro da lei (desde que o empregador e você mesmo paguem seus impostos e cumpram o estabelecido, claro). Quando não há contrato firmado, aplicam-se as leis trabalhistas mínimas, uma espécie de contrato geral estabelecido por lei que dita qual é o mínimo em cada aspecto do trabalho (salário, folgas, férias, seguro, etc).

O último módulo será amanhã, e vai cobrir as oportunidades de emprego fora de Montreal. Há um esforço do governo para que as pessoas escolham outras cidades que não Montreal, já que a concorrência aqui é grande e tende a aumentar ainda mais com os imigrantes chegando e se estabelecendo aqui. Então acho que amanhã rola um jabá de Trois-Rivières e companhia.


Vale a pena participar das palestras?

Que fique bem claro que essas palestras não são obrigatórias. No aeroporto, eu poderia ter dito "não, moça, não quero participar não, brigado" ou ˜valeu, mas eu tenho outras coisas pra fazer (tipo postar fotos no Facebook pra mostrar que eu cheguei), então vou me inscrever depois˜. Aliás, quem não chega por Montreal ou quem chega em horários, digamos, pouco convencionais (tipo três da manhã) não "ganha" inscrição direto nas palestras. Precisa ligar e marcar, se quiser participar.

Mas eu aconselho todo mundo a participar. Além de dar uma relembrada em muita coisa que você provavelmente já viu nas pesquisas, com certeza uma ou outra coisa será nova pra você. E com o bônus de você poder tirar alguma dúvida mais específica com a pessoa ali, na hora. Há muita, muita informação mesmo, mas eles dão material impresso (folhas impressas, apostilas, etc) que permitem que você reveja tudo em casa. E nesse material você sempre encontra telefone e página na Internet de cada órgão responsável por cada assunto. Quem conhece o guia Apprendre le Québec já tem uma noção boa de como isso funciona.

Embora as informações sejam úteis e tal, não dá pra negar que é muita coisa pra quem está chegando e ainda não conseguiu nem entender pra que lado é o metrô. Ainda assim, se você não conseguir assimilar nada ou achar tudo muito chato, vale, pelo menos, para praticar o francês. Bien entendu, as palestras são todas em francês, e os sotaques variam muito. Na minha turma, sou o único brasileiro. Tem uma colombiana, um chinês, um casal de iranianos (que sumiu desde ontem), e o restante é composto de argelinos e marroquinos. Então a parabólica das zureba é forçada a ficar tentando sintonizar cada sotaque pra poder entender tudo. E foi justamente lá que consegui começar a falar com mais calma desde que cheguei. Acho que estar num ambiente mais informal ajudou bastante. Eu fico quietinho no meu canto, mas quando sou chamado a participar, participo. Ontem um argelino até resolveu que queria conversar comigo e passou o horário do almoço inteiro batendo papo. O sotaque é punk virado no cão, mas, depois de um tempinho, as parabólicas se ajeitam e a coisa flui melhor.

Ah, uma coisa que é pisada e repisada nas palestras é a importância do trabalho voluntário e do networking (ou résautage). Em todos os tópicos, esses dois itens sempre voltam à pauta, de modo que é bom tê-los sempre em mente em terras canadenses.

Mesmo sendo útil, confesso que não vejo a hora do negócio acabar amanhã. Tenho que continuar procurando apartamento (assunto para outro post) e começar/terminar/continuar uma série de outras coisas pra cujo tempo tem sido escasso por causa dessas palestras. Mas courage, tá logo ali.

À bientôt!