sexta-feira, 17 de julho de 2015

Entrei na Universidade de Montreal :)

Pois é, gostei tanto dessa história de voltar a estudar, fazer pesquisas e trabalhos, ler e escrever, fazer bagunça cozamigo que lá vou eu de novo, dessa vez na Universidade de Montreal! E, mais uma vez, já esclareço que não vou fazer nenhum bacharelado, mestrado ou doutorado—pelo menos por enquanto. Ainda assim, é algo um tantinho mais sério (pelo menos em termos de comprometimento) do que o curso de inglês da McGill. Trata-se de um Certificado de Francês como Segundo Idioma.


Um certificado, aqui, é um curso de 30 créditos universitários. Você tem que cumprir matérias da faculdade dentro de um programa que possui disciplinas obrigatórias e facultativas. Pra todos os efeitos, é considerado como sendo um curso superior. Claro que a maior ou menor importância e impacto do curso vai depender da área, da instituição e das notas do aluno, mas é um documento oficialmente reconhecido por aqui. Até cadastro junto ao Ministério da Educação aqui eu vou ter, olha que chique!



O processo pra entrar foi semelhante ao da McGill, só que um pouco menos transparente. Fiz a inscrição pelo site da Universidade de Montreal, paguei a taxa e esperei. Depois de um tempo, mandaram a lista dos documentos necessários por e-mail. Tive que apresentar meu histórico do segundo grau ensino médio e da faculdade, além do CSQ para poder usufruir os benefícios de residente do Québec. Teoricamente, você acompanha o andamento do pedido online, mas sabe o BIQ? Aquele lugar pra onde você manda a papelada e não sabe nem se os documentos chegaram nem o que estão fazendo com eles e tal? Pois é, foi mais ou menos assim. Mandei, esperei, esperei, esperei, e o sistema continuava mostrando que eu estava devendo. A situação só mudou bem depois.

Nesse meio tempo, fui convocado para uma palestra de informação lá na universidade. Durou por volta de duas horas, mas explicaram de tudo, desde os requisitos para se formar (é, tem até formatura!) até como se inscrever para os cursos usando a Internet. Muita coisa eu já sabia porque se tem alguém que revira sites quando está querendo ficar por dentro de alguma coisa sou eu. Ainda assim, foi útil para confirmar algumas informações, e tem sempre alguma coisa que a gente não sabe, néam?

Ao final da palestra, todo mundo recebeu um rendez-vous com uma conselheira de estudos. Basicamente, é uma pessoa que faz uma pré-avaliação do seu  nível de francês e te aconselha quais matérias pegar. Achei bem legal eles oferecem esse tipo de serviço. Mas achei uó darem um dia e horário pra gente que eles escolhem. Sério, boa parte das aulas é à noite e muita gente opta por fazer o certificado porque trabalha durante o dia. Então, se já seria meio complicado fazer as pessoas matarem o trampo para ir ao rendez-vous, imagina como é se eles simplesmente impõem o dia e a hora em que você tem que aparecer. Segundo a palestrante, não tem choro nem vela: ou vai ver a conselheira no dia e hora marcados ou se vira nos 30. Marcaram o meu encontro para uma terça de manhã, e lá eu perdi uma aula na McGill.

No dia e hora marcado, lá estava eu no endereço indicado, balbuciando em francês. A conselheira me recebeu no horário marcado. Simpática, mas mantendo distância profissionalmente, me perguntou a razão de ter vindo para Montreal, se eu era residente permanente ou estudante independente, quais os meus planos para o futuro, o que eu estava fazendo no momento (estudando, trabalhando, coçando...), e terminou perguntando porque eu queria fazer curso de francês se eu já falava francês (!).




Agradeci cordialmente, mas expliquei que não só me falta muito vocabulário como também preciso treinar bastante o ouvido e melhorar a escrita. Ela então sugeriu que eu faça uma matéria de francês oral e outra de francês escrito. Falou também que, a julgar pelo meu nível, acha que eu devo terminar os requisitos mínimos do curso já na primeira ou segunda sessão (!!), e aí sugeriu que eu faça uma matéria de fonética. Essa sugestão eu entendi como "Joel Santana, seu sotacão brazuca entrou em campo!˜, mas tudo bem. Segundo a conselheira, se eu seguir essas orientações, logo vou estar com a grade desimpedida, terei terminado o curso de francês puro e estarei livre para pegar matérias de alguns departamentos da Universidade de Montreal, como Antropologia, História...

Oi??

Pois é. Pra obter o certificado, tenho que cursar pelo menos duas matérias de gente grande! São disciplinas de cursos "de verdade", com alunos de bacharelado e professores que não são professores de idiomas. Tipo, é a hora da verdade pra você saber se consegue falar e entender tudo em francês ou não. Só a Regina Duarte sabe como me senti.




O encontro com a conselheira terminou com este que vos escreve indo fazer a matrícula para a sessão de outono, que vai de setembro a dezembro. Meu nível vai ser determinado só em agosto, quando eu passar por um teste oficial de nivelamento. Até lá, vou tentando estudar o que dá, embora o curso da McGill ainda esteja rolando e não me deixe muito tempo para ver a vida en rose.

Enfim, vamos torcer para que o curso seja bom, que eu me divirta tanto ou mais do que me divirto no curso da McGill, e que eu destrave e aprenda francês pra valer!! Se eu e o meu amigo quebeco mantivermos contato, quero poder ir à Comic Con daqui ano que vem com ele falando em francês!

À bientôt!

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Fotos do apê

Passando rapidinho só pra: (1) falar que tô vivo (obrigado a todos que expressaram preocupação nos comentários ou por e-mail); e (2) cumprir a promessa de postar algumas fotos da quitinete que aluguei para matar a curiosidade de quem fica imaginando como são as coisas por aqui!







Agora vou voltar pra realidade: tenho três leituras pra fazer para as aulas de amanhã!

À bientôt!

domingo, 28 de junho de 2015

Problemas no Paraíso (1)

Todo mundo sabe (ou deveria saber) que vai ter problemas quando sair do conforto do seu lar e do seu país para embarcar numa jornada ao desconhecido. Muita gente sonha com o CSQ e o visto de residente permanente como se eles fossem o fim dessa jornada, como se, a partir dali, você só tivesse que colher os louros da sua "árdua" batalha. Batalha essa que, em boa parte dos casos, tem a ver mais com ansiedade, impaciência e falta de informação do "combatente" do que com lutas travadas contra obstáculos reais. Então, muita gente diz que sabe que problemas surgirão, mas sequer pensa neles. Nem nos mais básicos, como dificuldade com idioma, a falta que a família e/ou os amigos vai fazer e por aí vai. É como se o CSQ ou o visto fossem o objetivo final, e tudo girasse em torno deles, quando, na verdade, eles são só o início do futuro - que continua sendo tão incerto quanto no dia que você mandou sua papelada para o BIQ.

Com esse discurso, estou inaugurando uma série aqui para contar os problemas que surgirem pelo meu caminho. Podem ser pequenos ou grandes, mas, se me incomodarem, eu vou tentar vir aqui e relatar. O objetivo é não só parte da meta principal do blogue (manter um relato sobre a minha jornada, algo que eu possa depois vir vasculhar e lembrar como foi), mas também ministrar doses de realidade, principalmente para aqueles que, quando pensam em vir pro Canadá ou pro Québec, confundem o lugar com esse aí, ó:



Então vamos lá?


A Origem

Todo mundo que acompanha o blogue sabe que estou fazendo um curso de inglês na McGill pra destravar, e que ele tem feito muito bem pra mim. Sabe também que eu me dei muito bem com a turma, fui elogiado pelos professores, fiz um amigo quebeco quando achava que ia levar eras até conhecer um canadense e por aí vai. Realmente, as seis semanas do curso me fizeram um bem enoooooooorme, não só pro meu inglês, como pro meu bem-estar nesse início de jornada.

Com o fim do módulo, quem ainda continuaria no curso correu pra fazer a matrícula para o próximo nível. O quebeco falou para irmos fazer juntos para garantir que ficássemos na mesma turma. Achei muito legal da parte dele, e assim fizemos. Inclusive, perguntei para a atendente se aquilo bastava para sermos colocados na mesma sala e ela falou que achava que não haveria problema algum, até porque fomos alguns dos primeiros a se matricular. Ótimo!

Só que não. As aulas recomeçaram na última segunda-feira e, quando olhei a lista dos integrantes da turma, eu e meu amigo (além de outros) havíamos sido separados. Na hora, senti a minha motivação despencar. Quer dizer que eu chego aqui, sozinho, dou a sorte de fazer um amigo local com quem REALMENTE me dou bem, a ponto de as pessoas em volta acharem que a gente já se conhecia ANTES do curso, tudo pra chegar agora, no último nível, e ser separado assim, do nada?? E ainda por cima tendo pedido pra ficar na mesma sala? Não teve jeito. A motivação afundou e eu fiquei me sentindo marido traído.

"Ué, Doug? Esse é o seu problema? Ficou separado do amiguinho de turma? Buá, buá, faz novas amizades, segue em frente e pronto!"

Respondo à pergunta em instantes, mas, primeiro uma declaração do nosso patrocinador. Eu sempre fui alguém com uma certa dificuldade para socializar. Sempre curti coisas que a maioria das pessoas só faz quando não tem o que fazer ou quando está chovendo lá fora. Enquanto todo mundo se amarra em ir pro boteco com os amigos, encher a cara e falar sobre "variedades", eu sempre curti jogar vídeo game ou ler um gibi, ou rever Guerra nas Estrelas pela 189341987 vez. Não é melhor nem pior do que ir pro tal boteco (embora muita gente insista que é bem, bem pior, sim), é só diferente. Eu me divirto tanto com um gibi do Batman quanto algumas pessoas se divertem ingerindo bebidas amargas. Mas por aí dá pra notar que eu nunca fui o cara mais popular, cheio de amigos, e com vários convites para eventos diversos, né? Então, o mês e meio que passei no primeiro módulo do curso da McGill me deu a chance de viver algo que há muito, muito tempo eu não vivia: fazer parte de um grupo, ser aceito por ele e encontrar alguém que seja tão nerd quanto eu. Assim, ser separado das pessoas que fizeram eu me sentir tão bem depois de tanto tempo seria um problema, pra mim, sim. Digno de vir aqui chorar as pitangas, falar que o mundo é injusto, que nunca mais vai acontecer nada assim e blábláblá. Mesmo sendo um cara adulto e reconhecendo que a revoltinha seria infantil, eu sei exatamente o porque disso me afetar. Mas, ainda assim, eu provavelmente iria ficar chateado uns dias, comer um pote de sorvete e tentar me animar para as próximas seis semanas de curso.

Mas não, fiel leitor(a). Esse foi UM problema, mas não O problema que me motivou a escrever essa postagem.. Antes fosse. Eu viria aqui, bancaria o menininho, um monte de gente gritaria "VIRA HOMEM!" e pronto. Então, sem mais delongas, senhoras e senhores, uma salva de palmas para...

Meu Perseguidor Particular


Na turma anterior, em meio a toda aquela gente legal que mencionei, havia um cidadão pitoresco, para dizer o mínimo. Visual esquisito, um tanto desleixado. Mas, até aí, viva a revolução e vivam as diferenças, né? Ele não foi o primeiro e nem será o último cujas peculiares escolhas de indumentária vão fazer minha sobrancelha subir.

Eu falava pouco com ele e ele falava pouco comigo. Não sentávamos perto e, como a amizade com o quebeco surgiu logo nos primeiros dias (e como o cara ficava bem na dele na maior parte do tempo), não houve muita oportunidade pra interagir. Quando falo que ele ficava na dele, vocês têm de ter em mente que eu sou um cara na minha. Eu não saio batendo altos papos com desconhecidos. Quando falo com alguém que não conheço, acho que devo soar até meio formal demais. Mas esse cara é um nível diferente. Nas vezes em que ele era chamado a se manifestar na sala de aula, eu não entendia o que ele falava, não só pelo sotaque, mas porque ele tinha um jeito brusco de falar, meio "cortado". Tenho dúvidas até se os próprios professores entendiam tudo.

Aí, como comentei em outros posts, virei meio que "garoto sensação do momento" por causa do meu sotaque, de como me saía nas apresentações e nas notas. De repente, um monte de gente ficou curiosa a meu respeito e se aproximou. Eu fui receptivo com todo mundo, morrendo de vergonha, porque estar no centro das atenções definitivamente não é o meu habitat natural, mas posso dizer que foi legal ver as pessoas me aceitando, me recebendo e, de certa forma, me admirando (se já esqueceu, releia o parágrafo ali em cima sobre a minha dificuldade para fazer amizades e tente imaginar como eu me senti. Não tem nada a ver com "me achar"). Mas o tal cara, não. Não falou nada, não perguntou nada, não fez nada. Continuou como sempre tinha sido até ali.

Até que descobrimos que moramos no mesmo prédio.

Foi justamente no dia da minha primeira apresentação "séria", com plateia e avaliação. Aquele dia foi o início da minha "consagração" pela turma e, quando voltei pra casa depois da aula, pimba - trombei com o cara na entrada do prédio. "Ah, você mora aqui?", "Moro! Você também?, "Que coincidência!", e todo aquele papo de comadre no elevador. Aí ele fez o convite pela primeira vez:

- Vamos lá no meu apartamento pra você conhecer!

Se você, saliente leitor(a), pensou alguma bobagem, eu não te culpo. Mas, por hora, relembre apenas que eu sou uma pessoa discreta, não socializo fácil, sou de Brasília (que, segundo pesquisas informais, só rivaliza com Curitiba no quesito "pessoas frias que não fazem amizade com alguém de manhã e já chamam pra festa de família à noite"), tenho um histórico de passatempos que dão sono na maioria das pessoas. Então, minha resposta foi um reflexo desse contexto.

- Ah, obrigado! Quem sabe outro dia?

E fui embora pro meu apartamento. Até aí, tudo bem. Ele podia só estar sendo simpático e cordial (tipo "beijomeliga") e nem querer que eu fosse mesmo lá. Foi uma das razões que me fez recusar. Sou de uma cultura em que às vezes as pessoas falam só por educação; então, na dúvida, melhor recusar. E tudo bem.

Só que, depois desse dia, praticamente todas as vezes em que eu esbarrava com o cidadão na escola, ele falava que eu podia ir ao apartamento dele na hora que eu quisesse. Eu agradecia e saía andando. Só que ele começou a mudar o discurso. Em vez de falar que eu podia ir ao apartamento dele, começou a falar que eu devia ir. E também que ele queria ir ver como era o meu apartamento. Comecei a inventar desculpas e a ver que tinha algo estranho ali. Afinal, com meu parco conhecimento de mundo, ninguém fica insistindo tanto assim para que você vá visitar, a não ser que seja aquela sua tia solteirona esquecida por todos. Achei melhor ficar na minha.

Mas aí, um belo dia, eis que esbarro com o dito cujo novamente na entrada do prédio.  "Danou-se", pensei. "Lá vamos nós de novo". E claro que ele veio falar comigo e me dizer pra ir ao apartamento dele. Quando recusei, ele disse:

-Então vamos lá ao seu apartamento agora para eu ver como é.

Prendi a respiração. "Quer saber?", pensei, "vamos acabar logo com isso então".

-Claro, vamos lá. Já te adianto que não tem quase nada, porque não comprei mobília ainda.

Abri a porta (tomando o cuidado de deixá-la bem aberta, mesmo depois que entramos), mostrei o apê pra ele (não que ele não pudesse ver tudo já da porta; afinal, é uma quitinete, né?), ele fez sugestões sobre o que eu deveria comprar (!), eu agradeci, e aí ele resolveu ir embora - não sem antes tentar me levar de novo pra conhecer o apartamento dele, mas eu recusei mais uma vez. Ele insistiu, e então eu falei que iria no dia seguinte depois da aula. A ideia era que, se eu acabasse logo com isso, ele ia ter que parar.

No dia seguinte, pedi pra um colega do curso me acompanhar e fui lá conhecer o apartamento do cara. Nada de mais, olhei tudo rapidamente só pra constar, agradeci e fui embora. Respirei aliviado e achei que tudo acabava ali.

Mas não. Nos dias subsequentes, sempre que o cara me achava sozinho na escola, ele vinha me falar pra eu ir de novo ao apartamento dele. Eu comecei a falar que já tinha ido conhecer, que era legal, mas que eu não precisava ir lá de novo. Ele falava que a gente podia jogar alguma coisa, ou ele podia ir ao meu apartamento e jogar vídeo game. Eu lembrava que ainda não tinha comprado nada pro apartamento (o que continua sendo verdade até hoje) e pronto. Mas todo dia ele, em algum momento, vinha falar as mesmas coisas: "já comprou móveis?", "e a televisão?", "vai lá pra casa hoje!", "me avisa quando você tiver televisão pra eu ir jogar vídeo game com você".

Até o final do curso, foi enchendo o saco, mas não passou disso. Era irritante, inconveniente, mas, como eu tinha meu grupinho de amigos de turma por perto na maior parte do tempo, o cara ficava à distância. Quando surgia uma brecha, ele ia falar comigo ("vai lá em casa hoje!", "já comprou a televisão?"), mas eu respondia com monossílabos e não dava corda. Inconveniente, mas não ia além disso.

Só que, como falei ali em cima, quando as aulas recomeçaram, descobri que tinham me separado dos meus amigos mais próximos. Caí numa turma em que não conhecia praticamente ninguém, e os poucos remanescentes da turma anterior não tinham porque estar comigo o tempo todo. E essa era a oportunidade dourada que o cidadão insistente precisava: "Oba! Ele está sozinho! Minha vez! \o/".

-Seu melhor amigo não está mais com você - foi a primeira fala dele no primeiro dia de aula.
-Pois é.
-Vocês vão continuar amigos?
-Hum-hum.

E aí ele retomou a ladainha sobre a mobília, a televisão e tudo o mais. Mas acrescentou uma particularidade diante da minha resposta:

-Vai lá em casa hoje depois da aula.
-Desculpa, cara, mas olha... eu realmente não sou muito de ir pra casa dos outros, principalmente sem motivo.
-Ah, a gente arranja alguma coisa pra fazer.
-Não, obrigado. Eu tenho minhas próprias coisas pra fazer.
-Então eu vou pro seu apartamento pra tomar um banho.

Não faço ideia da cara que eu fiz pra ele, mas sei que o que falei foi:

-Não, não vai mesmo!
-Por quê??? - ele perguntou como se fosse algo inconcebível.
-Porque não estamos com falta de água, você pode tomar banho na sua casa e eu não consigo imaginar porque você iria tomar banho no meu apartamento.

Ele resmungou alguma coisa e foi embora. E foi só nesse dia que eu realmente comecei a pensar que havia uma possibilidade de que, em algum momento, eu estivesse chegando ou saindo de casa e desse de cara com a Glenn Close em Atração Fatal.




Fui falar com o coordenador do curso e dei entrada num pedido de mudança de turma. Não mencionei a história do cara porque não queria expô-lo, complicar as coisas e também correr o risco de ser mal interpretado. Motivei o pedido apenas com base na minha vontade de ficar com os colegas da turma anterior - e esse teria sido o único motivo mesmo. E torci para que desse certo.

Só que a coisa ganhou outros contornos. Além de fazer as mesmas perguntas todos os dias, o cara começou a forçar a barra para sentar do meu lado e participar dos grupos de trabalho em que eu estava. Num espaço de dois dias, o que era só inconveniente antes ganhou contornos de perseguição pra mim. Ele começou a me falar coisas como:

-Eu vejo você às vezes voltando do supermercado com as sacolas.

Ou:

-Eu vejo você indo para a biblioteca.

"Vê"?? Vê como? Me avista por acaso na rua ou tá de olho no que eu tô fazendo?




A gota d'água foi na sexta-feira. Na semana anterior, o quebeco me chamou para a casa dele para jogarmos vídeo game e assistirmos seriados. Contexto completamente diferente do outro cidadão; então eu fui e levei meu vídeo game. No final, como realmente não tenho TV, e como eu queria mostrar um pouco mais de apreço (e gratidão) pelo meu amigo canadense, ofereci para que ele ficasse com o equipamento por uma semana. Ele se amarrou e eu deixei tudo lá. Combinamos que ele me levaria nessa última sexta e ele cumpriu o acordo. Tivemos uma atividade que envolveu as duas turmas do último nível do curso e o meu amigo aproveitou para me devolver o vídeo game ao final da atividade.

E o sujeito obscuro viu.

Quando meu amigo saiu, lá veio ele:

-Você já comprou a televisão?
-Não.
-Mas eu vi o seu melhor amigo te entregando um aparelho...
-Sim, eu tinha deixado na casa dele e ele me devolveu.
-Então você ainda não tem TV?
-Não.
-Hmmm... Não esqueça de me avisar quando tiver.
-...

Assim, ficou EVIDENTE pra mim que ele desconfiou que eu estivesse mentindo pra ele, que tivesse comprado a televisão e não tivesse chamado ele pra jogar vídeo game, enquanto jogava escondido com o meu "melhor amigo". Agora, me diz: que obrigação eu tenho de falar pra ele o que eu compro ou deixo de comprar, o que eu faço ou deixo de fazer, e com quem eu faço ou deixo de fazer??

Voltei ao coordenador do curso logo depois da aula. Eu vi, pela linguagem corporal dele, que ele ia negar meu pedido de mudança de turma. Então, assim que ele pediu que eu entrasse e me indicou a cadeira, já fui falando:

-There have been developments.

E aí ele voltou toda a atenção pra mim, o que achei muito legal da parte dele. Escutou a história toda. Na parte em que o cidadão falou que viria tomar banho aqui em casa, ele arregalou os olhos, deixou a boca aberta, soltou um risinho de nervoso e foi direto pro computador. Quando mencionei que uma garota da turma virou pra mim na quinta-feira e perguntou se eu já tinha notado que o cara ficava virando a cabeça pra olhar pra mim o tempo todo na sala de aula (e não, claro que eu não tinha notado. Eu faço o possível pra nunca olhar em qualquer direção em que ele esteja), o coordenador pulou da cadeira, pegou o telefone e disse:

-Estou te mudando de turma agora. Normalmente, não fazemos isso, muito menos para reunir colegas separados, mas essa situação é completamente diferente.

Pediu meus dados pra secretária, fez a alteração no sistema, me passou o número da sala nova e terminou com uma fala que eu sei que teve a melhor das intenções, mas que fez com que eu quisesse passar a noite num hotel:

-Olha, como coordenador eu não posso fazer nada fora daqui. Não acho que ele seja perigoso, mas a gente nunca pode ter certeza, e você me disse que ele mora no mesmo prédio que você. Então, vou pedir que você fique atento. Se as coisas continuarem desse jeito ou piorarem aqui na escola, venha me ver novamente. E, se isso continuar fora da escola, venha me ver também. Mesmo que eu não possa agir diretamente, posso pelo menos indicar onde você pode conseguir ajuda.


Considerações finais (pelo menos, por ora)

Então, taí meu primeiro problema pra valer em terras canadenses. O que acharam? Pra quem tava pensando que eu ia só chorar por não estar com o meu "melhor amigo", a trama se complicou, né?  Pra finalizar, algumas considerações:

1) Apesar das alusões e brincadeiras com imagens que fiz ao longo do texto, não acho que nada na situação tenha cunho sexual ou de obsessão. Como disse pro coordenador do curso, acho que o cara deve ser bastante solitário e não tem muito tato para fazer amizades. É possível que tenha algum distúrbio que o impeça de entender que certos comportamentos afastam as pessoas em vez de aproximá-las, e isso faz com que ele meta os pés pelas mãos na hora de tentar fazer amigos. E só;

2) Sei que uma das perguntas que provavelmente vai aparecer nos comentários ou por e-mail é: "de qual país ele é?". A curiosidade é natural, mas eu sinto dizer que não vou responder. Por mais que, pra muita gente, seja só mesmo curiosidade, há outras que criam e propagam estereótipos que nada têm a ver com um país ou com o restante da população. Se eu falo aqui de onde ele é, na próxima vez que alguém escutar esse país sendo mencionado em algum lugar, a primeira coisa que vão lembrar é que o cidadão esquisito é de lá. E, se a menção for de algo ruim, tá armado o circo: notícia ruim + o cara estranho de quem o Doug falou = país de gente doida. Então deixemos assim mesmo porque a nacionalidade dele não afeta nada do que relatei aqui;

3) Começo na outra turma amanhã, se o universo não inventar de bancar o engraçadinho pra cima de mim de novo. E, sim, estou muito feliz por poder passar as próximas cinco semanas com meus amigos do curso anterior, e com o quebeco em particular! Como mencionei alguns posts atrás, sei que é o tipo de amizade que dura apenas enquanto durarem as aulas. E, por isso mesmo, quero aproveitar o máximo possível a companhia deles durante as próximas semanas!

E que o meu perseguidor me esqueça!

À bientôt!

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Três meses de Canadá!

Segunda-feira passada, completei três meses de Canadá! Agora posso dar  meu testemunho de fé: realmente, passa muito rápido!





Olhando pra trás, o primeiro mês foi o mais lento. Mesmo com todas as pendengas pra resolver (tirar documentos, comprar número de celular, procurar apartamento, etc), lembro que parecia que estava levando uma eternidade para cada semana passar. E eu achando ótimo, porque o que mais queria (e ainda quero) é ter tempo para absorver as novidades. O segundo mês foi gasto com menos obrigações e mais passeios. Foi também o mês da mudança pro apê que aluguei e do início das aulas na McGill. E o terceiro mês foi gasto única e exclusivamente com essas aulas, e acho que o tempo que elas me tomaram foi o grande responsável pela sensação de vídeo acelerado.

Então, depois de três meses, estou adaptado? Acho que seria presunçoso responder "sim", mas também não posso dizer "não". Algumas coisas que eram um bicho de sete cabeças no início e faziam com que eu me sentisse o Chico Bento (como usar totens de auto-atendimento no supermercado ou não fazer ideia de pra onde a linha verde do metrô vai) já não despertam tanto receio ou estranheza. Outras, como pensar o tempo todo que meu francês precisa melhorar pra anteontem, me lembram que ainda tem muito chão pela frente.

Ainda que não esteja me sentindo totalmente "em casa", muita coisa já mudou pra melhor nesses três meses. Continuo com as minhas corridinhas três ou quatro vezes por semana; estou mais próximo de pessoas aqui do que jamais estive em sete anos de São Paulo; posso andar com geringonças tecnológicas na rua sem medo de que algum trombadinha passe correndo e leve ou que algum infeliz resolva brincar de sequestro-relâmpago comigo; também posso percorrer o mesmo caminho que uma mulher, ficando coincidentemente atrás dela o tempo todo, sem que ela ache que eu vou assaltá-la ou estuprá-la (em São Paulo, e provavelmente no resto do Brasil, bastavam 30 segundos de trajeto em comum para qualquer mulher começar a espiar por cima do ombro a cada 5 passos e ver se eu ainda estava atrás dela); tenho REALMENTE vontade de ir pra fora de casa e aproveitar meu tempo livre a céu aberto; e destravei completamente no inglês (a ponto de me assustar quando alguém me fala "bonjour" na rua).

Falando no inglês, terminei o módulo que estava cursando na McGill na sexta-feira passada. Sem dúvidas, me ajudou muuuuito!! Por mais que meu bloqueio fosse mais psicológico que linguístico, estar num ambiente de sala de aula foi de grande valia. E, de quebra, a gente sempre aprende algo novo, né? Tem sempre uma palavra nova, um phrasal verb do inferno, e até gramática que você não sabia que não dominava. Eu, por exemplo, me dei conta que nunca tinha estudado pontuação em inglês formalmente. Pontuava misturando regras do português com o que eu via em textos por aí (e até que dava certo). Mas foi bom sentar e ver como se faz o negócio direito. Além disso, conheci pessoas de vários cantos do mundo. E o mais legal desse processo é você perceber que os rótulos que você mesmo põe no início ("o cara do Irã", "a menina do Congo") vão sendo substituídos à medida que você passa a enxergar esse pessoal como gente de carne e osso como você. Então, eles passam a ser "meu colega Asghar" ou "aquela fofa da Martina". Caem as fronteiras, erguem-se as amizades, mesmo que sejam de sala de aula.

E foi tão legal esse período de aulas que realmente fiquei nostálgico no último dia. Tivemos festa de confraternização em que cada um levou um prato ou bebida típicos de seu país. Eu não cozinho (ainda), então saí na chuva e paguei caro num Guaraná Antártica, tudo pra ouvir o comentário "é bem doce" - mas faz parte, né? No fim, passei no módulo com A+, ganhei elogios mil dos professores (minha professora da tarde repetiu a frase "ainda não sei o que você está fazendo aqui" várias vezes ao longo das últimas semanas), e, contrariamente ao que todo mundo esperava, resolvi seguir adiante e fazer o último módulo. Só falta mais um mesmo, né? Ter um certificado a mais no currículo não machuca. E não é como se eu tivesse abarrotado de coisas para fazer. Embora exista a pressão interna pra dar um rumo pra vida, ainda estou tentando me manter fiel à ideia de dedicar o primeiro ano aos idiomas. Vamos ver se aguento!

E que venham os próximos meses!

À bientôt!

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O Curso de Inglês da McGill - Parte II

No post anterior, falei um pouco do meu objetivo, das expectativas e das primeiras impressões em relação ao curso de inglês que estou fazendo na McGill. Agora, vamos chamar o Jack e destrinchar em partes minha avaliação após quase quatro semanas de curso.

Nível da turma

Se você leu os posts anteriores relacionados ao curso, sabe que fiquei super feliz (embora surpreso) quando fui classificado no nível avançado, não só por constatar que meu inglês talvez não estivesse tão ruim assim, como também pela economia que eu faria. Vim pra cá pensando que talvez precisasse cursar uns quatro níveis do programa da McGill, então economizar a grana de dois módulos realmente me aliviou financeiramente.

Quando comecei na turma, achei que seria um dos alunos com nível mais macarrônico. Afinal de contas, terminando esse curso você já cumpre o requisito de idioma para ingressar na graduação, mestrado ou doutorado na McGill. Então, poxa, o que você espera? Que o nível avançado seja fodasticamente difícil e que as pessoas ali recitem Shakespeare enquanto dormem, né?

Só que não é bem assim.

Eu comentei que meus colegas de turma vêm de várias partes do mundo. Então, é claro que todos têm sotaque (inclusive eu), uns mais fáceis de entender, outros mais difíceis. Se o problema fosse o sotaque, tudo bem. Mas gente... há pessoas na minha turma que mal conseguem terminar uma frase quando abrem a boca. Não são a maioria de forma alguma, mas existem essas pessoas. A grande parte da turma começa uma frase e tem de recomeçar porque não sabe concluir. Fazem vários errinhos de concordância, tempo verbal, uso de artigos e pronúncia. Na escrita, a coisa é pior: não só erros de ortografia, mas de coerência, lógica e estrutura. Ouvi a professora da tarde perguntar pra pelo menos dois alunos se eles não se sentiriam melhor num nível mais baixo. A resposta, claro, é não. Afinal de contas, se eles foram aprovados nos níveis anteriores, por que raios teriam de regredir, não é? No meu caso e no do quebeco, por exemplo, como é a nossa primeira sessão, poderia até ter havido um erro de avaliação. Afinal, os avaliadores são humanos e eles têm, basicamente, um texto de algumas linhas  e uma conversa de, em média, 10 minutos com o aluno. Então poderiam ter cometido um engano. Mas quando o aluno já faz aula na escola há um tempo, é passado adiante e chega no nível avançado sem conseguir se expressar... difícil não achar a avaliação dos professores em sala deixa a desejar.

Fora isso, a turma é show! Nunca me imaginei dando risada com um iraniano de 40 anos (a média de idade parece estar em algum lugar ali pelos 25, 26 anos, mas tem um punhado com mais de 30), apresentando trabalho com uma vietnamita, ouvindo um pouco de história do Oriente Médio por meio de uma libanesa ou sendo comido vivo com os olhos por uma equatoriana. E, com gente com nomes como Rola, Porras e Aladin (eu juro!!!), não tem como você não dar umas risadas.

Nível das Aulas

Contrariamente ao que se poderia esperar, dado o nível da turma, o das aulas é diferente. Dá pra dizer que o módulo avançado realmente tem conteúdo avançado. Embora os professores tenham excelente dicção e falem pausadamente (o que facilita a opinião de qualquer um), eles falam sem parar. Então, se a sua compreensão não é lá muito boa, você pode se perder ou deixar de notar alguns detalhes. Já teve gente que deixou de entregar tarefas e trabalhos porque entendeu mal as datas ou não tinha entendido que era pra imprimir levar fisicamente em vez de mandar por e-mail.

Da mesma forma, não deixam passar nada na escrita. Comeu uma letra, errou o tempo verbal, trocou ripe por rape (aconteceu! Eu juro, de novo!!), pimba! Vai ter pontinho descontado. Se vai apresentar um trabalho oral e fica claro que você não domina o assunto e tem dificuldade para se expressar com as suas palavras, toma mais desconto. Há leituras com nível acadêmico para serem feitas, e trabalhos em que a escrita acadêmica é exigida. Em suma, a turma, no geral, pode estar mais no nível intermediário, mas o conteúdo do módulo realmente está mais pra avançado.


Professores

Como falei no post anterior, tenho dois professores. O professor da manhã cuida mais da parte escrita, enquanto a da tarde foca mais na parte oral. 

Eu tenho sentimentos confiantes em relação ao professor da manhã. Achei ele um tanto perdido nos primeiros dias. Não perdido no sentido de não saber o conteúdo ou como usar o projetor, mas, sim, no sentido de já estar fazendo a mesma coisa há tanto tempo que ele esquece que, pra turma, muita coisa é novidade. Então foi bem comum vê-lo começando a falar de uma coisa como se a gente já soubesse, daí ele perceber que ninguém estava acompanhando o que ele estava dizendo e aí ele se dar conta que não tinha de fato explicado nada. Isso desapareceu na segunda semana, mas foi um tanto desestimulante.

Esse professor faz o tipo sério e rígido. Dificilmente faz alguma piada e está 100% do tempo focado no conteúdo que precisa passar e no desempenho dos alunos. Ele não tem medo de chamar a atenção de um aluno individualmente ou da turma como um todo. Semana passada, chegou a dizer na lata que ele via muitos alunos ali que não tinham nível para ir para a universidade, tanto pelo nível de inglês como pelo de responsabilidade. Por outro lado, ele está sempre disponível para ajudar. Se você manda um e-mail, em geral ele responde depois de algumas horas. Se você precisa discutir algo com ele, ele marca um horário na sala dele ou abre um espaço na agenda de forma que facilite a sua vida. Ele realmente se dispõe a ajudar, mas ele segue o que parece ser o estilo norte-americano de ensino: ele passa o básico, o aluno vai atrás do resto e, se tiver dúvida, volta ao professor. Não tem essa de ficar correndo atrás do aluno e dizendo o que ele precisa fazer.

A professora da tarde é mais light em certos aspectos. A aula dela é sempre mais informal, ela faz piadas, procura estimular todo mundo a falar levantando temas polêmicos ou simplesmente pedindo a opinião. Corrige pacientemente cada erro de pronúncia, encoraja os alunos a reformular as frases ou sugere alternativas, tudo de um jeito que não tem o peso da palavra "erro". Ainda assim, experimenta chegar atrasado(a) na aula dela ou deixar de entregar um trabalho no prazo! Toda a ternura de vovó que faz bolo de fubá desaparece, e a mulher consegue fazer você se sentir cocô de mosca só com um olhar e duas ou três palavras. É de dar pena de quem está nessa situação.

Em suma, os dois são bastante competentes e responsáveis, sabem bastante sobre a língua e também como transmitir. Com uma turma em nível adequado, com certeza poderiam fazer bem mais, mas aí já não é com eles.

Volume de trabalho

Todos os dias de todas as semanas têm atividades em sala e para fazer em casa. Podem ser exercícios de vocabulário, gramática, vídeos para assistir, transcrições para fazer, leituras para fazer, parágrafos para escrever... enfim, tem de tudo. Eles ocupam um bom tempo dos horários de aula e um bom número de horas depois (varia de acordo com o dia e a semana, mas eu diria que pelo menos duas depois do curso são necessárias todos os dias para fazer tudo).

Fora isso, toda semana tem, pelo menos, um "grande" trabalho para ser entregue, com regras, prazo, notas e o pacote todo. Na primeira semana, tive que assistir o vídeo de uma palestra gravada e fazer uma resenha crítica dela. Na segunda, pude escolher uma palestra e fiz o mesmo, mas, dessa vez, em sala de aula (a primeira, mandamos por e-mail). Além disso, tive que fazer uma apresentação oral de 15 minutos sobre um tema que eu quisesse (falei sobre o Brasil, mas NÃO, não falei de samba, praias, carnaval, futebol, nem bossa nova).

Ainda na segunda semana, tive que ler um artigo escolhido pela professora e explicá-lo a um grupo de pessoas. Essa atividade foi gravada com um aparelho para a professora poder escutar fora da aula (depois, os arquivos são disponibilizados no site da McGill para os alunos escutarem e perceberam os erros indicados na ficha de avaliação). Na terceira semana, tive uma atividade semelhante: tive que ouvir um programa de rádio (sem transcrição) e contar a outro grupo de pessoas do que se tratava, tudo com as minhas palavras, e dar a minha opinião no final (tudo gravado também).

Esta semana, tive as apresentações em grupo. A primeira foi uma explicação de uma seção de gramática da língua inglesa. Fiz essa apresentação com o quebeco. A segunda foi a apresentação de uma palestra que assistimos. Eu, o quebeco e o japonês da turma tivemos que resumir as informações e apresentar nossa opinião sobre o tema da palestra e a posição do palestrante. A terceira, que foi hoje, inclusive, dizia respeito a um estilo musical (de livre escolha) e sua relação com a sociedade. Fiz com o quebeco e a vietnamita da turma e, por milagre divino, nenhum dos dois é obcecado por música - assim como eu, pra falar a verdade. Eles deixaram pra eu escolher, e então, obviamente, puxei a sardinha para o meu lado: falamos sobre trilhas sonoras de filmes e video games! Não sei ainda a opinião da professora, mas eu adorei fazer esse!

Para a semana que vem, sei que terei que gravar um podcast, mas ainda não tenho detalhes. E, para a última semana, o projetão final: uma pesquisa séria, usando artigos acadêmicos como fonte, sobre um tema de livre escolha. O trabalho deve ser todo formatado com o padrão utilizado em boa parte das universidades da América do Norte, e tem todo um procedimento a ser seguido. O objetivo é familiarizar os alunos com o tipo de trabalho que eles vão encontrar na faculdade. Ainda na última semana, esse trabalho deve apresentado oralmente para os dois professores.

É, amigo, não tem the book is on the table por aqui não!

Instalações

A unidade da McGill onde os cursos são dados são realmente um primor. Projetores e sistema de som em todas as salas, aparelhos para uso de alunos e professores (como os gravadores), laptops, mesas e cadeiras confortáveis, climatização que não deixa você passar frio ou calor, microondas para você esquentar sua marmita... enfim, toda uma gama de comodidades para tornar a sua vida mais agradável, já que, fazendo esse curso, você passa boa parte do dia lá.

Fora isso, há laboratórios de línguas que fica à disposição dos alunos. Neles, além de praticar a pronúncia e treinar os ouvidos, você pode também fazer os trabalhos que são pedidos em sala. Todos os programas necessários estão lá, e o acesso à Internet é ilimitado. Há também uma "clínica" de pronúncia, destinada aos alunos que têm dificuldade para pronunciar certos sons, e um laboratório de texto, voltado para quem tem dificuldades para escrever. Para essas duas últimas, contudo, você precisa ser "recomendado" pelos professores (ou seja, se você é escalado para essas aulas, é porque o negócio tá ruim).

Como aluno do curso de inglês você também tem acesso à biblioteca da faculdade. Nem sei quantas tardes (e noites!) já passei lá desde que o curso começou! Eles te levam pra uma sessão de orientação, de forma que você aprenda como usar a biblioteca, o que precisa fazer para pegar um livro emprestado, como fazer uma pesquisa sobre determinado assunto e outras coisas. Além disso, você também tem acesso aos sistemas da universidade. Tudo é explicado na primeira semana e você sempre tem a quem perguntar, em caso de dúvidas.

E aí, tudo isso tá te servindo de alguma coisa?

Muito! Como falei no post anterior, eu me inscrevi no curso com o objetivo de me destravar, de ganhar mais confiança e não ter medo de falar com as pessoas inglês. Eu posso dizer honestamente que, ao final da primeira semana, eu já estava todo desbloqueado (sinal de que a trava é mais psicológica que linguística). No meu segundo dia, já criei coragem para ligar para o provedor de internet e contratar o serviço. Já fui parado não sei quantas vezes para dar informação na rua e, mesmo de supetão, consegui me expressar numa boa. Já bati papo com estranhos, fiz pedido em restaurante tailandês e telefonei para central de suporte técnico. Enfim, embora eu sempre vá ser um não-nativo e sempre vá esbarrar com palavras, expressões ou gírias que nunca vi antes, posso dizer que não senti nenhuma carência em relação ao inglês nas últimas 3-4 semanas. O que não quero que seja entendido como "estou me gabando" e, sim, como "que alívio que esse bloqueio sumiu".

Enfim, embora eu não possa falar sobre os outros níveis do curso de inglês da McGill, posso dizer agora que o avançado deles realmente dá pra ser encarado como avançado. O fato da minha turma, em média, estar no nível intermediário não chega a me atrapalhar, até porque alguns ali são, de fato, alunos avançados. Enfim, como em qualquer curso, há coisas boas e ruins, e aí acho que depende mais do objetivo de cada um saber se vale mais a pena fazer um curso assim.

Se alguém tiver dúvidas sobre esse curso, pode deixar nos comentários ou me mandar por e-mail.

À bientôt!

sábado, 23 de maio de 2015

O Curso de Inglês da McGill - Parte I

Um tempo atrás, escrevi um post contando que tinha entrado no curso de inglês da Universidade McGill. Ontem terminei a terceira semana (de um total de seis) do módulo em que estou matriculado, e só não escrevi antes porque, primeiro, queria dar uma opinião com mais substância (e não dá pra fazer isso com um ou dois dias de aula); segundo, estava sem internet no apartamento e dependia das bibliotecas pra usar wi-fi; e, terceiro, os trabalhos do próprio curso deixavam pouco tempo livre pra eu usar a internet para postar.

Mas eis que surge, radiante e belo (aí, hein, pai??), a minha opinião sobre o curso que estou fazendo! Não custa lembrar que é a minha opinião, sem embasamento científico e que não constitui verdade universal, ok?

Nível

O curso da McGill está dividido em oito módulos: dois elementares, quatro intermediários e dois avançados. É preciso fazer um teste de nivelamento para que determinem o seu nível. Eu fiquei no avançado. A questão do nível avançado é que ele é composto por dois módulos (A e B), mas você pode cursá-los em qualquer ordem. O Avançado A tem uma pegada mais acadêmica, enquanto o B é mais direcionada para o lado profissional. De qualquer forma, pra conseguir o certificado de proficiência, é preciso fazer os dois módulos, independente da ordem. Eu optei por começar pelo módulo acadêmico.

Então, infelizmente não sei falar nada sobre os níveis elementares e intermediários, exceto que exigem um conhecimento básico prévio do idioma pra você entrar mesmo no primeiro nível do curso. Mas não sei exatamente o que seria esse "conhecimento básico prévio", porque... bom, acho que vai ficar mais claro ao longo da postagem.

Objetivo e motivação

Meu objetivo principal não era aprender present perfect ou as regras para se dobrar as consoantes de verbos no gerúndio ou particípio. Resolvi fazer o curso porque eu queria destravar! Se você aí, caro(a) amigo(a) leitor(a), passou os olhos pelos meu posts sobre a chegada e os primeiros dias, deve ter notado que eu mencionei como as frases vinham bonitinhas à minha cabeça, mas eu não conseguia colocar pra fora. Ansiedade, complexo de inferioridade, angústia e outros companheiros que só Freud mesmo.



E por que a McGill? Falo de novo, não tem problema. Porque é uma universidade muito bem conceituada não só no Canadá, mas em rankings internacionais. Tá certo que o curso de inglês não deve ter nada a ver com esses rankings, mas é aquela coisa de confiar mais em quem já tem fama de fazer o negócio certo. Outro ponto é que a McGill aceita o certificado desse curso como prova de competência linguística para ingresso nos cursos de graduação e pós. Ou seja, em tese o troço é tão bom que eles dão a cara a tapa e dispensam outros testes (como TOEFL e IELTS). Além disso, algumas pessoas que eu conheci aqui e que fizeram ou estão fazendo o curso lá recomendaram fortemente. Então, né, gente? Quer mais o quê? Cobertura de caramelo?

Primeiros dias

Eu estava feliz que nem pinto no lixo com a ideia de voltar para um curso, mesmo sendo de inglês, algo com que tenho contato desde a época do guaraná com rolha. Então fui que nem o Emo-Aranha pro prédio da McGill onde seriam minhas aulas.



Já lá dentro, procurando a sala, captei uma conversa de corredor em que dois colegas de curso se reencontraram. A menina disse pro cara que ela não ia estudar com ele porque tinha sido reprovada e ia refazer o nível que eles tinham cursado juntos na sessão de inverno.

"Cristo Rei", pensei, já sentindo o esfíncter dar aquela mexida, "o povo é reprovado por aqui! Não é pagou-passou!"

O que, na verdade, me deixou ainda mais feliz, mas fez eu pensar que eu provavelmente seria um dos mais Uga-Buga da turma na hora que abrisse a boca para começar a falar. Mas já tinha saído na chuva, né, então se molhar era inevitável.

Achei minha sala e sentei na primeira cadeira vaga que vi. Já havia algumas pessoas na sala, mas todo mundo concentrado no seu mundinho (o celular). Dali a um tempo, o professor chegou, se apresentou e aí fez algo super diferente e inovador: pediu pra todo mundo se apresentar e contar um pouco da sua história. Tá certo que, na verdade, ele dividiu a gente em grupos para que conversássemos entre nós e, depois, apresentássemos uma pessoa do grupo. Caí com uma francesa que não queria papo nenhum, então só consegui arrancar dela que se chamava Camille, e isso quase tendo que pagar 10 moedas de ouro canadenses pra ela abrir a boca.

Ótima deixa para eu falar do quesito "variedade cultural" da sala de aula. Somos 22 alunos no total. Há três francesas, duas venezuelanas, uma equatoriana, duas mexicanas, dois chineses, uma vietnamita, um japonês, uma congolesa, um mauriciano, um saudita, uma camaronesa, um iraniano, uma libanesa, um líbio, uma sul-coreana e um quebeco (uia!), além do brasileiro aqui. Achei isso sensacional! Me amarro em ter gente de todos os cantos, porque ajuda a desconstruir estereótipos e você passa a enxergar as pessoas não como nacionalidades, mas como... pessoas. Já no primeiro dia, me aproximei do japonês e do quebeco (ou eles se aproximaram de mim, melhor dizendo, falando que meu sotaque era britânico), e o quebeco virou meu "melhor amigo" de sala de aula. Nunca imaginei que conheceria um quebeco assim tão rápido, e muito menos que ele fosse virar meu parceirão de sala de aula. Já li tantos relatos sobre a frieza dos canadenses/quebecos que eu não estava contando com nada como o que aconteceu. Eu e ele só não falamos mais bobagem e damos mais risada porque só ficamos seis horas dentro da escola. Claro que eu sei que só vai durar enquanto estivermos no curso, mas, ainda assim, foi uma surpresa pra mim.

Mas voltando. Ainda no primeiro dia, tivemos que fazer uma pequena redação para que o professor pudesse avaliar nossa escrita. Somos avisados, no dia do teste de nivelamento, de que nosso nível pode ser alterado se o professor julgar que o aluno está mais forte ou mais fraco do que o nível em que foi classificado. Ninguém saiu dali. Conclusão lógica: todos escreveram bem. Guardem isso.

Aí veio a primeira parte das letras miúdas do curso: as tardes de segunda e sexta são para o que eles chamam de "Guided Studies", um período que, teoricamente, os alunos devem usar para tirar dúvidas com os professores, trabalhar nos projetos que são desenvolvidos, usar o laboratório de línguas, enfim, estudar e praticar por conta própria. Na prática, é uma carta de alforria pra você ir pra casa, encher a cara, fazer compras, se harmonizar com Gaia, ou o que quer que você faça quando sobram algumas horas no dia. Eu tenho sentimentos conflitantes quando a isso. Por um lado, se você é um estudante dedicado, você vai fazer bom uso disso. Os professores ficam por lá, você pode ir conversar com eles, tirar dúvidas, pedir orientação, tem biblioteca que você pode usar, enfim... os recursos estão lá. Por outro, o curso é vendido como tendo 25 horas de contato por semana com os professores. Se você desconta as tardes de segunda e sexta, isso cai pra 20 horas. Então não está lá muito certo falar em 25 horas, sendo que isso praticamente não vai acontecer. Particularmente, tendo terminado a terceira semana, eu dou graças a Deus por ter essas tardes "livres" porque às vezes fico mega-ultra-atarefado com os trabalhos do curso. Mas, ainda assim, fica aquela pontinha de que eles vendem um peixe que não é assim tão fresco.

No segundo dia, o curso começou pra valer, com leituras, exercícios, discussões e coisas do tipo. Passaram o cronograma dos trabalhos, projetos, o valor que cada um teria na nota final, explicaram sobre as páginas da intranet da McGill a que temos acesso, o que é possível fazer nelas, como enviar trabalhos pelo sistema da universidade, informações sobre a carteira de estudante da McGill, etc. A turma mais entrosada, todos conversando um pouco com todos, o povo falando que meu sotaque era legal (!)... Cada módulo tem dois professores, um que fica pela manhã e, em geral, cuida mais da parte escrita, e outro que fica à tarde, que cuida mais da compreensão e expressão orais. Como não tivemos aula à tarde na segunda por causa dos tais "Guided Studies", só conhecemos a professora da tarde na terça. Dá-lhe apresentação de novo, todo mundo falando o nome, de onde vem, porque está ali e por aí ai. Chega a minha vez, repito minha história, e o comentário que ela faz em seguida foi esse:

- Estou achando muito interessante ouvir o seu sotaque. Deixa eu adivinhar: é australiano? Sul-africano?

No que metade da turma caiu na gargalhada e a outra começou a falar: "é britânico, é britânico!". A professora quis saber de onde vinha o raio do sotaque, e eu disse que, até dois dias antes, a única coisa que eu sabia é que eu tinha sotaque brasileiro. Falei que tinha estudado inglês em diversas escolas de idiomas, algumas mais voltadas para o inglês norte-americano, outras mais para o britânico, mas que, pra mim, era o sotaque brasileiro que aparecia mais, provavelmente misturado com a salada de sotaques que ouvia em sala de aula. Ela disse que não, e que eu poderia enganar as pessoas! Eu juro que não sabia onde enfiar a cara, e o povo da turma não ajudou: começaram a me chamar de "Australian guy" e de "my lord" (mas, graças aos céus, isso só durou alguns dias).

Eita, que o post já tá comprido e eu ainda nem tô perto de acabar! Então vou parar por aqui e continuo no próximo, ok?

À bientôt!

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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Jogging (ou "corre, neguinho!")

Você vê como são as coisas, né? O cidadão aqui sempre teve alergia a esforço físico, esportes, esse tipo de coisa. Quando era criança, eu achava que eu queria ser os heróis de filme de ação, sempre correndo, pulando, dando socos e pontapés, tudo isso enquanto ganhava umas cicatrizes legais no processo. Só que, depois de um tempo, descobri que eu não nasci pra ser esse tipo de cara: meu negócio é ser o amigo nerd com o computador. Sabe aquele gordão sentado dentro de uma van com uma parafernália tecnológica, checando dados ou imagens num laptop, com um fone de ouvido com microfone embutido, passando as dicas pro herói enquanto se lambuza com pizza? Então, aquele sou eu :)

Então, foi com grande surpresa e medo de estar sendo possuído que me dei conta que eu estava sentindo vontade de... correr (ou praticar jogging, como chamam por aqui)! Pois é, vejam só! Não sei se é porque o visual aqui é tão legal (com a primavera realmente instalada, a cidade ganhou outros ares), ou se é porque sempre vejo pessoas fazendo alguma atividade física, mas o fato é que fui contaminado pela vontade de ir fazer... bem... esforço físico.


E chutei logo o pau da barraca! Alguém com juízo iria começar dando a volta no quarteirão de casa, terreno plano e tudo aquilo que torna a experiência menos traumática. Eu resolvi começar subindo o Mont Royal pra correr numa das trilhas e estradinhas que existem por lá. Só os lances de escada que subo pra chegar lá em cima deixam qualquer sedentário chorando no chão e clamando pela mãe. Quando você chega no topo, contudo, tem toda aquela sensação de realização ("consegui!) - isso, claro, até você ver que, enquanto você está com aquele meio sorriso débil na cara, algo entre um bocejo e um AVC, tem gente subindo as escadas de três em três degraus com uma bicicleta nas costas. Aí você volta a chorar e chamar a mãe.

Enfim, com o esforço de subir as escadas, eu senti que podia ser desculpado de correr. Podia descer, ir embora e pronto! Mas o negócio é que, uma vez que eu já estava lá em cima, por que não aproveitar e ver o que dá pra fazer? Então vamos lá! Tomei uns golinhos d'água, fiz umas poses de grande atleta e acionei o aplicativo que tenho no aiPode pra marcar distâncias, calorias e todos esses palavrões.

Avança a fita (óia o véio se entregando!) para o final de tudo. Não é que consegui? De acordo com o meu aplicativo, corri aproximadamente 3 Km em aproximadamente 15 minutos! Nada mal para uma batata rolante quicando pela primeira vez, né não? O mais legal foi que quase não vi o tempo passar (mentira: teve uma hora em que achei que o fim da estrada estava logo depois de uma curva. Não estava, e eu pensei que ia enfartar antes de ver a cidade novamente). Deu pra me distrair com o visual, com as pessoas passando e com os buracos no chão pelo caminho.

De lá pra cá, já fui  mais cinco vezes. Resolvi começar correndo só três vezes na semana e manter assim durante algum tempo até o meu corpo se acostumar. Sem estresse, sem aquela história de quebrar recordes, se superar ou coisas do tipo. Mas o legal é que realmente, por mais difíceis que alguns dias tenham sido, não tenho sentido vontade de parar.

Será que um novo país ou uma nova cidade realmente podem transformar a gente?

À bientôt!