domingo, 18 de outubro de 2015

E o frio já chegou!

Depois de 34 anos de verão praticamente de janeiro a janeiro, não tenho mais do que reclamar! Ontem Montreal registrou (ou o meu celular registrou) a primeira sensação térmica negativa pós-verão. Observem:




E hoje, no início da tarde, rolou a primeira neve! Tá certo que durou um minutinho e meio só, e os flocos eram beeeeeem pequenos, mas,  para fim de registros, foi a primeira depois do verão!

Se eu tô achando ruim o frio? Em algum momento no futuro pode ser que eu responda afirmativamente, mas,  por enquanto, ainda no meu primeiro ano por aqui e sujeito a pulinhos de felicidade vendo esquilos e neve, não tem como. Tô adorando sair encapotado pra rua!

À bientôt!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte III


Depois do susto da primeira aula de francês escrito, sentei e coloquei a cabeça no lugar (ou tentei, pelo menos). Cheguei à conclusão que, provavelmente, a maioria dos alunos que mandou muito bem na hora de falar talvez já more há um tempo por aqui. Afinal, o curso é aberto para qualquer um que não seja francófono nativo. Então, é bem possível que muita gente já esteja vivendo aqui há um tempo, consiga se expressar muito bem falando, mas tenha problemas para escrever. Isso é algo bem normal, em qualquer idioma. Quando parei pra pensar, me lembrei que vários brasileiros que conheço obviamente se expressam muito bem em português na hora de bater um papo; mas coloque-os para escrever e você vê o slogan "Brasil: Pátria Inducadora" em ação:


Claro que esse pensamento não resolvia o meu problema, mas me dava, ao menos, um pouco de calma. Decidi não tomar nenhuma decisão quanto à minha permanência na aula de francês escrito antes de ir pra aula de francês oral. Depois que eu sentisse o drama da coisa e, principalmente, se eu sentisse que a coisa seria tão ou mais puxada que a aula escrita, eu resolveria o que fazer.

Ainda assim, tinha a tal da análise pra fazer, né? Em algum momento do dia seguinte à aula de francês escrito, me dei conta que eu não sabia se havia um formato específico a ser seguido: precisava imprimir? Manda por e-mail? Precisa de cabeçalho? Quais informações preciso colocar, além do dever em si? Pode parecer besteira, mas aprendi na McGill uma série de coisas desse tipo que podem até fazer você perder nota, dependendo do professor. Então, como a professora não disse nada, resolvi escrever um e-mail pra ela.

Tentei ser o mais formal que pude, já que ela não foi um poço de simpatia durante a aula. Perguntei se havia um formato específico para os trabalhos da aula, onde podia obter esse tipo de informação, se precisava imprimir o trabalho ou mandar por e-mail. Ainda acrescentei que talvez as perguntas fossem muito básicas, mas era o meu primeiro trimestre, então, eu estava um tanto perdido.

Ela me respondeu no fim de semana. Ou talvez eu devesse dizer que ela tentou responder. Na verdade, ela só disse o que eu já tinha ouvido na sala: tínhamos que fazer a análise do texto "seguindo o que foi passado na aula" (embora ela não tenha dado nenhum roteiro explícito para isso, o que me fez pensar que só quem já fez análise de texto teria uma ideia do que ela provavelmente queria) e que tudo seria corrigido na aula. Nada sobre formato para os trabalhos gerais da aula, sobre se há um lugar para eu pegar essas informações, se eu devia usar o sistema para enviar o trabalho (afinal, ela falou em correção em sala, mas, até aí, ela poderia querer ver o que a gente tinha feito. Isso sem falar que ela abriu um link no sistema para envio do trabalho), nada. E aí?

Resolvi defecar pra ela. Já que não respondeu de forma clara e objetiva, eu ia fazer como me desse na telha. Mas isso me mostrou que realmente ela não é do tipo professora Helena. 


Se eu resolvesse ficar, tinha a séria impressão de que seria osso.

Entretanto, como falei, adiei a decisão para depois da aula de francês oral. Tive uma semana entre a aula escrita e a oral, e aproveitei para estudar o máximo que pude e me aconselhar com o meu colega quebeco com quem estou fazendo intercâmbio linguístico. Falei da minha impressão em relação à aula e à professora e que estava com receio da aula de francês oral ser mais ou menos do mesmo nível. E falei que não estava pronto pra expor opiniões e pensamentos lá muito complexos em francês.

—Mas você faz isso toda semana aqui comigo!—respondeu ele.

—Mas com um bilhão de erros, né?—retruquei.

Em suma, ele falou pra eu relaxar. Que talvez a aula de francês escrito não tenha sido uma boa primeira impressão, mas que eu iria ganhando confiança ao longo do trimestre e logo estaria tudo bem. Concordei em relação à parte de "ganhar confiança", mas tinha minhas dúvidas quanto ao "tudo bem".

Enfim, chegou a segunda-feira seguinte e lá fui eu pra aula de francês oral. Mesmo ritual: saí mais cedo de casa, peguei três metrôs, cheguei no prédio da Faculté de L'éducation Permanente e fui consultar o quadro com a listagem e classificação. Eu sabia que era impossível eu estar num nível alto dada a tragédia que foi a minha entrevista, então nem estava tão preocupado, no fim. Como tinha ficado no Avançado 1 no francês escrita, com certeza tinha ficado no Intermediário Qualquer Coisa no francês oral. Procurei meu nome na lista. Achei. Nível de francês oral: Avançado 2.


Que @!#$@*&! é essa???? Quem deixa esses avaliadores da Universidade de Montreal beberem antes de entrevistar os alunos??? Não tem ninguém comandando essa bagaça desse universo, não?? Ou é o Darkseid que tá pilotando essa !@$&*#&@????

Quase, quase, QUASE fui falar com a coordenadora do curso, que estava ali perto orientando os perdidos. Pensei em chegar lá e falar "onde é que você deixou seu juízo, minha senhora?", mas é óbvio que eu tinha primeiro que assistir à aula pra poder falar isso de forma tão... direta.

Achei a sala bem rápido e sentei lá no fundão. Ah, queria nem saber! Não estava nem aí de onde eram os outros alunos, se a sala era grande, pequena, oval, se a cor da parede combinava com a lousa ou se tinha tomadas para eu carregar o celular (mas tinha). Estava pensando é que, como aquecimento, era bem possível que a professora pedisse pra gente recitar de cor nossa passagem favorita de Molière ou Victor Hugo e explicar o contexto histórico da joça toda sem esquecer nenhuma liaison. Ah, inferno!

Quando a professora entrou e deu "bonsoir!", eu já quase levantei a mão e disse "protesto!". Mas aí notei que ela, pelo menos, tinha cumprimentado—coisa que a outra, de francês escrito, não tinha se dignado a fazer. Então esperei. E fiz bem! A professora não só se apresentou, perguntou o nome de cada um, fez um joguinho pra tentar adivinhar de onde todo mundo era e explicou como seriam as aulas, como também perguntou se havia pessoas novas no programa, gente que nunca havia estudado na UdeM. Passou uma lista para os novatos colocarem o nome e, em seguida, começou a aula.

De cara, foi bem mais rápido fazer uma pré-avaliação da turma. Afinal, como é uma aula de francês oral, todo mundo tem que falar, néam? Então eu relaxei um pouco mais, pois vi que tem gente de todos os níveis, mais ou menos como no curso de inglês da McGill, que também era avançado. As europeias da sala (duas alemãs, uma finlandesa e uma austríaca) tem um nível muito, muito bom. Algo que eu realmente classificaria como "avançado". Já eu, um espanhol, um iraniano, uma mexicana e um búlgaro temos um nível que eu diria ser intermediário. O restante (umas cinco ou seis pessoas, incluindo um outro brasileiro) tem um nível mais no limite entre básico e intermediário. Claro que isso tudo é muito subjetivo: a minha escala particular, como ficou óbvio, não bate em nada com a da UdeM, e provavelmente não bate com o do Quadro Comum Europeu, e nem com a sua classificação pessoal, caro(a) leitor(a). Mas é só pra dar uma ideia de que, embora a turma seja "Avançado 2", tem gente em todos os níveis de aprendizado.

A professora—francesa, o que acabou com as minhas esperanças de escutar o sotaque quebeco mais assiduamente neste trimestre—foi um anjo de candura. Deixou todo mundo tranquilo em relação ao acompanhamento das aulas, trabalhos e provas, mas disse que o importante é falar. Falar entre nós, falar com ela (professora), participar em sala. Falou pra evitarmos as línguas maternas (e lançou um olharzinho todo especial pra mim e pro outro brasileiro, e também para as alemãs e a austríaca, embora tenha ignorado os de fala hispânica) e finalizou dizendo que não existe aula que ensine ninguém a falar: ela dá as ferramentas pros alunos utilizarem e, em seguida, é com eles.

Resultado: saí de lá beeeeeeeeem mais tranquilo. Não que tenha me parecido fácil; meu problema maior é falar, então qualquer aula já seria um tanto complicada, principalmente por causa da minha ansiedade. Mas, pelo menos, não me senti tão atrás de todo mundo como aconteceu na aula anterior. Senti que realmente consigo fazer o que preciso fazer, por mais que isso exija de mim. Enfim, senti que talvez tenha ficado no nível certo, por mais que discorde do tal "avançado". E, como a professora disse, agora é comigo.

Com base nisso, resolvi que iria dar a cara a tapa e iria continuar na aula de francês escrito. Se eu tivesse que mostrar meu francês uga-buga, paciência. Fora meu orgulho, o dano seria mínimo, já que não posso ser avaliado pelo meu francês oral na aula de francês escrito, certo? Então, pronto.

Isso tudo aconteceu na primeira semana entre as duas aulas, entre 08 e 14 de setembro. Tô só um pouquinho atrasado hehehe. Mas, como as aulas, em si, são só aulas, não preciso ficar relatando tudo o que acontece, claro. Então no próximo post (ou talvez nos próximos) eu vou fazer um apanhado de como foram as coisas até agora. Sim, porque até prova nas duas aulas eu já fiz.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte II

Se você não leu a parte I, clique aqui!

Dia 08 de setembro chegou, e lá fui eu de metrô para a Universidade de Montreal. Eu imaginava que o curso e a experiência seriam bem diferentes da McGill, então só faltava descobrir o quanto. E esse foi o primeiro ponto: pra McGill, eu ia à pé; pra Universidade de Montreal, preciso pegar três metrôs. Levo, em geral, uma meia hora pra chegar lá. Em dias tensos, uns quarenta minutos. Nada de mais, na minha opinião, mas a parte ruim é ter que acrescentar na brincadeira (e no orçamento) mais uma despesa: transporte público.

Quando cheguei ao prédio da universidade, o térreo estava fervilhando de estudantes. Os responsáveis pelo curso colocaram um quadro com a listagem dos alunos por sobrenome e a classificação obtida, juntamente com o número da sala. Tive que esperar um pouquinho porque chegava gente de todo lado e, embora a maioria meio que formasse uma fila imaginária, alguns vinham comendo pelas beiradas e tumultuavam o meio de campo. Quando finalmente me vi cara a cara com a lista, procurei e achei meu nome. Nível de francês escrito: Avançado 1.



Tudo bem, eu tenho consciência de que escrevo melhor do que falo, mas... avançado?? "Bom", pensei, quando o estado de choque começou a ceder, "pelo menos é Avançado 1. Quantos serão? De repente, pode ser que eu consiga ficar bom de verdade na escrita até o fim de todos os avançados".





Fast forward pro futuro: depois da aula, e nos dias que se sucederam, descobri que havia só Avançado 1 e 2. Depois de vários #comassim? na minha cabeça, fiquei sabendo sobre a reestruturação do curso. Os avançados desapareceram, e agora têm nomes high society, tipo, Escrita e estilo. Criaram mais alguns também, específicos para vida universitária e redação científica. Rewind pro primeiro dia de aula. 




Fui atrás da sala, subindo as escadas apinhadas de gente. Quando cheguei no andar certo e achei o corredor, por algum motivo, que ainda não sei explicar, me lembrei do CEUB (Centro de Ensino Unificado de Brasília, uma faculdade particular). Talvez tenha sido a modernidade e claridade do local, que contrasta e muito com, por exemplo, a UnB, onde estudei. A impressão geral foi positiva, exceto pelo tanto de gente zanzando pra lá e pra cá. Isso me fez lembrar mais da escola do que da universidade.

Entrei timidamente na sala, que é bem ampla, com mesas longas dispostas em três filas. Cada mesa comporta de três a cinco alunos. A sala é no estilo auditório: as mesas mais afastadas do quadro são elevadas, de modo que o professor fica "embaixo" e os alunos do fundão ficam "em cima". Não havia um número grande de pessoas na sala quando entrei. Arrumei um lugar mais ou menos no centro, sentei, tentei relaxar (claro que não consegui) e esperei. Tinha chegado quinze minutos antes, então fiquei só mesmo observando os outros alunos chegando.

Juro que, quando a professora chegou, não achei que fosse professora. Primeiro, porque ela não disse nada. Nem "boa noite", nem "oi", nem "vai pro inferno", nada. Segundo, porque ela começou a tirar cabos da mochila e daí achei que era alguma funcionária que tinha ido checar se o projetor estava funcionando ou preparar algum equipamento. Quando ela começou a tirar papéis da mochila e espalhar sobre a mesa, aí caiu a ficha de que era a professora. Achei super estranho. "Vai ver", pensou o inocente, "ela só vai levantar os olhos e cumprimentar quando der a hora".

Mas não. Quando deu a hora, ela foi até o quadro, escreveu o e-mail dela, colocou no quadro o plano de aula e começou a falar sobre provas e trabalhos. Assim, sem cumprimentar, sem perguntar se todo mundo estava ali pra aula de francês escrito, se tinha algum novato na turma, coisas que até eu, quando dei aula de inglês na Wizard aos 19 anos, fazia. O jeito de falar da professora era semi-automático, característico de alguém que (1) já leciona a mesma coisa há muito tempo ou (2) descobriu, em algum momento, que detesta ensinar, mas não sabe o que fazer pra sair dali, então leva com a barriga. Como primeira impressão das aulas, foi frustrante.

Conforme ela seguiu com a aula, alguns alunos se animaram a participar. Com horror e lágrimas, constatei que o nível de francês oral da galera que abriu a boca era infinitamente superior ao meu. Gotas de suor de desenho japonês brotavam aos montes, principalmente quando a professora começou a pedir sugestões aos alunos. "Odin", pensei, "se ela virar pra mim e me mandar abrir a boca, todo mundo vai achar que está diante do Capitão Caverna".


A aula estava sendo sobre análise de texto (!), como identificar certos elementos no parágrafo introdutório, como um texto argumentativo é desenvolvido e por aí vai. Metade do meu cérebro estava prestando atenção e mandando minha mão fazer anotações como se a vida dependesse disso, enquanto a outra metade ficava lançando perguntas do tipo "quem mandou se meter a ir pra faculdade tão cedo?", "por que você não fez um cursinho básico de revisão antes de se meter à besta?" e coisas do tipo, coisas que nem eu, nem a outra metade do cérebro tínhamos condições de responder naquele momento. Ao longo da aula, ficou claro pra mim que o jeito da professora era o tipo (1) acima: ela já dá aquela aula há um bom tempo e passa o conteúdo aos alunos como se eles já soubessem do que se trata. Quando a aula acabou, sem que eu tivesse aberto a boca nem pra pedir pra ir ao banheiro, eu estava um turbilhão de sensações: a professora dominava o conteúdo (ponto positivo), mas era extremamente antipática (ponto negativo) e passava o conteúdo como se a gente tivesse tratado sobre o assunto ontem (ponto negativo duplo). A turma parecia bastante diversificada (ponto positivo), mas todo mundo que abriu a boca tinha francês nível Juliette Binoche (ponto negativo, dado o meu transtorno de ansiedade)—inclusive, uma menina com traços asiáticos fala francês com sotaque quebeco im-pe-cá-vel—, embora eu tivesse esperança que os outros fossem mais uga-buga como eu (ponto meio positivo). No final, tenso pelo jeito da professora e pelo medo de ter que abrir a boca pra falar, achei que ia dar pra relaxar. Mas aí ela passou o dever de casa: analisar dois textos, um do Voltaire (!!) e outro do La Bruyère (!!!) para a aula seguinte. Ah, e dois alunos seriam escolhidos para apresentar a análise.

Em algum lugar, eu sabia que Cersei Lannister estava sorrindo e tomando vinho, esperando eu ser decapitado.



Juro como voltei pra casa bastante preocupado e—por que não?— frustrado. Embora uma aula com aquele nível de exigência sem dúvida pudesse trazer muita coisa boa em termos de conhecimento, eu fiquei me perguntando se a minha redaçãozinha no dia do teste de nivelamento tinha sido tão boa assim pra o pessoal da Universidade de Montreal achar que eu tenho condições de analisar textos de Voltaire e fazer explanações orais sobre o assunto. Parte de mim queria procurar o formulário de desistência do curso assim que saí da sala, mas outra parte ficava me oferecendo água com açúcar e dizendo "calma, vai passar. Foi só o choque inicial, deixa pra tomar qualquer decisão depois". Achei essa parte de mim mais razoável, então tomei o metrô de volta e tentei relaxar. Mas foi difícil.

No caminho, lembrei de ter lido várias vezes sobre o nível de exigência das faculdades daqui comparadas às do Brasil. "Deve ser isso", pensei, "taí a tal exigência", embora eu também pensasse que o certificado, apesar de tudo, ainda é um curso de idioma. Sem ainda entender direito o que tinha acontecido, fiz a única coisa que achei sensata: revisei as minhas notas e fui começar a procurar material na Internet sobre o que tínhamos visto em sala. Se eu fosse continuar no curso, era bom preparar a minha possível apresentação de análise. Aff...

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Certificado de Francês da Universidade de Montreal - Parte I

Como mencionei nas postagens anteriores, meu curso na Universidade de Montreal já começou. Estou fazendo o Certificat en Français Langue Seconde (que, a partir da sessão de inverno, ganhará um sobrenome: agora vai ser Certificat en Français Langue Seconde: Culture, Études et Travail). Terei que cumprir 30 créditos, atingir certos níveis e ter uma nota geral média pré-determinada para pode clamar o diploma no final.

Ou seja: agora é que o negócio ficou sério!

Diferente do curso de inglês da McGill (que eu fiz basicamente pra destravar a língua), o curso de francês é mais que necessário pra mim. Meu francês ainda é muito básico, na minha opinião, e, embora eu consiga me virar muito bem aqui usando esse basicão, não vai muito além disso: me virar. Eu sei que tem muita gente pra quem o importante é se comunicar, e eu concordo que, na maior parte dos casos, é isso mesmo. Se você for para o hospital porque está sentindo dor na lombar, o importante é dizer que dói, onde dói e o quanto dói. Se o complément object direct vai vir antes do primeiro verbo ou se ele vai alterar a grafia do segundo não tem a menor relevância quando você está tentando sentar como a véia d'A Praça é Nossa.  




Dito isso, eu, particularmente, acho que é importante falar certo. Ou, pelo menos, tentar o máximo possível. Acho que terei mais dificuldade para seguir determinadas profissões e assumir determinados cargos se o idioma não estiver bom. Querendo ou não, as pessoas julgam. Juntamente com a aparência física e a indumentária, acredito que o modo de falar e uso da linguagem estão no top 5 das coisas avaliadas inconscientemente por quem encontro por aí. E isso contribui para um conceito e avaliação prévios do que pode ser que você seja. Mas, se isso ainda não fosse razão pra mim, tem o simples fato de que eu quero realmente dominar o francês.

Só que, pra isso, vou ter que ralar. Acabou a moleza.

Teste de Nivelamento

Como em qualquer custo, tive que me submeter a um teste de nivelamento. Ele foi aplicado no final de agosto. Tive que ir em duas noites diferentes pra fazê-lo, já que, seguindo o que minha conselheira falou, optei por pegar uma disciplina de francês oral e outra de francês escrito, e não dá pra fazer mais de um teste por noite. A Faculté de l'Éducation Permanente, que é quem coordena o curso do certificado dentro da Universidade de Montreal, disponibiliza três noites para os testes. Então, se você não pode ir no primeiro dia, por exemplo, ainda tem duas chances.

Não tive que me inscrever ou coisa do tipo. No dia (ou melhor, na noite), simplesmente cheguei lá antes da hora e procurei a sala onde o teste seria aplicado. Eu também podia escolher entre o teste oral e o escrito. Como falar pra mim é sempre o pior em qualquer idioma (ansiedade, traumas de infância, etc, etc, etc), resolvi fazer logo esse. Na entrada da sala, passei por uma rápida identificação por documento (eu, todo feliz, mostrei a minha carteira da Assurance Maladie. Como é bom parecer cidadão!), me sentei e aguardei.

Uns quinze minutos depois do horário marcado, a coordenadora do curso foi para a frente da sala e passou algumas orientações. Deixou claro que não ficaríamos sabendo o resultado no dia, explicou algumas regras da universidade e pediu para que preenchêssemos um pequeno formulário e também indicássemos o nível de francês que acreditávamos ter naquele momento. Havia seis opções, a primeira sendo o nível mais baixo ("sei falar 'Bonjour' ou nem isso") e a sexta, o mais alto ("posso explicar a Teoria da Relatividade de um só fôlego com sotaque de Marselha"). Por muito pouco não marquei a segunda opção, que era algo do tipo "sei que existem COD e COI, mas não sei pra que servem", mas achei que estava pegando muito pesado comigo mesmo (o que acontece só de vez em sempre). Então marquei a opção três e rezei para que isso realmente não tivesse influência no teste.

Terminada essa parte, formamos uma fila para receber um número de sala, sala essa na qual faríamos a prova que era "só" uma entrevista com um avaliador. Depois que peguei minha ficha com o número, fui procurar a sala e, claro, já havia uma outra fila enorme lá. Pelo que entendi, dividiram as pessoas em oito salas, e os avaliadores tinham níveis também: alguns estavam mais acostumados a trabalhar com alunos iniciantes, outros com alunos intermediários e outros ainda com alunos avançados. Calculei que a minha sala teria, então, um avaliador "intermediário", já que eu tinha marcado a opção correspondente. Se acertei ou não no meu cálculo, provavelmente nunca saberei.

Esperei, esperei e esperei. Quando finalmente chegou minha vez, a entrevistadora pediu para eu ajudá-la a passar umas cadeiras para pessoas que ainda estavam aguardando do lado de fora e já começou a perguntar meu nome, de onde eu vinha e o que eu fazia. Fui respondendo enquanto passava as cadeiras e, entre fechar a porta e me sentar, terminei de responder as perguntas de que lembrava. Surpreendentemente, a frase seguinte dela foi:

—Mas você tem uma pronúncia ótima! Você estudou na Aliança Francesa?

Fiquei em choque e travei. Daí lembrei de agradecer. E só então expliquei que havia estudado lá, sim, mas que havia pego a base numa outra escola, chamada IFESP, em São Paulo. Ela parabenizou de novo e veio com outras perguntas: há quanto tempo eu estava em Montreal, quais eram os meus planos, se eu queria fazer um curso superior na Universidade de Montreal... pediu pra eu comparar Brasília e Montreal, pra eu relatar como foi a minha chegada aqui, o que fiz no primeiro diz, como me senti, o que espero do curso. Enfim, as perguntas eram todas feitas de forma casual, mas, claro, visando ver até onde eu conseguia ir. Eu acho que comecei até bem, mas acho que dei muita importância pro elogio que ela fez no início e acabei me desconcentrando. Daí todas as minhas falhas e inseguranças em relação ao idioma apareceram. Tanto que, após o elogio, ela olhava pra mim com cara e sorriso de quem estava se encontrando com o Dalai Lama; mas, no final, a cara dela era de alguém que tinha visto alguma cena com o cigano Igor.


Ela terminou dizendo que já tinha tudo de que precisava e que eu saberia o resultado no primeiro dia de aulas. Falou pra eu chegar mais cedo porque pode ser meio complicado encontrar a sala, principalmente pra quem está estudando na universidade pela primeira vez. Agradeci e fui embora, com a sensação de que tinha tomado 7 a 1 da Alemanha.

No caminho, pensei melhor e achei que tinha sido uma coisa boa: melhor ficar num nível mais baixo e poder começar o meu percurso revisando conceitos básicos e ir incorporando-os gradualmente ao meu dia a dia do que ser colocado em um nível avançado e depois ficar uga-bugando dentro da sala. Esse pensamento me deixou em paz.

No dia (ou noite) seguinte, lá tomei o caminho da roça de novo para a universidade, desta vez para fazer o teste escrito. Nesse dia, mudaram de última hora o local do teste e lá fui eu procurar um daqueles pavilhões perdidos no campus. Levei uns 10 ou 15 minutos para achar o pavilhão e a sala, mas depois foi tranquilo. Não houve identificação no início: cada um que chegava era solicitado a sentar em uma das mesas que tinham papéis. Uma meia hora depois do horário marcado (provavelmente por causa da mudança de local), a responsável pela prova explicou as regras e o teste, de forma bem parecida com o dia anterior. Basicamente, era só uma redação, cujo tema estaria no alto da página com um pequeno parágrafo para nos dar uma direção. Eu achei que haveria uma parte gramatical mais específica, mas não. Enfim, a redação era sobre tecnologia e, pra mim, foi bem mais tranquilo. Sem a trava de ter que falar, escrevi de forma tão fluida que até me espantei. No final, quando entreguei o teste, fiz a identificação e, de novo, fui informado de que o resultado estaria disponível no primeiro dia de aulas, num listão que colariam na parede.

E foi isso, pelo menos de início. Dali, eu teria que esperar quase duas semanas até o início das aulas. A de francês escrito começaria no dia 08 de setembro e a de francês oral, no dia 14. Estava curioso a respeito do resultado do teste, claro, mas, como não tinha o que fazer, só me restava curtir as últimas semanas de "férias".

No próximo post, falo da aula de francês escrito.

À bientôt!

Clique aqui para ler a parte II!

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Preparação para o curso de francês

Como mencionei antes, depois do curso da McGill eu resolvi tirar férias de algumas coisas. Com tanto tempo livre de repente, quis aproveitar para explorar um pouco e relaxar. Mas uma coisa que intensifiquei nesse período, por mais contraditório que possa parecer, foi o estudo do francês.

Já falei mais de uma vez aqui no blogue que aprender idiomas, pra mim, não é nada parecido com obrigação ou tédio. Eu realmente curto muito! Pode ser gramática e pode ser difícil (oi, russo, tudo bem?), posso desanimar em algum momento (oi, alemão, como vai?), mas a vontade de aprender nunca vai embora de vez.

Então, quando me vi com mais tempo livre, o primeiro pensamento foi: "vou alocar mais tempo para o francês". Não só porque o curso da Universidade de Montreal já começaria agora em setembro, mas porque tô em Montreal, né, gente? Não pretendo me meter em discussão sobre heranças, história, rusgas, patriotismo, soberanismo e outras coisas, mas quero falar inglês quando falarem inglês comigo e quero falar francês quando vierem fazendo biquinho. E pronto. Esse é o meu motivo principal. Não tem nada a ver com lei 101, com mercado de trabalho ou com meu círculo mais próximo de conhecidos aqui. Tem a ver só com o fato de eu gostar de aprender idiomas. Se falassem inglês como primeira língua aqui e húngaro como segunda, podem ter certeza que eu iria aprender húngaro.

Mas tá, acho que passei a ideia, né? Enfim, durante o curso da McGill, meu estudo de francês se resumia, basicamente, a ouvir podcasts (principalmente da Radio Canada e da RFI) e fazer exercícios voltados para a gramática quando não tinha algum trabalho do curso de inglês no pé (o que era raro). A prática oral estava praticamente zerada: só aquele papinho básico de loja/supermercado e pronto. A única oportunidade real de falar francês seria com meu amigo de turma quebeco, mas estávamos na McGill aprendendo inglês, então seria muito fura-zóio da minha parte ficar tentando bater papo com ele em francês, procede?

Quando as aulas acabaram, porém, engatei a primeira e fui atacar de todos os lados que podia ou que me sentia à vontade para atacar. E aqui vai a receita que segui:

Podcasts: já falei deles em outro post. Há zilhões de possibilidades e temas para todos os gostos. O que fiz foi aumentar o tempo que passava ouvindo. O bom é que você pode estar fazendo alguma outa coisa e ouvindo ao mesmo tempo. Eu, por exemplo, escuto pelo menos uma hora quando vou correr. O problema dos podcasts que escuto é que eles são mais jornalísticos e, portanto, têm locutores ou entrevistadores que, em geral, não têm um sotaque lá muito carregado. Mesmo entre os entrevistados é difícil ouvir um com o sotaque mais puxado do Quebec. Aí, eu entendo uma boa parte do que é dito na reportagem, mas é só a caixa do supermercado com o sotaque mais pesado que eu já ouvi falar que o presunto que eu peguei está sem a etiqueta de preço e que é pra eu ir até a parte dos frios e pedir para colocarem que pronto... "zzzzkkkzkzk presunto zzkzkkkkzkkzkz preço zzzkkkkkzkzk vai lá zkkzkzkzkzkkz". A minha resposta, claro, é: "Pardon?"

Gramática e exercícios: eu sei que a maioria foge como o diabo da cruz, e que um monte de métodos de escolas de línguas afirmam que você "aprende falando", "sem gramática". A verdade é que a gramática está lá, sim, escondida, mas está. E, em algum momento, qualquer método acaba explicando o básico do básico em termos gramaticais. Eu tenho a sorte de gostar de estudar gramática; adoro saber porque tenho que por a terminação X no verbo Y e qual a preposição que vai combinar com o conjunto. Na minha experiência, saber isso só ajuda, e me faz evoluir mais rápido. Depois de um tempo, já nem lembro das regras, pois a coisa fica automática. Enfim, para me ajudar nisso, eu usei dois livros da série Practice Makes Perfect. Eu já conhecia a série pelos livros de alemão e resolvi comprar um de francês, o Complete French Grammar.




O outro, French Sentence Builder, peguei emprestado na biblioteca pra ver como era. Ambos têm explicações breves e fáceis de seguir, com exemplos bem claros. Aí, depois das explicações, dá-lhe exercício. Eu absorvo muita coisa fazendo exercícios, então, pra mim, é uma ótima pedida. Os livros da série são do tipo para quem quer fazer uma revisão. Eles podem não ser minuciosos nas explicações aqui e ali, mas te dão o necessário para praticar nos exercícios. Ah, e eles têm respostas no fim do livro, o que, pra mim, é obrigatório.

Leitura: nada como ter bibliotecas com um bom acervo e espalhadas por todo lado pra me fazer deixar de gastar com livros. Sério, no Brasil, toda vez que eu queria ler um livro, eu tinha que ir comprá-lo. A quantidade e a qualidade das bibliotecas do país deixam a desejar, e isso não é segredo pra ninguém. Aqui, contudo, a coisa muda de figura. Eu nem vou chover no molhado de descrever—de novo!—como me sinto feliz como pinto no lixo toda vez que vou à Grande Bibliothèque aqui de Montreal. O que é importante é que lá eu tenho milhares de opções de livros em inglês e em francês (e outras línguas!) pra aprimorar o vocabulário. Em geral, estou sempre lendo um livro em inglês e uma coletânea de gibis em francês (é que o medo de encarar Camus ou Victor Hugo no original no nível em que estou é grande, gente!). 

Para os zuvido : Além dos podcasts, comecei recentemente a assistir vídeos da Rádio Canada e da TV5 nos quais legendas são disponibilizadas. Eu gosto de assistir os vídeos e escarafunchar tudo, procurar palavras no dicionário, repetir trechos em voz alta quando a sonoridade me chama a atenção, coisas de nerd. Então, se o vídeo não tem legendas para eu poder pegar as palavras ou expressões que não entendo, eu acabo revendo só uma vez ou nem isso. Com as legendas, daí sim: assisto sem legendas, depois vejo com legendas, aí procuro as palavras, daí escuto de novo, vejo onde é que estão engolindo letras ou sílabas inteiras e por aí vai. Outra coisa que comecei a fazer foi pegar DVDs de filmes na biblioteca. Em geral, eles têm dublagem e legendas em francês. Achei que ia rolar de rir assistindo Batman Begins (que, por aqui, é Batman: Le Commencement) com biquinho, mas não, rapaz... Fiquei surpreso com a qualidade da dublagem. E ainda decorei umas falas: se eu for dar porrada em alguém no futuro, antes vou soltar um "T'es pas le diable... t'es mon sac d'entraînement".




E pra falar...: bom, não tem pra onde correr, né? Você pode até ficar falando sozinho (eu faço isso às vezes; depois do meu stalker, é melhor que meus vizinhos achem que eu sou doido), mas o bom mesmo é poder interagir com alguém, ser corrigido, ter alguém rindo da sua cara quando você pronuncia alguma coisa errada e tal. Uma opção são professores particulares. Aqui você encontra a rodo, seja para aulas presenciais ou pela internet. Mas eu não queria gastar mais do que já gasto aqui (com dólar a 4 moedas de ouro dilmenses, quem quer?), e também queria que a coisa fosse mais informal. Solução: me inscrevi num sem número de sites para conhecer pessoas interessadas em intercâmbio linguístico-cultural (nome chique pro "disk amizade" do século XXI) e procurei. Deu trabalho,  mas encontrei um quebeco interessado em aprender português e que disse que me ajudaria com o francês. E já estamos há  mais de um mês nos encontrando uma vez por semana para tomar um café e bater papo, uma hora em português, uma hora em francês. Tem sido bem legal, e eu adoraria ter mais pessoas com quem fazer isso. Mas tem que ir com calma nesse negócio de encontrar gente "da net": nem todo mundo tá interessado realmente em intercâmbio linguístico-cultural, néam?




E é isso. Não sei se essa é a receita do sucesso porque ainda estou no caminho, mas pelo menos estou fazendo alguma coisa. Sou da opinião de que não existe método de ensino/aprendizagem perfeito: o melhor é fazer o que mais te motiva, mas sempre tendo em mente que é preciso se esforçar e correr atrás. E também estar atento ao que te faz render.

No próximo post vou tentar falar sobre a Universidade de Montreal. Três semanas de aula já dá pro gasto e pra ter uma opinião inicial :P

À bientôt!

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Seis meses de Canadá!




Quando acordei no dia 14 de março deste ano, não consegui de forma alguma me sentir bem. Não bastasse a saborosa apreensão natural de uma situação tão "banal" como mudar de país, ainda tinha a deliciosa cobertura extra de apreensão e angústia que eu sempre coloco em qualquer coisa que faço, mais a tristeza da separação da família, tudo por apenas um Real a mais. Era o dia da mudança, o dia da virada na vida, o dia que marcava o recomeço, mas eu não conseguiria sentir nada disso naquele 14 de março. Meu pensamento se dividia entre a tristeza por deixar minha família (de novo), um pouco de culpa por deixá-los tristes com uma nova partida minha, e as variantes para perguntas como "será que estou MESMO com todos os documentos de que vou precisar?".

O 15 de março chegou um pouco mais leve. Apesar de todo o perrengue de chega-numa-cidade-muda-de-avião-vai-pra-outra até aportar de vez em Montreal, o luto do dia anterior já se fazia mais discreto. Depois de encontrar meu amigo no aeroporto da cidade e ir pra casa dele (e, principalmente, depois de tomar um banho, comer e bater papo), comecei a olhar pra frente com mais otimismo e curiosidade.

Roda a fita pra seis meses depois, 15 de setembro de 2015. Seis meses de Canadá! Seis meses de Quebec! Seis meses de Montreal! Quanta coisa já mudou, quanta coisa continua a mesma, quanta coisa ainda acontecendo e por acontecer! Mudei de endereço (da casa do meu amigo para a "minha" quitinete alugada), de marca de computador (entrei pra ver qualé a dessa coisa de AiMéqui), de forma (um tanto esférica, quando cheguei, para algo mais retangular, depois que comecei a correr), de universidade (da McGill para a Universidade de Montreal, agora) e de idiomas (o tempo todo). A saudade da família continua, firme e forte, presente todos os dias, assim como continuam várias inseguranças e ignorâncias a respeito da nova cidade, da província escolhida, do país que parece ser dois. Aconteceu que descobri que sou fascinado por corvos, que meu inglês não é tão capenga quanto eu imaginava, que meu francês ainda vai chegar lá, que também tem stalker no Canadá; aconteceu também que fiz amizades com professores que se ofereceram até pra me dar carta de recomendação, com quebecos da gema que eu achava que só conheceria daqui a um booooooom tempo; está acontecendo de eu frequentar uma biblioteca de verdade pela primeira vez na vida, de morrer de vergonha toda vez que alguém me pergunta alguma coisa em francês na rua, de descobrir um lugar novo toda vez que saio de casa, de não cansar de ver os esquilos em duelos de fúria peluda nas árvores, de confirmar que eu e o Sol/calor/verão temos diferenças irreconciliáveis. Ainda está por acontecer o primeiro emprego, a fluência no francês, a decisão sobre os estudos, e toda uma lista de coisas que só aumenta a cada novo passo dado.

Com seis meses apenas, dá pra eu fazer um apanhado geral ou dar conselhos? Acho que ainda é cedo. Muito cedo. Por mais que eu já tenha tido o meu quinhão de experiências aqui, ainda me sinto muito cru para tirar conclusões ou traçar paralelos em demasia. Se tô gostando? Sim, e muito! Se acho que fiz a coisa certa? Quando penso no que eu estaria fazendo no Brasil, sem dúvida que me parece a coisa mais certa do mundo! Se dá vontade de voltar? Posso dizer que dá vontade — e muita! — de trazer os meus pra cá, ainda mais com as dificuldades que o Brasilzão velho de guerra está enfrentando agora. Se tenho receios? Sim, e muitos! Não estou bebendo champanhe e arrotando poutine só porque estou no Canadá. Dar um rumo pra vida é preciso, e isso dá origem a vários receios. Ao mesmo tempo, a oportunidade de poder começar de novo é muito, muito, muito estimulante!

Ah, um conselho eu acho que posso dar para quem ainda vai vir: trace seus planos, estude os idiomas, se prepare; mas, sobretudo, não se engane. A preparação não vai ser suficiente, não importa o quanto você se esforce, calcule ou imagine. Tem coisas que a gente só descobre e entende mesmo quando as vive. Então, não esqueça de tirar um tempo para relaxar e curtir o seu tempo aí no Brasil, com os seus.

À bientôt!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Le Retour [vers le Futur]

Dei uma sumida básica em agosto, né? Mas, com o fim das aulas da McGill, eu resolvi tirar férias de algumas coisas, dentre elas, do blogue. Não que eu não tivesse coisas pra falar escrever, mas achei que era melhor tentar equilibrar um pouco estudos, tempo livre e exploração depois de três meses de curso intensivo de inglês.

Pois bem, sobre os estudos eu vou comentar em outro post, até porque minhas aulas na Universidade de Montreal começaram essa semana. Então talvez eu faça uma postagem só. Ou não. Tenho ascendente em Gêmeos, gente (segundo me disseram).

Então, nestas postagem de rentrée, vou só comentar algumas coisas que fiz por aqui nesse tempo sumido.

Churrascos diversos

Quem gosta de comer uma carninha pode ficar tranquilo quando vier para Montreal. Tem churrasco pra todo lado, todo fim de semana. Mas se você imaginou churrasco brasileiro, melhor baixar um pouco as expectativas. Eles existem, sim. A lenda de que não se encontra corte brasileiro de carne caiu por terra há um bom tempo, então isso já facilita. Especialistas em churrasco dizem que as churrasqueiras de tijolos, comuns no Brasil, fazem toda uma diferença na textura e sabor do resultado final, e pá, e um, e pode ser que eles tenham razão. Fato é, este que vos escreve esteve presente em churrascos brasileiros e canadenses, e o resultado depende mesmo de alguns fatores (e do seu gosto, claro). Eu passei fome em um dos churrascos brasileiros que fui e me senti num Burger King num dos churrascos canadenses. Em outra ocasião, comi um churrasco brasileiro muito bom (e isso sem churrasqueira de tijolinhos) e experimentei cortes de carne e preparo bem diferentes (e muito bons) num outro churrasco canadense. Enfim, até isso tem variedade pra ser explorada em Montreal.


Lojas paras Nerds

Isso era algo que eu já queria fazer há algum tempo, mas só consegui depois do curso da McGill: um passeiozinho de descoberta por algumas lojas nerds aqui de Montreal. Fui com meu amigo quebeco (que é nerd enrustido) explorar lojas na rua Saint-Denis. Vimos de tudo: cartas de Magic: The Gathering (reinou na minha adolescência), bonequinhos (também chamados de action figures por quem tem vergonha), camisetas e acessórios temáticos, jogos de vídeo game, quebra-cabeças, gibis (inclusive encadernados, em inglês e francês), miniaturas, jogos de tabuleiro e mais uma pá de coisas. Confesso que achei que veria bem mais variedade, mas já dá pro nerd aqui se divertir um pouco.

E teve rombo na carteira, ó:

Boné e caneca novos!

Gostei, mas fica pra próxima.




Retour vers le Futur... à Laval!

E eis que estou um dia assistindo um anúncio no YouTube (coisa que quase nunca faço) quando o troço termina com um "lembrete" de que haveria uma exibição pública e gratuita de "De Volta para o Futuro" em Laval, em comemoração aos 30 anos do filme. Pulei da cadeira e tive um trabalhinho pra descobrir onde era o lugar (porque eu não estava lá prestando atenção no vídeo até o tal lembrete aparecer), mas finalmente achei: o Centropolis em Laval. Não satisfeito com a celebração feita lá em Brasília no início do ano, resolvi que ia nessa também! É nerd ou quer mais?

Tentei convocar algumas vítimas pessoas amigas pra ir comigo, mas todo mundo (tipo, as três pra quem mandei o convite) recusou. Também, em cima da hora, tendo que sair da cidade, e pra ver um filme que todo mundo com 30 anos ou mais já assistiu pelo menos dez vezes, só sendo nerd mesmo, né? Então fui sozinho mesmo. E, em retrospecto, acho que foi melhor assim. Peguei o metrô até Laval (minha primeira vez lá), fui andando da estação até o Centropolis no meu ritmo, parando e vendo o que queria pelo caminho, sem pressão externa. Tá certo que não posso dizer que conheci a cidade, porque só fui mesmo por causa do filme, mas fiquei com vontade de dar uma explorada em outra oportunidade.

A área do Centropolis estava meio que decorada com temática dos anos 50, que, para informação dos civis e pagãos que não assistiram o filme, é a época em que se passa a maior parte da ação do filme. Tinha bastante gente, e até... (pausa dramática) o DeLorean!!!!

Olha ele aí!

Os hoverboards da gangue do Biff Jr.

Doc Brown depois de atacar a geladeira...

...e o Marty depois da Guerra do Anel.




Foi uma noite bem nerd, com o pessoal batendo palma em certos momentos do filme, e até o clima colaborou: quando a tempestade estava chegando em Hill Valley, as nuvens começaram a se juntar em Laval e o vento a soprar, mas foi só pra dar clima mesmo, pois não choveu. Voltei pra casa tarde, mas feliz da vida!


Andanças pela cidade

De vez em quando, eu também tirava um tempo só pra dar umas voltas pela cidade. Eu nunca fui muito longe, não, pra não precisar gastar com metrô e também pra não interferir na minha rotina de estudos e leitura. Mas, com o fim das aulas e sem ter uma vida social lá muito ativa, só assim pra poder lembrar que tem outros seres humanos no mundo. Então houve dias em que fui a livrarias, outros em que fui a shoppings ou ruas de comércio, mas o que eu mais fiz mesmo foi aproveitar as áreas verdes da cidade.




Os parques aqui são uma maravilha, e eu sou frequentador assíduo do Mont Royal. A única coisa que pesa contra é que realmente eu e o sol não nos damos bem. Morri de calor do fim de junho até agora, suando igual batata na chaleira toda vez que colocava o pé pra fora de casa, e isso me tirou o ânimo pra ir a alguns dos acontecimentos e festivais mais badalados daqui. Sério, calor me tira de circulação. Ainda assim, tento seguir o que falam: é bom aproveitar porque daqui a pouco são sete meses sem ele.

À bientôt!